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Roda Dos Livros

Uma parte errada de mim – Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 17.01.17

uma-parte-errada-de-mimSe eu fosse multimilionário atribuiria bolsas de felicidade. Esta é a essência do livro do Paulo! “Uma parte errada de mim” é um livro sobre a busca da felicidade, é assim que o vejo, que o sinto.

“Uma parte errada de mim” fez-me sentir humana... sim, sou humana...Não, não pelo seu tema, não pelas palavras do Paulo, mas porque me fez confrontar com a negação. Tinha dito que não iria comprar este livro – comprei... Tinha dito que, mesmo tendo-o comprado não o leria – li-o... Tinha dito que não queria aprofundar mais o tema, que por demais me é doloroso – entrei nele. Em relação a este livro fiz tudo o que disse que não faria... afinal sou humana...

Há quem me aponte... o livro está cheio de lugares comuns! E depois? Não é a nossa vida cheia de lugares comuns? Ou será que só temos rasgos de genialidade e originalidade? São os lugares comuns que nos conferem humanidade, que nos dão identidade, que nos fazem compreender o outro.

Conheço o Paulo de antes dos episódios narrados neste livro, acompanhei os relatos sobre o seu cancro no Facebook... Não queria regressar a tudo o que já vivi vezes demais.

E não, não foi a uma história sobre o cancro que voltei. Pelo contrário, deparei-me com um livro de memórias, mas também um livro sobre a esperança e sobre a vida. Um livro que nos fala sobre como sobreviver... ao dia a dia... de qualquer vida, que nos fala de medo e superação. Um livro que nos incita a crescer, a ultrapassar os nossos limites, a pensar, de um modo que diria quase budista, que não é uma questão de cancro, é uma questão de vida... é no presente que nos devemos centrar.

“Uma parte errada de mim” tem tanto do que penso sobre a vida que por várias vezes pensei que o Paulo me lia o pensamento... “Uma parte errada de mim” é “uma parte certa da vida”. Gostei e recomendo sem receios. Porque nos faz bem pensar.

 

Excertos

“As certezas de que nos queremos rodear são sempre efémeras ou irreais. Abraçarmos este ponto de interrogação gigante sobre o que somos e sobre até quando o seremos não implica viver numa angústia permanente. Aprende-se a dizer que, ao nascermos, a morte é a única coisa que temos por garantida. Nascemos com o direito de morrer. E estarmos conscientes disso, em vez de nos derrubar, pode ajudar-nos a aproveitar melhor o nosso tempo. Ter a consciência da morte pode ser um passaporte para a liberdade.” (p. 14)

“Se eu fosse multimilionário, a minha filantropia seria tornar-me facilitador de sonhos e vocações. Atribuiria bolsas de um ano para as pessoas serem o que sempre quiseram ser. E, no final desse ano, afeiri-se-ia a sua felicidade, e a delicidade gerada nos outros em redor, como modo de decidir a continuidade da bolsa. Em vez de bolsas para criação literária, ou bolsas de investigação, oubolsas de estudo, eu atribuiria bolsas de felicidade.” (p. 216)

 

Sinopse

Em meia dúzia de meses, Paulo M. Morais ficou sem trabalho, terminou um relacionamento de doze anos e viu-se obrigado a vender a casa. Embora derrotado pelas circunstâncias, queria estar à altura de dessa nova etapa da vida e concentrou-se na missão de cuidar da filha pequena e reatar os laços com a avó centenária que o criara. Sobreveio, então, um estranho cansaço, uma exaustão que a médica de família inicialmente atribuiu às pressões de um ano atípico. Podia ser. E, porém, depois de de vários sustos e vinte e quatro horas nas Urgências do hospital, a verdade veio ao de cima: tinha um linfoma.Durante o tratamento de oito ciclos de quimioterapia (em que a leitura foi a sua grande companhia), começou a escrever sobre a sua experiência. Mas este livro, embora inclua dados sobre os exames, os internamentos ou os efeitos secundários da medicação, está longe de ser um diário da doença; representa acima de tudo uma revisitação do passado, uma reflexão sobre o valor da vida e a real importância das coisas e das pessoas, o elogio do amor e da paternidade, uma busca contínua da paternidade, uma busca contínua das diferentes partes erradas – e certas – que constituem um ser humano que temde confrontar-se diraiamente com o espectro da morte.‘Uma parte errada de mim’ não é, pois, apenas mais um testemunho sobre o cancro. É uma reflexão magistral sobre a condição humana, escrita com a beleza e a cadência de um romance no qual se aguarda um final feliz.

