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Roda Dos Livros

Dormir melhor é fácil?

Efeitocris, 27.01.26

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Dormir é fácil, dizem eles e eles são médicos. André Ponte e Henrique Prata Ribeiro fizeram um livro cheio de truques e ideias  - que parecem simples - para nos ajudar a dormir melhor. Há dicas para adormecer, há mapas para preencher e estratégias para modelar as ideias quando andamos às voltas na cama, no sofá... pela casa e nem os livros nos salvam das insónias. Será diferente com este?

Este texto é de partilha de algumas dessas ideias, as que mais apreciei. Apreciei ler... pôr em prática nem sempre está assim tão fácil 

QUANDO O SONO FALHA

  • não faça da cama uma sala de reuniões
    • estabeleça antes uma hora para reunir no papel algumas ideias para que possa dizer a si mesmo, no meio da noite, "Isto já está escrito. Agora não são horas para resolver ou organizar.”
  • estabeleça um tempo para voltar a dormir, se não adormecer, levanta-se: "a cama é só para dormir"
    • em vez de ficar às voltas, levante-se e faça uma actividade monótona, tipo dobrar roupa ou ler algo chato  ou colorir padrões... tudo com luz fraca 
  • estabeleça uma hora para dormir e para levantar
    • contrarie a vontade de ir dormir mais cedo, mesmo que tenha sono, para não estragar o seu índice de sono 
  • livre-se da auto-sabotagem
    • contrarie ideias feitas: "Não vou dormir, o dia amanhã vai ser horrível." 
  • criar uma rotina: acordei e não adormeço, levanto-me, contrario ideias catastróficas, faço algo monótono e só volto para a cama com sono 
    • evito: forçar o sono e manter-me na cama como uma luta/obrigação; vigiar o relógio

Depois digam lá se passaram a dormir melhor...

14 anos a dar as boas vindas a cada Ano Novo

Efeitocris, 27.01.26

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Para abrir a época de reuniões em 2026 acendemos catorze velas que representam muitas e muitas páginas viradas, alguns regressos e despedidas, discussões e clube de fãs de autores e títulos que nos ficam a ecoar entre reuniões. Por isso para acompanhar a gulodice desta reunião juntámos todos os livros que tínhamos em mãos, porque todos podem ser sugestões de leitura, pois verdade seja dita os livros apanham-nos por fases e épocas muito diferentes, podendo trazer-nos sensações tão diferentes como opiniões que nos fazem (ou não!) regressar a certos autores.

As lombadas desalinhadas são um excelente retrato deste colectivo. Raramente são uma imagem de total consenso, são antes contornos da convivência e da partilha. Ler juntos ao longo de tantos anos têm-nos mostrado que vamos mudando com o mundo e com os livros, mas também vamos debobrando os contornos que nos definem desde o 1º dia.

As sugestões

Vinte anos de manicómio é uma sugestão para os leitores que se questionam sobre a memória de um país e de um sistema que quis silenciar quem escolheu fugir à norma. Um livro outrora banido que expõe questões incómodas que podem mexer com algumas feridas.

Hamnet, de Maggie O’Farrell, é uma lição sobre como a literatura pode transformar luto em algo belo e por isso é uma sugestão para um leitor sensível e dedicado, com atenção ao detalhe da linguagem, que lê sem pressas e aprecia os silêncios em acompanham cada descrição.

Em Candeia Coração, Banu Mushtaq, a leitura de cada pequena história renova a vontade de recomendá-lo a outros leitores. Mushtaq escreve com precisão e poder, traz para cada história humanidade e dignidade para as vozes menos ouvidas.

Um pouco como O Jardineiro e a Morte, de Georgi Gospodinov, que da intimidade, da perda e do luto, filosofa em excertos que têm tanto de belo como de triste, ajudando o leitor a dizer adeus. Recomendado para quem não se incomoda com a partilha de vulnerabilidades e ler com os olhos rasos d’água.

E na mesma senda podemos fazer a leitura d’A Montanha. José Luís Peixoto tece um fio que une histórias que nunca se esgotam nas pessoas que as contam, insistindo na beleza da subida.

Outros títulos chegam como longas cartas e pergunta-nos como se cuida do caos e da desorganização que de repente nos embrulha a vida. Nesse desarranjo cabe Autismo de Valério Romão e Não Fossem as Sílabas do Sábado de Mariana Salomão Carrara que na imprevisibilidade do que narram, chegam a preocupações transversais a tantas vidas.

Mas talvez a melhor sugestão nesse registo de autenticidade e espanto, seja Pergunta 7 de Richard Flanagan, que podemos dizer que celebrar a curiosidade e brinda o leitor com um livro inclassificável. Portanto, é melhor lê-lo!

Continuando nos livros difíceis de definir é impossível não incluir aqui A Chuva que Lança a Areia do Saara, de Ana Margarida de Carvalho; dizer que é uma narrativa intrincada das vidas rudes, mas caricatas e peculiares, das suas mais recentes personagens é dizer pouco, portanto o melhor é lê-lo com a curiosidade de quem gosta de ser surpreendido.

