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Roda Dos Livros

As três mortes de Lucas Andrade, de Henrique Raposo

Roda Dos Livros, 04.11.24

E não há outra forma de começar: ele nasceu três vezes. Compreendê-lo passa por testemunhar os dois rebatismos que se seguiram ao batismo original. Ele começou na qualidade de João Miguel Correia Azul, rapaz acanhado de uma aldeia serrana. Aos onze anos, a vida obrigou-o a renascer na pele de Ruço, puto do infame Janeirinho, um dos morros que cerca Lisboa a norte e oeste. Aos vinte e poucos anos, renasceu de novo e de livre vontade. Ele próprio orquestrou o seu terceiro e mediático parto que deu origem a Lucas Andrade, pseudónimo que lhe deu a mais improvável das parcerias: fé e fama literária. Visto que é redentor e carrasco em simultâneo, Lucas Andrade tem mesmo de ficar para depois. Esta história só pode começar no dia que ateou o longo estertor de João Miguel, o dia do êxodo.

Por vezes só queremos ler uma estória bem contada. E esta é dessas estórias bem contadas. Dei por mim à procura do Janeirinho, esse bairro mal-afamado, num morro alto com vista privilegiada por Lisboa. Dei por mim à procura de notícias sobre acontecimentos relatados neste livro para comprovar que não eram realidade. Mas enquanto mergulhei nestas páginas acreditei em cada palavra e era capaz de jurar que o Janeirinho existia e que até já lá tinha passado.

Estou no público-alvo desde livro. Com a idade certa nada ali me é desconhecido. Bem, quase nada me é totalmente desconhecido. Tendo passado a adolescência bem longe de Lisboa, nada do que o Ruço passou me é familiar, mas também não é completamente distante. Digamos que ao ler consigo perceber que não me aconteceu, mas poderia bem ter acontecido, até porque reconheci muita gente, muitas situações. Reconheci dinâmicas, mentalidades. Reconheci-me mesmo que pela diferença, pura sorte. Não faço ideia como as gerações mais jovens lerão este livro, mas será de uma forma muito diferente da forma como eu o li.

Escrevo este texto semanas depois de ter acabado o livro – e durante este tempo duvidei que me apetecesse escrever o que quer que fosse sobre ele – e alguns dias após os tumultos que se seguiram à morte de Odair Moniz às mãos da polícia. E é impossível não associar as duas coisas. Os bairros suburbanos de Lisboa são também uma personagem (e das mais importantes) deste livro, com uma influência decisiva na vida de todos quantos lá vivem.

Se eu apenas pudesse escolher um tema para explicar este livro, diria que é sobre a forma como as nossas circunstâncias nos moldam, como os outros e o que nos rodeia são fundamentais na construção do que somos. João Miguel é definido por Eduarda, a avó seca, fria e disciplinadora; por Romão, o pai trabalhador e espírito inabalável que não o consegue defender, por Augusta a mãe coragem que lhe exige aquilo que desejaria para si: ele tem que ser médico. Ruço é moldado pelo Bairro, por David, Beta e Joana, pelo medo e por uma professora, La Selette. Lucas Andrade é a soma disto tudo com Lisboa, com Arrakis e sempre, sempre com Judite, a avó emprestada, a ouvinte, a bússola moral, o porto de abrigo de um menino que ninguém vê como deve ver, ninguém aceita.

Se o ponto forte deste livro é a forma como rapidamente nos identificamos com personagens, lugares, como facilmente sentimos os cheiros e o medo e como aquela estória passa a ser um bocadinho nossa, o ponto fraco é a amalgama de temas que aqui estão enfiados. Pode isto acontecer a uma só pessoa? Sim, claro. Pode uma vida inteira caber em 700 páginas? Não, nem por isso. A sensação que tive é que o escritor tinha matéria para 10 volumes, mas teve que condensar tudo num e só se lembrou disso no último quarto do livro.

Várias são as relações e personagens que me interessaram neste livro. Comecemos com David. Aquele que partilha livros com Ruço, que escreve nas páginas dos livros, que Ruço admira pela força, pela coragem pela inteligência. Aquele com quem Ruço se compara, uma e outra vez. Aquele que, pelo simples facto de existir condiciona e molda a vida de Ruço e quem ele se tem que livrar antes de se tornar Lucas Andrade.

A Francesa. Talvez a única personagem que me fez rir neste livro. E sofrer. Enfim.

Beta, a feia e doce Beta. Conheci várias pessoas assim, pessoas decentes, bondosas, mas que nunca conseguiam ser boas e decentes consigo mesma. Raio de mania de se considerarem pouco merecedoras.

Ah e claro, Judite. Mãe, avó, pilar de toda uma comunidade. Acolhe sem julgar, ajuda sem perguntar. Matriarca. Não perdoo ao Henrique Raposo o que lhe fez. Foi o típico caso de “a sério que precisavas também de introduzir este tema?”. Não perdoo, pronto, está dito.

A relação de João Miguel com os outros é fundamental. Os homens, que o rebaixam porque é diferente, as mulheres que lhe permitem a proximidade por causa dessa diferença. E talvez seja aqui que a minha experiência mais me afasta da deste livro. Nunca vi senão respeito pela inteligência dos livros. Reconheço o gozo mas não o repúdio pela escola quando alguém era bom aluno (especialmente vindo dos mais velhos). Ainda por cima nos meninos. Eles podiam tão mais que elas (elas tinham que cuidar da casa, dos velhos, do marido, não precisavam de escola) mas admito que houvesse muitos casos assim.

Este é um daqueles livros que tem em si muitas discussões, que merece ser discutido abertamente, que ganha nessa partilha.

