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Roda Dos Livros

A louca da casa - opinião

Roda Dos Livros, 09.02.17

A Louca da Casa"(...) continuo a pensar que escrever nos salva a vida. Quando tudo o resto falha, quando a realidade apodrece, quando a nossa existência naufraga, podemos sempre recorrer ao narrativo."

A loucura, a realidade, a memória e a imaginação, são temas centrais ou até fulcrais nesta e em outras obras da autora. A descrença no passado e nas memórias em prol da função criativa e nutritiva da imaginação abrem espaço para toda uma outra forma de viver e interpretar a vida. É o tal "bichanar da criatividade" que pauta os dias da autora e que ela julga ser importante para que o lado imaginário não morra. A morte prematura desse lado mais infantil, mais alucinado pode causar um estado adulto muito profundo, e por sinal enfadonho e desenraizado. Alimentar a "louca da casa", ou seja, esse lado, meio louco do imaginário, é potenciar uma existência mais duradoura e saudável. Vem daí a ideia de que os livros nos salvam.

Talvez até se possa dizer que este livro é em si um elogio à loucura!

No entanto, a loucura mais negra e tóxica também é aqui descrita como uma viagem, uma possibilidade de aceitar o medo e as crises como elementos de criação e de convivência com um outro lado. Lado esse, nosso, que desconhecemos e que também ele é cheio de novidades... Estejamos é nós despertos e abertos para o aceitar.

"Acabei por perder o medo ao medo e por aceitar o facto de a vida possuir uma percentagem de negrume com o qual é necessário aprender a conviver. Hoje chego a considerar aquelas crises um verdadeiro privilégio, porque foram uma espécie de excursão extramuros, uma pequena viagem turística pelo lado selvagem da consciência."

Essa excursão extramuros acarreta algum sofrimento, no entanto, essa peregrinação é necessária para abraçar um lado mais sombrio, talvez isso até justifique um lado mestiço e complexo que a literatura assume actualmente, num misto muito grande de géneros, todos eles misturados num só livro ou livros de um só autor.

"A realidade não é mais do que a tradução redutora da imensidão do mundo e o louco é aquele que não se adapta a essa linguagem."

Muitas são as questões que Montero aborda neste seu ensaio romanceado, fazendo jus a algo em que afirma acreditar, que a literatura serve, antes de mais, para lançar questões e não para dar respostas prontas a usar, desvalorizando assim autores muito panfletários, que usem os seus romances para disseminar mensagens.Para além do mais, o romance deve perdurar impreciso, desmesurado e meio deformado tal como a realidade que abarca. Só assim será um reflexo da vida.

"Passados poucos meses, o assunto do desaparecimento da minha irmã tinha-se transformado num daqueles tabus que tanto abundam nas famílias, lugares demarcados e secretos por onde ninguém transita, como se esse acordo tácito de não revisão e de não menção fosse a base da convivência ou mesmo da sobrevivência dos membros do grupo familiar."

Montero explora de forma muito próxima temas que são comuns a todos, mas fá-lo com recurso a episódios biográficos de vários autores e excertos das suas obras que chega a criar uma sensação de proximidade entre todos, eles e nós, criando um ambiente bastante familiar, unindo-nos a todos. Tal como os livros fazem.

"E uma ultima reflexão sobre por que razão o triunfo pode destruir de uma forma superlativa os romancistas. Porque o sucesso, na sociedade mediática de hoje, já não está relacionado com a glória, mas com a fama (...) a fama, "essa soma de mal entendidos que se concentram em redor de um homem", como dizia Rilke, é um vertiginoso jogo de espelhos deformadores que nos devolvem milhares de imagens de nós próprios, imagens todas elas falsas e alienantes, e essa multiplicação de eus mentirosos pode acabar por ser especialmente nociva para alguém como o romancista, um ser que tem as costuras da sua identidade um pouco rasgadas..."

A existência limitada e o não confiar nas memórias, deixam assim à imaginação um trabalho árduo para que o escritor seja um ser louco e inquieto, capaz de alimentar um pensamento independente que converta essa capacidade inata para complicar em romances belos, baleiescos, capazes de arrebatar o leitor e transportá-lo para viagens um tanto esquizofrênicas e tão necessárias à vida.

Nota: Este texto é publicado igualmente no Deus me Livro.

