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Roda Dos Livros

«A Malnascida» de Beatrice Salvioni - Opinião

Roda Dos Livros, 08.10.24

O livro «A Malnascida» de Beatrice Salvioni relata “uma daquelas histórias passadas de boca em boca entre as mães que descansam à sombra, tagarelando ao ritmo do abanar dos leques. Uma daquelas histórias que se alimentam de palavras emprestadas, sussurradas às escondidas.”

Pronunciar o nome de Maddalena, A Malnascida era pior que revistar os escrínios alheios. Pronunciar o seu nome era chamar a má sorte. A pequena era pior que feitiço ou mau olhado, olhá-la era pedir para sentir o hálito quente da morte. Nas suas brincadeiras junto ao rio, entre rapazes, trazia o diabo no corpo, entranhado na sujidade que a caracterizava, mas isso não era motivo para Francesca a repudiar, antes pelo contrário. Nem que fosse por desafio à mãe e vontade de pertencer a algo mais que laçarotes e rendas imaculadas de ir à igreja.

“Esbarrar uns nos outros e dar murros, esfregar os joelhos no fundo limoso e sentir a lama negra que se enfiava entre os dedos e se colava os cabelos fez de mim um ser de carne. Era feita de pele e sangue, nódoas negras e ossos. E ângulos e gritos. Estava viva. Com os Malnascidos, podia dizer pela primeira vez “Estou aqui», sentindo todo o peso dessa afirmação.”

Se a base deste romance é o crescimento de cada uma delas e desta amizade, o pano de fundo é uma Itália à beira da guerra com a Etiópia e Mussolini e ecoar em todas as rádios. Os homens a partilhem para a guerra e as mães destas duas meninas com preocupações muito opostas, personificando mais do que as classes sociais que representam, elas revelam os papéis da mulher nas suas mais variadas interpretações quando educam, seja por dedicação e proximidade, seja por alheamento e opressão.

A Itália está cheia de fendas e as famílias também. Cheias de arestas e cicatrizes. Embora a agenda política do fascismo e a das manifestações anti-italianidade sejam importantes neste romance, eu preferi a familiaridade das casas, da frutaria, a praça e o rio ou o cheiro dos guisados e do lodo… É esse lado, quase de intimidade a cada cena que mais me cativou neste livro.

“- Não devias tê-la feito descer connosco ao Lambro. Não devias. (…)

- Eu Não queria - justificou-se. - Foi ele, eu não queria.

- Vão magoar-se. Talvez caiam e os ossos vos saiam pelos joelhos. Ou talvez os ratos do rio vos comam os dedos dos pés. Ou saltem o portão e os picos de ferro vos entrem na barriga.

Avançou para Matteo. Ele recuava.

- É só uma mulherzita? (…)

- És um miúdo invejoso - disse Madalena, continuando a aproximar-se.

Ele desviou-se. Foi então que lançou um grito. Um grito agudíssimo, horripilante. Caiu, enroscou-se, com as mãos à volta de uma perna e revirando-se no meio da terra com os gansos a grasnarem alto à roda dele. Tinha um prego espetado na planta do pé, o Sangue salpicava tudo.”

É um relato rico e bem estruturado, que não esquece ninguém. Homens, mulheres e crianças; o país e a família, a igreja e a educação estão estereotipados, mas amplamente representados e isso conquista desde cedo o leitor, pois nunca conseguimos ficar indiferentes. E ainda que focado nas mulheres, os rapazes desempenham um papel crucial, são as interações com eles que moldam a dinâmica social do grupo.

É um livro feito de gestos, gritos, toques desajeitados, mas carinhosos; discussões, conselhos, maternidade e matrimónio, poder e opressão, desobediência e coragem, violência e amizade. É um grito pela aceitação e a fragilidade feita força, mas eu nunca fui capaz de deixar de o comparar à famosa tetralogia de Elena Ferrante, mesmo não tendo ficado fã nem avançado além do segundo livro.

na senda dos livros que não terminei de ler - «Crónica de um Vendedor de Sangue» de Yu Hua - Opinião

