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Roda Dos Livros

“Homens imprudentemente poéticos” de Valter Hugo Mãe :: Opinião

Roda Dos Livros, 17.12.16

Homens imprudentemente poéticos, Porto Editora, Deus Me Livro, Valter Hugo Mãe

O ser humano é só carne e osso e uma tremenda vontade de complicar as coisas.

A frase é de Valter Hugo Mãe, não deste seu último romance, “Homens imprudentemente poéticos” (Porto Editora, 2016), mas do já consagrado “A máquina de fazer espanhóis”. A vontade do homem em complicar persiste, mas aqui, seguindo uma inspiração e tradição mais oriental, há também o espírito e um apelo às pequenas coisas, simples e delicadas da vida, que podem poetizar a nossa existência.

A linguagem luminosa e repleta de micro cenários a que Valter Hugo Mãe já nos habituou, povoa esta narrativa e traz até ao leitor um Japão antigo. Cenário longínquo que dá lugar a uma quezília entre vizinhos, permitindo-nos descobrir a vida de Itaro e Saburo, que através das suas lutas diárias medem forças e revelam uma cultura ancestral, testando também a força da Natureza e o poder da mesma no avanço desta história.

Havia uma expectativa de salvação embora, inconfessável, se espalhasse o medo da contaminação da morte (…). Ou talvez o sábio fosse tão eufórico quanto as árvores da morte, satisfeito com a coragem antiga dos que se entregavam à matéria da natureza.

As preocupações a que assistimos neste livro dão continuidade e são transversais aos vários livros do autor: a morte, os medos, a procura do sentido da vida, a importância de conhecer o outro ou até a busca pela serenidade estão espelhados nos detalhes com que se caracterizam as personagens, ou na forma que às vezes parece lenta e fragmentada, como a história avança.

Para explicar que ser quem era já pressupunha mais raiz do que os troncos a servir de alicerces. Já tinha tanta pertença quanto a pedra despontando entre as madeiras do chão.

A pequena comunidade tinha-lhes compaixão e notava bem que se deixavam nos amores igual a serem crianças a vida inteira. Eram poucos normais, diziam assim. Faltavam à lucidez por solidão.

Talvez não se ache logo um fio condutor harmonioso, mas antes um turbulento e que aparenta ter segredos: “Pensava que, por definição, todos os segredos eram modos de lonjura.

No entanto, estes modos de lonjura, essas tristezas alheias ou os rostos e as honras fragilizadas, trá-las Valter Hugo Mãe nas palavras e nos pedaços grotescos que convoca para as vidas destas personagens, convidando-nos a acolhê-las, preenchendo um vazio que todos carregamos e a celebrá-las, na interminável viagem que é viver.

O amor, na perda, era tentacular. Uma criatura a expandir, gorda, gorda, gorda. Até tudo em volta ser esse amor sem mais correspondência, sem companhia, sem cura. Que humilhante a solidão do amante. (…) O amor deixado sozinho é uma condição doente.

Homens Imprudentemente Poéticos - Valter Hugo Mãe

Roda Dos Livros, 08.12.16

homensimprudentementepoeticosFoi como ser abrigada pelo silêncio. E eu gosto do silêncio. Tanto que o procuro sempre, e abrigo-me nele como quem se aconchega debaixo de uma asa cálida.

Este livro trouxe-me silêncio. Porque quando entrei nas suas páginas o mundo calou-se. Não havia mais nada além das palavras. Que não foram serenas. Nem me trouxeram paz. Nem mesmo o amado silêncio. Estas palavras são mágicas. Rodearam tudo de silêncio para, só elas, serem escutadas.

Avançar nas páginas foi como submergir, como se a leitura fosse criando uma bolha que isola quem lê, como se o livro passasse a ser dono do espaço, do tempo, e até do ritmo. Ler Homens Imprudentemente Poéticos é obedecer. É ler ao compasso imposto, lento, por vezes arduamente lento, como se uma página pudesse durar dias e a releitura fosse uma urgência, uma imposição que, de cada vez, oferecia novas descobertas.

A delicadeza habitual da escrita de Valter Hugo Mãe funde-se de modo perfeito na serenidade do Japão, país que mesmo para a guerra se apoia na concentração, em que a violência é pensada, meditativa, mas não menos mortal. Das artes marciais ao Ikebana os mesmos princípios, mas objectivos tão díspares quanto a morte e a beleza contemplativa.

A simplicidade, quase infantil, é um engodo hábil em que me enredei sem resistência, cedendo com prazer à narrativa poética que, ardilosa e bastante mais complexa do que se suspeita à partida, me foi surpreendendo com ocasionais socos no estômago, dos quais não me queixo. Ao contrário, agradeço. Ou não fossem as leituras dolorosas as que mais marcam, e as que guardo de forma definitiva nas minhas memórias mais singulares.