 

casa das letras, 2016

Uma Parte Errada de Mim - Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 25.09.16

uma-parte-errada-de-mimTenho o hábito de começar a ler vários livros ao mesmo tempo. Não me incomoda começar um livro sem ter terminado outro(s), acho mesmo que é uma forma de fazer uma triagem. Há os que me levam a lê-los até ao fim e há os que ficam pelo caminho.

Curiosamente, e por estar a gostar tanto de uma das leituras que tinha em curso, no dia em que este livro chegou até mim, decidi (achava eu) que lhe pegaria quando terminasse o outro. Mas apenas por curiosidade (ou fraqueza) decidi ler o prefácio. Enfim, mais duas páginas da introdução não fariam mal nenhum. Dei uma olhada no primeiro capítulo só para ver como começava a coisa. Quando me apercebi o primeiro capítulo estava lido. Mantive, mesmo assim a decisão de o guardar para mais tarde, até porque o primeiro capítulo me foi um pouco doloroso de ler. Ou seja, refreei-me para não passar a noite agarrada ao livro (sim, gosto de leituras dolorosas), de modo a poder dedicar-me, no dia seguinte, a coisas mundanas, como trabalhar.

Mas o bichinho ficou lá. O Javier Cercas que me perdoe.

Acompanhei os ciclos deste livro na altura em que aconteceram, através das redes sociais. Nunca consegui tecer comentários. Confesso que a exposição do Paulo sempre me impressionou. Não sei se lhe chame coragem ou loucura, mas fiquei sempre com uma sensação estranha de me estar a intrometer em algo muito pessoal. Não acho bem nem mal, simplesmente sentia algum desconforto por ler coisas demasiado íntimas. Mas acompanhei. E preocupei-me. Nunca entendi o que o levou a tal exposição. Este livro ajudou-me a perceber.

Bom, mas para quem não sabe nada sobre o livro nem leu os posts (haverá alguém?), este é o percurso de um homem a quem foi diagnosticado um linfoma (grande e agressivo). É o relato dos oito ciclos de quimioterapia. É uma profunda reflexão de vida que vai muito para além da doença, mas que, se calhar, foi possível porque uma série de acontecimentos (incluindo este terrível diagnóstico) proporcionaram essa viagem, não de descoberta, mas talvez, de aceitação.

Ficam já a saber que o livro não é nada lamechas nem propício a choradeiras. Não terá leitores pelo apelo ao sentimento, mas sim pelo racionalismo com que expõe os factos de uma vida em forma de viagem. Sim, profundas viagens ao passado. Algumas até à infância, numa busca de causas ou motivos para ser como é. Outras mais próximas, já na vida adulta, a mesma procura de respostas. Também não é um livro de auto-ajuda. Não aponta o certo nem o errado, nem pretende defender teorias.

É uma descoberta e é a partilha dessa descoberta. É um relato sem medo e de uma lucidez admirável, que se lê de uma penada. Com a sua escrita limpa e fluída o Paulo levou-me rapidamente até à última página, obrigando-me, com a sua acutilância e capacidade de levantar questões, a pensar no meu próprio percurso, a questionar, como ele, o significado que as grandes mudanças (as que aparecem de surpresa e que não escolhemos) podem ter naquilo que somos ou iremos ser.

