«A Malnascida» de Beatrice Salvioni - Opinião

O livro «A Malnascida» de Beatrice Salvioni relata “uma daquelas histórias passadas de boca em boca entre as mães que descansam à sombra, tagarelando ao ritmo do abanar dos leques. Uma daquelas histórias que se alimentam de palavras emprestadas, sussurradas às escondidas.”
Pronunciar o nome de Maddalena, A Malnascida era pior que revistar os escrínios alheios. Pronunciar o seu nome era chamar a má sorte. A pequena era pior que feitiço ou mau olhado, olhá-la era pedir para sentir o hálito quente da morte. Nas suas brincadeiras junto ao rio, entre rapazes, trazia o diabo no corpo, entranhado na sujidade que a caracterizava, mas isso não era motivo para Francesca a repudiar, antes pelo contrário. Nem que fosse por desafio à mãe e vontade de pertencer a algo mais que laçarotes e rendas imaculadas de ir à igreja.
“Esbarrar uns nos outros e dar murros, esfregar os joelhos no fundo limoso e sentir a lama negra que se enfiava entre os dedos e se colava os cabelos fez de mim um ser de carne. Era feita de pele e sangue, nódoas negras e ossos. E ângulos e gritos. Estava viva. Com os Malnascidos, podia dizer pela primeira vez “Estou aqui», sentindo todo o peso dessa afirmação.”
Se a base deste romance é o crescimento de cada uma delas e desta amizade, o pano de fundo é uma Itália à beira da guerra com a Etiópia e Mussolini e ecoar em todas as rádios. Os homens a partilhem para a guerra e as mães destas duas meninas com preocupações muito opostas, personificando mais do que as classes sociais que representam, elas revelam os papéis da mulher nas suas mais variadas interpretações quando educam, seja por dedicação e proximidade, seja por alheamento e opressão.
A Itália está cheia de fendas e as famílias também. Cheias de arestas e cicatrizes. Embora a agenda política do fascismo e a das manifestações anti-italianidade sejam importantes neste romance, eu preferi a familiaridade das casas, da frutaria, a praça e o rio ou o cheiro dos guisados e do lodo… É esse lado, quase de intimidade a cada cena que mais me cativou neste livro.
“- Não devias tê-la feito descer connosco ao Lambro. Não devias. (…)
- Eu Não queria - justificou-se. - Foi ele, eu não queria.
- Vão magoar-se. Talvez caiam e os ossos vos saiam pelos joelhos. Ou talvez os ratos do rio vos comam os dedos dos pés. Ou saltem o portão e os picos de ferro vos entrem na barriga.
Avançou para Matteo. Ele recuava.
- É só uma mulherzita? (…)
- És um miúdo invejoso - disse Madalena, continuando a aproximar-se.
Ele desviou-se. Foi então que lançou um grito. Um grito agudíssimo, horripilante. Caiu, enroscou-se, com as mãos à volta de uma perna e revirando-se no meio da terra com os gansos a grasnarem alto à roda dele. Tinha um prego espetado na planta do pé, o Sangue salpicava tudo.”
É um relato rico e bem estruturado, que não esquece ninguém. Homens, mulheres e crianças; o país e a família, a igreja e a educação estão estereotipados, mas amplamente representados e isso conquista desde cedo o leitor, pois nunca conseguimos ficar indiferentes. E ainda que focado nas mulheres, os rapazes desempenham um papel crucial, são as interações com eles que moldam a dinâmica social do grupo.
É um livro feito de gestos, gritos, toques desajeitados, mas carinhosos; discussões, conselhos, maternidade e matrimónio, poder e opressão, desobediência e coragem, violência e amizade. É um grito pela aceitação e a fragilidade feita força, mas eu nunca fui capaz de deixar de o comparar à famosa tetralogia de Elena Ferrante, mesmo não tendo ficado fã nem avançado além do segundo livro.