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te

Roda Dos Livros, 17.01.16

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te_14-01-2015

Fazer parte de um grupo de leitura abriu os meus horizontes. Uma experiência que recomendo, mesmo para os mais introvertidos e antisociais (que não é de todo o meu caso), pela possibilidade de encontrar empatia literária e não só, e assim descobrir tantos autores que de outro modo nos estariam vedados. Apenas porque estando ao nosso alcance não os iríamos ver e este seguramente seria para mim um dos casos.

A vida de Marie Curie (e Pierre) fascina mas nunca me dispus a ler sobre esta mulher que ganhou dois prémios Nobel num tempo em que as mulheres não tinham visibilidade e eram alvo de discriminação. Mas não se trata apenas da paixao de Marie pelo seu trabalho mas pelo marido Pierre, e o processo de luto e de dor com a sua morte, em paralelo com o da autora com a morte de Pablo. O diário desvenda uma faceta mais humana desta extraordinária mulher e não menos relevante.

Não conhecia a escrita de Rosa Montero e das primeiras vezes que ouvi falar sobre este livro fiquei relutante porque o tema não me atraia, mesmo que afirmassem ser um livro luminoso e nada deprimente, com interessantes e validas consideraçoes sobre a vida e os afectos, mas só depois de o ler percebi. A escrita é coloquial e torna-nos cúmplices dos segredos de alma destas mulheres, comuns a um género e nunca expressas com esta clarividência e naturalidade.
Gostei muito e recomendo.
Sinopse:
Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. 
São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.

“A ridícula ideia de não voltar a ver-te” de Rosa Montero

Roda Dos Livros, 18.03.15

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te_14-01-2015

Sabe sempre tão bem quando um livro cumpre não só a promessa de uma boa leitura, mas antes supera as nossas expectativas, e como! Absolutamente brilhante! Um livro-pirilampo; luminescente como os fragmentos de substâncias radioactivas manipuladas e estudadas por Marie e Pierre Curie no seu laboratório. Sendo uma obra assumidamente autobiográfica sobre a experiência de luto após a morte do marido, é também uma interessantíssima visão sobre a vida de Madame Curie, para além de incluir inúmeras pistas de reflexão acerca daquelas grandes questões que nos acompanham, como espécie, desde sempre. Através da sua escrita franca, inteligente e sensível, Rosa Montero dá-nos um livro optimista sobre a vida, a morte, o amor, a memória, a condição feminina, a ciência, e, para além disso, como não podia deixar de ser, sobre a natureza labiríntica do ser humano e as arbitrariedades do destino. Tudo isto condensado em menos de 200 páginas que captam a nossa atenção desde a primeira e nos tocam imenso, se calhar, até onde não esperávamos.Em suma, um livro muito interessante, sensível, inteligente e lúcido. Vale bem a pena lê-lo.

Excerto:

“Recordo-o feliz, a passear pelos montes. Enfim, releio este último parágrafo e creio que o mais acertado que escrevi foi “recordo-o”. Essa sim é a mais pura das verdades. Dentro da minha cabeça está todo ele.Mas a literatura, ou a arte em geral, não consegue atingir essa zona interior. A literatura dedica-se a dar voltas em redor do buraco: com sorte e com talento, talvez consiga dar uma olhadela relampejante ao seu interior. Esse raio ilumina as trevas, mas de uma forma tão breve que só há uma intuição, não uma visão. E, além disso, quanto mais nos aproximamos do essencial, menos conseguimos nomeá-lo. O tutano dos livros está nas esquinas das palavras. O mais importante dos bons romances amontoa-se nas elipses, no ar que circula entre as personagens, nas frases pequenas. Por isso julgo que não posso dizer mais nada sobre Pablo: o seu lugar fica no centro do silêncio.”

Sinopse: Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso.São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.

 

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te de Rosa Montero :: Opinião

Roda Dos Livros, 03.03.15

É totalmente impossível passar por um título destes e resistir-lhe, "A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te" é um título brilhante, pois se remete para algo triste e possivelmente dramático, a conjugação das palavras em si é peculiar e bela.

