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Roda Dos Livros

Eu Sou a Árvore - Possidónio Cachapa

Roda Dos Livros, 23.10.16

eusouaarvore“Todas as Árvores caminham sobre o Tempo, sobre a passagem das estações, porque nenhum outro movimento lhes resta. Existem, simplesmente, dividindo-se entre o corpo visível que se estende à luz e o corpo inferior que vive de forma encoberta.

Os seus frutos, contudo, são esperanças perdidas, Verão após Verão. Imagens do desejo de poder ser mais do que braços a estender-se ao céu, ao vento, à impiedade dos pássaros. Da vontade que todo o corpo, o poderoso corpo, pudesse sair da terra, com duas pernas móveis, e a fizesse estremecer de medo quando uma delas voltasse a pousar na superfície.

“Toma os meus frutos, com os meus filhos dentro, que são eu, na forma primitiva, e faz de mim um ser que corre”, pedem as árvores aos deuses, na sua súplica.” (Pág. 15).

Fica-me, de alguma forma, pouco para dizer depois da leitura de Eu Sou a Árvore. É um livro forte, muito bem estruturado e com personagens intensas, humanas, cheias de lugares sombrios visitadas por alguns rasgos de luz.

Os anos passam por Samuel e pela sua família. A mulher Jude e os três filhos seguem o sonho do homem que deseja viver da terra. Deixam a cidade e permitem que o campo lhes molde os passos e condicione as decisões. Mais do que falar ou escrever sobre este livro, guardo as reflexões a que me obriga o percurso das personagens. O amor será sempre suficiente para seguir os sonhos do nosso par, mesmo que os nossos não sejam compatíveis e tenham de ficar, necessariamente, para trás? Ou poderemos tornar nossos os sonhos do outro? Como se pode viver sem haver lugar para os nossos desejos?

Pode o próprio Samuel, que vive as suas escolhas, ser plenamente feliz com uma família que o segue, mas não partilha dos seus entusiasmos? E poderá este grupo, esta família, manter a coesão ao longo dos anos? Ou, ao contrário, irá delapidar-se nos silêncios do que fica por dizer (mas não por sentir)?

Os anos cruzam-se ao longo das páginas, como se o passado e o futuro fossem pistas. Não para adivinhar o final, mas para pensar, refletir muito, quer o livro esteja aberto durante a leitura, quer esteja fechado e não nos liberte os pensamentos.

A força de Samuel fica. Persiste. Não cede a ventos ou temporais. É como a árvore que não sai do lugar, com o bom e o mau que essa determinação pode trazer. Porque os homens não são árvores. E só podem abrigar junto a si quem quer viver o mesmo sonho.

Eu Sou a Árvore é realista e por vezes cruel. Eu diria mesmo que é incómodo, que choca e que revolta. Mas é construído na medida certa, com a ponderação inteligente de quem sabe dosear o horror e a beleza, a violência e a ternura, a subtileza e o pragmatismo.

Um livro que permanece.

Sinopse

“Entre os homens e as árvores há tanto em comum que por vezes não se sabe onde começam uns e acabam outros.

Samuel acredita que lhe basta um solo fértil para ser feliz e, sendo-o, permitir que todos o sejam tanto como ele. Mas mulher sonha longe, os filhos guardam segredos, e a força brutal dos seus gestos de patriarca deixa marcas inesperadas naqueles que ama.

No seu esperado regresso ao romance, Possidónio Cachapa colhe um livro onde a Natureza e o Homem vivem misturados, moldando-se e afeiçoando-se mutuamente, enquanto o tempo se some como um carreiro de água em terra seca.”

Companhia das Letras, 2016

Materna Doçura - Possidónio Cachapa

Roda Dos Livros, 06.08.16

maternadocuraLi Materna Doçura no fim-de-semana. Poderia tê-lo lido apenas no sábado, pois é daqueles livros que não apetece largar e que se lê com um prazer constante, que não esmorece.

Apesar de me ter sido muito recomendado eu não sabia nada sobre o livro. A capa e o título não me suscitaram especial interesse, e acabei por tirá-lo da estante um pouco por acaso. Li algures que vai ser adaptado ao cinema e talvez tenha sido esse o impulso que me fez abrir a primeira página. E depois disso sentei-me confortável para saber tudo sobre Sacha, que é apresentado, logo no primeiro capítulo, como um adulto recém-chegado à prisão.

Sacha é o fio condutor desta narrativa. Todas as personagens vão, inevitavelmente, movimentar-se na sua esfera, e fazer as suas histórias parte da história dele. O autor joga muito com o acaso, ou talvez com o que nos queira fazer julgar acaso, como o encontro que Sacha tem, em criança, com o Professor. O encontro destas personagens centrais é fundamental pois, mais tarde, quando cada um deles achar que nada lhes resta, contarão um com o outro. Nenhum substituirá o amor maternal para sempre perdido (para ambos), mas serão o que mais próximo se poderá considerar uma família.

