"Victoria" de Knut Hamsun
É sempre bom quando um livro, apesar de veementemente recomendado, se revela uma excelente surpresa. A base da história desta obra é velha como o mundo: um rapaz pobre, uma rapariga rica, um amor impossível. Contudo, nada em “Victoria” nos remete para os mais estafados lugares comuns dos romances de amor. A escrita de Hamsun é soberba, contendo muitas passagens de rara beleza que apreciei imenso, mas o que me encantou foi a capacidade do autor para transmitir ao leitor emoções fortes de uma forma muito contida, quase como que sussurrada, mas extremamente eficaz. A frieza das personagens é apenas aparente; sob semblantes quase sempre impassíveis escondem-se verdadeiros turbilhões emocionais que moldam toda a narrativa. Percebe-se também uma grande ligação à natureza, ao esplendor rigoroso da natureza nórdica, veiculada sobretudo por Johann. O próprio amor é-nos apresentado em sintonia perfeita com a Natureza, como sendo inerente à existência, ainda que não correspondido ou impossível de ser vivido em toda a sua plenitude.
Infelizmente estas minhas frases soltas são incapazes de reflectir a beleza e o encanto contidos neste pequeno romance. É melhor ler “Victoria” e deixar-se também enlevar pela escrita brilhante de Knut Hamsun.
“ Mas o que era o amor? Um vento que sussurra entre as rosas? Não, uma fosforescência amarelada no sangue. O amor era uma música de um fervor infernal que pode fazer dançar o coração dos velhos. Era como a margarida que se abre totalmente com o aproximar da noite, era como uma anémona que se fecha ao mais ténue sopro e morre quando é tocada.
O amor era isso.
Podia destruir um homem, reerguê-lo para o destruir de novo. Podia amar-me a mim hoje, a ti amanhã e a ele à noite, de tal modo era inconstante. Mas também podia permanecer solidamente intacto, como um selo de lacre inviolável e podia arder inextinguível até à hora da morte porque era eterno. O que era então o amor?”
“Joahannes pousa a caneta e encosta-se na cadeira. Está bem, ponto final. Aqui está o livro, todas estas folhas escritas, fruto de nove meses de trabalho. Percorre-o uma sensação de cálida satisfação. Finalmente a sua obra está terminada. E enquanto olha para a janela, através da qual o dia começa a despontar, os seus pensamentos continuam a fervilhar: a sua alma continua a trabalhar. Está cheio de emoção, o seu cérebro é como um jardim intacto e selvagem, de onde exalam os vapores da terra.”