Philippe Halsman / Magnum Photos (1945)

Mas o irresistível não se fica por aqui. Não se esgota no título. Em excelente equilíbrio com o título

temos a foto de capa da autoria de Philippe Halsman. Belíssima. Poderosa. Na união de título e foto, eleva-nos logo as ideias...Por isso, parti para este relato de Rosa Montero como se de ficção se tratasse. Desconhecia a autora, mas agradou-me o que li sobre o impacto da sua obra e depois, Abad Faciolince destacava este seu livro numa das entrevistas que ouvi dele. Aproveitei então a publicação em Portugal para o ler, estando de ser ficção.Enganei-me.Rosa Montero não ficciona em A Ridícula Ideia de não Voltar a Ver-te! Não há necessidade, a grandiosidade de Marie Curie enche as páginas. O realismo e o impacto da escrita de Rosa Montero agarra o leitor e transporta-o para um mundo por explorar.A Mulher é esse mundo. O Universo aguarda, espera e exige mais mulheres assim. Destemidas, resilientes, assoberbadas, tentadoras, mas também tentadas, oprimidas, apaixonadas, devoradas..."A mágoa aguda é uma alienação."Alienado não significa esquecido ou acabrunhado. Na alienação pode residir a determinação que só a mágoa, a solidão e a perda de uma pessoa conferem a outra."Posso afirmar que o sofrimento agudo é como um assomo de loucura."Os assomos irados do luto levaram Rosa Montero até Marie Curie e em boa hora. A escritora e jornalista espanhola traz até ao leitor um registo biográfico que transmite, para além de factos, sentimentos. A admiração pela cientista, mas antes de tudo mulher é provavelmente, um espelho onde a escritora se revê e expõe para que todas as mulheres se reflictam nele.Só lendo, entenderão.Não será um livro especificamente para mulheres, mas ter sido escrito por uma faz toda a diferença. Até para nós, mulheres, ao lê-lo, confrontamo-nos com certas perspectivas desafiadoras e introspectivas.Se comecei por ter uma certa decepção com este livro, quando percebi que não seria uma ficção sombria e de exploração da dor, mesmo que com elevada dose de contenção na lamechice, não esperava um relato biográfico. Mas depois, ah depois... depois foi impossível parar.A partir do momento que aceitamos o relato biográfico ficamos rendidas.Fiquei a adorar Marie Curie e bastou-me a dado momento saber que a sua (minimalista!!!) lua de mel foi uma pedalada por França com Pierre... Isso bastou-me para sonhar mais um pouco e sentir-me menos estranha.É ainda importante dizer que este livro é mais que uma biografia de Marie Curie, é quase um tratado sobre o papel das mulheres no final do século XIX e século XX. Ao longo destas páginas são muitas outras mulheres e homens referidos e trazidos para o "debate". Este seria um livro muito interessante para uma comunidade de leitores, para ler e discutir, seria com certeza uma partilha muito rica e muito acesa.

Acabei a adorar esta ridícula ideia de não voltar a ver-te e com vontade de ler um outro livro da autora. Este é um livro que facilmente se abre em qualquer página e se lê e vai lendo e relendo.

"Para viver temos de narrar-nos; somos um produto da nossa imaginação. A nossa memória, na realidade, é uma invenção, uma história que vamos reescrevendo todos os dia (...)"

Esta ideia de estarmos constantemente a escrever e a reescrever o fim, deixou-me a penar.

A propósito deixo Patti Smith.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Wlh_Noty_5U&w=420&h=315]

A ridícula ideia de não voltar a ver-te - Rosa Montero

Roda Dos Livros, 08.02.15

A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te_14-01-2015Primeiro foi a grande vontade de voltar a ler um livro de Rosa Montero. Depois conhecer o tema. A vontade cresce. Apenas com um livro lido da autora já a considerava uma das minhas escritoras preferidas ou, numa perspectiva mais realista, com um enorme potencial para isso.

Rosa Montero a escrever sobre a vida de Marie Curie. A admirável Curie, cujo percurso descobri tarde, que me interessa, como só pode interessar a entrega total, até extrema, ao que se acredita, de quem faz da paixão o seu modo de vida.

Rosa Montero a escrever sobre a morte. Sobre a morte de Pierre Curie. Sobre o luto e a dor de Marie Curie. E sobre ela própria, sobre a sua dor depois da perda de Pablo, o marido.