Profundamente libertador por mostrar com a mesma sinceridade a tristeza e a felicidade, é um livro honesto que se dá a ler sem se preocupar que gostem dele. Exige de quem lê, mas dá em troca, dá muito, eu senti-me claramente a ganhar pelo que ficou comigo depois de o ler.

Impressionou-me a capacidade de resiliência. Ficam comigo os momentos de grande ternura entre pai e filha, a chegada do amor da Isabel, a avó Nana, e a forma carinhosa com que o Paulo se refere aos amigos. E os livros claro, que não há melhor que ter um cancro para se receber pilhas de livros. Não sei se referi o humor negro… uma especialidade!

É um livro de uma luz intensa. Leiam-no!

Sinopse

“Em meia dúzia de meses, Paulo M. Morais ficou sem trabalho, terminou um relacionamento de doze anos e viu-se obrigado a vender a casa. Embora derrotado pelas circunstâncias, queria estar à altura dessa nova etapa de vida e concentrou-se na missão de cuidar da filha pequena e reatar os laços com a avó centenária que o criara. Sobreveio, então, um estranho cansaço, uma exaustão que a médica de família inicialmente atribuiu às pressões de um ano atípico. Podia ser. E, porém, depois de vários sustos e vinte horas nas Urgências do hospital, a verdade veio ao de cima: tinha um linfoma.

Durante o tratamento de oito ciclos de quimioterapia, começou a escrever sobre a sua experiência.

Mas este livro, embora inclua dados sobre os exames, os internamentos ou os efeitos secundários da medicação, está longe de ser um diário da doença; é, antes, uma reflexão magistral sobre a condição humana, escrita com a beleza e a cadência de um romance no qual se aguarda um final feliz.”

Casa das Letras, 2016

Estrada de Macadame - Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 23.11.14

06-11-14_Coolbooks_PauloMMoraisImpossível não associar de imediato Paulo M. Morais a “Revolução Paraíso”, editado no ano passado. Mas na verdade, Estrada de Macadame, agora publicado, foi escrito primeiro.

Gostei muito do “Revolução”, é um livro marcante, pedaço da nossa História, documento real e ficcional numa mistura única e bem conseguida. Mas gostei mais de percorrer esta Estrada, de sentir esta escrita emocional sobre pessoas que perderam e estão perdidas, que buscam o caminho para chegar a qualquer lugar onde deixe de haver dor.

“Estrada de Macadame” é um livro de pedaços de gente. Gente estilhaçada que anda a apanhar os cacos das perdas, que faz tudo mal porque há momentos em que é impossível saber o que é certo.

Nenhum pai deve sobreviver a um filho. Daniel e Gina perdem a filha, Mariana. Como um elo que se parte entre eles e os afasta irremediavelmente, por não saberem como suportar tanta dor. Separam-se pelo espaço de diferentes continentes. Não deixam por isso de sentir as feridas a sangrar. Daniel viaja para a Índia mas não encontra paz. Regressa com a sua dor e as dores das misérias a que assiste. Gina envolve-se com Adolfo, septuagenário viúvo e analfabeto, que se consola no álcool, juntos começam a beber logo pela manhã.

Com Luís, o mais jovem dos quatro, temos o quarteto vencedor das histórias tristes. E lá vão eles pela Estrada de Macadame com a desculpa de assistir a um funeral. Fisicamente, no Datsun de Gina, também conhecido por Rocinante, de outra forma mais profunda e emocional, pelo tempo, pelas histórias de cada um.

Um livro inevitavelmente triste e de uma profundidade humana que me abalou e comoveu. Seria muito fácil resvalar para uma história de gente desgraçada (ou mesmo desgraçadinha) mas neste ponto o autor soube habilmente criar o limite e nunca passar para o lado do lenço ao nariz.

Vidas de pessoas, contadas de forma crua, palavras que por vezes assentam como um soco no estômago. Extremamente real, eu também segui nesta estrada e fiquei a saber tudo. Fui confidente do que naquela viagem se contou. Senti a necessidade de redenção mas não sei se, ainda hoje, algum deles chegou ao fim desse caminho.