Para pensar o presente e ser confrontado com a nossa tolerância para com a violência, devemos ler Um dia, todos teremos sido contra isto, de Omar El Akkad. Uma verdadeira chapada de empatia e uma convocatória para a responsabilidade do leitor para se posicionar.

Trilhando um objectivo semelhante, o de alimentar a consciência política e histórica de cada leitor, mas no registo de romance temos A Herança do silêncio, de Gina B. Nahai narrando a consciência histórica do Irão, antes e durante a revolução islâmica. A voz aparentemente silenciada narra um legado poderoso sobre a opressão das mulheres iranianas.

A lista é sempre longa se falarmos de livros que descrevem opressões, Pão Seco de Muhammad Chukri é um deles e traz-nos a miséria de uma infância perdida entre a fome, a droga e o analfabetismo do próprio autor.

E quando A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, volta à mesa, percebemos que alguns debates nunca se esgotam e que este é um livro para ler e reler. Ou melhor dizendo: reler-se!

E relemo-nos muitas vezes uns aos outros nesta quase década e meia de convivência literária.

Que venham mais, mais anos e mais livros e livros, bons e maus… todos ajudam a definir o grupo.

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Pst pst… Nunca Te Esqueças de procurar a beleza e as coisas pequenas que abrilhantam e completam o dia  

«O Quinto filho», de Dores Lessing - Opinião

Efeitocris, 02.01.26

Um clássico lido na recta final de 2025 e um pequeno texto para brindar a bons livros para 2026.

Boas leituras  paz, serenidade e fé é o que vos desejo para este novo ano.

"O Quinto Filho" é um romance aclamado de Doris Lessing que funciona como uma fábula sombria sobre a maternidade e a desintegração da vida familiar idealizada. A narrativa segue Harriet e David Lovatt, que, apesar do radicais e loucos anos 60/70, constroem - intencionalmente - uma vida familiar tradicional e conservadora, afastada das mudanças sociais da época. Apelidados por muitos de loucos ou desajustados, as suas escolhas foram sendo acompanhadas por todos e até suportadas pela família, em especial pela casa ídilica que escolheram e onde durante anos e anos existiram grande ajuntamentos familiar, que mesmo fora de época eram frequentados por um rol de gente.

Com os filhos a nasceram um atrás do outro, a casa gigante e os eventos familiares, criaram uma «bolha familiar», um refúgio idílico e uma «família-bunker», como descrito, um sistema de apoio para a «sobrevivência de valores que tinham como certos». Contudo, esta paz era frágil e ilusória.

Mas eles não sabiam!

A harmonia é irrevogavelmente quebrada com a quinta gravidez de Harriet, que é fisica e psicologicamente violenta. Esta «gravidez tormentosa» funciona como o «pronúncio de um fim pouco sorridente». A «bolha» da família perfeita pesa sobre a mãe, que entra num estado de «apneia» constante e numa luta contra todo o tipo de dores. A paz era mesmo frágil e a ilusão de um futuro sem tormentos estava à vista. Ao contrário do esperado, a família acorre a ela em tensão, visível num suposto apoio, constantemente contraditório e conturbado que foi ainda mais notório aquando dos primeiros meses de vida de Ben.

Agora eles sabiam que tudo estava ameaçado, mas não conseguiam aceitar

Assim que nasce, Ben é diferente. Inegavelmente diferente: fisicamente grande, bruto desde o berço, invulgarmente forte e incapaz de se integrar. Um mostrengo (a palavra é da Nobel!). A «natureza atávica, quase neandertal» de Ben representa o lado «primitivo» e as motivações destrutivas que levam a melhor sobre a civilização e a educação. A harmonia passou a viver encerrada, tal como Ben.

À medida que Ben cresce, transforma a «bolha harmoniosa e segura» numa «bolha de isolamento e violência». Essencialmente para Harriet, pois o marido e os outros filhos afastam-se, a família visita-os menos e Harriet luta «a sós» contra um «filho tirano». A sua aparente «frieza» não é uma falha moral, mas uma «resposta de sobrevivência» ao caos e à solidão a que é sujeita. Ao encarceramento.

E o encarceramento é duplo. Mãe e filho vivem isolados numa dinâmica que se revelará doentia e que trará desfechos que poderão atormentar o leitor, no entanto, pela forma como está escrito, a narrativa é uma exploração crua dos limites da compaixão e da responsabilidade parental, onde o sonho choca com a realidade e se transforma num pesadelo interminável, uma realidade que mesmo quando é posta em porta alheia, afecta-os na mesma. (Como não?)

Porém, tudo é narrado com essa frieza e afastamento, que julgo propositado e essa talvez seja a mestria de Lessing. Conseguir-nos de espectadores, esmiuçando a nossa curiosidade, mas sem nos ligar afectivamente às personagens. 

A comparação com «Temos de falar sobre Kevin» é inevitável e dá vontade de o ir reler, do qual recordo a constante tensão e aperto na gargante perante a sociopatia gritante e a violência que parece inata. Saliento que neste «O Quinto filho», essas sensações não são tão intensas, mas o lado enigmático e frio da escrita são o que cativa.

