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Roda Dos Livros

A Herança de Eszter - Sándor Márai

Roda Dos Livros, 16.08.15

aherançadeeszterA sinopse resume bem a trama desta história.

"Instalada na casa que herdou do seu pai e com a única companhia de uma parente idosa, Eszter é uma mulher solteira que vive com a placidez de quem conseguiu adaptar-se ao que a vida lhe ofereceu. Até que um dia recebe um telegrama de Lajos,um velho amigo da família, anunciando a sua iminente visita. Um canalha encantador e sem escrúpulos, dotado de um poder de sedução irresistível, Lajos não só traiu o amor de Eszter, mas também destruiu a sua família e roubou tudo o que possuíam, excepto a casa em que vivem e o jardim com que subsistem. Eszter prepara-se então para o receber, comovida por um turbilhão de sentimentos contraditórios."

O que não nos conta, sabemos assim que começarmos a ler este romance, e ficamos absortos e inquietos com a força dos sentimentos expressos em personagens que são intemporais.

Sándor Márai tem uma escrita assim, perturbadora. E isto é dizer pouco. Escrita irrepreensível e acutilante que trespassa a couraça de duros e indiferentes e sem haver sangue. E tudo isto, apenas expondo sentimentos e emoções que ultrapassam a ficção. Provavelmente, o profundo conhecimento que tinha do coração humano não o permitiu continuar.

Em jeito de confissão, Eszter escreve a história do dia em que Lajos foi vê-la pela ultima vez e a roubou, bem como revela tudo o que sabe sobre ele. A sabedoria de Nunu e a fuga de Eszter, em luta contra um inimigo mais forte do que elas. Ardiloso e sem escrúpulos, consegue tudo o que quer, sem com isso trabalhar um dia, ou amar com coragem quem quer que seja. Um individuo que sabe o poder que detém, porque tem consciência de uma lei mais dura e severa que estabelece a ligação entre as pessoas e da qual não se pode fugir.

Um pequeno livro com uma grande história, que não nos deixa indiferentes.

“A Herança de Eszter” de Sándor Márai :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.03.15

Desde cedo se percebe a dolorosa e cinzenta existência de Eszter, a companhia complacente e minimalista de Nunu e a presença intermitente de Tibor e Endre, e claro a eterna presença platónica de Lajos. Esta eterna espera, repete-se tal como acontece em "As velas ardem até ao fim", também já aqui lido e comentado, e é enternecedor perceber que voltamos a uma vida, a uma casa e a um fim sempre marcado pela dor dos que ficam em prol dos que, fortes, partem sem deixar rasto. Esses que partem, desmembram e quebram a existência e o futuro dos que ficam, fragilizando os seus sentimentos, despedaçando os seus corações, mas sabendo, sabe-se lá como, deixar uma réstia de esperança, uma luz, ténue mas persistente, acalentando a eterna espera.
Existe na pacatez e na tenacidade de Eszter um traço de ingenuidade, mas também um enorme pragmatismo e lucidez, o que chega a ser assustador, pois retira de Lajos a totalidade da culpa e nos deixa a questionar se não é tão errada a atitude de quem atraiçoa e engana, como quem sabe que será enganada e isso se permite!? Não são sós estas as questões que o enredo,límpido e brilhante de Márai desperta no leitor, há todo um entendido de carácter e de família que, em breves frases, consegue provocar uma enorme onda introspectiva. Márai é muito talentoso na forma como relata sentimentos, é polido sem ser dramático, é romântico sem ter devaneios, é demorado nos pequenos detalhes, mas não cansa o leitor, é tão equilibrado que até nos faz perguntar como é que depois brinda o leitor com estes enredos dramáticos e quase inverosímeis. Como entender uma espera de mais de vinte anos sem notícias ou desfechos!?
A panóplia de sentimentos é contraditória, tanto admiramos Eszter como a estranhamos e a sentimos fraca, ou como nos iludimos com um galã, astuto e de discurso poético, para o descobrirmos um boémio e leviano, revelando-se um cobarde na aceitação dos seus sentimentos. É talvez de aceitação e de adaptação que este livro faça uma melhor retrospectiva, mostrando a força de duas mulheres, isoladas, mas independentes, unidas por laços familiares e mais tarde por uma forte cumplicidade. E depois há um jardim, um local bucólico e de subsistência. Um tesouro.
Já perto do final, no verdadeiro reencontro e desabafo, o confronto final com a derradeira mentira, a revelação que muda tudo, mas ainda assim, Lajos, mesmo falhado, como Eszter o olha e o sente, pergunta-lhe se os erros de uma vida, se as falhas e as acusações não prescrevem? E quem são os puros, os verdadeiros, os intocáveis que se julguem capazes e no direito de julgar e cobrar sempre, durante uma vida inteira?
Em todo o livro o que mais brilha é mesmo a escrita de Mária, que mesmo com simplicidade contêm tudo e intromete-se na cabeça do leitor, fazendo com que as personagem vibrem dentro de nós e os cenários desfilem com uma nitidez quase cinematográfica. Brilhante.