Esta será uma abordagem muito superficial de uma relação que poderia ser a de um pai e de um filho, mas que na verdade nunca o é. Não sei que laços pode criar a ausência e a saudade, mas haverá entre eles a compreensão mutua de quem partilha a dor do amor incondicional interrompido. Ambos perderam as mães.

Esta é a premissa. O resto são surpresas. E Materna Doçura reserva muitas reviravoltas surpreendentes, algumas mesmo inacreditáveis, que me foram fazendo arregalar os olhos e suspirar “não é possível”. Mas é. Neste livro não há impossíveis e eu adorei viver nessa deliciosa ficção de acreditar piamente no inacreditável.

É uma homenagem incrível ao amor. O das mães, pois claro. Para a materna doçura não há sexo ou idade, está para além da vida ou da morte, e chega até nós através deste livro extraordinário sem nunca (mas nunca) cair na pieguice. E isso é obra. É obra tratar um tema bonito, que mexe com emoções profundas, sem resvalar para a lamechice ou provocar a lágrima fácil.

Materna Doçura provoca sorrisos. Muitos. É uma beleza. Leiam-no!

Sinopse

“Ninguém sai ileso de um grande amor. Ou da falta dele. Esta é uma história de fronteiras. E de reencontros. Os homens têm coração de mulher. Deixam-se amar em silêncio. As mulheres têm força de homens. São elas que mais fazem avançar a acção. A materna doçura não precisa de cédula nem de parto. A grande mãe preta e o irredimível solteirão amam os filhos que não tiveram. Este romance faz-se com um infinito «M» de mãe. Numa escrita viciante e cheia de surpresas, a língua portuguesa funciona como chave de «reconhecimento» entre personagens supostamente estranhas. Ninguém diga que conhece a última geração de ficcionistas portugueses se não tiver lido e relido este livro.”

Oficina do Livro, 2004

Viagem ao Coração dos Pássaros - Possidónio Cachapa

Roda Dos Livros, 18.04.15

10923544_10204820467183219_1824910009409859917_nMuito ouvi falar sobre este autor. Bem, muito bem. O nome do autor deixa-me com um sorriso nos lábios. E a escrita deixou-me cativa, de um humor irreverente e certeiro, onde a lucidez impera nesta fantástica narrativa sobre Kika, a menina e mulher, com nome que parece de gato.

 "(...) Acontecimentos menores, passados numa freguesia pequena, onde uma mulher que carrega um Dom, viveu rodeada de seres passados e de coisas que a ultrapassavam, e a quem tinha sido dada a ingrata missão de viver com eles. Que nos interessa que um escritor tenha um dia ouvido falar disto e se tenha aproximado como um insecto nocturno dessa casa onde os raios e os gemidos trovoavam diariamente?"   (pag. 163)

Interessa e muito, porque a breve historia de Maria Joaquina Constança, conhecida por Kika, filha de Evangelina, uma mulher dura e sofrida, e do sonhador e ausente Filipe, temos um retrato da verdadeira e contraditória condição humana. Um Dom de ver e ouvir o que queria e não queria saber, a capacidade de se expressar sem mover os lábios com o alcance da mente, um potencial de curar apenas com as suas mãos e temos uma mulher renegada e amada, que não sabia o que era o amor ate´ ao fim da sua vida.

Criativo e brilhante e mais não escrevo, sobre esta narrativa que nos toca a alma. Leiam! Serão surpreendidos como eu fui.

Sinopse:

Viagem ao Coração dos Pássaros remete-nos para um universo único mas que se repete sempre no tempo dos seres humanos. Fala-nos das contradições e dialética do mundo, do amor, da vida, mas também dos seus opostos. É um livro que se lê num sopro, como se fosse um instante, numa viagem que o leitor faz ao coração, o seu próprio, e o dos protagonistas da história, realista, autêntica e bela.
Possidónio Cachapa conduz-nos através da sua escrita profunda, revelando-nos os dons que todos temos e as nossas virtudes mas também as nossas debilidades e fraquezas, numa simplicidade narrativa que nos prende da primeira à última página.

Viagem ao Coração dos Pássaros, de Possidónio Cachapa

Roda Dos Livros, 21.03.15

10923544_10204820467183219_1824910009409859917_nA sensação que tenho no final desta leitura é que tudo se tratou de um sonho. Que este livro de letras grandes, lido de um fôlego, é uma porta para uma ilha que fica algures depois das nuvens, longe de tudo o que é real. Não é um conto de fadas, nem mete bruxas, pelo menos daquelas de varinha mágica e com caldeirões de feitiços, mas é um passeio no limiar da magia, com personagens que sinto terem sido criadas com generosidade e amor.

