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Roda Dos Livros

Tudo o que nunca te disse, de Romana Petri

Roda Dos Livros, 28.08.13

tudo o que nunca te disseNunca tinha lido nada desta escritora e, apesar de ser muito recomendada pelos outros membros da Roda dos Livros, não estava nos meus planos mudar isso nos próximos tempos. Mas surgiu a oportunidade de um encontro com a escritora, uma espécie de apresentação deste "Tudo o que nunca te disse" e acabei por ir à pressa comprar um livro dela para ter, pelo menos, alguma informação e uma espécie de opinião formada aquando da conversa com a Romana Petri. Calhou ser este o único título disponível. Da escritora sabia que é Italiana, casada com um Português e que, por vezes, escreve sobre Portugal e os Portugueses ("A Senhora dos Açores" e "Esteja eu onde estiver").Do encontro com a escritora ficam fantásticas memórias. Ela, para além de ser uma simpatia, é uma contadora de histórias, que enche uma sala e nos prende nas palavras.Não estava de todo preparada para este livro nem para os tons cinza da sua escrita. Ainda bem. É ótimo quando um livro nos surpreende.No orignal o título do livro é "Ti Spiego" que significa algo como "Explico-te". Não posso dizer que este "Tudo o que nunca te disse" nada tem a ver com o conteúdo do livro, mas está demasiado colado ao "As palavras que nunca te direi" para me permitir ter uma ideia real do seu significado.Porque esta não é uma história de amor. De todo. É uma história de desamor. Mário e Cristiana estão divorciados há 15 anos, têm dois filhos e cada um voltou a casar. Ele, atualmente no Brasil com a mulher mais nova e o filho bebé, ela em Itália com o companheiro e os filhos de ambos. Mário, numa aparente tentativa de reviver a sua juventude com alguém com quem a partilhou inicia uma troca de correspondência que os irá levar, numa espécie de jogo, às profundezas mais negras do seu casamento.Neste livro apenas conhecemos o lado de Cristiana, as respostas aos comentários, às provocações e finalmente, quando o jogo muda, o exorcizar de uma série de situações que nos horrorizam.Ao mesmo tempo que vamos conhecendo o casal Mário e Cristiana conhecemos um outro, Mimmo e Elsa, que num segundo plano são demasiado importantes para eles, são o molde onde Mário se inspira para enegrecer ainda mais uma relação que começou mal. Os como, os porquê vamos percebendo ao longo do livro. As verdadeiras razões para que Mário comece este jogo só se tornam claro no final e dependerá de Cristiana vencer ou não, porque afinal "vence aquele que menos sofre".Não é possível ler este livro sem um arrepio, sem a consciência que muito ficou por dizer, que a realidade de Cristiana é a realidade de muitas mulheres por esse mundo fora, uma realidade negra, transversal à nossa sociedade, que corrompe, destrói e que é preciso uma enorme coragem para alcançar a liberdade. Mas este livro não deixa de ser uma réstia de esperança e a prova de que nunca é demasiado tarde para recomeçar

Tudo o que nunca te disse

Roda Dos Livros, 18.08.13

tudooquenuncatedisse

Não estive presente no encontro deste grupo de amigos em que a autora marcou presença. Contudo, ao contrário de outros livros da autora já mencionados nos nossos encontros, que não me atraíram particularmente, este exerceu um inexplicável interesse e ao qual não resisti. Tudo me atraiu desde o título, a capa, até à sinopse.  O interesse manteve-se no decorrer da leitura que durou ... um dia.

Gostei muito das cartas de Cristiana.

Contrariamente a algumas opiniões, não senti amargura ou desilusão que me fosse transmitida com esta leitura, mas é inquestionavelmente um ajuste de contas com o passado. Não era de todo essa a proposta de Mário quando iniciou esta troca de correspondência a que Cristiana deu continuidade, mas o tempo, a distância e a feliz fase afectiva atual, permitiram-lhe expor o muito que sentiu e sabia com honestidade e verdade sobre a sua vida conjunta. Deixa-o KO com o muito que revela. Uma mulher valente - de fibra. Uma mulher paciente mas não submissa ou resignada. Uma mulher que contêm em si muitas mulheres.