Muito mais que sororidade

Efeitocris, 23.12.25

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“À Procura de Jane” de Heather Marshall, expõe a dura realidade das redes de aborto clandestino e da complexidade das escolhas difíceis associadas a um momento que oscila entre o medo, o secretismo, a desigualdade, a criminalização, a culpa e o alívio; momento esse que nunca é esquecido pelas mulheres, independentemente do quão longa é a sua vida e se depois têm ou não outras gravidezes levadas até ao fim, amando os seus filhos.

“Por vezes o alívio pode ser tão intenso como o remorso. É bom que saibas que quase todas as mulheres que vêm ter comigo acabam por chorar, a dada altura. E muitas vezes é de alívio. Ou de remorso, ou de vergonha, ou dos três todos juntos. O que eu quero dizer é que é normal. Sentir isso. Chorar.”

Por isso, por vezes chorar é a melhor opção. A única opção. Especialmente para estas Janes entregues à sua sorte num orfanato longe de todas as atenções. Entregues à sua dor e ao desconhecimento do que está a acontecer com os seus corpos, dos quais não são donas, tal como dos seus destinos.

“Ignorando a doente na ocasião, ele fala com a irmã Teresa como se a gravidez fosse uma experiência científica altamente maçadora que tem de relatar, como as fases do crescimento do bolor. E assim, com esta escassez de informação, as raparigas valem-se umas das outras…

São os “e se” e os “devia ter” que estão acocorados, sempre à espreita, naquela câmara recôndita da nossa alma. São eles que nos ferram com mais força, com dente mais afiados.”

Apesar da sua capinha cor de rosa, este Janes expõe situações limite, de violência e abandono e trauma ao longo da vida, aliás, é um relato que percorre décadas. Um relato que honra a luta, mas também o silêncio do qual muitas destas mulheres se erguem e se superam. Vencendo a culpa e melhorando as suas vidas e a de outras mulheres que procuram soluções semelhantes. A rede é também uma rede de empatia e apoio e essa talvez seja a sua maior ramificação e mensagem.

É um livro para nos fazer pensar criticamente sobre um tema difícil, actual e cada vez mais importante, precisamente pelos piores motivos e que não pode continuar a ser tratado com preconceito e punição

“Always home, always homesick” ou o encontro de Dezembro

Efeitocris, 17.12.25

O título do livro de Hannah Kent foi o mote perfeito para esta reunião de leitores em jeito de celebração de mais um ano que chega ao fim e em que estivemos juntos. E do quanto a Roda dos Livros é uma casa sempre aberta e pronta a receber os seus; estejam eles mais ou menos presentes mês após mês. Ano após ano.

A Roda pode ser como dizia David Trueba: “o lar é o único aberto toda a noite.” Assim parecem as nossas reuniões onde podemos sempre reencontra alguém com quem estivemos no mês passado ou alguém que não víamos há seis meses ou até um ano (ou dois ou mesmo três ;) porque a Roda é isso, é voltarmos a qualquer momento e sentirmo-nos sempre bem-recebidos, sem nunca deixarmos de sentir aquela saudade inquieta de outros anos, outras memórias, outras histórias. Tantos encontros, tantos livros, sempre os livros.

Que volte sempre quem tem estado mais longe, afastado ou atarefado. Que vão voltando nuns meses e noutros, para que a casa nunca fique vazia, para que a luz nunca se apague.

Desta vez, fomos dez pessoas à Roda dos livros, das chávenas e dos chocolates, cadernos e risos, gargalhadas e vontades, tudo reunido para fechar um ano de leituras partilhadas. Desta vez sem trocas ou sem prendas, mas com sorrisos e boas sugestões de leitura.

*

A chegada foi tudo menos silenciosa. Houve algazarra, risos cruzados, cadeiras a arrastar, mesas para arrumar e aquela confusão boa que só acontece quando o entusiasmo é palavra de ordem. Entre pôr a conversa em dia e esperar por todos, a certa altura, alguém falou em sermos um sério. “Sénior?” E a gargalhada colectiva rebentou…

“grupo sénior” e bastou uma sílaba trocada e logo o encontro a descambar numa piadola colectiva entre tantas que pautaram a tarde e que preenchem um compêndio de sacanices numa ode ao linguajar triumphal (e mais não se pode escrever porque mete anões, domadores de golfinhos e palavrões)

Porque quanto mais séniores ficamos

mais sérias estamos!

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E na seriedade que nos caracteriza deixamos-vos as seguintes sugestões:

Da parte da Vera - «A cinco palmos dos olhos» num regresso sempre saudoso às obras de Carlos Campaniço, embora a sua sugestão tenha de ser «Canção do Profeta» pelo espelho para os tempos conturbados por toda a Europa. E depois, algures no meio da conversa, lembrou-se de «Como animais» de Violaine Bérôt que recomendou a todas, cruzando referências com a Isa a propósito de «Quando as aves voam para Sul».

Já a Elisa andou renitente, mas lá se rendeu a «Alchemised» mas por todos os motivos e mais alguns a sua sugestão é para o incontornável «Tóquio vive longe da terra» fazendo-nos recordar o quão é bom regressar a Ricardo Adolfo e às suas narrativas tão peculiares.

