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Roda Dos Livros

Manual do Bom Fascista - Rui Zink

Roda Dos Livros, 30.09.19

47962738._SX318_O humor e a fina ironia de Rui Zink num livro sobre populismo, que é como quem diz, a forma moderna de dizer fascismo, porque afinal... "estamos a pôr-nos a jeito" para reviver tudo outra vez.

"Ó Xico, tu achas que:A culpa disto tudo é dos imigrantes.Que deviam ir todos para a terra deles.Que somos vítimas de um complô larilo-judaico.Que os muçulmanos estão todos com quinhentos anos de atraso.Receias que percamos a nossa identidade milenar.Achas que temos de andar todos armados.Que a sociedade deve ser virile não "efeminada".A palavra que mais usas (tirando os palavrões) é detestoEntão, desculpa lá, mas és fascista, homem!" (p. 33)

"Já a moça a ler o livro, sossegada, vestido barato, num baratíssimo (grátis até) banco de jardim, ou com amigos a fazer um piquenique num relvado (também produto grátis), ou numa esplanada (sessenta a oitenta cêntimos, se estiver a tomar café), essa, ameaça-nos, tira-nos do sério, causa uma coisa pior que a inveja: ressentimento.Ela é uma carta fora do baralho. Não joga com o baralho todo. E ela e os amigos na relva não só não jogam com o baralho todo como, mais grave ainda, não jogam de todo com o nosso baralho. Estão fora do nosso sistema de valores. Isso é que enerva! (...)Isso incomoda de sobremaneira o bom fascista." (p. 74)

"(...) E o resto que se dane. O planeta está ameaçado pela subida dos mares? Pelo aquecimento global? Em vias de ser atingido por um meteorito? E isso que importa? Um bom fascista não vive no planeta, esse lugar amaricado onde há animais, e temos que cuidar dos índios, e de pedir desculpa à Natureza por termos derrubado uns quantos sobreiros para construir mais um troço de autoestrada. O bom fascista vive em Portugal, onde temos o direito de ir com o nosso carro onde quisermos." (p. 94)

Estas e outras pérolas, verdadeiras pérolas, em 100 Lições para saber tudo sobre 'ser um bom fascista', acrescidas da súmula de mais 50, até porque... "Convém termos cuidado com o que nos fascina - um simples piparote no "N" e está o caldo entornado." (fasciza).Ou como diz a sinopse: "Quanto de fascista há em si? Estará o fascismo entre nós ou dentro de nós?"

Um livro que urge ler nos dias que correm. A não perder!

 

Ideias de Ler, 2019

O Anibaleitor - Rui Zink

Roda Dos Livros, 29.03.15

anibaleitorUm livro pequeno que me encheu as medidas. Enfim, não exactamente, pois eu já estava à espera de gostar muito, mas mesmo assim uma delícia a cada virar de página.

Mais do que um monstro assustador que devora livros, o Anibaleitor acorda, desperta e abana as estruturas de quem está cego pela trituradora quotidiana. Esta da trituradora não é minha, dou os devidos créditos à Renata Carvalho, mas é uma expressão tão boa que tive de a (ab)usar.

Um livro para todas as idades, principalmente se considerarmos a idade que temos na cabeça, e aquilo que os anos nos ofereceram como perspicácia. Os anos, a experiência, e claro, a escolha. O escolher viver observando, ou o passar pela vida vendo o que nos querem mostrar.

O Anibaleitor está recheado de coisas brilhantes que de certeza escapam a muita gente. Como de certeza muitas me escaparam a mim. Mas algumas apanhei e já não é nada mau. E mesmo para quem não apanhar nada nas entrelinhas, não deixa de gostar, pois está aqui um livro de aventuras de se lhe tirar o chapéu, com a vantagem de entusiasmar os mais jovens para a leitura.

Zink construiu um livro inteligente, que se deve ter em casa para ler muitas vezes, pois, de certeza, que a cada nova leitura, se vão descobrir novos tesouros.

Li este livro através da Roda dos Livros, obrigada Patrícia, fica a dica a todos aqueles que usam a desculpa absurda de que não me oferecem livros porque eu já tenho muitos (ridículo), ou porque não sabem que livro oferecer (há vales sabiam?), o Anibaleitor é um livro que eu adorava ter na minha estante.