Roda Dos Livros, 26.08.19

Comecei com bastante entusiasmo a leitura deste tão aclamado autor chinês, no entanto, rapidamente percebi que seria difícil manter a vontade em continuar.Na narração dos acontecimentos é constante a repetição de ideias e é utilizado um tom quase infantil, apesar da dureza que envolve a vida dos personagens.Faço uma pausa e vou ler sobre o autor e a sua obra, há motivos para que escreva assim, supostamente na sua língua de origem funcionará melhor e o próprio também pretende esse registo para que até o público mais jovem chegue aos seus romances e conheça o percurso político e sócio-económico da China.Volto à leitura e sinto, o que parece ser uma necessidade, a de identificar muito bem cada personagem, cada fala, cada atitude, e por isso continua a repetição dos nomes dos personagens, que me cansaram desde as primeiras páginas. Apesar de também para isso existir explicação que se encontram nas notas de tradução.Avancei mais um pouco, queria ficar a conhecer essa realidade tão miserável que pautou o regime de Mao, mas a forma como as provações do povo são descritas e até as metáforas, em conversas muito simples entre Xu Sanguan e o tio ou a esposa continuaram a não me cativar e até a ilegalidade da venda do sangue não tornou a narrativa mais entusiasmante.Gostava de ter avançado na história dos filhos ou da esposa desafiante, pois pelo que leio, existem reviravoltas que dão rumo à história, tornando-a ainda mais negra, mas enquanto esperava e lia, mais exasperava.«A mulher de He Xiaoyong saiu de casa, bateu com as mãos nas coxas e disse:"Um descarada que roubou a semente de outro homem e agora vem aqui de nariz empinado."Xu Yulan respondeu: "Dei à luz três rapazes de seguida, claro que venho de cabeça erguida."A outra mulher disse: "Três filhos de pais diferentes, isso é orgulho para alguém?""Essas miúdas também não parecem ser filhas do mesmo pai.""Só uma porca como tu é que estaria com homens diferentes.""E tu, és diferente? Olha bem para o que tens dentro dessas cuecas, isso é uma mercearia, qualquer um pode entrar."»

«Princípio de Karenina» de Afonso Cruz :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.04.19

princípio de Karenina ou a imperfeição que é querer medir a felicidade. 
"A imperfeição salvar-me-ia com igual intensidade e na mesma medida com que me faria sofrer"
É nesta medida dúbia, tendo na imperfeição a salvação, que um homem narra a sua história, numa longa carta de apresentação, à filha que não viu crescer. Explicando-lhe "uma orientação invisível e subtil das nossas vidas através dos afectos", mas também o drama de ter medo do desconhecido e como isso limita o tamanho do mundo; mundo esse sempre estrangeiro como o das mulheres que mais amou.
Essa aversão ao estrangeiro, as costas voltadas ao infinito que é uma janela aberta e toda as fronteiras que mais parecem muralhas, são heranças que cedo sabemos lhe terem ficado do pai. Heranças angustiantes, marcadas por sentimentos fortes que o sufocaram durante décadas.
"Lembro-me muito bem dessa refeição em que o Dr. Vala disse à mesa que as batatas vinham da América do Sul. As emoções, positivas ou negativas, são uma máquina de impressão. Todos os acontecimentos tendem a desvanecer-se, mas a emoção grava-os na pedra da realidade, da nossa realidade (...) O cheiro das batatas cozidas estragava-me o nariz, (...). Olhei de soslaio para o meu pai, tentando perscrutar alguma reacção sua que confirmasse aquilo que eu acabara de perceber, a imoralidade de certa comida que mastigávamos e engolíamos (...)
- O que é que se passa? O menino está pálido.
Estava, efectivamente. Como se enfia na boca uma coisa de tão longe, com um oceano pelo meio, como se mastiga aquela distância toda?"
É essa distância, difícil de mastigar e, mais ainda de engolir, que o assombrou a vida inteira. Vida essa falsamente protegida pela imponência dos muros da moralidade, pregada entre gerações como estandarte contra o Mal.
"Um herói ou um santo só existe se confrontado com o Mal, só existe depois de emergir ileso da barbárie, e eu queria ser um santo como os que ouvia na missa e admirava nos nichos de pedra e nos frescos da igreja."
Para além dos santos, também a mãe vivia encerrada nesses nichos. Temente, ausente e de poucas palavras, constantemente esmagada entre a forte personalidade do marido e "a necessária encenação social que nos mantém coesos enquanto comunidade".
São entre estas personagens e outras pontuais que vamos conhecendo a história deste homem e de uma mulher vinda de geografias longínquas. Conhecemos-lhe o amor e os medos e questionamos atitudes de decisões de quem esteve mais perto de uma felicidade maior e a deixou fugir. Será mesmo assim?
Este, como todos os livros de Afonso Cruz, faz-nos olhar para dentro. São frases pequenas, que parecem simples e que nos arrebatam, puxando-nos para dentro, numa tentativa de perceber mais o que metemos para fora.
E a certa altura, numa conversa entre miúdos, concluímos que onde não há flores há caminho E que o medo nos pode fazer coxos da cabeça, deformando-nos. E que mesmo deformados encontramos um atalho para a vida.

