As três mortes de Lucas Andrade, de Henrique Raposo

E não há outra forma de começar: ele nasceu três vezes. Compreendê-lo passa por testemunhar os dois rebatismos que se seguiram ao batismo original. Ele começou na qualidade de João Miguel Correia Azul, rapaz acanhado de uma aldeia serrana. Aos onze anos, a vida obrigou-o a renascer na pele de Ruço, puto do infame Janeirinho, um dos morros que cerca Lisboa a norte e oeste. Aos vinte e poucos anos, renasceu de novo e de livre vontade. Ele próprio orquestrou o seu terceiro e mediático parto que deu origem a Lucas Andrade, pseudónimo que lhe deu a mais improvável das parcerias: fé e fama literária. Visto que é redentor e carrasco em simultâneo, Lucas Andrade tem mesmo de ficar para depois. Esta história só pode começar no dia que ateou o longo estertor de João Miguel, o dia do êxodo.
Por vezes só queremos ler uma estória bem contada. E esta é dessas estórias bem contadas. Dei por mim à procura do Janeirinho, esse bairro mal-afamado, num morro alto com vista privilegiada por Lisboa. Dei por mim à procura de notícias sobre acontecimentos relatados neste livro para comprovar que não eram realidade. Mas enquanto mergulhei nestas páginas acreditei em cada palavra e era capaz de jurar que o Janeirinho existia e que até já lá tinha passado.
Estou no público-alvo desde livro. Com a idade certa nada ali me é desconhecido. Bem, quase nada me é totalmente desconhecido. Tendo passado a adolescência bem longe de Lisboa, nada do que o Ruço passou me é familiar, mas também não é completamente distante. Digamos que ao ler consigo perceber que não me aconteceu, mas poderia bem ter acontecido, até porque reconheci muita gente, muitas situações. Reconheci dinâmicas, mentalidades. Reconheci-me mesmo que pela diferença, pura sorte. Não faço ideia como as gerações mais jovens lerão este livro, mas será de uma forma muito diferente da forma como eu o li.
Escrevo este texto semanas depois de ter acabado o livro – e durante este tempo duvidei que me apetecesse escrever o que quer que fosse sobre ele – e alguns dias após os tumultos que se seguiram à morte de Odair Moniz às mãos da polícia. E é impossível não associar as duas coisas. Os bairros suburbanos de Lisboa são também uma personagem (e das mais importantes) deste livro, com uma influência decisiva na vida de todos quantos lá vivem.
Se eu apenas pudesse escolher um tema para explicar este livro, diria que é sobre a forma como as nossas circunstâncias nos moldam, como os outros e o que nos rodeia são fundamentais na construção do que somos. João Miguel é definido por Eduarda, a avó seca, fria e disciplinadora; por Romão, o pai trabalhador e espírito inabalável que não o consegue defender, por Augusta a mãe coragem que lhe exige aquilo que desejaria para si: ele tem que ser médico. Ruço é moldado pelo Bairro, por David, Beta e Joana, pelo medo e por uma professora, La Selette. Lucas Andrade é a soma disto tudo com Lisboa, com Arrakis e sempre, sempre com Judite, a avó emprestada, a ouvinte, a bússola moral, o porto de abrigo de um menino que ninguém vê como deve ver, ninguém aceita.
Se o ponto forte deste livro é a forma como rapidamente nos identificamos com personagens, lugares, como facilmente sentimos os cheiros e o medo e como aquela estória passa a ser um bocadinho nossa, o ponto fraco é a amalgama de temas que aqui estão enfiados. Pode isto acontecer a uma só pessoa? Sim, claro. Pode uma vida inteira caber em 700 páginas? Não, nem por isso. A sensação que tive é que o escritor tinha matéria para 10 volumes, mas teve que condensar tudo num e só se lembrou disso no último quarto do livro.
Várias são as relações e personagens que me interessaram neste livro. Comecemos com David. Aquele que partilha livros com Ruço, que escreve nas páginas dos livros, que Ruço admira pela força, pela coragem pela inteligência. Aquele com quem Ruço se compara, uma e outra vez. Aquele que, pelo simples facto de existir condiciona e molda a vida de Ruço e quem ele se tem que livrar antes de se tornar Lucas Andrade.
A Francesa. Talvez a única personagem que me fez rir neste livro. E sofrer. Enfim.
Beta, a feia e doce Beta. Conheci várias pessoas assim, pessoas decentes, bondosas, mas que nunca conseguiam ser boas e decentes consigo mesma. Raio de mania de se considerarem pouco merecedoras.
Ah e claro, Judite. Mãe, avó, pilar de toda uma comunidade. Acolhe sem julgar, ajuda sem perguntar. Matriarca. Não perdoo ao Henrique Raposo o que lhe fez. Foi o típico caso de “a sério que precisavas também de introduzir este tema?”. Não perdoo, pronto, está dito.
A relação de João Miguel com os outros é fundamental. Os homens, que o rebaixam porque é diferente, as mulheres que lhe permitem a proximidade por causa dessa diferença. E talvez seja aqui que a minha experiência mais me afasta da deste livro. Nunca vi senão respeito pela inteligência dos livros. Reconheço o gozo mas não o repúdio pela escola quando alguém era bom aluno (especialmente vindo dos mais velhos). Ainda por cima nos meninos. Eles podiam tão mais que elas (elas tinham que cuidar da casa, dos velhos, do marido, não precisavam de escola) mas admito que houvesse muitos casos assim.
Este é um daqueles livros que tem em si muitas discussões, que merece ser discutido abertamente, que ganha nessa partilha.
Judite, Januário, Joaquim, Beta, Maria João — homens e mulheres a tentar manter a decência no meio da merda, no meio de pratos vazios e punhos cerrados; rapazes e raparigas que eram a própria estrutura do mundo. Tudo à volta respirava desalento e desenrascanço no meio da miséria e da violência; tudo em redor funcionava como se o apocalipse estivesse marcado para as seis da tarde, mas eles resistiam.


