Inevitavelmente destaco a qualidade da escrita de Paulo M. Morais, que me soube agarrar nesta longa história triste, mas que consegue, ao mesmo tempo, umas notas de humor particular em momentos inesperados. Na tasca do Jaime acontece sempre algo que acaba por me fazer rir.

“O café do senhor Jaime é um império de tranquilidade. Nas horas mortas, o sossego parece ser o responsável pelas fissuras nas paredes e nos tampos de mesa. O tempo escoa-se, em silêncio, por aquelas rachas minúsculas enquanto o senhor Jaime se entretém a mastigar palitos atrás do balcão corrido de mármore. O dono do estabelecimento é um homem sovina; só quando um palito começa a esfarelar-se na língua é que se dá ao luxo de trocá-lo por um novo.

Há anos que a clientela habitual do café não passa de três homens sentados à mesa da entrada. (…) Quando Adolfo entrou porta dentro pela primeira vez, o senhor Jaime torceu o nariz ao trabalho adicional.” (Capítulo 6)

“Estrada de Macadame” é editado pelo Coolbooks e infelizmente não o temos em versão livro físico, nem é um e-book que possa ser lido em qualquer e-reader. Com esta espécie de “limitação” perde o autor mas garanto-vos que perdem muito mais os leitores. Por isso, independentemente do formato, leiam e não deixem escapar esta viagem.

Muito bom.

Sinopse

“Estrada de Macadame é a história do encontro improvável de quatro personagens com percursos de vida bastante distintos. A uni-los, a dificuldade de ultrapassar a dor provocada pela morte de alguém amado. Gina e Daniel separam-se quando percebem que procuram formas diferentes de superar a perda da filha: Daniel decide viajar para a Índia à procura do sentido da vida, Gina decide ficar e refugiar-se na rotina do quotidiano conhecido.Adolfo, um sexagenário aprendiz de impressor numa gráfica que se tornou perito em afogar a memória da falecida esposa em copos de uísque, é um dos alunos do projeto de alfabetização de adultos em que Gina é professora. Apesar da diferença de idades, os ecos de vida semelhantes levam Gina e Adolfo a envolverem-se. E quando Daniel, obrigado a regressar da Índia, procura recuperar o seu casamento, Gina mostra-se confusa e dividida.A morte de um dos clientes habituais da tasca frequentada por Adolfo marcará o início de uma viagem catártica. Gina propõe-se conduzir o seu aluno até ao funeral, juntamente com Luís, um jovem que se tornou confidente de Adolfo. Ao pedir a Daniel que também a acompanhe na expedição até uma distante aldeia alentejana, uma mulher une de forma inesperada os destinos de três homens de diferentes gerações.”

Coolbooks, 2014

Revolução Paraíso, de Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 23.11.14