Judite, Januário, Joaquim, Beta, Maria João — homens e mulheres a tentar manter a decência no meio da merda, no meio de pratos vazios e punhos cerrados; rapazes e raparigas que eram a própria estrutura do mundo. Tudo à volta respirava desalento e desenrascanço no meio da miséria e da violência; tudo em redor funcionava como se o apocalipse estivesse marcado para as seis da tarde, mas eles resistiam.

Encontro de Outubro

Roda Dos Livros, 28.10.24

E tão bom que ele foi.

Bom mesmo! Tão bom que ninguém deu pelo tempo passar e nem precisou se distrair com fotografias 😉 E foi tão verdade que a hora de reunir a pilha apanhou-nos de surpresa e é mesmo a única foto de mais encontro à Roda dos Livros. E é pena, senão iam ver as nossas bonitas canecas, os chás, as bolachas e todas essas gulodices que marcam - definitivamente - a entrada no Outono. 🍂🍁 😉

Portanto, decididos os sabores do chás e os lugares de cada uma (há sempre umas mais encaloradas e uma certa brisa para quem gosta do ruído lá fora) e recebida uma convidada, a Sónia, foi tempo de começar a partilhar. Partilhar as não-recomendações, entenda-se. É que os «não gosto» e os "acabados na força da raiva" (Obrigada, Elisa! Adorei a expressão) andam a ganhar terreno. É que isto de insistir e dar hipóteses para ver se a história vira ou "terminei só para poder falar mal" tem ganho adeptas e podíamos até compor um baralho ou fazer um jogo de dardos. E que risota ia ser!

Sendo assim, saltando a pilha inexistente - mas já estivemos mais longe de fazer uma pilha também para as não-recomendações (sem nomear e depois vocês que adivinhem) - vamos à pilha que interessa, embora saibamos que isto das recomendações tem muito que se lhe diga, pois na Roda vamos rápido do amor ao ódio. Se há uma que diz que adorou é bem capaz de existirem logo duas a abanar a cabeça e a atropelarem-se entre factos e argumentos para reclamar: "como é que és capaz?"

Verdade, verdadinha, nós gostamos mesmo é de uma discussão mais acesa e de falar de livros, todos os livros e todos os temas que vão dar aos livros e que dos livros saem, por isso, aqui fica a pilha de sugestões deste mês.

 

A convidada, a Sónia, trouxe «O da Joana» de Valério Romão, um autor que há muito que não estava em destaque, mas é bem capaz de voltar a estar com esta redescoberta da série «Paternidades falhadas». Recomendou também "As Malditas" (que a Vera também aprovou).

A Elisa regressou e com ela veio «Caderno de memórias coloniais» e uma das suas favoritas, Irene Némirovsky, desta vez com «O vinho da solidão».

A Vera esteve de recomendadora de serviço (quem manda faltar) e encheu-nos o colo de sugestões, são elas: "Caviar com sardinhas", "Salvo o meu coração tudo está bem", "A Forasteira" e ainda "A guardiã" (mas menos recomendada). Dos autores de cá do nosso cantinho, salientou o mais recente trabalho de David Machado e Possidónio Cachapa. Ainda assim, a sua sugestão recaiu em "O livro das despedidas" de Velbor Colic, um nome até agora desconhecido.

A Delgado trouxe duas sugestões de peso, embora por razões totalmente díspares, um pela crueza da escrita e a brutalidade do tema, "A zona interdita" de Mary Borden e o outro por ser de uma autora acarinhada na Roda, a caríssima Du Murier que com "O outro eu" arrebatou completamente a atenção da Delgado que se atrasou nos últimos dias por estar agarrada aquela dupla identidade. ;)

Em transcendências também andou a Renata com a escrita de Yaa Gyasi e até estabeleceu algumas comparações entre o livro e os tempos actuais com a leitura de algumas passagens.

Com outras passagens andou entretida a Isa revendo partes de um futuro possível nas palavras de Kjersti Annesdatter Skomsvold com o seu "Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou", ainda assim escolheu «A cor do hibisco» de Chimamanda Ngozi Adichie que reúne o consenso das Rodistas.

A Cristiana (eu!) acabei - como bem disse a Elisa - "na força da raiva" «As Herdeiras» de Aixia de La Cruz e recomendo a leitura só para debatermos umas ideias sobre um par de coisas, porque a sugestão mesmo é o novo livro d'A Biblioterapeuta «Ler para viver» que ainda deu lugar a algum debate ou não fosse a farmácia literária de cada um ser melhor que a do vizinho 😉

E como tem de existir sempre um e-coiso, coube à Patrícia recomendar «As três mortes de Lucas Andrade», livro que anda a dar que falar nas últimas rodas. Também na força da raiva a Patrícia terminou «O outro vale» e não há muito mais a dizer.

E sabem que mais, o final do ano está quase aí à porta e não tarda temos a sala inundada de bolos!

 

«A Malnascida» de Beatrice Salvioni - Opinião

Roda Dos Livros, 08.10.24

O livro «A Malnascida» de Beatrice Salvioni relata “uma daquelas histórias passadas de boca em boca entre as mães que descansam à sombra, tagarelando ao ritmo do abanar dos leques. Uma daquelas histórias que se alimentam de palavras emprestadas, sussurradas às escondidas.”

Pronunciar o nome de Maddalena, A Malnascida era pior que revistar os escrínios alheios. Pronunciar o seu nome era chamar a má sorte. A pequena era pior que feitiço ou mau olhado, olhá-la era pedir para sentir o hálito quente da morte. Nas suas brincadeiras junto ao rio, entre rapazes, trazia o diabo no corpo, entranhado na sujidade que a caracterizava, mas isso não era motivo para Francesca a repudiar, antes pelo contrário. Nem que fosse por desafio à mãe e vontade de pertencer a algo mais que laçarotes e rendas imaculadas de ir à igreja.