A viagem é longa. Mas apesar do Japão ser distante as premissas de Homens Imprudentemente Poéticos são comuns a todas as geografias. Há o ódio que, não se sabendo bem porque surge, é alimentado de picardias e provocações numa sucessão de dias que lhe dão uma dimensão irracional. Tão longe pode ir a aversão ao próximo que a morte se afigura como uma possibilidade lógica. A violência é apenas mais um passo. O medo é inexplicável, mas todos o sabemos sentir. Na relação de dois vizinhos que se atormentam de ódios, e vivem entre a defesa e o ataque como num campo de batalha, o medo é inevitável. É como uma corda que num dia é puxada com mais afinco por um, e no outro dá mais metros ao seu inimigo. O receio da corda quebrada é palpável e a espera consome por dentro.

Ítaro e Saburo são os vizinhos que se perseguem e controlam. Com as mesmas mãos com que criam beleza, Ítaro pinta leques muito belos e Saburo produz peças de olaria, procuram concretizar vinganças. As mesmas mentes que pensam beleza planeiam maldades, numa constante dualidade. Ou não fossem eles humanos.

É curioso como um livro que, geograficamente, leva o leitor para longe e lhe apresenta uma floresta feita de silêncios, pode transmitir uma sensação de tão forte proximidade. As diferenças culturais são evidentes, mas nem mesmo os distintos modos de encarar a morte trazem maior ou menor poder sobre o que se teme. Ou sobre aquilo de que se sente falta. E é, por vezes, no escuro que melhor se vê o caminho, escutando os sentimentos ao mesmo tempo que se tapam os olhos.

“A cegueira era, a cada instante, uma expansão”. Citação. Página 205.

Como o próprio Ítaro que, no seu confronto forçado com as sombras, encontra no fundo de um buraco escuro a pessoa que ainda não tinha descoberto na superfície. Há um renascimento no enfrentar do medo, não o subestimando, mantendo o temor e até mesmo criando dependência daquilo que se receia. A viagem do auto-conhecimento é solitária.

Homens Imprudentemente Poéticos descobre-se aos poucos. Exige a entrega que já referi. Espanta pela linguagem destemida, diferente, a que parecem faltar palavras que afinal não fazem falta. Tem a originalidade de quem escreve sem medo do risco. De quem escreve como quer. De quem escreve como sente.

Sublinho e faço anotações nos meus livros. Coloco marcas com a ideia do regresso. Neste caso refreei o impulso, por recear sublinhar o livro todo.

Homens Imprudentemente Poéticos não se esgota nas vezes que se relê. É uma leitura que termina nunca.

“Homens imprudentemente poéticos” de Valter Hugo Mãe

Roda Dos Livros, 06.11.16

   

vhm“(...) Trago ao Universo um novo Universo

Porque trago ao Universo ele-próprio (...)

Alberto Caeiro in “O guardador de rebanhos” (XLVI)

 

As premissas básicas são simples. São, afinal, traços comuns a todas as existências: amor, medo, violência, ódio, morte, dor, felicidade, aceitação e, eventualmente, redenção. Tudo com o Japão como pano de fundo e tudo parecendo simples, enganadoramente simples, pela familiaridade confortável das palavras em língua materna. Contudo, a magnificência da escrita obriga a abrandar o ritmo da leitura, lê-se como que encerrado numa bolha suspensa na trama do espaço-tempo, ou seja, num tempo diferente, quase suspenso, escoando-se em instantes deliciosamente lentos. Tal como um origami, em que objectos delicados, belos e complexos, emergem a partir de um simples quadrado de papel colorido, assim Valter Hugo Mãe construiu este romance: pegando nas palavras simples e dobrando-lhes os cantos, vincando-as e reinventando os seus ângulos. Fica-se então, pasmada, enredada na beleza e na profundidade do que está escrito, lê-se e relê-se, uma e outra vez, é-se a agulha do gira-discos sobre um disco riscado.

Em “Homens imprudentemente poéticos” Itaro, prisioneiro do seu ódio pelo vizinho e da dor da ausência da irmã, aceita confrontar-se com a escuridão, com a sua sombra, e consegue enfim, transcender-se e atingir o entendimento que procurava. Ao abraçar o seu medo, o seu inimigo invisível, emerge do poço pacificado e com um talento renovado para a arte de fazer de leques cuja beleza excepcional  deslumbra quem os contempla. Olhar para os abismos interiores, apesar de penoso, torna-se necessário porque o conhecimento da sombra, para além de uma medida mais precisa de si mesmo, oferece também uma compreensão mais profunda do lugar do ser humano na natureza, no cosmos em que vivemos. Aceitando as sombras apreciamos melhor a luz, entrevemos enfim uma certa paz, uma certa redenção.