A Ilha - Sándor Márai (Dom Quixote)

Roda Dos Livros, 30.03.13
79. A Ilha

Em A Ilha, Viktor Askenasi, embarca numa viagem interior alucinante fruto da crise da meia idade pela qual está a passar. Aparentemente com uma vida familiar e profissional estáveis, Askenasi conhece uma mulher por mero acaso com quem se envolve deixando tudo para trás. A frustração e infelicidade sentidas no seu âmago rapidamente dão lugar à mais alucinante sensação de liberdade à medida que se envolve com a bailarina russa.Mas nem tudo são rosas para Askenasi que sendo um pensador por excelência e claramente influenciado pelos Gregos e por Platão em especial, a busca da Ideia de felicidade atormenta-o procurando respostas na amante e nos outros, embarcando, desta forma, numa aspiral de dilacerante sofrimento que culmina numa verdadeira tragédia grega, cumprindo, neste sentido, o seu próprio destino.

A busca incessante da felicidade é o tema central desta obra e simultaneamente o objetivo da vida de cada um sendo que essa tomada de consciência poderá ser mais ou menos dolorosa consoante as circunstâncias da vida. Esse processo quando tornado excessivamente consciente poderá produzir efeitos contrários aos desejados conduzindo a uma infelicidade imensa.

Notoriamente mais filosófico do que outras obras de Sándor Márai, A Ilha apresenta-se como um dos livros obrigatórios do escritor tornando-se igualmente num dos livros de cabeceira para ler e reler vezes sem conta.

Excertos:

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"Tinha a noção de que nunca, em nenhuma situação, voltaria a sentir esse pudor peculiar, nem vergonha, como agora, cara a cara com a mulher que sabia tudo sobre ele, inclusive que ele estaria disposto a praticar misericórdia e que o faria logo que pudesse. Baixou a cabeça e esfregou o queixo. «As pessoas preferem as coisas simples», pensou novamente com sereno ressentimento. «Por exemplo, aventura. Por exemplo matrimónio.» Parecia-lhe que o matrimónio era algo completamente impúdico. «Com Anna não se podem fazer aquelas coisas - pensou escusando-se, quase assustado -, o matrimónio não foi criado para isso. Só se podem fazer com uma desconhecida. Mas com uma pessoa que sabe tudo sobre nós, não se podem fazer essas coisas, só se podia enquanto ainda era desconhecida...» Lembrou-se de que amara muito Anna, de tudo o que tinham feito juntos nos primeiros anos de casamento, naquele quarto quando ainda «eram desconhecidos um para o outro» e existia um certo mistério entre eles. Quando desapareceu o mistério começou o pudor."  (p. 78)

“Já levava três meses que Askenasi vivia com a mulher desconhecida, quando começou a notar com surpresa que a felicidade ou o prazer, ou seja, aquele estado anímico extraordinário que se costuma considerar como a única recompensa pelos sofrimentos terrestres, na realidade era muito pouco parecido com aquilo que havia imaginado. O que estava vivendo era sem dúvida felicidade, mas às vezes parecia-lhe que era um estado incómodo, complexo e, no fim de contas, pouco agradável. Mas o que mais o incomodava era a intensidade de tal sentimento, porque tinha uma componente exagerada, forçada, como se tivesse de andar todo o dia com sobrecasaca e chapéu. Começou a compreender que a felicidade não se podia considerar uma propriedade privada que se adquire de um momento para o outro, com uma herança da qual, posteriormente, só é preciso cuidar e evitar que seja roubada ou perca o seu valor. Tinha que a descobrir em cada meia hora, em cada minuto; manifestava-se sem aviso e, em termos gerais, era mais cansativa e irritante do que agradável e tranquilizadora.” (p. 81)

"«Já vivi muitas coisas», refletiu com satisfação. «Quase a vida toda. Na realidade falta pouca coisa...» Recordava-se feliz do trabalho feito, tinha cumprido praticamente todas as suas obrigações, tinha vivido conforme as exigências das circunstâncias e da sociedade, apenas depois tinha seguido uma vida distinta, orientando-se com os instrumentos do corpo, e agora não tinha mais nada para fazer do que procurar a resposta à pergunta. Mas porque é que tinha sofrido sempre de uma forma tão vergonhosa? Qual era o objetivo da ideia relativamente ao ser humano, infligindo-lhe tormentos humilhantes sem fim? Porque é que não conseguia encontrar satisfação? Ainda faltava dar resposta a essa pergunta. Considerou humilhante ter sucumbido de uma forma tão ridícula, e agora tinha que vaguear pelo mundo à procura da resposta noutras mulheres, tentar descobrir respostas parciais nos livros, perguntar a outros homens. «De pouco me serviram os métodos», pensou maldisposto."  (p. 103)

[caption id="attachment_786" align="aligncenter" width="300"]Kosice Marai-001 Escultura de Sándor Márai em Košice (Eslováquia), cidade natal do escritor[/caption]