“Esbarrar uns nos outros e dar murros, esfregar os joelhos no fundo limoso e sentir a lama negra que se enfiava entre os dedos e se colava os cabelos fez de mim um ser de carne. Era feita de pele e sangue, nódoas negras e ossos. E ângulos e gritos. Estava viva. Com os Malnascidos, podia dizer pela primeira vez “Estou aqui», sentindo todo o peso dessa afirmação.”

Se a base deste romance é o crescimento de cada uma delas e desta amizade, o pano de fundo é uma Itália à beira da guerra com a Etiópia e Mussolini e ecoar em todas as rádios. Os homens a partilhem para a guerra e as mães destas duas meninas com preocupações muito opostas, personificando mais do que as classes sociais que representam, elas revelam os papéis da mulher nas suas mais variadas interpretações quando educam, seja por dedicação e proximidade, seja por alheamento e opressão.

A Itália está cheia de fendas e as famílias também. Cheias de arestas e cicatrizes. Embora a agenda política do fascismo e a das manifestações anti-italianidade sejam importantes neste romance, eu preferi a familiaridade das casas, da frutaria, a praça e o rio ou o cheiro dos guisados e do lodo… É esse lado, quase de intimidade a cada cena que mais me cativou neste livro.

“- Não devias tê-la feito descer connosco ao Lambro. Não devias. (…)

- Eu Não queria - justificou-se. - Foi ele, eu não queria.

- Vão magoar-se. Talvez caiam e os ossos vos saiam pelos joelhos. Ou talvez os ratos do rio vos comam os dedos dos pés. Ou saltem o portão e os picos de ferro vos entrem na barriga.

Avançou para Matteo. Ele recuava.

- É só uma mulherzita? (…)

- És um miúdo invejoso - disse Madalena, continuando a aproximar-se.

Ele desviou-se. Foi então que lançou um grito. Um grito agudíssimo, horripilante. Caiu, enroscou-se, com as mãos à volta de uma perna e revirando-se no meio da terra com os gansos a grasnarem alto à roda dele. Tinha um prego espetado na planta do pé, o Sangue salpicava tudo.”

É um relato rico e bem estruturado, que não esquece ninguém. Homens, mulheres e crianças; o país e a família, a igreja e a educação estão estereotipados, mas amplamente representados e isso conquista desde cedo o leitor, pois nunca conseguimos ficar indiferentes. E ainda que focado nas mulheres, os rapazes desempenham um papel crucial, são as interações com eles que moldam a dinâmica social do grupo.

É um livro feito de gestos, gritos, toques desajeitados, mas carinhosos; discussões, conselhos, maternidade e matrimónio, poder e opressão, desobediência e coragem, violência e amizade. É um grito pela aceitação e a fragilidade feita força, mas eu nunca fui capaz de deixar de o comparar à famosa tetralogia de Elena Ferrante, mesmo não tendo ficado fã nem avançado além do segundo livro.

10 miúdas e dois cães

Roda Dos Livros, 07.10.24

O tempo é relativo e foi numa tarde de Outubro que se deu o encontro de... Setembro. A verdade é que o formalismo não é uma característica nossa o que, aliás, se vê nos posts que não publicamos neste blog, pelo que fazer um encontro de Setembro em Outubro é absolutamente aceitável. O que nos falta em formalismo e perseverança na escrita de posts, sobra-nos na vontade de ler e o tempo reservado para os encontros mensais parece sempre pouco para o entusiasmo com que partilhamos leituras. Claro que os primeiros minutos do encontro são sempre reservados à nobre arte do "pôr a conversa em dia", fundamental num grupo que já se conhece há muito. Para além dos livros, também nos une o amor pelos animais e a Dona Aveia e o Nero são mais que membros honorários deste grupo, são membros de pleno direito, tenho a certeza que, à sua maneira, são tão amantes de literatura como qualquer uma de nós.

Os primeiros livros que a Sofia nos trouxe foram o Eve, How the female body drove 200 million years of human evolution, de Cat Bohannon e o Matrescence, da Lucy James, que marcaram o ritmo de uma roda onde a mulher foi um tema transversal, com o Útero, da Leah Hazard, o Os rostos, de Tove Ditlevsen (sugestão da Cristiana), Histórias de Mulheres casadas, de Cristina Campos, as Serviçais, de Kathryn Stockett (trazidos pela Isa) ou o A mulher-casa de Tânia Ganho (Patrícia) que voltou a estar numa pilha de sugestões.

Quando alguém diz que leu o livro do mês, do ano, quiçá da vida toda a gente arrebita a orelha. Desta vez coube ao maravilhoso Os miseráveis, de Victor Hugo a distinção e toda a gente concordou com a Célia, que também nos falou de outros livros, como o Atos humanos, de Han Kang ( o que nos levou a uma discussão sobre tradução e revisão), O meu pai voava, de Tânia Ganho (ou como por vezes encontramos os nossos sentimentos escritos por outras mãos) e o O caderno de memórias coloniais, da Isabela Figueiredo. E aproveitou para sugerir a todos o Apologia do Ócio, de Robert Louis Stevenson.

A Márcia trouxe-nos YOGA, de Emmanuel Carrère, uma oportunidade para reflectir sobre saúde mental, a crise dos refugiados ou, por exemplo, suícidio. Ainda leu Friends, Lovers, and the Big terrible Thing, a Biografia De Matthew Perry, que tem sido lida e elogiada por várias pessoas deste grupo.

A Sónia elegeu o A Educação dos Gafanhotos, de David Machado, como sugestão mas trouxe também os livros de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer e As melhoras da Morte que, à boa maneira deste grupo, deslizaram pela mesa para rodar para outra leitora que os quer ler nos próximos tempos.

