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Roda Dos Livros

«Onze tipos de solidão» de Richard Yates :: Opinião

Roda Dos Livros, 06.03.19

yates

Banda sonora para aumentar o efeito deste livro: Bill Evans & Chet Baker - The Legendary SessionsYates escreve de forma assombrosa. Ao longo de onze contos tipifica um pouco de todo o tipo de solidões. A laboral, a escolar, a militar, a de ausência de um parceiro, a de um amor não correspondido, a da falta de um objectivo ou até a da escrita, entre outras. As suas descrições, breves mas acutilantes, caracterizam pessoas e lugares, emoções e atitudes com uma capacidade que chega a abalar o leitor. São onze relatos, todos eles diferentes, mas onde as pessoas tocam facilmente a realidade e até se podem assemelhar ao leitor.
"Ele chegou cedo e sentou-se na última fila - de costas muito direitas, os pés cruzados sob a carteira e as mãos entrelaçadas exactamente sobre o centro do tampo, como se a simetria o pudesse tornar menos visível..."
Esta ideia de simetria versus invisibilidade cativou-me e não mais me largou. Mas muitos são os contos que marcam, aliás, eu diria que todos eles nos marcam, nem que seja com uma frase brilhante que descreve algo de uma forma que parece que nunca antes vimos.
"Por toda a Unidade Sete deambulavam homens à procura de mãos para apertarem."
E é assim. Parece simples, mas numa frase Yates caracteriza e revira todo um conto, mexendo com as emoções do leitor e revelando solidões.
"(...) mas foi o facto de o rosto dele ter assumido um ar que lhe era assustadoramente familiar, o mesmo rosto que ele, Banhas Platt, toda a sua vida tinha mostrado aos outros: assustado, vulnerável e terrivelmente dependente, tentando sorrir, um olhar que dizia «Por favor não me deixes só»."
Sós é o que estão todas as personagens destes onze contos, todos eles espelhando solidões muito diversas e que se expressam de maneiras tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão carregadas de angústia, máscaras, raiva, falhanços e falsas relações humanas, mas ainda assim, os contos estão carregados de gestos de amizade, amor, bons momentos e histórias donas de um humor particular e por vezes traçado numa só linha. Isso, e as descrições brilhantes.
"(...) a caminhar, o seu traseiro parecia flutuar como se fosse uma desajeitada entidade distinta que lhe seguia o rasto."
"A senhora Snell tinha provavelmente sessenta anos, era uma mulher alta e magra, com cara de homem, e as suas roupas, senão mesmo os seus poros, pareciam exalar sempre aquela essência seca de aparas de lápis e pó de giz que era o cheiro a escola."
É extraordinária esta capacidade de retratar alguém com meia dúzia de palavras. A sua escrita chega a ser enérgica, pois o ritmo de leitura não quebra e ainda assim sentimos a solidão e o desespero das personagens, no entanto, é a forma de descrever que prima pela distinção.
"(...) Finney com o sorriso imbecil que por vezes se vê nos ajuntamentos de gente que olha boquiaberta para um acidente na rua e Sobel, tão inexpressivo como a morte."
"Ele parecia determinado a gostar do trabalho. Até trouxe uma pequena fotografia da família - uma mulher cansada a sorrir com desdém e dois filhos pequenos - e pregou-a ao tampo da secretária (...) Mais ninguém alguma vez deixara ficar coisa mais pessoal do que uma caixa de fósforos (...)"
Todos os contos têm particularidades interessantes, mas confesso que «O Sofredor» arrebatou-me, pensar em alguém que havia nascido para sofrer e apreciava esse papel e o desempenhando grande parte da vida, para ser um bom perdedor, deixa qualquer um a pensar.
"Quando Walter Henderson tinha nove anos, durante algum tempo pensou que o auge do romance era cair morto (...)
Ninguém conseguia igualar o abandono com que ele atirava o corpo mole pela ladeira abaixo. (...)
Não havia certamente como negar que o papel de um bom perdedor tinha sempre exercido sobre ele uma atracção desmedida."
No conto «Os dados estão lançados» também fiquei a pensar na dualidade da vida militar e na solidão que pode ser ter e defender uma patente e Yates deixa-nos a pensar ainda mais nisto quando no mesmo parágrafo refere duas ideias tão díspares como estas:
"(...) Reese recusava fazer-se afável. Era o seu único defeito, mas era um grande defeito, porque o respeito não pode durar muito sem afeição (...)
Reese racionava a bondade da mesma forma que racionava água: podíamos apreciar o valor de cada gota (...) mas nunca tivemos o suficiente (...), para matar a sede."

Onze Tipos de Solidão - Richard Yates

Roda Dos Livros, 04.03.17

onzetiposdesolidaoQuando comecei a escrever sobre este livro de contos pensava dedicar um texto a cada uma das histórias. Escrevi umas linhas para o primeiro conto, e mais umas linhas para o segundo. Contudo a leitura ganhou fôlego e dediquei-me a lê-los de seguida, sem me preocupar com anotações e possíveis futuros textos.

A solidão é um tema que me toca particularmente, por ter tanto por onde pegar, literariamente falando. E Yates explora este tema de forma admirável.

Os onze contos não se relacionam, mas todos narram histórias de gente que, de alguma forma, está só. Da infância ao serviço militar, passando pelo casamento e pela doença, ficam as imagens (porque achei a narrativa muito visual) de Onze Tipos de Solidão, que me agarraram pela escrita tão completa que utiliza, curiosamente, poucas palavras. Yates fez-me sentir mais, fez-me estar mais perto das personagens e das suas solidões, nestes contos com cerca de vinte páginas cada, do que muitos calhamaços com centenas delas.

Com um poder de síntese impressionante e uma clareza admirável, Yates já devia ter saltado para as minhas leituras obrigatórias há muito.

Sinopse

“A partir da vida de empregados de escritório em Nova Iorque; de um taxista que ambiciona a imortalidade; de jovens romancistas frustrados; de professores desprezados pelos alunos; de homens do subúrbio e das suas mulheres deprimidas e negligenciadas, de aperitivos e martinis e bares de jazz sem glamour nenhum, Richard Yates constrói um mosaico assombroso dos anos 1950, período em que o sonho americano começava finalmente a concretizar-se e, em simultâneo, a revelar um grande vazio.Publicado a seguir ao romance que consagrou Richard Yates - Revolutionary Road - o conjunto de onze histórias - ilustrando cada uma delas uma vertente desses Onze Tipos de Solidão - cria, para lá do retrato, uma forte atmosfera de alienação e desconexão social.”

Quetzal, 2011

Tradução de Nuno Guerreiro Josué