paraíso O tema dirá muito a uns, pouco a outros, o verão quente, o ano de 1975, aquele pós-revolução que trouxe o PREC e figuras incontornáveis na história do nosso Pais. Eu tinha doze anitos, recordo, ainda que com o olhar e sentir de uma criança pré-adolescente, aqueles tempos de verdadeira mudança, de um regime longo demais para a democracia dos nossos dias. E, pegando neste tema, que para uns seria uma armadilha repetitiva, para outros uma emoção descontrolada, o Paulo Morais escreve um romance, cheio de verdade, mantém-se equidistante em relação às mil e uma forças politicas daqueles tempos, onde por vezes cabia pouco equlíbrio e sensatez, traz-nos personagens de truz e záspás. gente que existiu mesmo, viu aquilo mesmo, reagiu assim mesmo, fez-se á vida ou por atalhos ou por convicções. Traz-nos a louca montanha russa dos dias em que as horas traziam ânsias e agonias, em que as pessoas lutavam para que seus cérebros abarcassem a nova realidade e dela soubessem fazer uso. Passeamos pelo Cais do Sodré, suas tascas, seus bares e suas putas, vigiamos os passos de chulos e de antigos pides, convivemos na redacção de um semanário surreal, com linotipistas surpreendentes, revolucionárias do MRPP e homens como se não vêem já. Adamantino Teopisto e César Precatado merecem desde logo, por seus nomes de rara acutilância, mais suas vidas e caminhos, merecem a nossa melhor atenção e companhia. Como a puta Amália ou o Senhor Lopes. Como todos os nomes de toda a gente que tanto decidiu e hesitou no quente e longínquo 1975. Acreditem que iria agora mesmo, assim tal me fosse possível, à Tasca das Gatas mamar umas iscas. Beberia um jarro de branco e encantar-me-ia com uma das personagens mais misteriosas que alguma vez me apareceu pela frente: Eva! Eva é o golo do meio da rua, é a pincelada impensável na tela, é a martelada perfeita no ângiulo da pedra. Eva é nota só, é concerto e recital. Leiam ‘ Revolução Paraíso ‘ ... pois não fazê-lo será descuido e desperdício que quase merece castigo! Paulo Morais ... ou Paulo M. Morais ... saúdo-te com uma reverência ... que livrão nos ofereces.

Revolução Paraíso - Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 09.08.14

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Ainda não tinha nascido quando se deu o 25 de Abril? Devia ler este livro.
Já tinha nascido quando se deu o 25 de Abril? Devia ler este livro.
Muito, muito bom logo a começar pelo título. Não dá lições de moral nem opiniões, é o relato da época contada nas notícias dos jornais.
Verdade que tive que fazer uma cábula com uma linha cronológica para não me perder com tanto golpe de estado, generais e almirantes, siglas, partidos políticos e paraquedistas em queda livre, mas se tinha apenas uma vaga ideia do que se passou na altura agora até já sei o que quer dizer e quando foi o PREC (viva o google)
Temos dois velhotes amigos de longa data, Adamantino Teopisto e César Precato (que nomes do catano), fãs do Eça de Queirós, com o seu próprio jornal que querem contar o lado humano da revolução. Temos ainda a fiel secretária, o sobrinho que quer ser jornalista mas não escreve duas linhas, a estagiária que em vez de notícias só escreve a sua opinião, o tasqueiro Inocêncio nada inocente, o chulo a quem a revolução dá cabo do negócio, a prostituta com nome de fadista fascista, o ex-pide que continua a aterrorizar quem se mete no seu caminho e um Adão alucinado.
Todas estas pessoas se movimentam em duas ou três ruas do Cais do Sodré enquanto se dá a revolução e é toda uma novela histórica muito bem contada.
E a Eva pá? Uma mulher de letras! Todas as conversas no sótão são simplesmente deliciosas.
Ficamos também a saber que há coisas que não mudam: CP e Carris em greve, e “quase metade dos 250 deputados da Constituinte ou não compareceu em S. Bento ou desertou pouco depois de responder à chamada e de garantir o pagamento das ajudas de custo”. São chulos e não é de agora.

Revolução Paraíso - Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 28.12.13

03-04-13_Revolucao_Paraiso_PauloMMoraisOs comentários lidos e ideias partilhadas na Roda dos Livros não me tinham preparado para a excelência de “Revolução Paraíso”. As expectativas eram elevadas e antevi que o tema, bem explorado, poderia permitir uma leitura diferente sobre uma época falada mas raramente alvo de um escrutínio “mais à séria”. Talvez por se tratar de uma época recente, por haver pouco conhecimento e pouco interesse, ou talvez pouco interesse por haver pouco conhecimento.

A verdade é que quem desconhece a época “quente” e conturbada que medeia o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975, ou a desconheça completamente e não tenha interesse em investigar (como eu fiz várias vezes, que sou interessada e curiosa mas já nasci em democracia), vai sentir que a História lhe passa ao lado, vai perder brilhantes requintes de ironia e de um humor de alto nível que Paulo M. Morais proporciona a quem se entrega a esta leitura.