A Renata anda em releituras de uma das grandes séries de Fantasia dos últimos tempos (afinal o próximo volume do Stormlight Archives sairá no original ainda este ano) mas teve tempo para se deliciar com o Planície, de Jhumpa Lahiri, livro que há muito estava na sua lista de desejos e falar um pouco de O Messias de Duna, de Frank Herbert, a sua leitura actual. Tenho para mim que despertou curiosidades.

A Ana CB dedicou-se às séries policiais este mês com o Ponto Zero e Cortina de Fumo, da dupla Jørn Lier Horst e Thomas Enger e A Consequência, de Yrsa Sigurdardóttire, o livro que está na pilha para representar a série DNA, a sugestão desta leitura. Mas nas leituras da Ana, ainda constam O Vício dos livros de Afonso Cruz e A Guardiã de Yael Van Der Wouden.

As sagas familiares também estiveram em destaque neste sábado com o Do not say we have nothing, de Madeleine Thien (Sofia) e O Pacto da Água, de Abraham Verghese (Patrícia).

Por aqui não partilhamos só livros mas amigos e foi por isso que a Raquel nos fez companhia nesta tarde. A sua primeira sugestão na Roda dos livros foi o Os vencedores, de Fredrik Backman. Na verdade ela quis mesmo sugerir toda a série que culmina neste livro.

A Isa, enquanto nos falava das suas leituras que incluem os A rede Púrpura e Nina de Carmen Mola, Um Animal Selvagem de Joel Dicker e A livraria da Colina, de Alba Donati é a autora da frase do dia. Sobre um livro que não consigo nomear disse, com muita graça, ser "genial ou idiota". Quem nunca se deparou com um livro desses só pode andar a ler pouco, ali, naquela mesa toda a gente se identificou.

Cruzámos livros com livros (A mal Nascida, de Batrice Salviori (Cris) com o Amiga Genial, de Elena Ferrante) e livros com filmes (Os rostos com Camille Claudel, interpretado pela Binoche). Fizemos apostas para o nobel que está quase a ser anunciado e algumas de nós concordámos que a grande probabilidade é ser nomeado alguém de quem nunca ouvimos falar. E que gostávamos que um/a escritor/a de fantasia ou novela gráfica ganhasse mas que isso não vai acontecer.

Boas leituras, voltamos daqui a pouco.

Venha lá mais uma década 👏🎉

Roda Dos Livros, 17.01.24

Um desejo para 2024: boas leituras para todos!

Um desejo para a Roda dos Livros: mais uma década a andar à roda (pelo menos!)

2024 marca onze anos de encontros à roda dos livros. Onze anos recheados de capítulos, muitas vírgulas e alguns parágrafos históricos. Também existiram alguns pontos finais, mas o melhor são os três pontinhos que deixam sempre a porta aberta. Por isso, há quem vá e volte, hà sempre uma ou outra nova aquisição e também os há de pedra e cal.

E como o encontro também celebrava o Novo Ano, há algumas promessas e resoluções, balanços e listas... ou não há nada disso e mantêm-se o caos (já tradicional?) e a azáfama faladora do costume. Bom, bom é já termos um calendários com datas para reuniões ao longe de todo o ano nesta nova casa que tão bem nos acolheu e por isso, o nosso agradecimento mais do que merecido à Biblioteca dos Coruchéus e à sua equipa. Muito obrigado!

Já se sabe que as nossas reuniões são uma animação, mas quando a mesa ainda se enche mais, as cores e os cheiros vibram entre os sorrisos e as gargalhadas, as sugestões nem sempre se apanham ou apontam todas e há sempre uma ou outra conversa paralela, por isso aqui fica um apanhado no registo mais fidedigno de todos, a bela pilha de sugestões sempre muito instagramável (é assim que se diz?)

E sim, o vinho marcou presença, que o ano ainda agora começou para estarmos só a chá 🎯😂😂

E pela foto bem se vê que o ano novo não trouxe assim muitas resoluções no que toca a experimentar coisas novas e julgo que ainda bem, há autores e livros seus que se repetem e ainda bem, era o que mais faltava, termos uma década de cumplicidades e não termos favoritos 😇🤩

Melhor de tudo, Janeiro ainda será longo e ainda haverá lugar a mais um encontro.

A andar à Roda até ao Natal

Roda Dos Livros, 30.12.23

O ano está a chegar ao fim e os Rodistas celebram o Natal, que é como quem diz, encontraram mais um motivo para celebrar os livros, os beberetes e a amizade e como quem come junto, fica junto, enchemos mais uma mesa de coisas boas (figurativamente falando, é claro!) que mal cabiam os livros.

Melhor que descrever é deixar as imagens revelarem a abastança que felizmente tivemos.

Casa cheia. Mesa farta. Pilhas e pilhas de livros. Muitos sorrisos e claro, os habituais atropelos, pois quando a azáfama é muita reaviva a criança que há em nós.

E festa que é festa, tem presentes e a nossa teve, como de costume, um livrinho oferecido por um tal de amigo secreto que se revela em postais assinados e outras ofertas paralelas. Ou então, apenas por o sorriso que revela tudo, do gosto que foi andar à busca da oferta certa para aquela pessoa.

Mas antes de mais um vídeo com as prendinhas e as pilhas de sugestões em jeito de resumo do nosso encontro, fica sim um resumo das nossas escolhas em Dezembro, mas sem um verter do que foi a nossa alongada conversa, pois destas vez fomos tantos que não há apontamentos que me valham 🤣🤭😇 tanto que a certa parte anotei: "numa roda multitasking com tanta coisa a acontecer que parece que queremos viver 12 meses numa tarde só." Vejam bem como me senti uma escriba assoberbada.

A nossa Joana andou entre A cidade e as Serras do seu acarinhado Eça de Queiroz.