Nestas cartas percebemos a relação, e as personagens envolvidas através exclusivamente das palavras de Cristiana.  E surgem duas personagens secundárias - Mimmo e Elsa que vivem uma dramática existência. Ficção mas que infelizmente pode reproduzir algo de muito tenebroso e terrível ... e real. Aliás como tudo nesta narrativa o pode ser.

Bem elaborado e escrito expressa sentimentos com segurança, coerência e fluidez.

Sinopse:

Mario e Cristiana já passaram dos sessenta anos e estão divorciados há quinze. Ele é engenheiro hidráulico, acabado de se mudar para o Rio de Janeiro com a sua jovem mulher e o filho com pouco mais de um ano. Ela vive em Roma com os dois filhos já crescidos e um segundo casamento, feliz. Certo dia, Cristiana recebe uma carta estranha de Mario, do Brasil. Escreve-lhe dizendo que se sente velho, que gostaria de reencontrar um pouco da juventude trocando cartas com ela. Diz que só assim, voltando atrás com quem se foi jovem, se pode continuar a sê-lo. Mas quais serão verdadeiramente as suas intenções?
Através das respostas de Cristiana, o leitor verá desfilar diante dos seus olhos, ao mesmo tempo que a história de um amor naufragado, os tiques e os mal-estares de toda uma geração: as falsas utopias, a crise das relações entre homens e mulheres, a revolução fracassada, o terrorismo, os muitos ideais que se esfumaram, deixando espaço apenas para a realidade banal. E depois os rancores, as traições mútuas, todas as coisas nunca ditas que finalmente vêm ao de cima de maneira violenta, brutal, impiedosa. Até se chegar a um verdadeiro ajuste de contas, no qual todas as cartas são postas na mesa.

Tudo o que nunca te disse - Romana Petri

Roda Dos Livros, 16.08.13

tudooquenuncatedisseSenti uma espécie de desencanto ao longo de toda a leitura deste livro. Inegavelmente bem escrito mas tristemente real e verosímil, foi inevitável deixar crescer um vazio em relação a este monólogo que pretende ser um diálogo, mas que obriga a imaginar uma das partes.

Cristiana responde às cartas de Mário, o ex-marido. Quinze anos após o divórcio Mário retoma o contacto através de cartas. “Tudo o que nunca te disse” são as respostas de Cristiana a Mário. Sucessivas cartas de desamor sobre uma relação da qual ficou uma imensa mágoa, e que servem como exorcismo dos demónios que (ainda) convivem com Cristiana.

Descrições pormenorizadas da opressão e tensão em que Cristiana viveu a sua relação passada, detalhes das formas de humilhação usadas por Mário, tudo nos é relatado por uma mulher que tem necessidade de encerrar um capítulo, de se libertar da amargura e, aos 65 anos, começar finalmente a viver.

Gostei de ler. Romana Petri demonstra mais uma vez a sua capacidade de expressar sentimentos através das palavras, numa escrita consistente, madura, que não se perde em devaneios e se foca em pontos concretos.

O segundo livro que leio da autora foi encarado de uma forma diferente de “Esteja eu onde estiver”. Petri é uma mulher mundana, culta, com o dom da palavra, e com capacidade de encantar plateias com a sua experiência de vida e análise acutilante de escritora. A Roda dos Livros convidou e ela aceitou passar um fim de tarde a (literalmente) maravilhar-nos com a sua história, que é feita das histórias que ela encontra, que a encontram, que a perseguem, ou que simplesmente imagina. Uma escritora de topo, um ser humano especial. Uma noite inesquecível.

