No céu não há limões de Sandro William Junqueira - Opinião

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Seria mais fácil escrever sobre “No Céu não há Limões” se a leitura me tivesse desagradado. Há semanas que virei a última página e sinto dificuldade em expressar qualquer opinião.
É difícil dizer que se gosta do que não se entende por inteiro, e que se imagina que o que não se entende podem ser coisas nossas, só para entender, para fazer sentido.
Tudo neste livro pode ser estranho e fazer toda a lógica. Depende da forma como se olha. Mas não é assim sempre? Em tudo? Uma escolha?
Profundamente reflexivo e pessoal, o início e o fim são secundarizados pelo conteúdo, como uma viagem que não quis terminar, um percurso que quero repetir, e sei que de cada vez irei a lugares novos.
Possivelmente distópico. Extraordinariamente especulativo. O grotesco que, ao invés de repelir, atrai. É-me mais fácil sentir atracção pelas descrições feias, duras, levadas a extremos pela habilidade de quem escreve, do que por contos felizes que não magoam nem arranham no sítio onde sentimos as coisas. Porque quando nos dói faz pensar, relacionar, observar cada dia um pouco mais, de várias perspectivas, até entender que mais importante do que chegar é viver a caminhada.
Personagens únicas mas que na verdade podem ser tantas pessoas, mais fortes esmagam os mais fracos, poder levado a extremos de controlo e manipulação, traição e outros meios para atingir fins. Um laboratório de estudo da natureza humana no limite, que se converte numa natureza ilimitada, num assustador tudo é possível, descendo ao banal “salve-se quem puder”.
Um livro que me ofereceu liberdade para pensar.
Extraordinariamente bem escrito. Cru. Limpo. Sem artifícios desnecessários. Sem dor suavizada.
E termino. Sentindo que quem me lê não entenderá nada mas que disse quase tudo.
Sinopse
“No Céu não Há Limões descreve um mundo em guerra entre o Norte rico e o Sul pobre, em que os pobres do Sul tentam por todos os meios ter acesso ao bem-estar do Norte, e os do Norte usam de todos os meios para conservar a sua riqueza só para si.Sandro William Junqueira não apresenta soluções, mas à medida que o livro se aproxima do final uma personagem se destaca - o padre -, procurando uma saída. Será esta uma saída?O autor não dá a resposta. A resposta fica com cada um de nós, porque este é o nosso mundo.”
Caminho, 2014
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Na maioria dos livros a escrita depende da estória. Aqui, nitidamente, a estória rende-se à escrita. Ainda não sei se isso me agradou.
Num livro busco acima de tudo uma estória bem contada que me faça encontrar outros mundos, que me permita identificar-me com alguns personagens. Claro que a escrita é fundamental mas é à história que dou o papel de protagonista.
No céus não há limões é uma estória distópica que se nos apresenta de uma forma nada linear. A primeira coisa que percebemos é que nenhum personagem tem nome. Todos eles nos são apresentados de acordo com uma característica mais ou menos vincada. O padre, o Funcionário, os Gémeos, a Avó, a Adolescente, a Viúva, o Ogre, O Raquítico de cabelo ralo, o Aleijado, o Acólito, a Filha. Curiosamente o único que tem nome é o gato, Mau-Mau. E como numa peça de teatro um mundo diferente (e limitado) desenvolve-se sob os nossos olhos.
Na maioria das distopias a análise sociológica do mundo criado é o mais importante e o que mais desperta a atenção do leitor. Essa análise sociológica está bem presente neste livro mas não da forma habitual. Uma peça de teatro, uma experiência num laboratório, cujo espaço e tempo nos vão sendo desvendados ao longo das páginas.
Apesar de não estar (ainda) rendida a esta forma de romance, de não saber se alguma vez vou estar, apesar de preferir sempre uma estória bem contada, gostei de ler este livro, gostei de ler cada página, de reter frases, pensamentos, estados de espírito. Sendo um livro com um ritmo lento e que não nos faz correr para o fim (perdi cedo a esperança de um final fechado pelo que mais valia apreciar o caminho) pode ser lido com toda a calma e apreciado pelo que tem de melhor: a escrita.
Quanto à Estória, bem, acredito que neste, mais do que em qualquer outro livro, cada leitor tenha a sua interpretação pelo que não faz grande sentido falar muito dela. Cada um terá que o ler e construir a sua própria opinião.