«Numa casca de noz» de Ian McEwan - Opinião

Roda Dos Livros, 19.03.19

"O útero, ou este útero, não é um lugar tão mau quanto isso; assemelha-se ao túmulo, «agradável e privado», num dos poemas favoritos do meu pai.

Eu sei. Os sarcasmos não ficam bem a um nascituro."

Um nascituro "de pernas para o ar dentro de uma mulher" é o narrador deste relato ácido, peculiar e humorístico. O narrador-feto tem uma presença omnipresente e um lugar privilegiado garantindo-lhe saber dos acontecimentos em primeiríssima mão. McEwan consegue, com descrições brilhantes das personagens e de alguns acontecimentos, envolver o leitor nesta massa insólita e alimentar a sua curiosidade, apesar do tem banal do adultério.
"(...) Ouvi dizer uma vez e registei: um parolo de cérebro embotado. As minhas perspectivas tornam-se sombrias. A existência dele impede as minhas legítimas reivindicações a uma vida feliz ao cuidado dos dois progenitores. (...)
E o Claude, como uma mosca volante (...) Nem sequer é um oportunista colorido, nem apresenta o mais leve indício do patife sorridente, (...) insípido para além da invenção, e de uma banalidade tão requintadamente trabalhada como os arabescos da Mesquita Azul."
Juntamente com Claude, Trudy a desleal, é a mãe deste narrador e congeminam um crime passional: matar John, marido, irmão e pai deste narrador ainda por nascer.
Sim, leu bem, tal como em «Hamlet»  A mãe tem um caso com o cunhado, o irmão do marido. Tudo nesta noz tem traços de tragédia clássica. Aliás, o marido, é um poeta falhado, um ser envolto em neblinas de tristeza que declama o seu amor sob a forma antiquada de um soneto. Por outro lado, Claude, é um palerma, um parolo, um néscio, podendo-lhe ser atribuído título de bobo da corte.
Mas voltemos ao narrador, já que tudo à sua volta é caótico, desde os planos a que assiste à casa imunda onde a mãe e o tio habitam ou o seu mundo amniótico bem regado a copos de vinho que facilmente passam o ponto da degustação e podcasts sombrios que o vão educando para o estado do mundo.
"Todas as fontes concordam que a casa é imunda. Só lugares-comuns a definem bem: delapidada, a descascar-se, a desmoronar-se. A geada por vezes gela e torna rígidas as cortinas do Inverno; com as grandes chuvadas, os esgotos, como bancos de confiança, devolvem os depósitos com juros (...9"
Melhor que o argumento é a maneira como McEwan o expõem ao leitor. É brilhante a acidez e humor negro com que o descreve, deixando o adultério e até o crime para segundo plano, conferindo ao narrador preocupações existenciais e avaliações criticas do que o rodeia.
"Portanto, estamos sozinhos, todos nós, até eu, cada um a percorrer uma estrada deserta, transportando ao ombro, numa trouxa atada a um pau, os esquemas e os diagramas para um progresso inconsciente.É um peso excessivo para suportar, demasiado sinistro para ser verdade. Porque havia o mundo de ser apresentar sob uma forma tão dura?"
O narrador é requintado e pejado de carácter, é um ser critico, mordaz e necessariamente dramático:
"Que me envenenem ao teu lado em vez de me entregarem em qualquer sítio.
Típica auto-complacência de terceiro trimestre (...) Se a hipocrisia é o único preço, compro a vida burguesa e considero o preço barato. (...) e o meu direito é ao amor de uma mãe e é absoluto. Não vou dar aval às suas maquinações de abandono. O exilado não serei eu, mas ela. Vou atá-la com esta corda fina, pressioná-la, no dia do meu nascimento, com o olhar atordoado de recém-nascido e um lamento de gaivota solitária para lhe arpoar o coração."
Esta visão ampliada da realidade, proporcionada pela membrana reveladora é constantemente conseguida com ironia e erudição, ou não fosse a linguagem de McEwan o melhor deste romance ao conseguir dar a este personagem-narrador-feto-provocador camadas e camadas e personalidade.
"Nem toda a gente sabe o que é ter o pénis do rival do nosso pai a centímetros do nariz. Nesta última fase, deviam pensar em mim e conter-se. Se não em nome do parecer clínico, pelo menos por cortesia. Fecho os olhos, cerro as gengivas, apoio-me às paredes uterinas. (...) a cada movimento de êmbolo, receio que ele vá investir, perfurar o meu cérebro de ossos tenros e semear nos meus pensamentos a sua essência, a nata transbordante da sua banalidade. (...)
Como um sapo a copular, ele cola-se-lhe às costas. Em cima dela, agora dentro dela, e bem fundo. É muito pouco o que da minha mãe traiçoeira me separa do pretenso assassino do meu pai."

