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Roda Dos Livros

Apontamentos de leitura - III - Liane Moriarty

Ana CB, 25.09.25

O começo da minha “relação” com os livros de Liane Moriarty não foi dos mais auspiciosos. Terá sido há uns três ou quatro anos, e o livro foi “Nove Perfeitos Desconhecidos”. Deixou-me tão pouco entusiasmada que sobre ele apenas escrevinhei um apontamento tão sucinto quanto desprendido: “Razoável, sem ser nada de especial. Um bocado confuso e a atirar para o guião cinematográfico”.

Mantive o meu desinteresse por esta escritora até há alguns meses meses, quando a Sónia Maia falou do “Pequenas Grandes Mentiras”, com grande entusiasmo, numa das nossas Rodas. Decidi dar uma nova oportunidade a Liane Moriarty, e ainda bem que o fiz. Achei o livro super original, com um enredo bem desenvolvido que me agarrou logo desde as primeiras páginas, e li-o quase de uma assentada. E a esse seguiram-se vários outros. Estou sinceramente fã. É verdade que usa uma técnica semelhante em todos eles – começa pelo acontecimento marcante, intrigante, e depois vai andando para trás e para a frente até que o mistério é finalmente desvendado – mas consegue encontrar um tema central diferente para cada um. Os enredos misturam relações familiares, questões sociais e personagens cheias de inquietações pessoais (por vezes algo cliché) ou “fora da caixa”, situações caricatas, e uma dose de humor q.b. Pode haver quem ache que são histórias leves, pese embora todo o conteúdo misterioso, quase “policial”, que sempre têm. Mas se olharmos para toda a panóplia de temáticas actuais que abordam, percebemos que não é bem assim. Os temas importantes podem ser eficazmente abordados sem ser preciso usar pinças e gravitas.

 

PEQUENAS GRANDES MENTIRAS

Bertrand.pt - Pequenas Grandes Mentiras

 

Pode um livro tratar de temas sérios com ironia e algum humor? Pode, e este livro é a prova. O pano de fundo é uma escola primária numa localidade australiana, à volta da qual gravitam famílias com histórias variadas. Conflitos familiares e geracionais, guerrinhas sociais, e sobretudo violência não revelada, escondida por vergonha. A narração parte de um acontecimento que se percebe ser grave e depois recua para períodos anteriores com a finalidade de nos mostrar os antecedentes do sucedido. Em cada capítulo há também apontamentos soltos – por vezes com um humor subliminar – de vários intervenientes secundários. A forma como a história é narrada prende-nos até ao fim. A escrita é fluida e muito competente, e consegue convocar imagens na nossa imaginação. Excelente.

 

O SEGREDO DO MEU MARIDO

Bertrand.pt - O Segredo do Meu Marido

 

Duas histórias paralelas à volta de duas mulheres, que em comum têm pouco mais do que a localidade onde estão a viver e o facto de verem a sua vida repentinamente virada do avesso, mas ambas com decisões difíceis para tomar. Como seria se um determinado acontecimento não tivesse ocorrido? Quais as consequências das nossas por vezes impulsivas acções? Até que ponto nos conhecemos? Um ambiente de cidade pequena onde as personagens principais têm de lidar com os seus sentimentos de culpa, cada uma fazendo-o à sua maneira. Crime e expiação. Fazemos as coisas pelos outros, ou isso é uma desculpa para o nosso próprio egoísmo? A autora consegue gerir com mão de mestre uma teia de personagens e acontecimentos interligados, onde o humor escapa por entre os fios da tragédia. Um final mais suave do que esperava, mas aceitável. Muito bom.

 

A QUALQUER MOMENTO

Bertrand.pt - A Qualquer Momento

 

Uma senhora levanta-se do seu lugar, numa viagem de avião, e dirige-se a cada passageiro, dizendo-lhe a idade em que irá morrer e de que maneira. Quem é ela? O que a levou a esse estranho comportamento, de que mais tarde não se recorda? E como reagir às suas previsões? O tema da morte e do que faríamos se soubéssemos quanto tempo nos resta de vida é tratado neste livro de forma magistral. A história da Senhora da Morte (como passa a ser apelidada) é contada alternando com as de várias outras pessoas que iam naquele avião. Cada uma destas pessoas tem as suas próprias características, comuns ou menos comuns, as suas inseguranças – e através delas a autora toca em inúmeras questões da vida e da sociedade nos dias de hoje, num estilo de escrita rápido e fluente a que já nos habituou, cheio de pormenores e imaginação. Será que as nossas vidas estão predestinadas, ou existe realmente livre arbítrio? Até que ponto as nossas opções condicionam o nosso futuro? Coincidências são só coincidências? Como sobreviver à morte de um ente querido? Há neste livro (que li quase compulsivamente) um cocktail de dúvidas que todos nós nos colocamos, nem que seja só uma vez na vida. Excelente.