Uma última nota para a capa deste livro. Extremamente bem escolhida. As cores desta capa acompanharam-me ao longo de toda a leitura.
Sinopse:
No Céu não Há Limões descreve um mundo em guerra entre o Norte rico e o Sul pobre, em que os pobres do Sul tentam por todos os meios ter acesso ao bem-estar do Norte, e os do Norte usam de todos os meios para conservar a sua riqueza só para si.
Sandro William Junqueira não apresenta soluções, mas à medida que o livro se aproxima do final uma personagem se destaca – o padre –, procurando uma saída. Será esta uma saída?
O autor não dá a resposta. A resposta fica com cada um de nós, porque este é o nosso mundo.
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"Um piano para cavalos altos", uma composição musical, num compasso descompassado, como o coração daqueles que amam, detestam e se revoltam!
Um calendiário (pág. 113) em jeito de diário de uma tragédia ajeitada, secretamente anunciada, anotada com xizes vermelhos, num calendário de horas e dias, em bizarras sucessões!
Da sonata de Inverno até ao concerto de Verão, Sandro William Junqueira traça uma possível distopia, que não é nada mais nada menos do que um olhar duro à realidade e um "apanhado" à História recente. O que nos leva a muitas questões sobre poder, medo, povo, felicidade, política, amor, mas ao ler a opinião da Renata, a pergunta que ela coloca é a mais pertinente: "será que é a violência dos regimes opressivos e autoritários que brutaliza as pessoas ou será que é a brutalidade dos seres humanos que gera as ditaduras?"
E os dados estão lançados para o cerne deste enredo de traços exacerbados e em tom alucinado, mas que olham o mundo de frente e de olhos bem abertos:
"A implosão das igrejas é outro passo certo dado em direcção a um estado social que não desperdiça. O reino da Igreja não é deste mundo. E, se ao mundo não pertence, nele não se deve edificar. Plantar raízes. A fé não nasce de um edifício nem se desenvolve nos volumes da arquitectura. (...) A casa de Deus só pode ser a cabeça, o coração, as mãos, os pulmões, os rins, os pénis, ânus e vaginas de quem acredita. Fora da carne, Deus perde compostura, ideias e emoção." (p. 30)
Tendo o enredo num tempo indeterminado e num lugar incomum, comandado por um governo totalitário, com mão de ferro e leis opressoras, o Ministro Calvo e o Director vêem a sua ordem abalada após um ataque a um militar. A ordem está em causa porque O Mensageiro havia previsto o acontecimento, referindo uma estranho conversa com Ele... fazendo assim tremer os alicerces religiosos já impostos.
Estranhamos o facto de nenhum personagem ter nome próprio, mas sim o nome da sua profissão ou de alguma característica física: a Ruiva, o Director, o Ministro, a Prostituta Anã... Tal escolha do autor, dá-nos a possibilidade de: ou lhe atribuímos um nome - ou pensamos em como aquela sociedade seria fria e estratificada, retirando a individualidade de um nome e a liberdade que isso lhes daria.
O sexo, as relações, o poder, o amor, o esforço, a dedicação, a guerra, a política... tudo por frases curtas e um enredo cru, duro... que a certo ponto pretende ser violento e até, talvez, chocante.
Depois, mistura-se e deixa-se perder em divagações que mais parecem infantis e oníricas, que sem entender muito bem ou até gostar, ligo à necessidade que o autor tem em separar as personagens em dois estratos daquela sociedade.
É impessoal e frio, mas igualmente belo, cuidado, parecendo ter palavras escolhidas e pesadas milimetricamente para aquele contexto, depois noutros, deixa-nos à procura do seu sentido, do seu rumo.
É como se as palavras, as próprias palavras quisessem, só por si, dar-nos a sensação de violência, de perdição, de frustração e até de delírio que o próprio cenário e enquadramento têm... mas depois há a fome, a fome do amor, da entrega, da comunicação, do desejo... tudo confinado, amarrado, entalado, sufocado... nas regras, no rigor...
"Só quando o inferno nos toca com a asa inesperada é que abrimos os olhos." (pág.160)
Tudo nesta obra pode e deve ter reticências, até chegar ao fim e saber afirmar se gostámos ou não, ponto parágrafo, parece-me impossível. Preciso de reticências!
Talvez a sua leitura deva reticenciar-se, repetir-se, alongar-se... uma leitura para reler e reinterpretar!
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Aviso: o texto seguinte reflecte uma opinião estritamente pessoal e totalmente enviesada pelos valores, crenças e condicionamentos educacionais da sua autora.