«Filho Único» de Rhiannon Navin :: Opinião

Roda Dos Livros, 31.01.19

Entramos por este drama adentro fechados num armário, escondidos como quem fez asneira ou quem não quer ser apanhado. Tacteamos no escuro, mantemos o silêncio e quase não respiramos. Podia ser uma brincadeira, mas não é. Começamos nesse armário com medo e seguimos por outro armário para combater o luto e a vida que se complica para este menino apenas de seis anos.
É pelos seus olhos que vamos conhecendo o que lhe aconteceu na escola, mas também em casa, numa luta renhida entre um pai e uma mãe perante a dificuldade de enfrentar o futuro. "Um cego a andar" é o título de um capítulo e uma frase que faz muito sentido nesta forma de colocar um menino a narrar a sua vida e a dificuldade que é encarar os enigmas e as metáforas que são as decisões e as frases dos adultos.
É no descodificar desse mundo que o rodeia que os capítulos ganham imenso e apaixonam o leitor, prendendo-o à acção, perguntando-se o que se seguirá e onde ficaremos especados a olhar, imaginando a situação, ilustrando-a na nossa cabeça e já com uma lágrima a se abeirar, até porque Zach usa algumas referências de adultos para ilustrar as palavras novas que aprende ou as actividades extra que faz na escola.
Com Matsuo Bâshó ele quer aprender a beleza das pequenas coisas e dos gestos simples.
Com Frida Khalo aprende a dar tons fortes ou fracos para colorir sentimentos, pois acha que as palavras não chegam.
Com livros que lê sozinho aumenta o seu dicionário pessoal para compreender o mundo dos adultos e de lá tira lições que deseja ensinar aos pais.
Dos filmes do Hulk pensa no bom que seria ter aquela força verde, mas ao mesmo tempo deseja saber conter a raiva que esmaga tudo.
Uma nova missão e um outro rumo aparece com a palavra "comiseração", Zach quer saber o que significa e o que deve fazer com ela; daí até à "missão urgente"ainda rolaram muitas lágrimas, mas Zach sabe que, tal como os seus heróis, terá de ser corajoso e seguir adiante.
«Filho Único» é um livro para se ler de rompante e sentir tudo o que está lá para ser sentido.

«Pão de Açúcar» de Afonso Reis Cabral - Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.18