Personagens fiéis à época, pelo que consigo imaginar pois as minhas recordações não chegam tão longe, que falam, agem e vivem uma constante revolução, tempos loucos de uma liberdade que se aproveitava sofregamente mesmo não sabendo, algumas vezes, o que fazer com ela. Uma banda sonora das músicas que todos conhecemos, a intervenção nas ruas e a vida de todos os dias com muitas cores. Por vezes um bocado louco, a antítese da opressão vivida até então que, muitas vezes, leva a extremos pouco recomendáveis. Retrato de um país sem rumo, num risco real de guerra civil, que se desenvolve dentro da habitual bandalheira que caracteriza o nosso povo e na qual, aliás, continuamos a viver.

Retrato não só de uma época mas dos portugueses passados e presentes, com tudo o que de bom e mau nos caracteriza. Difícil escolher uma personagem favorita, pelo menos das reais, traçadas e descritas com uma qualidade tão boa que até assusta, Paulo M. Morais até mete nervos de tão bem que escreve. Para atazanar ainda mais qualquer aspirante a escritor ainda se sai com aquelas fabulosas tiradas Queirosianas. Um trabalho exemplar que deve ser lido e reconhecido. Excelente.

Sinopse

“Alternando realidade e ficção, um romance que nos transporta aos agitados dias da pós-revolução: o retrato de um país que, entre o PREC e as eleições livres, procura um novo rumo.Enquanto nas ruas se decide o futuro de um país, na tipografia de Adamantino Teopisto vive-se um misto de enredo queirosiano, suspense de um policial e ternura de uma novela: com sabotagens, amores proibidos e cabeças a prémio; tudo num ambiente de revolução apaixonado.O rebuliço generalizado tem repercussões no alinhamento do jornal e no dia a dia das gentes de São Paulo e do Cais do Sodré.A revolução é o tópico das conversas nas tascas, nas ruas, no prédio da Gazela Atlântica, contribuindo para o exacerbar das tensões latentes entre o patrão Adamantino e os funcionários. A vivacidade de uma estagiária, as manigâncias de um ex-PIDE foragido, os comentários de um taberneiro e as intromissões de um proxeneta e de uma prostituta, agravam ainda mais a desordem ameaçadora que paira no ar.Nada foi igual na vida dos portugueses após a Revolução dos Cravos. Nada foi igual na vida da "família" Gazela Atlântica após o 25 de Abril.”

Porto Editora, 2013

Revolução Paraíso, de Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 04.11.13

O cravo vermelhoRevolução paraíso desta maravilhosa capa transporta-nos de imediato para o 25 de Abril de 1974, a revolução pacífica que tanto nos orgulha.

E é precisamente pouco depois dessa altura que se inicia este livro.
Dois amigos, César e Adamantino, estão na Lisboa de 74 para fazer um jornal humanista. Aos dois (que me fizeram por diversas vezes lembrar os velhos jarretas dos marretas) junta-se a Deodete (que completa a santíssima trindade), Adão, Viriato, Manuel Ginja e Pandora. Estes são os nomes que fazem "A revista de Portugal". O dinheiro de Adamantino, a revisão e o perfeccionismo de César, a lealdade de Deodete, o amor à impressão de letras de Adão, a genica de Pandora dão o mote a uma estória que se entrelaça com a História.
Entre o 25 de Abril de 74 e o 25 de novembro de 75, Portugal caminhou numa corda bamba, num caminho que nos trouxe até onde estamos hoje (e diga-se  o que se quiser, estamos muito melhor do que estávamos antes do 25 de Abril e até do 25 de Novembro). É essa história que Paulo M. Morais nos conta neste livro. De uma forma extremamente detalhada relembramos acontecimentos, reconhecemos personagens que fizeram a nossa história recente.
Este é um romance histórico, com ênfase no Histórico. Quem está à espera de um romance, esqueça.
E essa é para mim o que mais falha neste livro: a total falta de equilíbrio entre a realidade e a ficção. A estória existe apenas para contar a História. E a forma que o autor escolheu para nos aproximar dos protagonistas reais da revolução e da política é muito interessante. Infelizmente ainda me afastou mais da vida dos moradores do Ramalhão.
Este é um livro para os Portugueses. Não é um livro para quem não sabe nada do contexto histórico do PREC, do pré-25 de Abril nem do pós- 25 de Novembro. Mas para nós é fantástico. Gosto bastante de história e gostei imenso de ler um livro passado num dos mais interessantes períodos da nossa História recente. Faz-nos falta lembrar esse período. Imortalizá-lo nas páginas de um livro é sempre uma óptima ideia. Estou desejosa de dá-lo a ler a quem viveu este período para ver a reacção, para saber o que está a mais e o que está a menos.
Resumindo: se querem ler sobre História de Portugal este é o livro certo. Se querem ler um romance histórico levezinho esqueçam, não estão preparados para ler este "Revolução Paraíso".