Um livro estranho, que não se entranhou mas agradou, com anjos e almas penadas, com seres escolhidos, uma menina eleita para curar e matar, com poderes maiores do que ela.

Kika, a menina visitada pelo anjo ainda na barriga da mãe, que comunica sem falar, que trouxe silêncio a um livro que conta tantas estórias. O silêncio, que eu adoro, que eu aproveito quando o consigo, que me faz pensar melhor, sentir melhor, ler melhor. O silêncio deste livro fez-me escutar melhor todas as suas vozes.

“E natural não era, porque natural, para ele, era partir e esquadrinhar o horizonte até que o ouro e o açúcar lhe escorressem para o colo sem esforço. E, de imagem em imagem, construiu um país, em que as paredes eram altas – quase como a igreja – e as pessoas só faziam o que queriam. Nesse país tinha-se tudo, bastando desejar. E quem não quisesse trabalhar não precisaria, porque as paredes tinham no seu interior tudo o que uma pessoa quisesse. E tantas eram as salas que davam para o descanso de uma vida inteira.” (Pág. 25)

Sinopse

“Viagem ao Coração dos Pássaros remete-nos para um universo único mas que se repete sempre no tempo dos seres humanos. Fala-nos das contradições e dialéctica do mundo, do amor, da vida, mas também dos seus opostos.É um livro que se lê num sopro, como se fosse um instante, numa viagem que o leitor faz ao coração, o seu próprio, e o dos protagonistas da história, realista, autêntica e bela.Possidónio Cachapa conduz-nos através da sua escrita profunda, revelando-nos os dons que todos temos e as nossas virtudes mas também as nossas debilidades e fraquezas, numa simplicidade narrativa que nos prende da primeira à última página.”

Marcador, 2015

"Viagem ao coração dos pássaros", de Possidónio Cachapa :: Opinião

Roda Dos Livros, 10.02.15

"Viagem ao coração dos pássaros" é o regresso ao universo transcendente recriado por Possidónio Cachapa. O livro não é recente, remonta sim a 1999, data da inicial publicação, sendo posterior a "Materna Doçura" que foi o romance por onde conheci o autor.

A forma, quase frágil, com que descreve a realidade dá-lhe uma aura meio irreal, meio mágica, mas cativante. Há um lado rude, mas natural do ambiente telúrico aqui descrito que balanceia e compõe o quadro onírico que o autor quer dar ao leitor. Nas suas palavras existe mesmo uma viagem. A que coração fica ao critério de cada leitor... penso eu!Naquilo em que acreditamos e para o que estamos abertos, ditará muito o quanto podemos entender e aceitar a estória aqui narrada por Cachapa.

Haverá um certo culto por um universo mais mágico, acreditando em algo superior, nem que seja no poder da mente em nos levar a locais para além daqueles em que podemos estar. Talvez essa seja a melhor viagem.

Em "Viagem ao coração dos pássaros", existe uma viagem ao interior, ao rural, ao isolamento, ao temer aquilo que é diferente ou simplesmente pouco aceite e renegado. A ligação à terra traz alguns credos mais pagãos, que por norma o povo toma como existentes, mas nem sempre aceita de bom grado. Esse isolamento e desapego da comunidade por Evangelina e Maria Joaquina (Kika) são o mote para que o enredo cruze as fronteiras da realidade e possa ter contornes menos comuns.

Questiona-se o amor, o pecado, a vida e a morte e claro, o destino.Os Açores são o pano de fundo, a pronúncia marca várias passagens e tem vislumbres de romance em tons nórdicos, de paisagens belas mas ásperas que mexem com os sentimentos e as ideias dos habitantes.Fica ódio por quem parte e uma revolta por quem insiste em permanecer. Resta ainda o pesado silêncio que sobra e que marca bem a ausência.

Não se pense que apesar de isoladas Kika e a mãe estão totalmente sozinhas, não, Felipe, Loduvina, o Anjo, o Fura-Mundos e até o Homem Bala e a sua Trapezista compõem este desfile de personagens que dando apenas aquilo que possuem tentam acalmar e amparar a dor alheia.

E o Escritor? Como lá foi parar o escritor? ... aquele que sabe que o dia "(...) o dia é do domínio das coisas cruas e das arestas cortadas."

"Por maior que seja a insistência, de nada disto se falará aqui, porque foram acontecimentos menores, passados numa freguesia pequena, onde uma mulher, que carrega um Dom, viveu rodeada de seres passados (...) Que nos interessa que um escritor tenha um dia ousado falar disto e se tenha aproximado como um insecto nocturno (...). Por baixo das pedras talhadas existe areia, que veio de um ribeiro que já não corre, e por baixo dessa areia encontra-se terra. Uma terra escura e sufocada pelo peso das coisas que carrega, mas, ainda assim, terra. E por baixo de si, magma. E do magma não se passa, porque, ou se caminha para uma coisa transcendente, ou se morre tornado chamas (...)"