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"(...) soube que me oferecia tudo o que eu procurava: a colisão de mundos em perigo, o conflito dos intervenientes com ele no centro, a problematização do corpo, as consequências da miséria, essa palavra que já não se usa mas ainda se aplica, o equilíbrio entre o desespero e a esperança. Quer dizer, nada de especial. "
É em conversa com um interveniente das zonas sujas, Rafael Tiago, que Afonso Reis Cabral parte para esmiuçar a ideia central deste «Pão de Açúcar». A morte violenta de Gisberta, facto verídico (Porto, 2006), confere a este romance o lado mais negro de uma sociedade que alimenta e faz crescer crianças que se tornam adolescentes desajustados e desapegados de valores ficam muito aquém dos desejados.
"(...) A bicicleta ainda não se tornara real, faltava dá-la a conhecer. Assim é com desgraças e felicidades, partilhamo-nas para mediar a emoção. Mas então pensei, qual alegria qual tristeza, era só sucata despejada com outras porcarias. Calei-me porque achei ridículo, angustiante também, que o lixo de um fosse o entusiasmo de outro."
É no meio do lixo e da doença que uma amizade frágil e intermitente se dá, satisfazendo necessidades de atenção de ambas as partes e reciclando os restos de uma bicicleta, entretanto, entre visitas, a violência e os ânimos exaltam-se e resultam na morte de um transsexual seropositivo e sem abrigo.
"Ela meteu a ponta do indicador no arroz, experimentou um bocado, e depois já punha a mão inteira, já dizia «Está quente!», engolindo com gozo e fazendo os gemidos de quando o ser humano é bicho. (...) Ávida de limpar o lado dela, não reparava na minha cautela. Apesar de contente por vê-la satisfeita, a imagem da doença babada para a panela fez-me nojo. (...) Contudo, o nojo persistia como as tareias que se apanham na infância e nos deixam o corpo dorido até ao fim da vida."
O cenário não podia ser mais degradante e é em si uma personagem que sublinha a critica social, alertando para um problema que persiste em tantas cidades de norte a sul do país; prédios abandonados aos quais os interesses económicos ou os imbróglios jurídicos não deram seguimento e que são focos promotores de miséria.
"(...) O esqueleto não dava hipermercado. (...)"
"As ratazanas foram as primeiras. Ainda as obras decorriam e já elas se aninhavam nos cantos. (...) À noite, os ocupantes dormiam em barracas improvisadas com caixotes, toros, cartões, plásticos e colchões. Melhor dito, dormiam em lares com toques de luz a conquistar o cimento. A ruína sobrevivia à frustração e sublinhava-se: era só gente a dormir. (...) Para ser útil, não bastava abrigar pedintes, segredos, porrada, troca de seringas, orgasmos e gestos brandos. Não, para ser útil, havia que inaugurar um parque de estacionamento."
O livro é rico nas cenas de convívio entre os jovens e no Pão de Açúcar com Gisberta, mas também dá saltos temporais que levam o leitor a conhecer as duras realidades que ali chocam. Os capítulos oscilam entre o presente de Rafael como mecânico, o lar/abrigo onde os jovens foram criados e a pensão onde Gisberta se prostituía, bem como momentos específicos de algumas daquelas vidas.
"A determinado momento, a Gi passou-lhe a mão pelo cabelo e ele aceitou a carícia com uma naturalidade que eu nunca igualaria. A naturalidade de quem lida desde pequeno com travestis. Para mim foi como levar uma flechada na cabeça: ser assim afagado era mais do que muita gente podia esperar da vida."
Entre alimentar Gisberta e auxiliar Rafael no arranjo da bicicleta, outros episódios acontecem entre os restantes jovens, ainda assim, e mesmo o leitor sabendo o fim, não parece existir nada de decisivo para que a violência ocorra e persista dia após dia. Talvez as circunstâncias, o acaso, a revolta, a desesperança e a solidão... Talvez. Mas isso e muita falta de carinho.
"Dali veríamos as coisas de outra maneira, os problemas ficariam na cave. Os dela, a morte que a comia por dentro, que a obrigava a abdicar a cada dia; os meus, saber que a necessidades de a ajudar só fazia sentido por ambos não termos mais ninguém."

"Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonatham Safran Foer :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.18

Resultado de imagem para "Extremamente alto e incrivelmente perto" de Jonathan Safran Foer