“Foi precisamente nesse momento que se me abriram outras perspectivas, um horizonte diverso. Num só instante, consegui ver tudo aquilo que poderia encontrar se te deixasse. Não sei como aconteceu. Foi como uma grande revelação, uma daquelas coisas que não se conseguem explicar, que nos devemos limitar a saber aceitar. Talvez eu tenha esta qualidade: quando vejo a vida oferecer-se-me de modo tão evidente, não lhe consigo dizer não. Parece fácil mas nem todos o sabem fazer. Sabes, os anos, o obscurecimento, o cansaço. Acaba-se por perder aquela lucidez que nos permite fazer a escolha certa quando a ocasião propícia se apresenta. É um instante, não dura mais do que isso e é necessário ter rapidez de espírito. Não digo que não se deva também reflectir, mas é preciso saber fazê-lo rapidamente.” (Pág. 168)

Sinopse

“Mario e Cristiana já passaram dos sessenta anos e estão divorciados há quinze. Ele é engenheiro hidráulico, acabado de se mudar para o Rio de Janeiro com a sua jovem mulher e o filho com pouco mais de um ano. Ela vive em Roma com os dois filhos já crescidos e um segundo casamento, feliz. Certo dia, Cristiana recebe uma carta estranha de Mario, do Brasil. Escreve-lhe dizendo que se sente velho, que gostaria de reencontrar um pouco da juventude trocando cartas com ela. Diz que só assim, voltando atrás com quem se foi jovem, se pode continuar a sê-lo. Mas quais serão verdadeiramente as suas intenções? Através das respostas de Cristiana, o leitor verá desfilar diante dos seus olhos, ao mesmo tempo que a história de um amor naufragado, os tiques e os mal-estares de toda uma geração: as falsas utopias, a crise das relações entre homens e mulheres, a revolução fracassada, o terrorismo, os muitos ideais que se esfumaram, deixando espaço apenas para a realidade banal. E depois os rancores, as traições mútuas, todas as coisas nunca ditas que finalmente vêm ao de cima de maneira violenta, brutal, impiedosa. Até se chegar a um verdadeiro ajuste de contas, no qual todas as cartas são postas na mesa.”

Bertrand, 2013

À conversa com... Romana Petri (Lisboa, 26 de julho)

Roda Dos Livros, 13.08.13

971360_548127248580728_250117220_nA Roda dos Livros saiu fora de portas e esteve à conversa com Romana Petri. O evento teve lugar em Lisboa, no passado dia 26 de julho ao fim da tarde, tendo reunido os elementos do clube de leitores, assim como outros interessados que participaram na sessão com a escritora italiana cuja passagem por Lisboa coincidiu com a publicação do seu novo romance “Tudo o que nunca te disse” publicado no mês passado.

A sessão contou igualmente com a presença de Diogo Madre Deus, o tradutor do novo romance da escritora, tendo partilhado alguns dos desafios que sentiu no decorrer do processo de tradução da obra em apreço.

O ambiente simpático e descontraído que se fazia sentir no pequeno auditório deu origem a uma sessão algo intimista contribuindo para que a escritora se sentisse completamente à vontade para falar sobre a sua carreira como escritora e, claro, sobre as suas obras.

Foi neste ambiente que Romana Petri contou muitas histórias da sua vida relacionadas com os seus livros, assim como detalhes curiosos que estão por detrás de livros e personagens que são do conhecimento dos seus leitores. Durante a sessão assistiu-se a um desfilar de personagens dos vários livros de Romana Petri sem que se obedecesse a uma ordem em especial. Sentia e contava!