 

QUEM SAI AOS SEUS

Bertrand.pt - Quem Sai aos Seus

 

O efeito que traumas de infância podem ter nas vidas não só das crianças e no seu futuro, mas no de todos quantos estão à sua volta e com quem elas se cruzam. A necessidade e dificuldade em corresponder às expectativas dos outros, e o que isso pode desencadear. O desaparecimento de uma mãe de família, depois de um período em que essa família se viu posta em causa, levanta questões em que os filhos nunca ousaram pensar, revelando o melhor e o pior das suas personalidades. Será que mesmo as famílias aparentemente mais felizes também podem ser disfuncionais? Será que podemos ser ao mesmo tempo boas e más pessoas? E conseguirá o amor sobrepor-se às mágoas? Como é habitual, a autora consegue abordar uma variedade de questões sociais – com espírito crítico e certeiro, e onde não falta uma chamada de atenção para o peso das obrigações que as mulheres continuam a carregar, e da incompreensão de que são alvo – num enredo cheio de mistérios, que navega (como também é hábito nas suas tramas) para trás e para a frente no tempo, até que toda a verdade seja revelada. Muito bom.

 

Apontamentos de leitura – II – Emily St. John Mandel

Ana CB, 20.08.25

 

O primeiro livro que li de Emily St. John Mandel, há cerca de um ano, foi “Estação Onze”. Gostei da escrita e da história, e ficou imediatamente na minha lista de autoras a seguir de perto. Os seus dois livros mais recentes encheram-me ainda mais as medidas, confirmando a minha impressão inicial. Está definitivamente incluída no grupo das minhas escritoras favoritas.

 

ESTAÇÃO ONZE

Estação Onze - 1

 

As relações humanas antes e depois de uma pandemia apocalíptica. A arte como necessária à sobrevivência. Um tema ousado e bem desenvolvido. Escrita fluida e motivadora. O enredo anda para trás e para a frente, estabelecendo aos poucos uma teia de relações entre as personagens principais. Nada está ali por acaso, e não há facilitismos no enredo. Muito bom.

 

O HOTEL DE VIDRO

O Hotel de Vidro - 1

 

Uma história circular sobre várias pessoas envolvidas e/ou afectadas por um esquema Ponzi (inspirado no caso de Bernard Madoff). Um leque de personalidades que se cruzam, cada uma com as suas motivações e angústias. Os acasos que levam a mudanças radicais de vida, ou por vezes a tragédia. As fragilidades humanas. Uma escrita limpa mas cheia de subtilezas, que projecta imagens na nossa mente, sem ser vulgar nem cansativa. Muito bom.

 

MAR DA TRANQUILIDADE

Mar da Tranquilidade - 1

 

Excelente. Uma história tecida de viagens no tempo e interrogações: somos reais ou apenas uma simulação, num mundo virtual gerido por um software? E isso terá de facto alguma importância para nós? Se viajássemos no tempo, seríamos capazes de resistir a não o alterar? O enredo é-nos dado aos pedaços, que são sendo unidos pouco a pouco por uma linha condutora, e o fim consegue surpreender. Tem em comum com “Estação Onze” a ideia de errância, de história que é um patchwork, de inevitabilidade – a interligação entre as personagens explora a perspectiva de que nada acontece por acaso. Curiosamente, numa espécie de spin-off de “O Hotel de Vidro”, envolve algumas personagens secundárias deste livro. Contudo, o pano de fundo da história é completamente diferente, pese embora tudo gire sempre à volta dos sentimentos que nos tornam realmente humanos. Entre estes três livros da autora, é o meu preferido.

 

Apontamentos de leitura - I - “O Pacto da Água”, Abraham Verghese

Ana CB, 13.08.25

 

O PACTO DA ÁGUA

Abraham Verghese

O Pacto da Água

 

Histórias em volta de uma família, e suas ramificações, no sul da Índia (Kerala) entre o final da 1ª Guerra e o final dos anos 70.

Medicina (o autor é médico), arte, culinária, as castas e questões sociais, tradições – tudo se entrelaça para criar uma narrativa fluida e maravilhosa, cheia de sensibilidade e ao mesmo tempo crua, com personagens inesquecíveis e sempre muito humanas, mesmo quando têm um toque de irrealismo. Destinos terríveis, coincidências (ou não), redenção e muito amor.

Uma escrita belíssima, com reflexões e pormenores que me fizeram ter vontade de ir conhecer a região.

Um livro excepcional, incluído sem reticências na lista dos melhores livros que já li até hoje.