A Sofia Castro gostou muito de andar em investigações com O Clube das Quintas-feiras

A Ana Borges, valha-me a fotografia e por exclusão de partes, caso contrário só tinha conseguido anotar: "abaixo das expectativas" sobre um outro que eu não anotei, mas a sua sugestão é o Greenwich Park (é não é Ana? 🙃)

A Sofia Antunes regressou a Maggie O'Farrell e o seu Instructions for a Heatwave e a conversa alargou-se (só podia!) sobre os vários livros da autora que têm conquistado os rodistas.

A Cristina Matos trouxe-nos um livro que revela um pouco da história da sua família, Nos confins da morte, num tributo que o seu tio faz ao filho.

A Márcia revelou o requinte e brilhantismo que sentiu ao ler Deixa-te de mentiras de Philippe Besson e trouxe um autor novo para dentro do nosso círculo.

A Isabel conseguiu afoguear ainda mais os ânimos, abrindo até uma votação - vejam bem - perante o eterno As velas ardem até ao fim.

A Fernanda desta vez não trouxe as malhas, mas a sua escolha é reveladora, Knitting Yarns. E cheira-me que mais uns anos, temos um clube de discussão de crimes com artefactos peculiares, enquanto nós - com as devidas lentes de aumento - tricotamos umas cenas (logo se vê se no final sai algo usável ou não) e falamos de policiais. Seremos algo como A Roda às Quintas-feiras.

E por falar em policiais, a Vera e a Ana Marques falaram do novo livro de Dolores Redondo e volta na volta, o Revolução surgiu novamente na conversa bem como o último do João Tordo, O nome que a cidade esqueceu, que regressa a Nova Iorque e claro, há uma morte.

Entre agulhas afiadas e opiniões com arestas, entrámos de rompante no hotel e na vida de Um gentleman em Moscovo que foi a sugestão do José, abrindo a discussão: afinal um enredo claustrofóbico dá uma boa história?

Polémicas à parte, a Ana acrescenta que o tédio pode ser material muito interessante, veja-se o caso de A viagem à volta do meu quarto, mas o remate da Patrícia... "ler um livro de que não se gosta até ao final é doentio, mas muito útil para falar mal." Nada mais há a dizer depois desta tirada, especialmente se lhe juntarmos o conde russo e a sua observação (sua, da Patrícia) sobre vinhos.

Adiante que a sugestão da Patrícia são os livros da Isabela Figueiredo, mas especialmente O caderno de memórias coloniais.

Embora noutro tom, a Rússia continuou presente no nosso encontro, com a recomendação do Jorge para o livro de ficção de Montefiore, Saschenka. E muita pena tiveram os Rodistas já que ninguém conseguiu marcar presença na palestra que o autor deu em Lisboa este mês, para trocarmos uns comentários sobre o acontecimento 🤷‍♀️

A Célia destacou a personagem garrida que é Violette e o quanto isso a fez gostar de A breve vida das flores. E por falar em personagens que nos fazem gostar de um livro, as cidades também o são e é o caso de Lisboa em A cidade do medo que foi a escolha da Isaura que muito apreciou o ambiente ali criado por Pedro Garcia Rosado.

A Cristina Delgado sugeriu Acolher de Klaire Kegan que tem sido por várias vezes destacada nos nossos encontros, tanto, que já pensámos em pedir-lhe, por petição, mais 200 páginas em cada livro e isso abre lugar a umas risadas soltas e a mais um debate: há livros que estão feitos para serem lidos e relidos? É essa a vida eterna dos livros?

Entre os eternos andou a Cristiana (ou seja, eu) enquanto lia e desconfiava de tudo o que lia em Pedro Páramo e a culpa foi de Alberto Manguel quando referiu que Baiôa sem data para morrer lhe fez lembrar a incontornável obra de Juan Rulfo. As semelhanças são bastantes, mas o além em que se passa esta novela mexicana causa um assombro diferente, porém o nosso Alentejo tem um lado humorístico, mesmo que trágico que elevam o livro de Rui Couceiro.

Ainda entre o que é eterno e diríamos até obrigatório são as RAZÕES PARA VIVER que captaram a atenção de todos, talvez essencialmente por serem um elenco de pequenas coisas que nos fazem falta e nos fazem bem e por trazer uma mensagem de esperança que vem mesmo a calhar para a época de recta final de mais uma volta ao sol. Obrigada Renata pela sugestão e pela leitura.

E sem mais demoras, as ofertas de natal que só por si acrescem mais capítulos a esta conversa, mas agora só anda à Roda em Janeiro. Em festa, outra vez!

(de)Roda dos chás

Roda Dos Livros, 28.11.23

O encontro de novembro foi aromatizado de gengibre e laranja, urtiga e funcho e camomila, talvez por isso esta mancheia de rodistas reuniu de forma calma e ordeira, sem esquecer as gargalhadas comuns e uma ou outra piadola que balança qualquer tom sério. Mesmo com um arranque marcado por livros cujos enredos envolvem famílias disfuncionais e até violentas, não obstante a fantasia e o amor que os une.

Foi tão doce o sossego no qual a nossa conversa decorreu que embalou a Dona Aveia grande parte do tempo. Aposto que sonhava com livros de receitas de biscoitos e roteiros de passeios pelo campo. Levantou-se para se mostrar na arte do espreguiçanço e claro está, pedir festas! De seguida, compôs melhor o seu palácio de mantas fofas e quentes e dormiu, embalada pelas nossas sugestões.

A Ana Marques vinha surpreendida pela vida familiar disfuncional narrada por Jeannette Walls em O Castelo de Vidro pela fuga aos moldes da sociedade e o desejo de quebrar todas as regras de alguns progenitores, o que conduziu inevitavelmente a conversa para o filme O Capitão Fantástico ou outro livro, Uma Educação. Tudo enredos que expõem ideias de educações alternativas e de como isso a certa parte choca de frente com a norma, as regras, as leis da dita sociedade ocidental e capitalista.