149300_652606798085489_1531829323_nSão já nove as obras de Romana Petri publicadas em Portugal desde 1997, tratando-se, pois, de uma escritora que dada a sua ligação a Portugal, acabou por dedicar algumas das suas obras ao nosso país, não esquecendo algumas das ilhas dos Açores que serviram de cenário para os seus primeiros romances, nomeadamente “O Baleeiro dos Montes” passado maioritariamente na ilha das Flores, “A Senhora dos Açores” e “Regresso à Ilha” que têm o Pico como pano de fundo. Se no primeiro caso, a escritora traz para a literatura um tema que é muito querido às gentes dos Açores, especificamente a caça à baleia que foi proibida nos idos anos 80, por outro lado, nos outros dois romances, Romana Petri transporta para a escrita toda uma tradição de raízes culturais assente na forte emigração para os EUA e Canadá, do mesmo modo que através de vários rituais do dia-a-dia e de todos aqueles que cumprem o seu dever no calendário não foram esquecidos. Um aspeto fundamental que não posto de lado nestas obras tem a ver com as fortes recordações dos vivos ligadas aos antepassados que funcionam como que uma linha muito ténue que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

1003160_548126418580811_974076693_n“Esteja Eu Onde Estiver” é uma dedicatória de Romana Petri à cidade de Lisboa retratando com rigor a nossa capital durante um período aproximado de meio século desde os anos 40 até quase ao fim do século passado. Aqui, a escritora consegue fazer-nos recuar a memórias que, em muitos casos, não são nossas, mas sim de familiares idosos, outros que já partiram, mas cujas vidas e ambientes por onde passaram não difere muito daquilo que esta obra nos conta. Este livro em particular poderá ter o mesmo efeito do turístico elétrico 28 em que podemos viajar por locais e espaços emblemáticos de Lisboa que, em muitos casos, pouco diferem das descrições apresentadas por Romana Petri. “Esteja Eu Onde Estiver” é simultaneamente um elogio às mulheres lutadoras que não se deixam vergar pelas agruras da vida, sejam quais forem as condicionantes em questão.

Já o livro “Case Venie – Uma Guerra na Úmbria” retrata a história da resistência na região italiana da Úmbria face à invasão alemã durante a 2ª Guerra Mundial. Este livro tem a sua continuação em “Tutta la Vita”, obra que ainda não se encontra publicada em Portugal.

Segundo Romana Petri, o romance que levou mais tempo a escrever foi “O Fabuloso Destino de Dagoberto Babilonio”, num total de aproximadamente cinco anos. Partindo de uma notícia de jornal sobre o falecimento de um jovem com o nome de Dagoberto Babilonio, a escritora sentiu-se inspirada para escrever um livro com este título. Segundo a escritora, este livro apresenta o seu ideal de homem numa visão quixotesca tendo em consideração que Dagoberto Babilonio abandona a América do Sul de onde é natural partindo em direção à Europa onde participa na Guerra Civil Espanhola, não esquecendo muitas venturas e desventuras do personagem que, desta forma, contribuíram para a realização do seu destino.

Em “Tive de o Matar”, Romana Petri apresenta-nos a história de Lulu que é uma professora que ensina numa penitenciária feminina. Divorciada e com um filho pequeno, sente vontade de pôr em prática um plano de vingança em nome da justiça com a ajuda de alguns personagens da História, tais como, Ricardo Coração-de-leão, Carlos Magno e Alexandre, o Grande, tendo um fim imprevisível…

“Pais dos Outros” é uma das obras singulares da escritora tendo tido várias edições no nosso país. Trata-se de um livro de contos que tem as crianças e os adolescentes como principais protagonistas, desempenhando aqui o papel de vítimas face às sucessivas agressões físicas, psicológicas e emocionais a que estão sujeitos por parte dos seus pais (homens), não esquecendo as consequências que daí advêm e as dificuldades em ultrapassar traumas que nalguns casos a violência conduz mesmo ao suicídio perante a incapacidade de lidar com os fantasmas do passado.