“Devo dizer que a arte de roubar não é tão má como a pintam. Ao fim e ao cabo, é uma actividade de intercâmbio comercial como qualquer outra e, quase sempre, está longe de merecer a fama que desgraçadamente tem. O povo diz que atrás de uma grande fortuna está um grande roubo – só que não é apenas atrás das grandes fortunas materiais – as pequenas e até mesmo as espirituais também não se livram desta censurável génese. Toda a gente rouba alguma coisa a alguém: dinheiro, ideias, trabalho, tempo, paciência, até a própria vida. Apenas a alma não se rouba porque esta só pode ser comprada (ou melhor, vendida) pelo próprio dono, o que de resto muitos de nós fazemos com bastante agrado e, eu diria até, por um bem módico preço.” (Pág. 9)

“Como castigo obrigaram-me a ser escritor, uma sina que não desejo nem ao meu pior inimigo. É pior que prisão perpétua! Passamos o dia sentados a uma mesa, frente ao papel em branco ou ao computador em cinzento; o rabo amolece de tanto estarmos sentados, e ficamos a escrevinhar, a escrevinhar, sujeitos a artroses, a escrevinhar, a escrevinhar – histórias que, ainda por cima, quase ninguém lê, a menos que sejam adaptadas para cinema ou televisão. É muito frustrante, só vos digo.” (Pág. 106)

Sinopse

“O Anibaleitor conta a história de um jovem que, fugido à “guarda do reino”, embarca numa viagem em busca de um mítico e fabuloso animal, o Anibaleitor. Livro de aventuras, é acima de tudo um livro de aventura da leitura. Nesta magnífica novela, Rui Zink consegue ser, ao mesmo tempo, divertido, didáctico, comovente e, como sempre, estimulante.”

Teorema, 2010

O Anibaleitor, de Rui Zink

Roda Dos Livros, 01.02.15

anibaleitor
"Para o Anibaleitor, um livro era um encontro entre duas vozes: a nossa e a do livro. E sublinhar um livro não tinha mal nenhum, era quase como ler a dobrar; era sinal de que encontráramos uma passagem, uma frase, um parágrafo, que nos tocava no texto e isso, segundo ele, valia ouro. Era quase como ganhar, de borla, um segundo livro" 
E eu, que raramente tenho paciência para sublinhar passagens e esqueço-me sempre dos post-its noutro lado qualquer, dei por mim a dobrar o cantinho das folhas para me lembrar de ir reler determinadas frases. Mas não serviu de nada pois no final só me apetecia começar a ler o livro outra vez.
Todos os leitores adoram livros sobre livros e este é isso e muito mais, é um livro sobre leitores. Rui Zink sugere "que o adulto o leia como se fosse um relato para jovens, e o jovem como se fosse uma novela para adultos" e eu sugiro que todos o leiam e se deliciem com esta louca história, cheia de livros (e escritores), poesia, música e segredos escondidos nas páginas.
Sim, segredos, porque acredito que não encontrei todas as referências, todos os trocadilhos, todos os jogos que o escritor escondeu por aqui. Mas lá chegarei, porque este é, sem qualquer sombra de dúvida, um livro para reler várias vezes.
"Como eu estava dizendo, não preciso de quem me conte histórias. Mas sinto falta de alguém com quem as discutir. Alguém que me dissesse: Ó pá, era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto. O que me dizes, temos acordo?"
Nos blogs "de livros", nos canais, nos grupos literários é sempre isto que pretendemos: ter alguém para partilhar connosco o prazer de ler um livro.
Hoje, para vos dar a minha opinião, usei mais as palavras do escritor do que as minhas porque  este livro é tão simples e tão completo ao mesmo tempo que prefiro deixar que seja ele a mostrar-vos que têm mesmo que o ler.
"É que eu... eu gosto de todos os livros."
O Anibaleitor olhou-me com comiseração:
"Ó pá, pela tua rica saúde, espero bem que não. Deve ser uma chatice, gostar de todos os livros."