“Um piano para cavalos altos” foi, sem sombra de dúvida, um dos livros mais desconcertantes e surpreendentes que já li. Trazia consigo uma veemente recomendação pelo que já suspeitava que seria uma leitura muito interessante. No entanto, quando iniciei o livro não estava, de modo algum, preparada para a montanha-russa de impressões e emoções que esta história desencadeou. Mas vamos por partes: em primeiro lugar gostei da sua estrutura de pequenos textos reunidos em capítulos, característica importante para quem é obrigada a ler pouco a pouco, durante períodos curtos, por falta de tempo para dedicar a leituras prolongadas.
Em segundo lugar, as frases quase sempre curtas mas incisivas, bem escritas, muitas vezes amargamente irónicas e isentas de metáforas-lugares-comuns lembram as pinceladas rápidas de um impressionista com pressa de acabar a sua obra. Pensei que isto fazia sentido quando decidi ler uma parte do livro a ouvir as “Gymnopédies” de Satie. Estas, tal como “Um piano para cavalos altos”, evocam imagens de sublime melancolia perturbadas por dissonâncias que nos inquietam e desassossegam, lembrando, aqui e ali, que existir é mais luta do que passeio tranquilo, e que sobre nós recai a responsabilidade deste facto. Em grego “gymnos” significa nú e, ao descobrir isto, os títulos dos capítulos pareceram-me totalmente apropriados, pois aqui o lado negro da natureza humana é apresentado nú, despido de eufemismos e de modo frequentemente brutal. E surge a pergunta: será que é a violência dos regimes opressivos e autoritários que brutaliza as pessoas ou será que é a brutalidade dos seres humanos que gera as ditaduras?
Em terceiro lugar, a construção de toda a história revela uma imaginação poderosa e invulgar, responsável pela criação de um mundo inóspito e violento onde não há inocentes, à excepção de uma criança, de um menino.
Em quarto lugar, o recurso a palavras mais vernaculares, embora não ostensivamente excessivo, desagradou-me como sempre acontece, pois cresci num meio onde tais termos, não só não eram admissíveis, como o seu uso era mesmo penalizado. Nesse tempo e nesse local de infância e juventude até os rapazes se coibiam de usar tais palavras junto das raparigas, de modo que nunca consegui habituar-me ao seu uso, salvo em circunstâncias pontuais de grande irritação.
Em quinto lugar, felizmente este livro NÃO foi escrito ao abrigo da nova aberração ortográfica, perdão, acordo ortográfico. Muito obrigada, Sandro William Junqueira!
Em jeito de conclusão, este é um livro muito bem escrito e concebido, que conta a história de um mundo brutal mas soberbamente imaginado e passível de inquietar seriamente a consciência de quem se atrever a lê-lo. Atrevam-se, se faz favor!
“Lá fora os candeeiros prolongam o exercício nocturno: permanecem acesos. São 14:20. E a luz pobre da tarde está envolta numa atmosfera de cerco: a presença do Muro. Durante estes meses de Inverno os dias não são dias decididos mas sim, marionetas comandadas pelos fios das noites altas. Os dias são quase pretos. Parece que numa rasteira propositada o sol caiu de costas. As nuvens e o vento empurraram-no para trás do mundo e a neve tapou-lhe a boca.”
“É verdade...Eu sei...Educar o povo é processo difícil, demorado. As pessoas são estranhas e destoam. E pretender fazer caminhar toda esta gente numa única direcção mostra ingenuidade ou utopia. Aprendemos isto com o Grande Desastre. Vocês sabem (pausa) este Governo começou do nada. Mas de um nada organizado e diferente; que parte das vísceras do homem; que compreende e aceita as naturais diferenças: biológicas, orgânicas e celulares. Como tal, as nossas políticas corajosas, excluem, diferenciam. É verdade. Mas não concordam que é estúpido e hipócrita pretender a igualdade? (...) Vocês sabem isto. Vocês sabem. (...) Das nossas ruas: pobres e mendigos, famintos e doentes, aleijados e loucos, o lixo e os cães vadios, vocês sabem, toda essa escumalha, foi varrida pela vassoura competente deste Governo e depositados lá bem longe! Bem para lá do Muro! Onde os seus gritos e fluidos não cheguem perto para contaminar a nossa equidade social e higiene política!”