Mais de anos separam os romances "Extremamente perto e incrivelmente alto" de "Aqui estou", mas eu não não precisei sequer de um mês para devorar ambos os livros. A escrita de Foer é altamente marcante. O autor cria narrativas entrecortadas no tempo, que fazem o leitor sentir-se à deriva. Afinal o foco dos seus romances é a família e quantas vezes os dramas familiares não são isso mesmo: um imenso mar onde tudo choca, tudo balanceia e se revolve, aguardando por marés mais calma, mais apaziguadoras.
"As palavras já se tinham esgotado quando conheci a tua mãe, talvez tivesse sido isso a tornar o nosso casamento possível, ela nunca teve de me conhecer."
A sensação de não conhecer perdura no leitor por muito tempo, diria até que navegamos sem rumo por mais de uma centena de páginas. A dificuldade de ligar as histórias e saber quem é quem parece propositada, só Oskar nos vai encaminhando e puxando para o presente. E mesmo assim, a forma acelerada e complexa como funciona a sua cabeça, em modos de quase-cientista, ajuda a compor uma autêntica sinfonia com toda a restante família.
"As minhas botas estavam tão pesadas que me senti contente por haver uma coluna por baixo de nós. Como podia uma pessoas tão solitária ter vivido tão perto de mim durante toda a sua vida? (...)
Isso fez-me começar a perguntar-me se haveria outras pessoas tão solitárias assim tão perto. Pensei em «Eleanor Rigby» (título de uma canção dos Beatles). É verdade, de onde vêm todos eles? E onde pertencem?"
 A solidão é uma constante. É uma tempestade avassaladora. Oskar perdeu o pai no atentados do 11 de Setembro e a sua luta é tentar sentir-se mais perto dele, todos os dias. Oskar não o quer esquecer, não se quer desfazer de objectos do pai, não quer que a mãe prossiga com a sua vida. E mais, quer desvendar um mistério por detrás de uma chave misteriosa. E isso levá-lo-à a confrontar-se com a solidão dos outros, as suas emoções mais retraídas e a crescer em mais direcções do que aquelas em que já cresceu para a sua pouca idade de onze anos.
"Outra coisa que também me surpreendeu foi o caixão não estar fechado à chave, nem sequer pregado com pregos. A tampa só estava assente em cima dele (...). Isso não me pareceu bem. Mas, por outro lado, quem iria abrir querer abrir um caixão? Abri o caixão. Fiquei outra vez surpreendido, embora, mais uma vez, não devesse ter ficado. (...) Ou talvez ficasse surpreendido por ele estar tão incrivelmente vazio. Pareceu-me olhar para a definição de vazio no dicionário."
A variação no discurso é complexa e leva-nos até diferentes personagens que convergem para o passado. O passado, mais ou menos longínquo, é constantemente invocado através cartas dispersas, umas guardadas, outras lançadas ao acaso e ainda outras eternamente à espera de encontrarem coragem para as selar e seguir o seu caminho.
A memória e o passado atravessam esta narrativa com a mesma força com que Oskar se empenha na sua busca. "Extremamente alto e incrivelmente perto." é um livro desafiante, recheado de peripécias e uma boa dose de humor negro, devido à forma como Oskar olha e comenta o mundo à sua volta. E é ainda um livro carregado de emoções que ora nos faz olhar ao nosso umbigo, fazendo-nos reflectir, ora nos abre os olhos para uma dimensão muito maior do mundo.

«Aqui estou» de Jonatham Safran Foer :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.18

AquiEstou_K_RGB.jpgAqui estou! Estou aqui!As mesmas duas palavras. Sentidos tão opostos.Aqui estou, aceita, sacrifica.Estou aqui, afirma-se, destaca-se.

O novo romance de Foer, após onze anos de interregno, acerta em cheio no leitor e pede-lhe que se renda. Que aceite as atitudes, os sentimentos, as emoções, as decisões e as peripécias da família Bloch face a todas as necessidades da vida familiar, por vezes irreconciliáveis com as exigências do mundo actual.

"A parte de dentro da vida tornou-se muito mais pequena do que a de fora, o que criou uma cavidade, um vazio. Por isso o bar mitzvá parecia tão importante: era o último fio de um laço prestes a romper-se. (...)O rabi entrelaçou os dedos, mesmo como um rabi.- Há um provérbio hassídico que diz: «Quando corremos atrás da felicidade, fugimos da satisfação.»"