A instalação do medo, de Rui Zink

Roda Dos Livros, 08.11.14

a+instalação+do+medo

Julgava que ia ser uma leitura do mesmo género do “DestinoTurístico”, uma história assim para o pós-apocalíptica (os apocalipses não têm que incluir bombas nucleares, podem ser simplesmente económicos) mas afinal saiu-me algo tão mais próximo da realidade, que faz com que este livro e o “Destino Turístico” não sejam minimamente do mesmo género.

Devo começar por dizer que é quase impossível escrever o que quer que seja  sobre este livro sem incluir alguns spoilers, por isso se ainda não leram e querem ler, não continuem aqui…

Resolvi comprar este livro porque fui ouvir o escritor no outro dia no encontro na Buchholz. O principal livro em discussão era o A Metametamorfose e Outras Fermosas Morfoses mas eu sou um bocadinho avessa a contos (para além de que foi difícil encontrar o livro à venda) e acabei por comprar o “A instalação do medo”, de que já tinha ouvido falar e que queria muito ler.

Li-o quase de uma assentada.

Um dia vieram instalar o medo. Veio uma equipa especializada, quer na parte técnica, quer na emocional, instalar o medo. Naquela casa uma mulher e uma criança (escondida) e dois homens, o Carlos e o Sousa. E depois há a instalação propriamente dita e a respetiva demonstração. Demonstrar o medo.

Carlos (o bem falante) e Sousa (o técnico com mau aspeto e voz doce) lançam-se numa série de diálogos loucos que seriam absolutamente absurdos não fosse dar-se o caso de reconhecermos a grande maioria das frases que eles utilizam. E à medida que a instalação do medo prossegue percebemos a imagem que o escritor nos pretende mostrar e inevitavelmente comparamo-la com a nossa própria vida.

Mas criar o poder baseado no medo tem os seus próprios perigos e no limite há quem escape dessa epidemia e se torne imune ao medo. Será coragem? Ou simplesmente desespero? Qual é o limite, onde está o risco que não é, de todo, aconselhável que seja cruzado?

Rui Zink surpreendeu-me com este final. Gostei bastante.

“Ao infantilizar-nos, minha senhora, o medo não nos diminui, antes nos eleva”

“O medo devolve-nos a infância do mundo”

É inevitável questionarmo-nos acerca da veracidade deste livro. Ficção ou realidade?

Imaginem que a realidade nos é apresentada como uma imagem construída através de um puzzle. Agora imaginem que é possível com aquelas peças construir infinitas imagens, mais ou menos coerentes, mais ou menos parecidas.

É assim que eu vejo este livro: o escritor pegou em todos os fragmentos de realidade que conhece e construiu a sua imagem da realidade. Os nossos dirigentes, os meios da comunicação social, a sociedade em geral tem-nos mostrado outras imagens finais da realidade construídas com exatamente as mesmas peças. Depende de cada um de nós, do leitor, a escolha de aceitar a imagem que para nós é mais fiel à realidade.

O Destino Turístico - Rui Zink

Roda Dos Livros, 19.06.13

destinoturisticoTemo que o que possa escrever sobre “O Destino Turístico” seja demasiado revelador. Um livro que não é o que parece ser à partida. Não é que haja uma grande reviravolta, a verdade é que só a partir de determinado momento comecei a absorver a história no seu real contexto. Isto aconteceu quando o Rui Zink entendeu que assim seria, e me revelou a verdade. Ou o que eu acreditei como sendo a verdade.

Uma viagem de férias para um destino diferente, que nunca cheguei ao certo a saber qual seria. Mas isso não é o mais importante porque pude imaginar, criar palcos de ação, decidir onde poderia colocar Greg, o viajante.

Na verdade esta leitura exigiu bastante de mim, como se estivesse sempre a pedir “completa-me” ou “dá-me uma lógica”. Senti que o meu modo de interpretar eram o fio condutor desta narrativa, como se fosse necessário juntar peças de modo criativo para a história fazer sentido. Fazer (algum) sentido na minha cabeça pelo menos. Um livro que poderá ser uma imensidão de livros, quantos leitores tenha para, mais uma vez, o construir.