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O Caderno do Algoz (2009) é um livro onde já podemos apreciar a escrita original e criativa de Sandro William Junqueira, sendo, pois uma obra que serve de catapulta para o soberbo Um Piano para Cavalos Altos publicado em 2012. Na verdade, enquanto lia O Caderno do Algoz vinham-me à memória alguns dos personagens e episódios que são mais desenvolvidas no novo romance.Em O Caderno do Algoz entramos numa realidade diferente da nossa com um regime totalitário e com personagens também estranhas, mas provavelmente não tão estranhas assim...Nas obras de Sandro William Junqueira podemos contar com temas sérios misturados com humor muito negro que se entrecruzam com regimes totalitários e realidades a roçar o surreal e que nos fazem pensar. São obras com personalidade forte que se entranham de tal forma no nosso pensamento e que dificilmente as esquecemos.Sem dúvida um escritor a seguir...
Excertos:
"Desde os doze anos que enterra. Aprendera bem o ofício. Só com um simples olhar era capaz de determinar ao milímetro as medidas de um caixão e as classes existentes de ossos e larvas. Fala pouco, quase nada. Mais com os mortos e com as flores. Não porque queira também falar com os vivos. Mas o que poderá ele dizer àqueles que lhe entregam os entes queridos aconchegados ao veludo do caixão, senão as estéreis trivialidades do pesar? Mas a vida e a morte não se explicam, simplesmente acontecem. Os vivos são separados dos mortos. É aquele muro branco de quatro metros de altura, que ladeia todo o perímetro do cemitério, que exerce a função: esconder o que já não conta. Sem descanso nem folgas, pois todos os dias há morte. (...) Aos domingos, o cemitério enche-se de gentes e flores e lágrimas. Procissões de cravos, fumos de incensos, promessas não cumpridas, confissões adiadas, choros histéricos e compulsivos, lamúrias e ladainhas. Talvez por isso, desde muito cedo, o coveiro habituou-se aos prantos. Conhece como ninguém os diferentes tons e acentos, a espessura e intensidade das lágrimas. Já ouviu chorar tanto que para ele o riso pouca importância tem." (pp. 25-26)
"A luz vermelha do quarto do rés-do-chão em causa continua acesa. E há movimentos naquela luz. O inspetor sabe: a mulher mutilada está acompanhada; e isso excita. Um volume duro cresce dentro das suas calças. Excita-o, não só a ideia de que alguém aceite entregar o próprio corpo ao corpo de outro - por vingança, necessidade, ou ânsia de poder; para que esse outro corpo o subjugue, o maltrate, o estupre - mas também, e de forma mais saliente, o facto de ele, o inspetor, posteriormente, ir usar-se desse corpo já sujo. Dessa carne já gasta e conspurcada por outros." (p. 46)
"Devido à posição que ocupo no Instituto consegui um preço razoável por ela. É uma casa igual a todas as outras: pobre e húmida. É como se todas as vidas, ações, humanidades e humidades, medos e raivas, se infiltrassem nestas paredes e recantos, intoxicando o ar, depois os pulmões, deste aroma nocivo e familiar a um bolor humanitário.
As casas são como esqueletos de almas. Os homens compram as casas e depois deixam-se morrer. Enterram-se no jardim. Sobram os móveis, as fotografias, paredes e tetos rebocados. Com tanta evidência é estranho que não ambicione outra vida. Não procuro outra janela. Quero ser este olho no cimento." (p. 62)
"Quando fui feliz, fui o mais feliz dos homens. Quando sou infeliz, sou o menos infeliz dos homens. O problema: sou demoradamente infeliz e habituo-me. Servi-me tão pouco da felicidade - apenas uma fatia fina desse bolo de gengibre e mel - que nunca me acostumei ao seu paladar exótico. Hoje, sei. Não nasci para lhe ser conveniente." (p. 66)
"Quando somos crianças, a diferença entre o mundo e o sonho não existe: um é a continuidade do outro." (p. 129)
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Trata-se de uma obra bastante criativa com muito sentido de humor ainda que o tema central seja sério centrando-se numa determinada Cidade onde se instalou uma ditadura após o Grande Desastre, um acontecimento apocalíptico, que conduziu à reconstrução da Cidade, assim como à reorganização da sociedade desde a base. O funcionamento da Cidade assenta essencialmente na Fábrica que é a garantia da sustentabilidade económica de parte da Cidade através da produção de empadas e de um outro lado, garante-se o cumprimento da justiça executando sumariamente todos aqueles que não cumprem as leis promulgadas pelo governo.Tudo correria bem se aquele a quem chamam de Mensageiro, um profeta, não antecipasse acontecimentos graves com contornos trágicos que assolarão a cidade provocando instabilidade ao governo liderado pelo Ministro Calvo...E se um acontecimento apocalíptico desencadeasse um outro acontecimento apocalíptico?Todos os personagens têm o seu quê que louco variando entre o estranho e o esquisito, provocando-nos severas gargalhadas porque afinal a realidade também ela é por vezes louca, estranha e esquisita.Definitivamente uma obra a reter e um escritor a acompanhar!