Revolução Paraíso - Paulo M. Morais

Roda Dos Livros, 16.07.13
Revolucao Paraiso

Os ingredientes deste livro são de peso: o enquadramento histórico, desenrolando-se a trama durante o período conturbado compreendido entre o 25 de Abril de 1974 e o 25 de Novembro de 1975; as evidentes influências queirosianas, reflectidas não só nos personagens principais (sendo que um deles é, ele mesmo, um admirador confesso de Eça), mas especialmente na fina ironia presente em toda a obra; o cenário físico (a zona do Cais do Sodré e ruas adjacentes, já de si um laboratório sociológico por excelência, e mais ainda na época retratada); o desfile sucessivo de episódios bem presentes na memória colectiva de todos os portugueses, aqui romanceados mas nem por isso menos reconhecíveis; a presença de figuras icónicas da revolução e do PREC, caricaturadas nos seus traços mais marcantes e reconvertidas em personagens de romance, entre as quais se travam diálogos absolutamente deliciosos, que farão rir até às lágrimas qualquer português dotado de um mínimo de memória (a adaptação do famoso debate Soares/Cunhal é um dos momentos mais delirantes do livro, e as discussões entre personalidades como Otelo, Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Spínola no Sótão das Delícias são imperdíveis); mas, acima de tudo, uma escrita inteligente, por vezes acutilante, transbordante de sentido crítico e reveladora da natureza profunda de um povo que consegue combinar a manha e o pequeno expediente com uma dignidade e generosidade ímpares.

Juntanto todos estes ingredientes, obtém-se um livro apaixonante. Mas não apenas isso. Obtém-se ainda uma revisitação súbita do Portugal de há 40 anos (e, no meu caso, da infância), que vemos saltar das páginas a cada passo, ao reconhecermos as músicas que então se cantavam (quem não sabe ainda de cor toda a letra da Grândola e da Gaivota? Quem não se lembra de ouvir "força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço"?), os slogans então repetidos até à exaustão ("25 de Abril sempre!", "fascismo nunca mais!"), as frases que se transformaram em mitos ("olhe que não, olhe que não"; "o povo é sereno! É só fumaça!"), o jargão revolucionário (a reacção, o proletariado, a Reforma Agrária, a maioria silenciosa). E damos por nós a sorrir, recordando pequenos incidentes da nossa própria vida, há muito esquecidos, mas que farão sempre parte da nossa vivência particular daquele tempo sem igual.

E existe ainda a cereja em cima do bolo: Eva, uma personagem original e complexa, cujas idiossincrasias se vão revelando ao longo da obra e que, camaleonicamente, vai personificando sucessivamente diversos estados de alma característicos do povo português até se assumir, finalmente, como a alma livre e indomável de Portugal. Eva é uma personagem genialmente delineada. Talvez porque Eva é uma parte de todos nós.