Um livro sobre a morte. Cheio de verdades sobre a vida. A vida da autora, de Curie, de todos os leitores deste livro, de todos os que acreditam em livros emotivos, descargas de emoções confusas, meio loucas, com saltos temporais, com visitas ao passado sem saudade só porque existiu e faz parte. Um livro sem regras. Uma biografia de uma Senhora da Ciência do século XX, misturada com sensações vindas do âmago de quem escreve. Um livro humano, do lado bom da humanidade, das memórias boas que fazem bem, apesar das partes tristes e mesquinhas que narra.

Das mulheres fortes. Que seguem em frente pisando o conceito gasto de “mundo de homens”, e lutam, e trabalham, e sofrem, e riem para chegar lá. Com descobertas inovadoras. Escrevendo magníficos livros. Com o poder de sempre a seguir em frente que os anos lhes deram.

Exemplos para pensar e seguir. Por mulheres e homens.

“A ridícula ideia de não voltar a ver-te” marcou-me como leitora. Fez-me feliz. Recomendo.

“Para conseguir escrever um romance, para aguentar o tempo longuíssimo e aborrecido que esse trabalho implica, mês após mês, ano após ano, a história tem de manter bolhas de luz na nossa cabeça. Cenas que são ilhas de emoção candente. E é pelo desejo de chegar a uma dessas cenas que, não sabemos porquê, nos deixam a tiritar, que atravessamos talvez meses de soberano e insuportável aborrecimento ao teclado.” (Pág. 14)

“A criatividade é justamente isso: uma tentativa alquímica de transmutar o sofrimento em beleza. A arte em geral, e a literatura em particular, são armas poderosas contra o mal e a dor. Os romances não os vencem (são invencíveis), mas consolam-nos do horror. Em primeiro lugar, porque nos unem ao resto dos humanos: a literatura torna-nos parte do todo e, no todo, a dor individual parece que dói um pouco menos. Mas o sortilégio também funciona porque, quando o sofrimento nos parte a espinha, a arte consegue transformar esse dano feio e sujo numa coisa bela.” (Pág.92)

Sinopse

“Quando Rosa Montero leu o diário que Marie Curie começou a escrever depois da morte do marido, sentiu que a história dessa mulher fascinante era também, de certo modo, a sua. Assim nasceu A ridícula ideia de não voltar a ver-te: uma narrativa a meio caminho entre a memória pessoal da autora e as memórias coletivas, ao mesmo tempo análise da nossa época e evocação de um percurso íntimo doloroso. São páginas que falam da superação da dor, das relações entre homens e mulheres, do esplendor do sexo, da morte e da vida, da ciência e da ignorância, da força salvadora da literatura e da sabedoria dos que aprendem a gozar a existência em plenitude.Um livro libérrimo e original, que nos devolve, inteira, a Rosa Montero de A Louca da Casa - talvez o mais famoso dos seus livros.”

Porto Editora,2015

Tradução de Helena Pitta

Instruções Para Mudar o Mundo - Rosa Montero

Roda Dos Livros, 27.10.13

instrucoesparasalvaromundoPor vezes penso que devia parar de ler livros que constantemente me recordam o caos social, a ignorância e pobreza de espírito das pessoas. E devia. É necessário sair desta constante e doentia realidade. Fazer um intervalo, pelo menos nos livros.

“Instruções para mudar o mundo” não muda nada mas denuncia e demonstra. Aquilo que já sabemos é certo, que o ser humano regrediu, se tornou malvado e maquiavélico, “desevoluiu” dos ancestrais primatas. Certamente é mais fácil ser mau do que bom, de outra forma a humanidade seria uma onda perfeita de bondade. Mas a verdade verdadinha é que estamos sós, cada vez mais sós e medrosos, desconfiados e rodeados de conhecidos, mas sem amigos.

São quatro as personagens centrais deste livro. Todas com vidas dolorosas, experiências de tristeza e desilusão. Quando a dor começa e toma conta de tudo é difícil manter a cabeça à tona, então o percurso é descendente, o sofrimento tolda a visão, e uma série de acontecimentos aleatórios coloca Matias, Daniel, Fatma e Cérebro envolvidos em situações bizarras. Daí a perder-se o controlo e a noção da lógica é um pequeno passo numa espiral para o abismo.