Tudo o que Nunca te Disse - Romana Petri

No que respeita ao novo romance “Tudo o que nunca te disse” publicado recentemente, Romana Petri apresenta-nos uma obra complexa que tem a violência doméstica como pano de fundo. À medida que lemos as primeiras páginas, não sabemos muito bem o desenrolar da história, nem tão-pouco a forma como somos aprisionados numa espiral de violência essencialmente psicológica por parte de Mario em relação à sua esposa Cristiana, agora divorciados há quinze anos. O livro é-nos apresentado sob a forma epistolar e sempre de modo unilateral na medida em que gradualmente vamos tomando conhecimento dos contornos da relação conturbada do casal até ao “grito decisivo” de Cristiana na esperança de poder voltar a viver e… amar. “Tudo o que nunca te disse” volta a destacar Romana Petri como uma das escritoras contemporâneas de renome que não tem deixado muitos leitores indiferentes.

“A vida é uma competição onde quem sofre menos ganha.” (p. 174)

Esteja eu onde estiver - Romana Petri

Roda Dos Livros, 01.08.13

2

Este deve ter sido um dos livros mais lidos neste grupo. E também mais apreciado e elogiado. Por isso, e também devido à desarmante simpatia da autora, que teve a amabilidade de se juntar a nós para uma conversa na semana passada, parti para a sua leitura com a firme convicção de que iria, necessariamente, adorá-lo.

Pois bem: gostei de ler, não há dúvida. Seria impossível não gostar, quanto mais não fosse pelo retrato fiel da sociedade lisboeta e da própria cidade de Lisboa, em especial na parte da história decorrida antes do 25 de Abril, e pela análise psicológica de algumas personalidades-tipo bem definidas. Mas adorar é uma coisa diferente. Adoramos um livro que nos enche as medidas, que explora situações e personagens de modo a superar expectativas, que nos surpreende com matizes inesperados em quadros que julgávamos previsíveis. Ora, não é bem isso que acontece aqui. Aqui, temos um conjunto de personagens caracterizadas por traços psicológicos marcantes - uma mulher resignada e fraca; uma mulher forte, lutadora mas incapaz de se libertar de um amor antigo; uma mulher forte, lutadora e independente; uma mulher condenada à nascença a uma existência terrível e sempre bem disposta; um homem sedutor, falso e mentiroso; um homem sedutor e insensível; um homem ambicioso, calculista e incapaz de expressar sentimentos; um homem viciado em diversão e incapaz de encarar a realidade - que, inevitavelmente, nos fazem identificá-los com alguém que conhecemos, da vida real ou da ficção. E isso acontece precisamente porque, ao longo da narrativa, estas personagens pouco mais fazem do que confirmar os traços gerais do seu carácter tais como acima enunciados em duas ou três palavras. É certo que existem muitas pessoas cujas personalidades se definem essencialmente por dois ou três traços mais fortes. Mas a palavra-chave aqui é "essencialmente". Mesmo essas pessoas possuem nuances de carácter, têm atitudes inesperadas, são por vezes diferentes do que se esperaria delas. É essa dimensão humana que falta aos personagens deste livro. Ninguém leva uma vida inteira de resignação sem nunca ter um assomo de rebeldia. Ninguém consegue ser forte e encarar a adversidade durante toda a vida sem nunca vacilar. Ninguém mente sempre, ninguém é irresponsável a tempo inteiro, ninguém é insensível a 100%. Neste livro, até os diálogos são inverosímeis: uma discussão,seja conjugal ou entre pai e filha, não é composta de longas dissertações proferidas por uma das partes sem qualquer interrupção da outra parte. Na vida real, as pessoas exaltam-se, interrompem-se, insultam-se, dizem o que não sentem para se arrependerem logo a seguir. Não discutem elaborando, com toda a calma, raciocínios lógicos e extensos sobre a situação. Por tudo isto, ao terminar a leitura, ficou-me uma sensação de incompletude: a meu ver, falta aqui uma parte da história. Falta relatar os momentos menos previsíveis, aqueles em que os personagens se afastam do caminho que lhes foi pré-determinado. Como fariam se fossem humanos.