A Delgado referiu o filme «Nuremberg» e entre conversas cruzadas chegámos ao livros «Entrevistas de Nuremberga», ainda assim a sua sugestão recaí na dureza do relato que se experimenta em «Huris» de Kamel Daoud.

A Isa regressou a Isabel Allende, mas espalhou inúmeras outras sugestões, porque regressou a Delphine de Vigan, e cruzou leituras, porque uns livros chamam outros e recomenda «Lampedusa, ir e não chegar», sem esquecer «Lágrimas de sal» de Pietro Bartolo. Mas as suas sugestões não parara por aqui e ainda tomámos nota para um livro-piscina: «O último Natal em Paris» e «Últimos ritos» para regressar à Islândia e a Hannah Kent, à qual roubamos o título para este encontro.

No meio das sugestões (e das interrupções, como é normal!) sugerimos uns aos outros séries e documentários, como foi o caso de "True Love", "Howards End" e "Puros conhecidos", boas escolhas todas elas disponíveis na Rtp play.

A Célia não apreciou "nem todas as baleias voam" de Afonso Cruz que gerou alguma polémica, já que outros adoraram. A Ana Borges aproveitou logo para acrescentar que o autor será finalmente cabeça de cartaz de um dos festivais mais aclamados sobre viagens e literatura, já que é um autor querido da Roda e que outrora nos brindou com a sua companhia numa tarde entre livros e muitas muitas sugestões nos idos de 2014.

A Célia recordou ainda efeitos e sensações da releitura de "Ensaio sobre a cegueira" e puff estalou novamente a conversa e converseta porque afinal de contas Saramago é Saramago.

Como também é incontornável Pamuk e a Borges não podia deixar de ter e trazer como sugestão a mais recente edição em torno os moleskine do autor. Que lá nos fizeram voltar ao pensamento de que estamos seniores e as letrinhas pequenas já são tramadas da ler. 

A Sónia Maia acarinhou também a leitura e o regresso à tão típica riralidade presente na escrita de Carlos Capaniço, mas sugeriu a grande Lídia Jorge com o ser sempieterno "A Costa dos murmúrios". Teve ainda a acrescentar que a biografia dos meandros do Chega a cansou e não conseguiu ler tudo para saber todos os podres 😉

Nem todas as obras geram consenso, mas existem outras que nos fazem logo sorrir, é o caso dos livros de Álvaro Laborinho Lúcio com o seu "As sombras de uma azinheira” sugerido pela Patrícia, com a Sónia a concordar. E a Cristiana a sugerir “O Homem Que Escrevia Azulejos”.

Outro que reúne consenso, seja na estranheza seja no não esquecer detalhes do livro é a sugestão “O Quinto filho” lido e sugerido pela Cristiana (eu!) Do mês passado até agora andei entretida com os ensaios da compilação “Provocações” de Camille Paglia, autora que descobri ao ler a “Teoria King Kong”; dos ensaios saliento o brilhante – e felizmente extenso – texto sobre David Bowie.

E a reunião não poderia chegar ao fim sem ouvirmos a nossa querida Ana Marques com sugestões tão hilariantes como sérias, passando pelo testemunho “Últimas chances” de Natalia Timerman, uma auto-ficção sobre o luto de uma filha após a morte do pai e para desanuviar leu também “Boas meninas se afogam em silêncio” de Andressa Tabaczinski, mas a animação total recaiu com a referência “A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça”, tendo todas ficado curiosas com a animação que vai ser a Ana ler tal livro à miudagem.

E sem mais demoras a nossa pilha de sugestões. Pró ano há mais e celebram-se 13 anos de encontros e pilhas e pilhas de livros. 

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“Always home, always homesick” ou o encontro de Dezembro

Efeitocris, 17.12.25

O título do livro de Hannah Kent foi o mote perfeito para esta reunião de leitores em jeito de celebração de mais um ano que chega ao fim e em que estivemos juntos. E do quanto a Roda dos Livros é uma casa sempre aberta e pronta a receber os seus; estejam eles mais ou menos presentes mês após mês. Ano após ano.

A Roda pode ser como dizia David Trueba: “o lar é o único aberto toda a noite.” Assim parecem as nossas reuniões onde podemos sempre reencontra alguém com quem estivemos no mês passado ou alguém que não víamos há seis meses ou até um ano (ou dois ou mesmo três ;) porque a Roda é isso, é voltarmos a qualquer momento e sentirmo-nos sempre bem-recebidos, sem nunca deixarmos de sentir aquela saudade inquieta de outros anos, outras memórias, outras histórias. Tantos encontros, tantos livros, sempre os livros.

Que volte sempre quem tem estado mais longe, afastado ou atarefado. Que vão voltando nuns meses e noutros, para que a casa nunca fique vazia, para que a luz nunca se apague.

Desta vez, fomos dez pessoas à Roda dos livros, das chávenas e dos chocolates, cadernos e risos, gargalhadas e vontades, tudo reunido para fechar um ano de leituras partilhadas. Desta vez sem trocas ou sem prendas, mas com sorrisos e boas sugestões de leitura.