Com o que a Ana chocou também foi com as expectativas com Jon Fosse, o último prémio Nobel e logo num registo que tanto aprecia, a escrita para teatro, considerando que dificilmente volta ao autor. E como é hábito, sempre que se fala em gerir expectativas a conversa diverge e desta vez Taylor Jenkins Reid foi o alvo. A Célia e a Ana têm lido o que foi publicado da autor após o aclamado Daisy Jones e pelos vistos não está a correr tão bem. O que nos leva a uma questão repetida: quando as editoras publicam obras anteriores (e menores!) a uma que foi um grande sucesso, não arriscam a perder leitores?

Entre serem lamechas, pirosos ou entediantes, os adjectivos vão sendo vários para caracterizar alguns livros nas carreiras de determinados autores e nas recomendações do Jorge, que recaíram em Arturo Perez-Reverte, aconteceu o mesmo. Perante a leitura de Sidi, enfadonha e repetitiva, felizmente há para contrabalançar o Italiano que, esse sim, foi uma leitura envolvente e muito capaz na perícia do autor em investigar e criar um ambiente de guerra recheado de detalhes verídicos e ainda assim alinhá-los muito bem com uma ficção cativante.

Cativantes foram as leituras da Renata que com as suas descrições entusiastas colocou os restante rodistas interessados em Kindred de Octavia E. Butler, seja pelo enlace fantástico seja pelo enredo que nos pareceu deveras genuíno na forma de abordar temas tão na ordem do dia. Outra das suas sugestões foi Redenção de Richard Wagamese e é curioso como a linha que cose estas duas leituras é a da salvação e a das relações humanas, embora as situe em planos distintos.

É realmente a Renata a ser ela mesma e trazer-nos sempre novidades a todos os níveis e não ficou por aí, pois ainda nos brindou com o universo de Stanislaw Lem, recordando A voz do Dono, já apresentado em outra Roda, como nos falou da sua leitura actual, Memórias encontradas numa banheira e da mestria do autor para fugir à denúncia óbvia (totalmente a evitar em épocas de escuridão totalitária) usando do humor e da criatividade em pequenas pérolas literárias.

A Célia trouxe para cima da mesa as longuíssimas séries, algumas que a acompanham por anos e anos, como a da sua sugestão de mangá, One Piece ou a já reincidente Outlander. E ficamos a degustar ideias (e motivos) para acompanharmos personagens e enredos anos a fio, numa familiaridade que é um aconchego. Claro está que nesta conversa era inevitável falar de séries, autênticas sagas que já mesmo que não as acompanhemos somos bem capazes de as ficar a ver só a título de fofoca para ver quem anda com quem. Falamos da Anatomia de Grey e outras primas, e então? 😏 ou de séries com imensas temporadas das quais até já lemos os livros 🤷‍♀️

Lá fora a noite já tinha invadido a tarde, mas trouxe-nos a Ana Borges e as sugestões continuaram com a Cris a recordar a brilhante, embora escura e de temática difícil, narrativa de Margaret Atwood em A história de uma serva, especialmente por estarmos a reunir no dia 25 de Novembro, data na qual se celebra a Luta pela erradicação da violência contra as mulheres. Luta essa que tem tocado muitas das nossas escolhas, sejam elas mais ou menos literárias (sim, sim, também falámos d'A Criada), pois o que importa é que a mensagem passe e se gerem oportunidades de sensibilização e de discussão. Também por isso, a outra sugestão recai sobre O Sexo das Mulheres, um registo fragmentado e caótico, mas incisivo de Anne Akrich que merece ser alvo de mais leituras.

Por falar em livros fragmentados, caóticos e de pendor sexual, a sugestão da Cristina Matos não podia encaixar melhor. O escuro que te ilumina de José Riço Direitinho voltou a surgir na Roda e em boa hora, tanto por ser um livro que divide opiniões, como ser outro que vem quebrar um género de escrita (e enredos) a que os autores nos habituam e que depois nos faz adorar - ou detestar - uma obra que se afasta desse registo de que tanto gostámos.

A dividir opiniões também estão os livros de Carla Madeira, seja pelo enredo ou pelo jeitinho da sua escrita, levando à eterna questão: conteúdo ou forma? O que mais nos conquista?

Dentro dessa temática do conteúdo, chega-nos outra novidade a do conteúdo não-purgado do Diário de Anne Frank e no quanto isso pode ou não alterar a experiência e a percepção que nos fica da leitura, mesmo quando se tratam de livros lidos há 20 ou 30 anos. Pois é, já vamos todos tendo idade para ter lido certos livros há 30 anos. Alguns de nós até mais. Que privilégio é poder ouvir essas partilhas.

Outra sugestão da Isaura é o relato de Trevor Noah em audiolivro, onde o autor narra a sua própria história, Eu sou um crime, livro que integra constantemente a nossa pilha de sugestões. Mas também poderia colocar Amor estragado de Ana Bárbara Pedrosa ou Não contes a ninguém de Gregg Olsen, cujas narrativas têm situações de violência que espelham arrepiantemente a realidade. Um detalhe curioso que a Isaura acrescentou é que a mãe deste Não contes a ninguém, faz a mãe de O Castelo de vidro parecer uma boa mãe.

Continuando no registo de policial e de suspense, foi a vez da Ana Borges dar as suas contribuições por andar perdida entre fiordes e outras geografias nórdicas, desta vez regressando à série de Yrsa Sigurdardottir que adoçou com o último livro de Sarah Addison Allen, Outros Pássaros. Destaca ainda. Jardim Encantado. e diz-nos que tapemos as capas com uma boa vestimenta e nos deixemos envolver com personagens cativantes e enredos bem engendrados que esta autora consegue ter.