Dito isto, tenho de admitir que o livro faz uma análise bastante interessante de alguns estados de espírito conhecidos de todos nós. Particularmente, das diferentes atitudes femininas perante a vida e o destino. Apesar de toda a dor que se contém nas suas páginas, é, sobretudo, uma obra optimista. Praticamente ordena-nos que encaremos as dificuldades com alegria e esperança, lembrando-nos de que é essa a nossa obrigação se tivemos a sorte de ser presenteados com a saúde suficiente para levarmos uma existência autónoma. E adverte-nos de que, se nos afundarmos na autocomiseração, nada conseguiremos com isso além de desperdiçarmos a nossa própria vida. Poderá ser uma visão um pouco simplista das coisas, como aliás o é todo o livro, mas não deixa de ter um fundo de verdade. Assim como muitas das reflexões que se encontram espalhadas pela obra revelam um conhecimento profundo dos mecanismos que regem as relações entre as pessoas. Não deixa de ser uma leitura leve, mas pelo menos é uma leitura leve de qualidade - bem escrita e com algum conteúdo.

Excertos:

"Mas ainda assim Margarida queria sentir-se feliz, mesmo naquele sofrimento pungente que a afligia. E não queria pedir ajuda, gritava dentro de si mesma que não queria, porque a ajuda nunca existe, apenas existe a ilusão, e cada momento de medo é uma espécie de morte. Sabia isso, que não devia deixar-se levar pelo medo, podia deixá-lo caminhar a seu lado, mas não dirigir-lhe a palavra, nunca, nem uma sequer. Tinha de aprender sozinha as coisas que não sabia, tinha de se chamar pelo nome e dizer-se aquilo que lhe diria uma mãe." (pág. 86).

"- E pensavas que me tinha tornado numa daquelas mulheres que depois de uma grande desilusão veem patifes por toda a parte? Não, Ceuzinha. Eu não tive uma grande vida, mas sempre esperei pelo que viesse e continuarei a esperar com o mesmo otimismo até ao último dia. Não sou daquelas que se viram continuamente para trás, agrada-me mais a emoção que existe nas coisas que se esperam. Amanhã, amanhã, percebes? Sempre amanhã. O mundo é grande. Podemos ter esperança até ao último momento numa vida melhor. Mas não melhor depois, na outra vida, não, sempre nesta, sempre nós, prolongados aqui, de mãe para filho. E então, sim, ter mesmo uma visão da vida eterna, mas sempre aqui, na Terra, porque enquanto a vida durar nós também duraremos. Nada de dramas, de acordo?" (pág. 311).

"Aquele homem era tão incapaz de manifestar os seus sentimentos, que ela, com o tempo, estava a aprender a ser precisamente como ele, a ir contra a sua natureza que era exuberante como a da sua mãe Margarida. E então, muito em breve, tornar-se-iam dois pedaços de gelo que continuariam a viver juntos sem muita coisa para dizer, esperando apenas as horas e todos os dias com aquela resignação que só se aprender a ter em relação às coisas que ficam por concluir." (pág. 368).

"- Então pensa nesse quase, pensa que sermos quase felizes desde o princípio de pouco serve. Ouve, Joana, é sempre uma questão de percentagens. Com o tempo, as percentagens diminuem, logo, é preciso partir de mais alto, de muito alto, percebes?

- O que queres dizer?

- Que um homem, no início, deve agradar-te a cem por cento, a cento e vinte por cento, a cento e cinquenta. Porque depois esta percentagem irá fatalmente baixar e abaixo dos oitenta por cento não pode durar toda a vida." (pág. 513).