Excertos:
"A implosão das igrejas é outro passo certo dado em direção a um estado social que não desperdiça. O reino da Igreja não é deste mundo. E, se ao mundo não pertence, nele não se deve edificar. Plantar raízes. A fé não nasce de um edifício nem se desenvolve nos volumes da arquitetura. É insensato ocupar desnecessariamente metros quadrados públicos com tais pretextos metafísicos. Metros que, usados de forma racional, podem ser rentabilizados noutras matérias. Pois, se existe a fé, e ela se mostra consistente perante a adversidade, então que Deus e o seu séquito ocupem apenas a carne daquele que nele acredita. E não em território da causa pública. A casa de Deus só pode ser a cabeça, o coração, as mãos, os pulmões, os rins, os pénis, ânus e vaginas de quem acredita. Fora da carne, Deus perde compostura, ideias e emoção. É pernicioso e um claro sinal de desobediência, já para não falar numa alta arrogância, fundar alicerces metafísicos fora do único templo sagrado; do único templo que pode ser reconhecido como um espaço de fé, que é a carne de quem reza. É chegado o tempo, pois, de fazer implodir todos esses tijolos e frontispícios pretenciosamente divinos." (p. 30)
"O gesto que mais denuncia a vulnerabilidade e o afeto entre duas pessoas é o beijo ilusionista. Não a fornicação. Por isso, as prostitutas não beijam. Um beijo sincero pode quebrar feitiços, levantar mortos. Por ali convergem a música dos lábios, o desfibrilador das salivas, o tinir das línguas; e a união dá-se; o privado revela-se. Tudo o que escondemos vem-nos à boca." (p. 92) "A decisão tem em vista uma nova lei para a redução da quantidade de maldade e preguiça existente no coração daqueles que habitam a Zona Castanha e trabalham na Fábrica. O Ministro Calvo considera existir uma relação incestuosa entre a preguiça e a maldade. Entre as molas do colchão e a faca do crime." (...) A velocidade da mão é insuficiente para acompanhar a passada do homem que pensa; é insuficiente para agarrar o fumo da imaginação. E os pensamentos azedam, a imaginação evapora-se, se a mão não for suficientemente rápida." (pp. 153-154)
"Um discurso para o partido: como educar o povo a partir do desastre
(...) Quero começar este discurso por lembrar que desde o momento fatídico da história que obrigou este Governo e o nosso Partido à benévola reconstrução a partir dos pós do desastre, a nossa Cidade foi metodicamente pensada e arquitetada. (...) Limpa e desinfetada. (...) Não só do ponto de vista do equilíbrio urbanístico, dos volumes da arquitetura, mas também em termos da justa organização social, (...) industrial, (...) judicial, (...) militar, (...) comercial, do ócio, e do espectro das cores. (...) É verdade... Eu sei... Educar o povo é processo difícil, demorado. As pessoas são estranhas e destoam. E pretender fazer caminhar toda esta gentalha numa única direção mostra ingenuidade ou utopia. Aprendemos isto com o Grande Desastre. Vocês sabem. (...) Este Governo começou do nada. Mas de um nada organizado e diferente; que parte das vísceras do homem; que compreende e aceita as naturais diferenças: biológicas, orgânicas, celulares. Como tal, as nossas políticas corajosas, excluem, diferenciam. É verdade. Mas não concordam que é estúpido e hipócrita pretender a igualdade?"