Talvez a família Bloch corresse atrás do barulho do tempo. Daquele zumbido de fundo, banda sonora de uma grande parte da vida em que ainda: pai, mãe e filhos convivem em puro ambiente de partilha.Julia, Jacob, Sam, Max, Benjy e Argus, o cão; compõem uma família prestes a atingir duas décadas de história, mas a história deles tem ligações mais ancestrais, o judaísmo e a luta em Israel são personagens maiores que determinam tradição, conceito de família e noção de lar. E é essa vida de fora que tanto povoa a de dentro, que criou um fosso entre todos eles e os demais familiares que os rodeiam. Talvez se brinque às aparências, cumprindo rituais e forçando ligações e assim se vá jogando com sentimentos, numa constante ocultação do ressentimento e das necessidades tão próprias de cada um.

"Tudo era outra coisa sublimada: a proximidade doméstica tornara-se distância íntima, a distância íntima tornara-se vergonha, a vergonha tornara-se resignação, o ressentimento tornara-se auto-defesa. Julia pensara várias vezes que, se ao menos conseguissem seguir o fio até à origem da ocultação, poderiam chegar a encontrar a abertura."

Encontrar a abertura dar-lhe-à abertura para superar o que os separa? Serão os danos, entre familiares, recuperáveis com o passar dos anos? Ou apenas se aprende a esconder melhor o que nos incomoda? E por quanto tempo se aguenta esse esconde-esconde? E os outros, notarão?

Foer diz-nos que sim. Os filhos reparam, a família desconfia e os casais sabem que algo não está bem, mas avançam. «T-B-I-S-T-O-P-A-S-A-R-A-» é o nome de um dos capítulos deste romance, em jeito de prenúncio ou de aviso. Existem várias formas se superação, talvez só seja preciso encontrar o tempo certo para cada um.

"Tentava não repara nas vidas deles, mas era impossível ignorar a quantidade de vezes que o pai adormecia a ver a ausência de notícias, como a mãe se retirava para ir podar as árvores dos modelos arquitectónicos, como o pai agora se servia de sobremesa todas as noites, como a mãe dizia ao Argus que «precisava de espaço» quando ele a lambia, como o pai mudara a palavra-passe do iPad, (...) o fim do contacto visual."

É nessa ausência de contacto visual que deixamos de ver o outro e também de olhar para nós mesmos. Jacob e Julia são personagens interessantes, com complexos e medos transversais a todos nós. Ela com a necessidade de obter nos filhos um escudo, uma desculpa que a tudo dá justificação. Ele com a necessidade de ter e dar atenção, criou laços diferentes, mais flexíveis, mas nem por isso mais íntimos. Ambos se chocam e sentem ciúmes, girando em torno de dois grandes temas: os filhos e o facto de serem judeus, talvez para camuflar o desconforto da vida íntima.

"Ficou à porta até ouvir Benjy respirar fundo. Jacob era um homem que recusava o conforto, mas permanecia à porta quando outros teriam partido há muito. Ficava sempre à porta de casa até muito depois de o carro que levava os miúdos à escola ter partido. tal como ficava à janela até a roda traseira da bicicleta de Sam desaparecer na esquina. Tal como ficava a ver-se a si mesmo desaparecer."

"As armas enterradas na terra de Jacob e Julia não eram tão inofensivas como isso (...)Os rituais domésticos estavam suficientemente enraizados para lhes permitir evitarem-se de forma fácil e discreta. (...) Ela dava o pequeno-almoço aos miúdos, ele tomava duche (...), ela levava os miúdos até ao carro e ia até à rua Newark para ver se vinham carros a descer o monte, ele fazia marcha-atrás."

Duas décadas de feridas demasiado rombas para matar, mas suficientes para equacionar a inautenticidade da vida e representar o espectáculo do divórcio. Nas entrelinhas resta-lhes compreender o barulho do tempo de cada um.

"Demorou algum tempo (...) a perceber do que é que ele estava a falar. O frigorífico estava a ser arranjado, por isso faltava, na cozinha, aquele zumbido omnipresente e quase imperceptível. (...) Esse era o barulho do tempo dele.O meu pai ouvia ataques.Julia ouvia as vozes dos miúdos.Eu ouvia silêncios.Sam ouvia traições e o som de produtos da Aplle a ligar.Max ouvia os ganidos de Argus.Benjy era o único suficientemente jovem para ouvir a casa."

