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Roda Dos Livros

"Jantar Secreto" de Raphael Montes - Opinião

Entre a Crítica e o Espetáculo do Horror

Efeitocris, 29.07.25

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Raphael Montes, conhecido pelo seu estilo provocador e sombrio, leva-nos em Jantar Secreto a uma narrativa onde o grotesco, o absurdo e a crítica social se entrelaçam. O livro apresenta-se como um thriller macabro, centrado num grupo de jovens que, em (supostas) dificuldades financeiras, decide organizar jantares clandestinos para uma elite disposta a pagar fortunas por um prato incomum: carne humana. No entanto, o que poderia ser apenas uma trama de terror ganha uma camada extra ao roçar questões morais e sociais inquietantes.

A analogia com a exploração animal na indústria alimentícia é evidente: Montes subverte a lógica habitual e, ao inverter os papéis, obriga-nos a questionar a hipocrisia do consumo de carne e até que ponto estamos dispostos a ignorar o sofrimento dos animais quando dele retiramos algum tipo de benefício e prazer.

No entanto, e importa muito destacar, essa crítica, por mais pertinente que seja, corre o risco de ser obscurecida pelo próprio espetáculo de horror que o livro encena, fruto das descrições sordidamente requintadas. Conseguindo, mais uma vez, sublinhar a hipocrisia do consumo de carne animal: isenta de cheiro e imagens do sofrimento dos animais quando a vemos no prato!

As descrições viscerais, muitas vezes gore, não apenas chocam, mas podem também afastar leitores que se sintam desconfortáveis com esse tipo de narrativa. Mais do que provocar reflexão, o horror gráfico pode conduzir à dessensibilização, tornando-se num entretenimento mórbido e até desconexo, afastando uma maior tomada de consciência. Essa desconexão é muito dada pelo tom da narrativa: se, por um lado, há uma tentativa de denuncia social, por outro, a linguagem e a abordagem juvenil do grupo de protagonistas dá um ar quase banal a atos de extrema crueldade.

Outro ponto que ressoa na leitura é a capacidade humana de normalizar atrocidades quando há um ganho envolvido. Jantar Secreto não é apenas um livro sobre canibalismo, clandestinidade e redes de tráfico, mas sobre a frieza e a maldade que podem emergir quando a conveniência se sobrepõe à moralidade.

E é nesse ponto que o livro ainda se torna mais inquietante: não por nos apresentar o horror de forma crua, mas por nos fazer perceber que, em algumas instâncias, a realidade não é assim tão diferente da ficção. E é aceite! A maldade é aceite e justificada.

No final, Jantar Secreto deixa uma questão em aberto: o impacto emocional gerado pela leitura é suficiente para despertar consciência e mudar comportamentos ou trata-se apenas de um choque momentâneo, que se dissipa no ritmo do thriller?