(pp. 170-171)
"O motor: breve súmula dos mais importantes ditados do Ministro Calvo
O medo é motor indispensável à civilização. Agente potente que, bem oleado, bem afinado, bem conduzido, permitirá o progresso económico. Não controlado, este movimentador de massas tornar-se-á adversário. Inimigo em vez de amigo. Uma bomba temível que fará a política resvalar para terrenos lodosos e encravar engrenagens. O Governo deve ter isto em atenção. E analisar com argúcia todos os seus componentes e peças: do pequeno receio ao grande terror; da cautela particular ao pânico geral. É necessário examiná-los, testá-los, pô-los em movimento, a todos. Lubrificar o medo. Realizar experiências. Trabalho de oficina. Para do medo retirarmos o máximo lucro. E o rápido avanço. Está mais que provado: o amor é inútil, só atrasa, não dá lucro. E é talvez o maior adversário da boa política. Assim e, antes de qualquer tomada de decisão, este Governo deverá ter sempre presente, como auxiliar formal e pedagógico às suas ideias e leis, os números, as tabelas, enfim: os consumos do medo. O que mais teme o povo? Deverá ser a primeira questão." (p. 204)
"Uma das mais importantes relações existenciais que estabelecemos na vida é com aquele objeto horizontal: móvel para deitar ou dormir, constituído por um estrado onde se coloca o colchão; revestido por um lençol e cobertores, ou mantas e edredões, consoante a estação. A cama é esse corpo horizontal, inerte, que recebe peso. E adapta-se. Todos os dias nos recebe de braços abertos e pernas abertas. Sem queixumes em relação a odores, hálitos, humores, roncos, incontinências, tosses, más tensões ou tesões-daninhas. Passivamente, deixa que o peso e outras matérias do corpo se sirvam. Sem nada pedir em troca: o descanso, a cópula, o sonho ou a noite de insónia. A cama é o amante imperturbável. Aceita cada corpo e passa de corpo em corpo sem tomar partido. E nunca morre para nos ver morrer. Para morrermos nela. Na vida, na morte, ao contrário de no amor, a cama sabe o que faz. O lugar que ocupa na escala da vida e a responsabilidade que daí lhe advém. E cumpre, cumpre. Cumpre, sempre. Acompanha-nos nos momentos pacíficos e eufóricos. Trabalha enquanto o corpo descansa. E repousa, enquanto aquele que se serve dela exerce fora o ofício de viver. Conhece-nos carne, ossos, respiração. Sabe o ângulo e a posição precisa do antebraço em relação ao tronco. A mão que fica dormente. O ponto cardeal para onde cai a cabeça. Os devaneios do cabelo. O tom em que estalam joelhos. O suor dos pesadelos. O matraquear do coração. Mesmo quando os ocupadores, por inaptidão ou incapacidade, lhe urinam ou libertam odores e outros inconvenientes, a cama recebe-os. Absorve-os com compaixão invulgar, como se estes lhe pertencessem. A cama é o mais fiel dos amantes. E este compromisso sem aliança eterniza-se até à consumação da morte." (pp. 207-208)
"Ouvindo as repetidas e consecutivas queixas da Prostituta Anã, o Diretor alertara-a: Não troques de cama. Esta cama é boa. É uma cama que fala. Vai ajudar-te no negócio.
Assim que o Diretor se deitava, as molas chiavam: guinchos de animal aflito. As molas protestavam do uso contínuo a que eram forçadas. A cama da Prostituta Anã não fora feita apenas para o descanso. Fora feita para trabalhar; para gemer; para ajudar a ganhar dinheiro com gemidos. Apenas com o peso anão, o colchão não reclamava. Mas com o peso de homens em cima do peso anão, acrescentando ao peso da força dos movimentos pélvicos, aí sim, as molas guinchavam tal como a Prostituta Anã; guinchos de molas metálicas e cordas vocais; um concerto de guinchos verdadeiros e guinchos fingidos, para que os homens se sentissem felizes, cumpridores, e pudessem regressar a casa satisfeitos, de mãos nos bolsos, a assobiar para o ar, descontraídos e leves, preparados para regressar outro dia; para pagar mais; para ouvir mais guinchos." (p. 254)
"Não te faças de parva. Não, faço de p***. Tu não mudas. Sou santa. Santa e p***? P*** e santa. P***: porque entrego isto que aqui vês, em troca de um preço, a homens como tu; para que nesta vida existam momentos em que o prazer dure mais que a dor. Santa: porque nesses instantes, tu e outros, através de mim, têm um vislumbre do céu. E enquanto estão aqui a f****-me não estão lá fora a derrubar garrafas e a encher de pancada e nódoas negras as mulheres e os filhos. Tu não mudas. Fazes-me rir. P*** Santa. Perdão: rir e vir, senhor. É a vossa desvantagem. Aí não podem mentir." (pp. 282-283)
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