*

A chegada foi tudo menos silenciosa. Houve algazarra, risos cruzados, cadeiras a arrastar, mesas para arrumar e aquela confusão boa que só acontece quando o entusiasmo é palavra de ordem. Entre pôr a conversa em dia e esperar por todos, a certa altura, alguém falou em sermos um sério. “Sénior?” E a gargalhada colectiva rebentou…

“grupo sénior” e bastou uma sílaba trocada e logo o encontro a descambar numa piadola colectiva entre tantas que pautaram a tarde e que preenchem um compêndio de sacanices numa ode ao linguajar triumphal (e mais não se pode escrever porque mete anões, domadores de golfinhos e palavrões)

Porque quanto mais séniores ficamos

mais sérios estamos!

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E na seriedade que nos caracteriza deixamos-vos as seguintes sugestões:

Da parte da Vera - «A cinco palmos dos olhos» num regresso sempre saudoso às obras de Carlos Campaniço, embora a sua sugestão tenha de ser «Canção do Profeta» pelo espelho para os tempos conturbados por toda a Europa. E depois, algures no meio da conversa, lembrou-se de «Como animais» de Violaine Bérôt que recomendou a todas, cruzando referências com a Isa a propósito de «Quando as aves voam para Sul».

Já a Elisa andou renitente, mas lá se rendeu a «Alchemised» mas por todos os motivos e mais alguns a sua sugestão é para o incontornável «Tóquio vive longe da terra» fazendo-nos recordar o quão é bom regressar a Ricardo Adolfo e às suas narrativas tão peculiares.

A Delgado referiu o filme «Nuremberg» e entre conversas cruzadas chegámos ao livros «Entrevistas de Nuremberga», ainda assim a sua sugestão recaí na dureza do relato que se experimenta em «Huris» de Kamel Daoud.

A Isa regressou a Isabel Allende, mas espalhou inúmeras outras sugestões, porque regressou a Delphine de Vigan, e cruzou leituras, porque uns livros chamam outros e recomenda «Lampedusa, ir e não chegar», sem esquecer «Lágrimas de sal» de Pietro Bartolo. Mas as suas sugestões não parara por aqui e ainda tomámos nota para um livro-piscina: «O último Natal em Paris» e «Últimos ritos» para regressar à Islândia e a Hannah Kent, à qual roubamos o título para este encontro.

No meio das sugestões (e das interrupções, como é normal!) sugerimos uns aos outros séries e documentários, como foi o caso de "True Love", "Howards End" e "Puros conhecidos", boas escolhas todas elas disponíveis na Rtp play.

A Célia não apreciou "nem todas as baleias voam" de Afonso Cruz que gerou alguma polémica, já que outros adoraram. A Ana Borges aproveitou logo para acrescentar que o autor será finalmente cabeça de cartaz de um dos festivais mais aclamados sobre viagens e literatura, já que é um autor querido da Roda e que outrora nos brindou com a sua companhia numa tarde entre livros e muitas muitas sugestões nos idos de 2014.

A Célia recordou ainda efeitos e sensações da releitura de "Ensaio sobre a cegueira" e puff estalou novamente a conversa e converseta porque afinal de contas Saramago é Saramago.

Como também é incontornável Pamuk e a Borges não podia deixar de ter e trazer como sugestão a mais recente edição em torno os moleskine do autor. Que lá nos fizeram voltar ao pensamento de que estamos seniores e as letrinhas pequenas já são tramadas da ler. 

A Sónia Maia acarinhou também a leitura e o regresso à tão típica riralidade presente na escrita de Carlos Capaniço, mas sugeriu a grande Lídia Jorge com o ser sempieterno "A Costa dos murmúrios". Teve ainda a acrescentar que a biografia dos meandros do Chega a cansou e não conseguiu ler tudo para saber todos os podres 😉

Nem todas as obras geram consenso, mas existem outras que nos fazem logo sorrir, é o caso dos livros de Álvaro Laborinho Lúcio com o seu "As sombras de uma azinheira” sugerido pela Patrícia, com a Sónia a concordar. E a Cristiana a sugerir “O Homem Que Escrevia Azulejos”.

Outro que reúne consenso, seja na estranheza seja no não esquecer detalhes do livro é a sugestão “O Quinto filho” lido e sugerido pela Cristiana (eu!) Do mês passado até agora andei entretida com os ensaios da compilação “Provocações” de Camille Paglia, autora que descobri ao ler a “Teoria King Kong”; dos ensaios saliento o brilhante – e felizmente extenso – texto sobre David Bowie.

E a reunião não poderia chegar ao fim sem ouvirmos a nossa querida Ana Marques com sugestões tão hilariantes como sérias, passando pelo testemunho “Últimas chances” de Natalia Timerman, uma auto-ficção sobre o luto de uma filha após a morte do pai e para desanuviar leu também “Boas meninas se afogam em silêncio” de Andressa Tabaczinski, mas a animação total recaiu com a referência “A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça”, tendo todas ficado curiosas com a animação que vai ser a Ana ler tal livro à miudagem.

E sem mais demoras a nossa pilha de sugestões. Pró ano há mais e celebram-se 13 anos de encontros e pilhas e pilhas de livros. 