Cedo percebemos que Greg não tem medo da morte, se calhar quer mesmo morrer. A viagem para um local de perigo iminente foi escolhida por si; como se desejasse partir e quisesse dar uma ajudinha ao destino colocando-se propositadamente em risco.

Neste estranho e perigoso destino turístico a morte está em todo lado. Há diversas pistas que ajudam a desconstruir o enigma mas eu confesso que não apanhei nenhuma: Na verdade só percebi que havia um enigma quando a explicação foi clara e óbvia. Foi bom ser surpreendida mas ao mesmo tempo senti-me um pouco perdida num cenário em que nem tudo batia certo durante demasiado tempo.

Mas foi bom. Uma experiência única. Como umas férias inesquecíveis. Recomendo!

E aquele estilo muito próprio do Rui Zink, com sátira e ironia social q.b., nos momentos mais inesperados que, subitamente, se tornam os mais acertados.

“Ora muito bom dia – o rececionista era a boa disposição em pessoa. Nada de admirar, pagavam-lhe para isso. Pela experiência de Greg, qualquer pessoa podia mostrar entusiasmo e boa disposição, desde que fosse paga para isso. Má disposição era mais difícil. Requeria uma dose mínima de sinceridade.” (Pág. 33)

“- Falai em mortes estúpidas! – Riu o companheiro da mulher.

Greg ia a dizer das suas, quando, por algum motivo (um familiar a quem aquilo ocorrera, talvez?), o motorista também afinou:

- E de que morte inteligente gostava o senhor de morrer, pode saber-se?” (Pág.46)

“Comer peixe até ser envenenado pelo mercúrio? Carne de vaca na esperança de ganhar uma encefalopatia espongiforme? Jogar à roleta russa com a gripe aviária ou a peste suína? Mastigar vegetais sem os lavar na esperança de sucumbir ao peso dos pesticidas? Métodos respeitáveis, todos, mas pouco mais do que isso. Na volta, mais valeria beber água do cano e rezar para que o chumbo acumulado fosse o equivalente ao de uma rajada de balas. Mas também aí os índices estatísticos não eram convincentes. Greg suspeitava, de resto, que a desconfiança geral em relação à água da torneira era meramente uma campanha bem orquestrada para quem fazia fortunas a vender essa mesma água em garrafas de plástico” (Pág. 86)

Sinopse

“Há um sítio onde se faz turismo de Guerra. Quem lá vai quer assistir e participar ao vivo em bombardeamentos, explosões e atentados.

Há anos que a Zona é tristemente célebre pelo estado contínuo de guerra civil... é um verdadeiro "paraíso infernal". Greg parece ser apenas mais um turista, mas o seu guia - após o desaparecimento de uma delegação de observadores filipinos - começa a questionar as suas verdadeiras intenções. Porque será que Greg decidiu visitar aquele inferno de horror quotidiano?!”

Teorema, 2008

A Instalação do Medo - Rui Zink

Roda Dos Livros, 25.04.13

ainstalacaodomedoImaginar um empresa de Instalação de medo pode ser bizarro. Técnicos que nos batem à porta e instalam o medo em nossas casas como se fosse a instalação de um telefone ou serviço de internet.

Irónico e, acima de tudo hilariante, ter-me-ia feito rir muito mais se não me deparasse a cada instante com a realidade em que vivemos. Será ficção? Mas não é pura coincidência.

Repleto de expressões que nos são impostas todos os dias, na rua, no trabalho e até em nossas casas através da comunicação social, o medo aí está, a criar uma crise paralela à que já existe, que a adensa e entranha em todos nós.

Muitas vezes não damos por isso, pela forma como ficamos com medo da incerteza do que nos espera, de tal forma já vivemos assustados com todas as inúmeras possibilidades (todas terríveis) do futuro.

Uma brincadeira demasiado real que li num dia e me trouxe uma ressaca de sonhos temíveis no dia seguinte. Um livro que só lido. E deve ser lido.

É que o medo… já está mais que instalado.

Sinopse

Dois homens batem à porta. «Bom dia, minha senhora, viemos para instalar o medo. E, vai ver, é uma categoria».

Teodolito, 2012