Excertos:

"Há três dias que Manuel Ginja não aparecia na tipografia. No primeiro dia, o impressor ligara a avisar que faltaria por causa da paralisação dos transportes coletivos: não havia cacilheiros a ligar as duas margens e os transportes da Carris mantinham-se recolhidos nas garagens. No segundo dia de desaparecimento, não houvera telefonema explicativo. No terceiro dia, pegara no auscultador para informar que entrara em greve. A partir duma cabine pública numa viela do Barreiro, Manuel Ginja preveniu Deodete de que só retornaria à gráfica quando o patrão contratasse mais mão-de-obra e lhe subisse o ordenado até, no mínimo, 20 por cento acima do novo salário mínimo nacional. O recado a transmitir incluía ainda uma espécie de ameaça velada:

- Deodete, diz-lhe que ele pode bem com o aumento, até tem fortuna acumulada no tempo do fascismo...

Vendo-se momentaneamente de mãos atadas, Adamantino cedeu à chantagem e equiparou os ordenados de Adão e Manuel Ginja ao salário mínimo nacional, concedendo mais 20 por cento ao tipógrafo como «compensação por operar com maquinaria perigosa». E contratou Raul, neto de Inocêncio, para ajudante de tipografia, integrando-o no posto de aprendiz como modo de contornar o pagamento do salário mínimo. Comprazido por ter finalmente um subordinado em quem mandar, Manuel Ginja anuiu a que o rapaz apenas recebesse uns míseros tostões." (págs. 87 e 88).

"Gostava de conhecer o tal de capitão Maia, mas eles avisaram-me que o meu Éden será só para altos graduados. Apenas os elementos no novo Conselho da Revolução terão prerrogativas de convocatória. Parece que são 25 membros ao todo. De certeza que não cabem ao mesmo tempo aqui no sótão, mais os artistas que querem convidar para animar as noites! Vivo esperançada que um dia se junte a voz encantatória do Zeca (que canta como se falasse e ainda assim nos lidera os pensamentos e ações) a um rosto bonito de capitão revolucionário, daqueles que protagonizam páginas de romance e quebram os corações das leitoras. E se não houver alguém assim, terei sempre o meu Otelozinho de charme abrutalhado. Só receio que ele na cama se ponha com pá para aqui e pá para acolá. É o suficiente para esvair-se o desejo todo num segundo.

- Então fica decidido, pá - disse Otelo. - Será o Vasco a apontar e manter a bolsa de apostas sobre quem será o primeiro a ir para a cama com Eva.

- Também posso entrar nisso, camarada? - perguntou Zeca Afonso.

- Nem pensar! A Eva é para militares, pá. Tu só tocas na guitarra - esclareceu Otelo. - Enche lá o copo e viola lá isso. Sem ser a Grândola, pá, que já não há pachorra." (pág. 222).

"Álvaro Cunhal - Queremos uma Reforma Agrária para o Sótão das Delícias. Um local onde esteja abolido o sentimento de posse burguesa sobre o corpo de uma mulher. O corpo de uma mulher tem de estar ao serviço do povo!

Mário Soares - Mas do povo que ela quiser! O direito à liberdade de escolha de quem amar é uma das grandes conquistas do 25 de Abril!

Álvaro Cunhal - Sim, mas devemos acautelar-nos para que Eva não seja transacionada sob a falsa capa da liberdade de escolha para acabar jogada aos dentes dos partidários da reação, que quer subjugar o seu corpo ao domínio de um senhorio absoluto, de um arrendatário invejoso, das leis dogmáticas da Igreja! A Eva deve ser distribuída pelos revolucionários de esquerda!

Mário Soares - Mas isso é um absurdo! O que está a propor é que Eva do Paraíso seja... uma prostituta, Dr. Cunhal!

- Álvaro Cunhal - Prostituta, não! Uma operária do sexo! Um farol da revolução libertária das mulheres!" (pág. 306).