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Crónica de uma reunião imaginária

Ou o encontro de Novembro

Efeitocris, 25.11.25

O trio aproximou-se da biblioteca depois de um almoço preguiçoso ao sol. A Dona Aveia atrasou-as tanto quanto pode… parece que estava a adivinhar que esta reunião de Novembro não aconteceria. Entre olfatar aqui e ali, abanava o rabito, conquistando sorrisos e demorando a Isa e a Cris.

— Estou convencida de que a esplanada devia ser património imaterial do nosso clube. — sugeriu uma delas, entrando na biblioteca.
— Será que já está alguém à nossa espera? — a pergunta era do mais retórica que pode haver, sabiam que não deveriam vir muitas rodistas, mas o segurança que lhes abriu a porta disse logo que «Não! Eram as primeiras”»

A sala estava vazia e fria e rapidamente se acomodaram ao sol. A Dona Aveia aproveitou para se estender e preparar a sesta. Facilmente se põe a ressonar como se o mundo inteiro fosse um sofá confortável.

Sentaram-se, ainda embaladas na conversa que vinha da rua, mas começando a depositar livros na mesa.

— Então? – disse a Isa, tirando da bolsa Daytripper —vens com artilharia pesada, ao ver os livros da Cris: Kilomba, DiAngelo e Paglia… estás a preparar alguma tese ou quê?

Riram-se. Ambas sabiam que são livros destes, temáticos e suculentos, que dão sempre para ampliar as conversas e apimentar os tópicos extra.


— Acredita, depois destas três leituras, sinto-me com mais dúvidas ainda, mas como já tinha começado, no mês passado, com as leituras do wokismo de Mcworth e do feminismo pela Wittig, achei muito bom para desarranjar ainda mais as ideias. Mas olha, gostei… e não gostei. Foi assim uma confusão, um misto de emoções e ideias.
— Mas também é bom quando os livros nos dão isso, certo?

— Tem dias. — e riram.

— Mas o que gostei mesmo e quero dar destaque é o da Paglia. Consegue formar imagens brutais com meia dúzia de palavras… «Provocações» é um autêntico roteiro de músicas, imagens e momentos ao longo de mais de vinte anos. Muito bom.

A Isa mexeu nas novelas gráficas e soube logo que a Cris estaria a pensar que Daytripper teria algo a ver com cães, já são amigas a esse ponto para saberem ler alguns trejeitos sem que venham com uma palavra agarrada.

— Olha que o Daytripper, de Fábio Moon, também mexe um pouquinho com a gente, com estas formas alternativas de viver e reviver de Brás de Oliva Domingos. 

A Cris fez um aceno de quem compreende demasiado bem aquele sentimento. E acrescentou:
— E cruza bem com Joyce, de certeza.

— Sim! E foi uma porta para descodificar a obra de Joyce. Mas a minha sugestão é mesmo Lampedusa: Ir e Não Chegar.
— É duro?

— Tive momentos que fui respirar ao terraço.

E ficaram em silêncio, mas foram logo interrompidas pelo ressonar com convicção da Dona Aveia. E deram por elas a olhar aos relógios e a perceberem que não vinha mais ninguém. O clube hoje pertencia-lhes😉 e partilharam uma foto com a Patrícia. 

— Sabes, acho que não vem mesmo mais ninguém. — disse a Isa, ajeitando os cabelos quentes do sol.

— Acho que somos mesmo só nós.

Lá fora, o sol estava apetecível. E num olhar compreenderam-se. Por hoje estava feito. 
A Dona Aveia abriu um olho, ergueu a cabeça e olhou para a porta como quem desafia um: Vamos passear?

— Vamos! – e já arrumavam o espaço.

— Bora! – confirmou a Cris, gerando um salto imediato na Dona Aveia.

*

E a reunião, tal como sempre, começou antes de começar. Nas conversas, nas trocas de mensagens, nas partilhas de livros entre qualquer outra conversa real ou virtual…ou mesmo sem quórum para reunir oficialmente. Porque a Roda é isto, uma conversa interminável há já mais de uma década. Mas é sempre melhor com os Encontros mensais. Portanto, que venha Dezembro e que venha mais gente. Que a Roda faz falta a todos. Sem excepção!

Sugestões

- PROVOCAÇÕES de Camile Paglia

- LAMPEDUDA, ir e não chegar de Ana França 

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Setembro e uma mão cheia de leitores

Efeitocris, 10.10.25

Numa tarde quente ainda a cheirar a verão (felizmente!), a Roda parecia encolhida. Éramos cinco e mal enchíamos uma mesa. Mas cinco é uma mão cheia ou mancheia e tal como as mãos que nos guiam nos gestos mais simples ou nos sustentam nos mais complexos, foram esses cinco leitores os suficientes para abraçar tantos temas e sentimentos como livros que abarcaram o mundo inteiro. Claro que foram - e são sempre 😄 – mais os livros que os dedos das mãos.

Isso é certo e maravilhoso nos nossos encontros mensais.

Então vamos lá saber mais sobre essa mão cheia de livros. 