"Por vezes, a tristeza é mesmo um destino. Eu encarnicei-me um pouco contra o meu, mas ela resignou-se. Não sei o que é melhor. Sabes, parece-me que encarniçar-se é uma grande perda de energias. Talvez tenha ficado doente por isso. Mas sempre foi mais forte do que eu. Talvez tenha sido assim sobretudo por vós, porque queria dar-vos uma mãe que sorria mesmo quando não tinha muita vontade. Também a minha mãe fez isso por mim." (pág. 519).

Bertrand Editora, 2011.

Esteja eu onde estiver de Romana Petri

Roda Dos Livros, 29.07.13

Edição/reimpressão: 2011

Editor: Bertrand Editora

ISBN: 9789722523578

Ao saber que a Roda dos Livros, um grupo de leitura a que faço orgulhosamente parte, se ia encontrar com Romana Petri fui buscar este livro à estante. Tinha-o comprado porque ouvira falar bem dele mas ficara na prateleira, como tantos outros, à espera de ser lido.

É o primeiro livro que leio desta autora mas espero que não seja o último. Romana Petri tem já nove livros publicados cá e fiquei muito curiosa com alguns deles, sobretudo "A Senhora dos Açores" e "Regresso à Ilha". Saber que os personagens foram baseados em pessoas reais que a escritora conheceu, que os nomes e os lugares pertencem realmente "ao mundo dos vivos" despertou o meu interesse.

Gostei deste livro. Apaixonei-me lentamente pelos personagens e pela história (pelas histórias, melhor dizendo), história que percorre um período longo de Portugal, começando nos anos 40 até quase aos nossos dias. Vários apontamentos históricos estão intrinsecamente ligados às personagens, conferindo-lhes um realismo que incomoda muitas vezes, que traduz na perfeição as mentalidades vividas num meio fechado e controlado por um ditador. Os ecos da revolução fazem-se sentir, as mudanças espelham-se também nas personagens e nas suas vidas. Algumas são divertidas de tão caricatas que são. Quem não conheceu alguém como Belmiro Miraflor?

Uma saga familiar que prende e que, depois das últimas páginas, deixa saudades. As personagens mais fortes, nem sempre as melhores, são as mulheres. São retratadas tal qual a vida as fez: fortes, lutadoras mas também, mesquinhas e vingativas. Mas são, sobretudo, mães. O amor que sentem é transmitido aos filhos. São um porto seguro. Esteja elas onde estiverem!

Um título que adquire todo o sentido aquando da leitura. Uma capa perfeita. Como deve ser!

Uma leitura sólida, consistente, que recomendo. Para saborear muito depois de ter terminado.

Estrelas: 5*+

Sinopse

Ofélia, Margarida e Maria do Céu são as três mulheres de uma emocionante saga familiar que tem início nos anos quarenta e termina nós nossos dias. Situada numa Lisboa de beleza mágica, mas oprimida por uma ditadura que parece interminável, os seus trágicos destinos entrecruzam-se para sempre. Manuel, Carlos e Tiago são os homens que, passadas as suas falsas esperanças, as empurram para o sofrimento e o sacrifício. Onde quer que eu esteja é, acima de tudo, a história de uma maternidade sem limites, a frase que uma mãe profere antes de morrer aos filhos que não quer abandonar. Fresco de um Portugal fechado, dolente e trágico, do longo caminho percorrido pelo povo que, depois de forçado ao silêncio, encontrará a coragem de ser moderno escolhendo a liberdade.

 

Esteja eu onde estiver - Romana Petri

Roda Dos Livros, 18.03.13

estejaeuondeestiverTenho uma sensação estranha agora que me preparo para escrever sobre este livro. A minha primeira leitura deste ano foi de Romana Petri: “O Fabuloso destino de Dagoberto Babilónio”. Livro que não concluí, infelizmente. Não que não tivesse apreciado a escrita da autora, mas a verdade é que não me identifiquei com as personagens nem com o desenrolar dos acontecimentos, pareceu-me um conto fantasioso e inverosímil.