Este é um livro com uma personalidade muito própria, deixa-se ler apenas ao seu próprio ritmo, deixa-se perceber aos poucos, obrigando assim a uma entrega completa à sua leitura. Mas vale bem a pena. Muito.

Uma nota final: Muito obrigada Valter Hugo Mãe por não adoptar a chamada nova grafia do português!

Excertos:

“Outra vez Itaro desfez um besouro no chão e o observou. Melhor o desfez, correndo a pedra para trás e para diante a estender a cor que a mínima humidade do bicho deitava. Bateu com a pedra, e havia uma raiva crescente, uma incontrolável vontade de ferir algo que se ausentava da realidade tangível do mundo. A senhora Kame lhe tomou o pulso, para que aceitasse a medida da morte. O besouro nunca morreria mais do já morrera, e as ideias nunca terminariam à força de um golpe, por mais desaustinado que fosse desferido.”

“O amor, na perda, era tentacular. Uma criatura a expandir, gorda, gorda, gorda. Até tudo e volta ser esse amor sem mais correspondência, sem companhia, sem cura. Que humilhante a solidão do amante. O oleiro disse assim: que humilhante o coração que sobra. O amor deixado sozinho é uma condição doente.”

“Sem tangibilidade, ver humilhava a memória, que nunca recuperaria a completude de coisa alguma. A memória era o resto da realidade. Uma sobra que mutava para a ilusão com facilidade.”

“Ela disse: os meus brinquedos são as palavras. Persigo o encantamento de que são capazes.”

“Itaro descia sobre os leques igual a um animal e suas crias. Desassombrado, subitamente pintava perfeitos bocados do mundo e se deslumbrava. Eram os seus últimos olhos, dizia, como se a cada dia usasse olhos diferentes até ter de deixar de os usar. E quem ocorria de comtemplar os seus trabalhos igualmente pasmava, porque eram deveras instruções de perfeição, lições de como um pássaro devia ser se algum pássaro alguma vez tivesse dúvidas. As imagens de Itaro enterneciam a natureza.”

“E Itaro pintava, demorava-se absurdamente a ver cada leque, e subitamente regressava à necessidade de pintar. Era inesgotável. Ele dizia. Que o deslumbre nunca se eternizava.”

«A Desumanização» de Valter Hugo Mãe - Opinião

Efeitocris, 26.11.13

«Um homem não é independente a menos que tenha a coragem de estar sozinho.»

Halldór Laxness, Gente Independente 

E você, será capaz de estar sozinho para ler este livro?
Não se trata propriamente de um livro assustador ou de terror, mas pode aterrorizá-lo e desumanizá-lo um bocadinho. E utilizar o diminutivo é apenas para reduzir a elevada dor e angustia que atormenta, a já atormentada vida de Halldora.

«A Desumanização» são as sobras, as dores, as perdas, os terrores de ficarmos sobreviventes da morte. A morte dos outros mata-nos. Apesar de estarmos todos a morrer, a morte de alguém que amamos e que nos completa, mata-nos mais um pouco e deixa um buraco, um fosso, uma negritude que não se ilumina. Uma profunda tristeza que levaremos para o dia-a-dia e que nos envergonha cada vez que sorrimos e nos redimimos da dor, querendo avançar na vida.

É este o retrato com que Valter Hugo Mãe emoldura a solidão de caminharmos na vida sem um ente querido. No caso de Halldora, a perda da irmã gémea, Sigridur faz dela a metade menos morta da criança plantada. A ideia dos corações dos mortos como caroços na terra, semeiam uma certa bizarrice, mas não deixa de ter um certa inocência de explorar um tema tão misterioso e tabu quanto a morte surge quando se é criança. Agora imaginem quando a morte nos leva o nosso espelho, o gémeo, a outra metade de nós, igual a nós, aquela parte intrínseca e que nos completa.

Para além do peso da morte da irmã, Halla carrega o peso de sobrar para uma mãe atormentada pela dor de ver em Halldora a imagem constante do que a vida lhe roubou. A dor maior, a perda de um filho é aqui violentamente exposta por imagens muito fortes. A dor física como purga da dor invisível que nos mata por dentro, é mais dolorosa ainda quando feita no corpo do outro e este outro é a criança. É logo nas primeiras páginas que vemos uma mãe perturbada ferir-se e ferir quem deveria proteger. Desumanizem-se, se assim precisarem. Soltem-se da imagem mental que fica, mas leiam. Leiam até ao fim.