Por fim, fica a sugestão de um miminho clássico para darmos importância à beleza das pequenas coisas e à simplicidade que devemos trazer para dentro das nossas vidas, por isso a sugestão da Borges é o O Tao do Pooh e o Tau da Sabedoria.

Encontro de Outubro

Roda Dos Livros, 28.10.23

Afinal o Verão só termina quando a hora muda. Tá dito! Mas mesmo assim, já existem uns lencitos pelo pescoço, uma ou outra manga a tapar o braço e as encaloradas do costume ;) Ainda assim já tivemos uns dias de chuva e por isso mesmo abriu a época dos livros de colorir.

A Roda de Outubro não se ficou só por maratonas feitas com lápis de cor, fez-se de leituras com temáticas bem menos coloridas: suicídio, depressão, eutanásia, tortura, perseguições e homicídios, guerra, religião, revoluções e geografia, doenças mentais e segregação, linchamentos, invasões, feminicídio, racismo e infância perdidas. Violência!

Como não! Temas como estes são o roteiro do dia a dia de mais de metade da Humanidade. Outros são preocupações actuais de todos. Por isso, enquanto agradecemos a liberdade, a estabilidade, a saúde, a amizade e a alegria, entre tantas coisas mais - privilégios, que ditos dessa forma já parecem soar a clichê, mas que nos dão pelo menos a hipótese de nos sensibilizarmos e tentarmos compreender melhor. Por isso, certas temáticas persistem e são transversais a muitas das leituras discutidas nesta tarde.

Com um certo calor e impetuosidade a Cristiana e a Vera debatiam se O Regresso dos Andorinhões tinha ou não um personagem entediante e cansativo. Repetitivo. A Vera entendia-o, justificava-o apontando à maioria, a Cristiana acusava cansaço dos relatos ácidos, embora porventura com algumas confissões e passagens muito boas, mas... mas são 800 páginas e é uma saga muito grande. A discussão valeu à Sofia ficar curiosa com o personagem e achar de antemão que vai ficar fã do mesmo.

A Cristiana torceu o nariz, confirmou que ia dar uma pausa e trocou umas ideias de estratégias de colorir com a Célia 😇🙃 e rapidamente mergulharam entre desertos e piscinas (juntamente com a Joana) concordando com outras sugestões. Como foi o caso de A Piscina que continua a reunir recomendações. Ou o clássico de Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros que, quer se gosto muito, se fique arrebatado ou entediado, o certo é que não deixa ninguém indiferente. Tal como o Coisas de Loucos, novamente referido e o livro póstumo de Lara Vaz Pato, Uma Mulher com Cancro, um Psicólogo e uma Virgem Entram num Death Café, que tem rodado bastante e sido repetidamente recomendado e trazendo outros livros associados como é o caso de Amor e Perda de Amy Bloom.

Camilla Grebe e Andrea Abreu com, O diário do meu desaparecimento e Pança de burro, respectivamente, começam a ganhar adeptos, bem como As Árvores de Percival Everet. Já para não falar do aclamado livro de Rita Cruz que conquista cada leitor. O mesmo parece vir a acontecer com Revolução, a sugestão da Renata que com muito gosto e leu e apreciou o roteiro musical que Hugo Gonçalves conseguiu no seu último livro.

Entre sugestões de livros surgem algumas opiniões e dúvidas o papel da lentidão na leitura, aquela que se pretende por estarmos a saborear o livro, a querer que o enredo dure e nos acompanhe ou mesmo quando o livro exige por ser denso e complexo por contraponto à lentidão provocada por um livro que nos cansa e entedia.

Não há consenso e as sensações e efeitos da leitura são díspares e cada rodista tem lá as suas ideias. Entretanto já as conversas dispersaram e umas falam de maratonas, das de correr mesmo 😇🤣, enquanto outras voltam ao arreliante tema das traduções, pior ainda, do aportuguesamento do PT do Brasil e do quanto é descabido e fala-se em soluções, em micro dicionários em formato marcador.

Como se já não estivessem suficientes temas em aberto, a Ana Borges ainda pergunta: quais são as melhores autoras para entrar no universo da literatura nipónica. E puff, saltam nomes como pipocas, aquelas que teimam em resvalar do topo da pirâmide que sai fora do balde, já por si enorme e nós - sem vergonha nenhuma - caminhamos de cabeça erguida a largar pipocas corredor afora.

E deixamos caídos alguns nomes: Yoko Ogawa, Hiromi Kawakami, Mieko Kawakami, Han Kang, Sayaka Murata ou Xiaolu Guo.

Saltando de roda em roda é o caso de Claire Keegan seja com Acolher ou Pequenas Coisas como Estas.

Ainda houve tempo para mais umas pipocas, desta feita com novidades policiais onde os nórdicos sabem fazer magia e outro tipo de page turners com a Ana Borges a dizer-nos o quanto gosta da capacidade de Fredrik Backman se reinventar a cada livro e há sempre uma rodista ou outra que gostou de um livro dele.

Ainda houve tempo para voltarmos a Um Detalhe Menor pelos mais variados motivos e entre a Cristina, a Patrícia e a Cristiana termos dado atenção a detalhes tão diferentes aquando da leitura e que nos sensibilizou com tantas nuances. E a Cristina pergunta: é possível lermos um livro que está preso a detalhes políticos e mesmo assim não pensarmos nesse lado?

Afinal quando é que termina o Verão?

Roda Dos Livros, 23.09.23

Já estamos naquela época em que só queremos as malhas, as bolachas com compota caseira, as peúgas galhofeiras e as feiras com castanhas. Certo? Certo!

E assim, falando sobre o tempo, abrimos mais uma Roda como quem abre um frasco de compota. Alegres, entusiasmadas e com a conversa atrasada, a ganhar tons e texturas exóticas e adocicadas, que até deu para começar a compor um dicionário urbano (só não nos peçam as entradas), enquanto tricotávamos ideias e gargalhadas.