O polegar, símbolo de aprovação, ergueu-se para todos, é claro, mas talvez o like maior vá para «Leitura Fácil» de Cristina Morales por ser uma narrativa sui generis, carregada de vozes peculiares e talvez possamos até dizer que tem um impacto militante e tantos são os seus temas que não há dedos suficientes para apontar todas as questões que o livro levanta com brutalidade e “bastardismo”.

Esticando o indicador, deixamos que aponte para «Racismo Woke» de John McWhorter, cheio de interpelações ao leitor e alertas. Um livro indicador de polémicas e pedidos de atenção — para o uso das palavras, para as camadas do ativismo identitário e para os lugares de luta anti-racista e todas as polémicas envolvendo o tema.

Entre o polegar e o indicador, formou-se o gesto 👌. E ali encaixou-se «Uma mulher desnecessária» e outro não lhe poderia tomar o lugar. A obra de Rabih Alameddine obriga a unir esses dois dedos num sinal de excelência, que nos levou a pensar no quanto é envelhecer invisível. É uma narrativa de resistência através da leitura e dos livros, uma lição sobre cooperação e vizinhança e sobreviver nas franjas da sociedade.

Com ligação directa ao coração ou no anelar podemos colocar vários dos livros falados durante o encontro. «O caminho do sal»; «Portugal hoje, o medo de existir»; «Lucy» ou ainda «As crianças adormecidas». Os sentimentos e seus desdobramentos, raízes, traumas e liberdade, tudo ecoa e encaminha para a memória colectiva e a afectividade. Por isso, no dedo das alianças, compromissos e promessas escondem-se vozes contida, intensidades e superações, mas também gritos de denúncia e manifestos.

Restando ainda o mindinho, pequeno e essencial para o equilíbrio, traz-nos detalhe e minucia, por isso «Líbano – uma biografia», «Um país sem amor» e «The story of a heart» que, à primeira vista, são livros discretos, mas completam histórias com História, sustentando temas densos sem alarde ou exageros.

Mas onde encaixar «Reencontros» de Fred Uhlman ou os já repetentes «Lobos» de Tânia Ganho e «O relatório Brodeck» de Philippe Claudel? Livros que escorregam entre os dedos, inquietos e que resistem ao encaixe. Falam de medo, exploram fábulas, denunciam a violência, engrandecem a resistência e exploram realidades que arrepiam. São narrativas que cabem na palma da mão, mas com facilidade esmiúçam o mundo à sua volta.

Então, sem mais demoras e deste encontro com anatomia simbólica, eis a pilha de recomendações.

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Foram 5 dedos 5 leitores e um gesto essencial: abrir a mão e estender o que se leu ao outro. E mesmo que sejamos poucos, quando há escuta, há um mundo a descobrir.

Para ver quem é que anda à Roda * Encontro de Agosto

Efeitocris, 28.08.25

Se me dissessem que em Agosto íamos reunir com casa cheia, um clima ameno e a calma doce da Dona Aveia a guiar a reunião, eu não acreditaria. E porquê?

Ora… porque as reuniões de Verão tendem a ter poucos rodistas e a Dona Aveia anda numa de participação esporádica e muito selectiva, só quando mesmo lhe apetece. Já para não falar das temperaturas de canícula que afastam outros participantes.

E além do mais, a reunião de Agosto chegou antecipada, mas felizmente teve como brinde uma leve brisa que aconchegou uma ou outra sesta, porque afinal o membro canino tem alguma idade e as tardes estivais pedem sempre uma power nap. E afinal, aos chefes tudo é permitido! Certo?

Claro que sim!

Aquele riso patudo derrete-nos os corações. Firmou-se no centro da Roda como quem diz: “A reunião começou, pessoal. Quem fala primeiro? Patrícia, és já tu.”

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E assim foi. E a Patrícia falou.

E falou de dramas familiares, sagas que estendem a gerações e aventuras fantásticas em Rio Perdido e mais uma vez Blackwater foi alvo das nossas atenções. Mas antes que a conversa se perdesse, a Don Aveia deu uma rosnadela  diplomática e apontou as orelhas… “Não vamos já começar a desordem, pois não meninas?”

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O que nos faltava mesmo era uma patada destas. Gentil mas determinada. Um convite à ordem pouco regrada que pauta cada Roda.

E mesmo que Blackwater tenha laivos de novela mexicana, não deixamos que os mariachi entrassem e seguimos com uma reunião tranquila e ouvimos a Patrícia nos contar que “Também há rios no céu” e que os livros de Elif Shafak merecem muito ser lidos e aqui a escriba segredou à sua patuda que nunca leu um livro da Shafak… Se calhar devias, disse a Dona Aveia em tom de sugestão, mas para quem a conhece sabe que queria dizer: “Não digas isso a ninguém e vai já corrigir essa lacuna. E no regresso traz biscoitos.”

O inventário podia continuar, mas sorte de um patrão sonolento é que em breve baixa a guarda e deixa a malta em auto-gestão, só assim podemos discutir e afirmar que «O inventário de sonhos» da Chimamanda fica um pouco a dever ao entusiasmo de outrora das suas narrativas africanas e que vamos metendo uns livros pelo meio desta leitura, que é como quem diz que nos sentimos culpadas de o deixar de parte.