Encarar diferenças, limitações, profundidade das atitudes, necessidade de diversão, de espaço, de conforto ou de um abraço pode diminuir o desgaste próprio da vida e equilibrar melhor a rotina dos dias. «Aqui estou» tem alusões à Bíblia e à Tora, fala do luta dos Judeus, chama à atenção para a guerra eterna em Israel, satiriza e discute a causa, mas acima de tudo é um livro sobre o íntimo de cada um e a compaixão necessária para que a resignação não supere a vida.

«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 07.12.18

"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia.""Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão."Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação."Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica."Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...) Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem."(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte (...)"Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista."Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."

«Se esta rua falasse» de James Baldwin :: Opinião

Roda Dos Livros, 04.12.18

Com mais de 40 anos desde a publicação original, «Se esta rua falasse» (1974) é a primeira obra de James Baldwin (1924-1987) a ser publicada em Portugal, um ano depois de termos tido a possibilidade de assistir ao documentário "Eu Não Sou o Teu Negro" e a obra do autor ganhou projecção bem como os temas por ele abordados: o racismo e a complexidade das classes sociais, juntamente com questões de homossexualidade.
"A mente é como um objecto que apanha pó. O objecto não sabe, tal como a mente não sabe, por que razão o que se agarra a ele se agarra a ele. Mas, quando algo te atinge, não desaparece..."
A crítica refere-se a este livro como um romance-manifesto, expondo a injustiça, o racismo e a desesperança de uma família negra quando um dos seus é preso injustamente. Falsamente acusado de violação, Fonny é encarcerado e a sua namorada adolescente, Tish, descobre estar grávida. A prisão separa-os e impede-os de prosseguir as suas vidas. No entanto, há mais a separá-los, o racismo e a discriminação social numa Nova Iorque da década de 70 que talvez pudesse ser a de hoje e isso confere ao romance a intemporalidade dos grandes livros, seja por esse ambiente social ou pelo eterno enredo amoroso de amor incondicional.
"Acho que deve ser raro duas pessoas conseguirem rir e fazer amor ao mesmo tempo, fazer amor porque riem, rirem porque estão a fazer amor. O amor e o riso vêm do mesmo lugar: mas poucas pessoas lá chegam."
Ambas as famílias lutam, cada uma à sua maneira e com os seus próprios demónios, para entender a seu papel na sociedade, na família e até na segregação mascarada de tolerância e integração igualitária, no entanto, a acusação e a dificuldade de defender Fonny prova-lhes que a luta pelos Direitos Civis está na ordem do dia. Tal como hoje continua e é denunciada por movimentos como Black Lives Matter, para os quais o nome do autor tem sido chamado, especialmente depois da adapatação de alguns dos seus textos para o cinema.
No entanto, Baldwin não expõe, de maneira usual, o tema do racismo, interessa-lhe antes expor a magnitude da família e demonstrar a igualdade dessa forma; nos relacionamentos que todos estabelecemos, nos pensamentos e memórias ou preocupações que todos temos; fazendo um retrato do íntimo , semelhante a qualquer um de nós, independentemente de cor, origem ou patamar social.
"Pais e filhos são uma coisa. Pais e filhas, outra. Não adianta tentar compreender este mistério, tão longe de ser simples como de ser seguro. Não sabemos o suficiente sobre nós mesmos. Acho que é melhor sabermos que não sabemos, porque assim podemos crescer com o mistério, à medida que o mistério cresce dentro de nós. Mas, por estes dias, toda a gente sabe tudo, e é por isso que tanta gente anda tão perdida."
Outra particularidade de Baldwin é o tom da sua escrita, de um encadeamento de frases simples e reduzidas, rapidamente saem parágrafos introspectivos, nos quais facilmente lemos a actualidade da sua escrita: "(...) e a chave para a ilusão é a cumplicidade. O mundo vê o que deseja ver ou, quando as coisas não estão a correr bem, o que lhe dissermos para ver: não quer saber quem, nem o quê, nem porquê."
O que torna mesmo pertinente a publicação de autores como este, é a densidade psicológica da sua escrita. Através de uma linguagem acessível a todos, contribuí para a compreensão do outro, mostrando a pressão psicológica inerente ao ser humano que luta por ser aceite e por se compreender a si mesmo.
"As pessoas fazem-nos pagar pelo aspecto que temos, que é também o aspecto que julgamos ter, e o que o tempo inscreve num rosto humano é o registo desse choque frontal."