E ouvíamos especialistas em odores e sabores.

Mas sabemos que ele tem tias favoritas e há segredos que só partilha com algumas delas.

Mais sossegadas das emoções iniciais, trocas e baldrocas, acertos de linhas e cores e lá demos início aos trabalhos, clarificando definições e afinando as letras correctas para que as entradas do tal dicionário urbano batessem certas e esta será a única que constará neste registo para que não se firam suscetibilidades. A culpa toda foi da Palmeira, junto com as linhas e os frascos, trouxe um livro até então desconhecido, Guncle - As Regras do Tio de Steven Rowley. Ao anotar Gunkle, a Cris, auto-denominada escriba de serviço (Eu!), é uma pessoa a quem por vezes falha o inglês e escreveu tio com K e quando foi ao dicionário moderno, vulgo google, saber a definição de gunkle ficou boquiaberta com tais definições que nada convinham ao tio do livro, pessoa cujo o encargo eram duas crianças e um cão. E logo um cão!

Foi uma tarde atarefada entre livros e definições, carpetes e métodos de lavagem das mesmas com a língua e estratégias para se conseguir certos afazeres com a mão esquerda. Afazeres tão sérios como a escrita, pois claro. Ou o tapar das raízes brancas. E escrevendo lá conseguimos o tom sério para acertar nas sugestões.

Por isso, temos de vos dizer que, se na Roda anterior a Márcia estava encantada com a escrita e a obscuridade dos cenários de Emmanuel Carrére, nesta, a Ana Marques não parece muito convencida e pergunta se justifica avançar. No entanto, estão ambas em sintonia com o deslumbramento pela escrita de Deborah Levy. Como está em sintonia quem lê Sou um crime de Trevor Noah. Desta vez foi a Márcia.

A propósito de sintonia, também os títulos de uns nos fazem lembrar de outros e perante a sugestão da Sofia de um novo livro de Rebecca Solnit, de quem apreciámos muito As coisas que os homens me explicam e Esta distante Proximidade e deixamos também como sugestão.

Existem sugestões que nem sabemos bem de onde nos chegam mas que nos arrebatam e tem sido assim com quem lê A Menina Invisível e a traz novamente à Roda, destacando a escrita e a mestria do enredo. Desta vez foi a Patrícia. Porém e contrariando a maioria, já não recomendou assim tanto, Dor Fantasma e o mesmo se passa com as novidades csi'zescas de Javier Cercas que com a trilogia do inspector que só lia os Miseráveis, especialmente a sequela, não está a arrecadar elogios. A Ana Borges e a Vera discordam e gostam desta reviravolta que o autor deu à sua carreira. A Cris só leu o primeiro e também gostou.

Falando em espanhóis que não desiludem, Javier Marias está bem cotado com os seus fantasmas, delírios e mulheres em ambientes de verão (e não só) em Não mais amores. E como os livros são como as cerejas, entretanto já a conversa ia nos contos da Atwood e em outros livros escritos por mulheres, como os de Jokha Alharthi e de Sasha Marianna Salzmann, destacando-se No Ser Humano Tudo Tem de Ser Belo e claro, Rapariga, Mulher, Outra de Bernadine Evaristo.

E não sei se foi neste seguimento que anotei uma frase de Steinbeck "Estar vivo a sério é ter cicatrizes", mas estava nos apontamentos e os apontamentos, ou melhor, os papeizinhos onde tomo notas são coisas esquivas que se perdem entre outras tão ou mais esquivas que me dão muito trabalho a encontrar, por isso, acho que ninguém leu Steinbeck para este encontro, mas fica bonito citar um clássico.

Por falar em clássicos mais que uma Rodista anda na saga dos nomes nos épicos russos, desta vez com Guerra & Paz, tanto a Célia como a Sofia referiram essa trabalheira, mas que em tudo compensa pela obra em si.

E só para terminar, quando é um clássico é um clássico? Por já o termos lido há 30 anos, como é o caso de A Lua de Joana ou por ser um autor de quem lemos tanta coisa e que constantemente nos acompanha há anos e anos? Seja ele McEwan, Agualusa, Atwood, Marias ou Pessoa...

Uma Roda na canícula

Roda Dos Livros, 26.08.23

Festejados os Santos Populares ou Arraiais e os bailaricos, já só nos sobra o calor e a vontade de correr para mais uma sombra OU, e é para isso que muitos queremos o verão, tardes inteiras, dias até, esturrando ao sol e à beira mar a ler, simplesmente a ler. Ainda assim, trocámos a areia no pé por mais uma tarde de biblioteca para largar umas larachas e umas ideias sobre livros.

E foi tão bom que só nos resta resumir na melhor foto da sessão: a das sugestões e com brinde!

O por brinde (ou tentativa) fica também este pequeno parágrafo em jeito de resumo da sessão e das sugestões de mais um mês de leituras.

Na canícula destes dias, chegámos à conclusão que não há COLCHÃO DE PEDRA, mesmo fresca, que nos valha e refresque as noites. Nada nos serve para ACOLHER as leituras mais refrescantes, se não A PISCINA lá do bairro. Mas com O CUSTO DE VIDA como está não há cantorias que nos valham, nem com o forte e épico CANTO DE AQUILES. A inflação (e o calor!) é O ADVERSÁRIO, mais a corrupção, o preço do peixe e a falta de papel para os livros. E o preço da luz? Sim, porque agora precisamos também de dar carga nos livros, ou melhor, nos e-coisos para levar para a praia e não ficar com areia nos entrefolhos. Ou folhas?

Não sei, não sabemos! Isto são só COISAS DE LOUCOS e estamos entregues a um TERCEIRO PAÍS.