A Dona Aveia diminuiu a sua atenção, entrou em modo Pausa e bocejou no colo de recomendações mais serenas… especialmente para ela que não fala russo e quando ouviu a Célia e a Renata discutirem se Tolstoi ou Dostoievski, deu um ar de sua graça com a cauda e fez um arrear estratégico — sinal de que era hora de deixar fluir a conversa sem moderação.

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E lá fomos nós, partilhando sugestões, umas tão desvairadas como um resumo de novela juvenil, outras profundas como se publicássemos um tratado filosófico caseiro.

Entre gargalhadas e lampejos de sabedoria, houve quem trouxesse leituras de autores que brincam com estilos, quem comentasse dramas mais sombrios, e quem citasse frases inspiradoras só para adensar o grau de profundidade literária — tudo isso enquanto a Aveia dormiam, ora na sua varanda privada ora na cama fofa e fazia círculos suaves ao nosso redor, passeando-se entre nós como quem garante que é visto, sentido e nunca esquecido… como o fazem certos livros e alguns deles tiveram palco nesta reunião, quem é como quem diz: “James”; “Orbital”, “Boulder”, “Túmulo de Areia”, “As malditas”, “melhor não contar”, “O bom mal”, “Triste Tigre”, “O Paradoxo do Cérebro” ou “As crianças adormecidas”

E se todos estes títulos não bastassem, há ainda a apologia de “Mudar de ideias” agora peneirada no crivo de Julian Barnes, entre mais títulos repetidos e tantos outros de policiais sangrentos e uns quantos títulos de livros-piscina que os roditas tanto gostam. Upa, upa, especialmente no verão para ler à sombra e á beira-mar.

Chegou o momento da pilha de sugestões, desta vez digna de fazer sombra a qualquer outra erguida este ano. Com direito a segura e-coisos cristalinos que quase quase não se fazem notar, esquecendo que estes dispositivos que se auto-intitulam de livros não são sequer capazes de se erguer sozinhos, nespecialmente nestas temperaturas. E sem mais demoras ou referindo quem sugeriu o quê e qual (e entretanto acordamos a patuda), fica a nossa bonita pilha de sugestões para lerem até ao Natal que deve ser quando voltamos duas mãos cheias de gente a animar as tardes da nossa Aveia.

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«Eliete» de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Entre cenas da vida normal, as fendas da maturidade e uma família destelhada

Efeitocris, 31.07.25

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A vida de Eliete decorre dentro da normalidade. Vive-se entre jantares, idas ao ginásio, mensagens trocadas com a filha e a mãe, e uma relação conjugal que se cumpre mais por hábito do que por afecto. No entanto, é nesta vida dita “normal” que Dulce Maria Cardoso faz emergir uma inquietação subtil, mas persistente — o ruído da privação. A privação de sentido, de escuta, de possibilidade. A Eliete não é uma mulher em colapso, mas alguém “a perder o pé à vida e a estar ancorada na dúvida”.

A família a que pertence é uma família destelhada, onde ainda sobram algumas telhas. E talvez seja isso a normalidade: viver sob uma estrutura que já teve mais força, mais abrigo, mas que continua de pé, colada por uma argamassa difícil de nomear. O que a mantém? O hábito, o dever, o medo da perda, ou apenas a falta de energia para reinventar tudo? A resposta ficará com cada leitor.

O livro é também sobre as ligações familiares como herança — e como prisão. Eliete vive rodeada de um passado povoado por mortes precoces, como a do pai, cuja ausência deixou um “amor filial sem destino”, uma dor sem pouso. A utilidade da morte, diz-se, é o sofrimento que deixa nos outros. E é isso que se impõe: os fiapos de memórias, colados por cheiros, fotografias, conversas repetidas, e que agora, com a doença da avó — guardiã maior dessa história —, parecem ameaçar desaparecer de vez.

Com uma escrita de precisão sensível e frases incisivas, Dulce Maria Cardoso evita qualquer dramatização. A protagonista move-se com dúvidas reais, inquietações que pertencem a qualquer pessoa — não são “dúvidas de mulher”, nem dramas íntimos exagerados. A autora dá corpo a uma personagem que questiona o papel que desempenha nos outros sem abdicar da procura de um espaço próprio. E, nesse movimento, toca questões fundamentais: como preservar os laços sem nos apagarmos? Como continuar a amar sem nos reduzirmos?

A falta de imaginação, o estar atracada à realidade, são formas de sobrevivência. Eliete não explode — resiste. E essa resistência ganha forma nas suas pequenas rebeliões: permitir-se apaixonar, por exemplo, é permitir-se a sonhar com um futuro, e isso, por si só, é um ato que desequilibra. Porque ao sonhar, Eliete desafia a previsibilidade do quotidiano, esse dia após dia onde tudo parece controlado mas nada é plenamente vivido.

O romance é um inventário de falhas, de silêncios e de tentativas. Mesmo que ela própria não quisesse fazê-lo, lá está “o dedo da mãe” para lembrar tudo o que ficou aquém. E talvez seja nesse entrelaçado de dores e tentativas que o livro mais nos toca — porque reconhecemos ali não só Eliete, mas muitos de nós, a tentarmos viver com as telhas que restam.