“Quem sepulta um filho não tem idade. Está para lá das idades, para lá dos tempos.” (pág. 131)
“Em sobrar estava a oportunidade de prosseguir e de alguma vez ser feliz.” (Halldora, pág. 159)

A terra como comedora da felicidade. A Islândia como um corpo pulsante. Deus está na Islândia, a Islândia é deus! A ideia da terra e do papel dos mortos debaixo da terra é, a meu ver, dado como metáfora para o quanto as raízes e a nossa posição geográfica condicionam a nossa visão da vida, aliás a nossa visão do mundo. O gelo e as temperaturas negativas talvez justifiquem a tal desumanização? Sempre que nos defendemos e criamos estratégias para lidar com os outros, ultrapassando-os, desumanizamo-nos? Serão essas defesas altas barreiras como as montanhas, afastando-nos, estratificando-nos uns dos outros?
E se nos afastarmos, quando perdemos o outro, sofremos menos!?

São inúmeras as questões que as metáforas e os jogos de palavras, tão visuais, levantam nesta sua viagem e homenagem à terra dos fiordes. Como a própria criança afirma, “Os livros eram ladrões. Roubavam-nos do que nos acontecia. Mas também eram generosos. Ofereciam-nos o que não nos acontecia.” (pág. 63) E este livro é isso mesmo uma utopia de chegar ao outro e quebrar a barreira, é uma oferenda. Um enredo ensanguentado, que nos faz pensar a solidão, que o autor acredita ser de todos nós (entrevista no Bairro Alto, aqui).

“A poesia é a linguagem segundo a qual deus escreveu o mundo. (…) Onde há palavra há deus.”
Se deus está na Islândia e a Islândia está neste livro, então este é um livro sobre deus!? Talvez seja uma tentativa de desumanizar a morte e o encontro com deus… talvez! Mas isso caberá a cada um de nós sentir o que esta leitura nos traz.

«Queria proteger contra o esquecimento. A maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado.»
 

"A Desumanização" de Valter Hugo Mãe

Roda Dos Livros, 15.10.13

Os livros são lidos de acordo com o nosso estado de alma e, inquieta como ando, este livro transmitiu-me uma instabilidade que não me agradou.A escrita tão sui generis deste autor (li A máquina de fazer espanhóis e adorei!) em vez de me prender teve o condão de me dispersar e tive de repetir algumas partes do livro para entender o que por lá era dito. Acredito que o meu estado de alma não seja o melhor para uma leitura onde a prosa se mistura com mestria na poesia, mas ficará para outra ocasião uma outra leitura com outros olhos ou outros "sentires".O facto de ter sido "escrito" por uma menina de 13 anos atraiu-me e nem pensei em não terminar a história que ela me contava. O tom íntimo com que impregna às palavras deixa um laivo de mistério que nos força a querer saber como termina a história. Mas tê-la-ia apreciado mais e melhor não fora a escrita tão própria do autor pois, como já referi, o seu tom poético fez-me dispersar nesta leitura.

Estrelas: 4*

Sinopse

«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo.

A Desumanização de Valter Hugo Mãe

Roda Dos Livros, 14.10.13

Os livros são lidos de acordo com o nosso estado de alma e, inquieta como ando, este livro transmitiu-me uma instabilidade que não me agradou.

A escrita tão sui generis deste autor (li A máquina de fazer espanhóis e adorei!) em vez de me prender teve o condão de me dispersar e tive de repetir algumas partes do livro para entender o que por lá era dito. Acredito que o meu estado de alma não seja o melhor para uma leitura onde a prosa se mistura com mestria na poesia, mas ficará para outra ocasião uma outra leitura com outros olhos ou outros "sentires".

O facto de ter sido "escrito" por uma menina de 13 anos atraiu-me e nem pensei em não terminar a história que ela me contava. O tom íntimo com que impregna às palavras deixa um laivo de mistério que nos força a querer saber como termina a história. Mas tê-la-ia apreciado mais e melhor não fora a escrita tão própria do autor pois, como já referi, o seu tom poético fez-me dispersar nesta leitura.

Terminado em Setembro de 2013

Estrelas: 4*

Sinopse

«Mais tarde, também eu arrancarei o coração do peito para o secar como um trapo e usar limpando apenas as coisas mais estúpidas.»

Passado nos recônditos fiordes islandeses, este romance é a voz de uma menina diferente que nos conta o que sobra depois de perder a irmã gémea. Um livro de profunda delicadeza em que a disciplina da tristeza não impede uma certa redenção e o permanente assombro da beleza.

O livro mais plástico de Valter Hugo Mãe. Um livro de ver. Uma utopia de purificar a experiência difícil e maravilhosa de se estar vivo.