“Esteja eu onde estiver” tem essa mesma escrita rica e bela, quase uma canção que nos leva pelas páginas das vidas de três mulheres, que é praticamente uma saga familiar, uma ode ao amor pelos filhos e à força única das mulheres. O palco é Lisboa. Descrita de forma magnífica, desde paisagens a acontecimentos históricos, hábitos característicos, e pormenores como marcas de produtos bem portugueses utilizados no dia-a-dia.

Espantava-me a cada página quando pensava que o livro foi escrito por uma Italiana. Incrível a forma como absorveu a nossa cultura e modo de estar, não só na atualidade mas também no passado, enquadrando esta saga nos pormenores mais marcantes da nossa história recente. Conflitos políticos, hábitos pitorescos da nossa gente, espantosas descrições da cidade de Lisboa, da sua luz única, dos cheiros, das pessoas, as calçadas gastas todas a descer em direção ao Tejo. Senti-me sempre em Lisboa, ao longo de 70 anos, sempre em Lisboa. Se calhar um livro que pode surpreender mesmo quem lá vive, pelas descobertas que proporciona.

Os portugueses são um povo triste e as mulheres umas sofredoras. Neste livro, em que a doença e a morte estão presentes muitas vezes, é percetível a nossa nostalgia em relação a tudo. As desilusões e “tombos” da vida, aliados a uma certa forma “negra” de ver as coisas, têm feito de nós um povo deprimido e triste. A conjuntura não ajuda mas esta tendência para o “fado” tem-nos mantido sempre dentro do buraco.

Divertido pelo ironia da desgraça e por um leque de personagens brilhantes, descritas de uma forma completa, com perfis coerentes que facilmente identificamos com alguém conhecido, ou de quem já ouvimos falar, “Esteja eu onde estiver”, cativa por ser verosímil, por fazer acreditar que tais vidas são reais, tão certo como uma das personagens ver a telenovela “Vila Faia”, cozinhar com tomate “Guloso” ou massas “Nacional”. Já para não falar na D. Custódia, essa típica beata avessa ao banho e aos rituais de higiene, esposa honrada e sofredora com as traições do seu marido, Belmiro, um macho latino cheio de conversa e habilidades na arte da conquista.

D. Custódia é viciada em Dolvirans, pormenor que achei simplesmente delicioso. Uma mulher tolhida pela dor e pelo medo de viver que a certa altura assume que decidiu morrer.

As peregrinações a Fátima, a fé cega no divino e algumas superstições regem muitos dos passos do dia-a-dia. Só faltou o devido destaque ao futebol, essa doença nacional, para a perfeição das descrições ser total.

Um livro tão completo e tão vasto que deixo apenas a sinopse como resumo da verdadeira ação. Pois que com tantos pormenores e tantas reviravoltas não saberia nem por onde começar. Deixo escrito o que senti, as emoções que vivi, e como tudo conjugado me fez ler centenas de páginas de seguida, me fez desejar que nunca mais acabasse, me irritou, me encantou e me fez viver literalmente a história.

Excelente.

Sinopse

“Custódia, Margarida e Maria do Céu são as três mulheres de uma emocionante saga familiar que tem início nos anos quarenta e termina nos nossos dias. Situada numa Lisboa de beleza mágica, mas oprimida por uma ditadura que parece interminável, os seus trágicos destinos entrecruzam-se para sempre. Belmiro, Carlos e Tiago são os homens que, passadas as suas falsas esperanças, as empurram para o sofrimento e o sacrifício. Esteja eu onde estiver é, acima de tudo, a história de uma maternidade sem limites, a frase que uma mãe profere antes de morrer aos filhos que não quer abandonar. Fresco de um Portugal fechado, dolente e trágico, do longo caminho percorrido pelo povo que, depois de forçado ao silêncio, encontrará a coragem de ser moderno escolhendo a liberdade.”

Bertrand, 2011