Adorei a escrita de Rosa Montero, crua, incisiva e sem “paninhos quentes”. Explora sentimentos de vidas frustradas, dos azares que magoam e marcam novos percursos, a forma quase científica como faz pensar nas coincidências, que realmente fazem parte do nosso dia-a-dia e têm um papel determinante em algumas decisões irreversíveis. Um romance urbano em que em cada página se sente a frieza de uma selva de pedra, a solidão de ter dezenas de vizinhos por todos os lados das casas e sentir que se vive numa caverna isolada.

Um livro cheio de infelicidade e com pouca esperança como cada vez mais achamos que é a vida. Não me deixou feliz e deu-me uma injecção de realidade que me doeu e deixou danos colaterais. A nossa sociedade é podre e doente. O ser humano assim quis.

“A Humanidade divide-se entre aqueles que gostam de se meter na cama à noite e aqueles a quem ir dormir desassossega. Os primeiros consideram que os seus leitos são ninhos protectores, enquanto os segundos sentem qua a nudez do dormitar é um perigo. Para uns o momento de deitar implica a suspensão das preocupações; aos outros, pelo contrário, as trevas provocam um alvoroço de pensamentos daninhos e, se fosse por eles, dormiriam de dia, como os vampiros. Sentiste alguma vez o terror das noites, a angústia dos pesadelos, a escuridão a sussurrar-te na nuca com o seu hálito frio que, embora não saibas o tempo que te resta, não passas de um condenado à morte? E, no entanto, na manhã seguinte a vida volta a explodir com a sua alegre mentira de eternidade.” (Pág. 7)

“Circulou lentamente ao longo da franja fronteiriça do território bárbaro e chegou à passagem subterrânea sob os carris da via férrea, um túnel estreito inconcebivelmente sujo entre cujos detritos de latas esmagadas, cadáveres de ratazanas e indiscerníveis farrapos se podiam encontrar inúmeros documentos pessoais, cartões de piscinas municipais ou de clubes de vídeo, porta-moedas abertos e carteiras de senhora estripadas, uma avalancha de restos descartados por uma legião de ladrões. E aí, justamente à saída do túnel, leu um grafitti que dizia: A vingança far-te-á livre. Ao fundo voltava a ver-se a linha reluzente da cidade, com o seu sonho de luxuosos arranha-céus e o seu pesadelo ameaçador de sujidade e miséria.” (Pág. 45)

“E agora estava encalhado num terreno remoto, sem filhos, sem sucesso profissional, sem verdadeiros amigos, sem amor. A lembrança de Fatma e de Marina cruzou-lhe o pensamento e o corpo doeu-lhe. Porque a tristeza doía fisicamente. Era um mal-estar difuso, oco e surdo, que se sentia nos joelhos, nos cotovelos, na nuca, no esterno. A tristeza era como um ataque de reumatismo, um lento tormento que chegava a parecer insuportável (…) Tinha a sensação de estar a perder o controlo a uma velocidade vertiginosa. De estar a destruir a sua vida cada dia um pouco mais. As articulações voltaram a doer-lhe. Era um sofrimento fantasmagórico, intolerável. Desejava embrutecer-se, anestesiar-se, perder a consciência, esquecer-se de tudo. Dormir eternamente e fugir de si próprio.” (Pág. 174)

Sinopse

“Num cenário de subúrbio, onde a noite reclama o seu território e os fantasmas reivindicam o seu espaço, um taxista viúvo que não consegue superar a perda da mulher, um médico desiludido, uma cientista anciã e uma belíssima prostituta africana sedenta de vida cruzam os seus caminhos, para nos obsequiarem com uma visita guiada ao mundo vertiginoso e convulso que cada um encerra dentro de si.

Mas esta não é uma história de horrores, é antes uma fábula de sobreviventes, de quatro personagens que reúnem todos os elementos necessários para serem considerados uns desgraçados, que se movem nos mundos limítrofes à máfia, ao tráfico de mulheres brancas, e a universos virtuais como Second Life, mas que conseguem encontrar um apoio que lhes permite a remição e a saída das trevas que os mantinham prisioneiros.

Uma intensa e hipnótica história de esperança que deambula entre o humor e a emoção e nos mergulha na sociedade caótica dos nossos dias. Uma história que pode ser a de qualquer um de nós.”

Porto Editora, 2008