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Roda Dos Livros

«O Quinto filho», de Dores Lessing - Opinião

Efeitocris, 02.01.26

Um clássico lido na recta final de 2025 e um pequeno texto para brindar a bons livros para 2026.

Boas leituras  paz, serenidade e fé é o que vos desejo para este novo ano.

"O Quinto Filho" é um romance aclamado de Doris Lessing que funciona como uma fábula sombria sobre a maternidade e a desintegração da vida familiar idealizada. A narrativa segue Harriet e David Lovatt, que, apesar do radicais e loucos anos 60/70, constroem - intencionalmente - uma vida familiar tradicional e conservadora, afastada das mudanças sociais da época. Apelidados por muitos de loucos ou desajustados, as suas escolhas foram sendo acompanhadas por todos e até suportadas pela família, em especial pela casa ídilica que escolheram e onde durante anos e anos existiram grande ajuntamentos familiar, que mesmo fora de época eram frequentados por um rol de gente.

Com os filhos a nasceram um atrás do outro, a casa gigante e os eventos familiares, criaram uma «bolha familiar», um refúgio idílico e uma «família-bunker», como descrito, um sistema de apoio para a «sobrevivência de valores que tinham como certos». Contudo, esta paz era frágil e ilusória.

Mas eles não sabiam!

A harmonia é irrevogavelmente quebrada com a quinta gravidez de Harriet, que é fisica e psicologicamente violenta. Esta «gravidez tormentosa» funciona como o «pronúncio de um fim pouco sorridente». A «bolha» da família perfeita pesa sobre a mãe, que entra num estado de «apneia» constante e numa luta contra todo o tipo de dores. A paz era mesmo frágil e a ilusão de um futuro sem tormentos estava à vista. Ao contrário do esperado, a família acorre a ela em tensão, visível num suposto apoio, constantemente contraditório e conturbado que foi ainda mais notório aquando dos primeiros meses de vida de Ben.

Agora eles sabiam que tudo estava ameaçado, mas não conseguiam aceitar

Assim que nasce, Ben é diferente. Inegavelmente diferente: fisicamente grande, bruto desde o berço, invulgarmente forte e incapaz de se integrar. Um mostrengo (a palavra é da Nobel!). A «natureza atávica, quase neandertal» de Ben representa o lado «primitivo» e as motivações destrutivas que levam a melhor sobre a civilização e a educação. A harmonia passou a viver encerrada, tal como Ben.

À medida que Ben cresce, transforma a «bolha harmoniosa e segura» numa «bolha de isolamento e violência». Essencialmente para Harriet, pois o marido e os outros filhos afastam-se, a família visita-os menos e Harriet luta «a sós» contra um «filho tirano». A sua aparente «frieza» não é uma falha moral, mas uma «resposta de sobrevivência» ao caos e à solidão a que é sujeita. Ao encarceramento.

E o encarceramento é duplo. Mãe e filho vivem isolados numa dinâmica que se revelará doentia e que trará desfechos que poderão atormentar o leitor, no entanto, pela forma como está escrito, a narrativa é uma exploração crua dos limites da compaixão e da responsabilidade parental, onde o sonho choca com a realidade e se transforma num pesadelo interminável, uma realidade que mesmo quando é posta em porta alheia, afecta-os na mesma. (Como não?)

Porém, tudo é narrado com essa frieza e afastamento, que julgo propositado e essa talvez seja a mestria de Lessing. Conseguir-nos de espectadores, esmiuçando a nossa curiosidade, mas sem nos ligar afectivamente às personagens. 

A comparação com «Temos de falar sobre Kevin» é inevitável e dá vontade de o ir reler, do qual recordo a constante tensão e aperto na gargante perante a sociopatia gritante e a violência que parece inata. Saliento que neste «O Quinto filho», essas sensações não são tão intensas, mas o lado enigmático e frio da escrita são o que cativa.

«Eliete» de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Entre cenas da vida normal, as fendas da maturidade e uma família destelhada

Efeitocris, 31.07.25

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A vida de Eliete decorre dentro da normalidade. Vive-se entre jantares, idas ao ginásio, mensagens trocadas com a filha e a mãe, e uma relação conjugal que se cumpre mais por hábito do que por afecto. No entanto, é nesta vida dita “normal” que Dulce Maria Cardoso faz emergir uma inquietação subtil, mas persistente — o ruído da privação. A privação de sentido, de escuta, de possibilidade. A Eliete não é uma mulher em colapso, mas alguém “a perder o pé à vida e a estar ancorada na dúvida”.

A família a que pertence é uma família destelhada, onde ainda sobram algumas telhas. E talvez seja isso a normalidade: viver sob uma estrutura que já teve mais força, mais abrigo, mas que continua de pé, colada por uma argamassa difícil de nomear. O que a mantém? O hábito, o dever, o medo da perda, ou apenas a falta de energia para reinventar tudo? A resposta ficará com cada leitor.

O livro é também sobre as ligações familiares como herança — e como prisão. Eliete vive rodeada de um passado povoado por mortes precoces, como a do pai, cuja ausência deixou um “amor filial sem destino”, uma dor sem pouso. A utilidade da morte, diz-se, é o sofrimento que deixa nos outros. E é isso que se impõe: os fiapos de memórias, colados por cheiros, fotografias, conversas repetidas, e que agora, com a doença da avó — guardiã maior dessa história —, parecem ameaçar desaparecer de vez.

Com uma escrita de precisão sensível e frases incisivas, Dulce Maria Cardoso evita qualquer dramatização. A protagonista move-se com dúvidas reais, inquietações que pertencem a qualquer pessoa — não são “dúvidas de mulher”, nem dramas íntimos exagerados. A autora dá corpo a uma personagem que questiona o papel que desempenha nos outros sem abdicar da procura de um espaço próprio. E, nesse movimento, toca questões fundamentais: como preservar os laços sem nos apagarmos? Como continuar a amar sem nos reduzirmos?

A falta de imaginação, o estar atracada à realidade, são formas de sobrevivência. Eliete não explode — resiste. E essa resistência ganha forma nas suas pequenas rebeliões: permitir-se apaixonar, por exemplo, é permitir-se a sonhar com um futuro, e isso, por si só, é um ato que desequilibra. Porque ao sonhar, Eliete desafia a previsibilidade do quotidiano, esse dia após dia onde tudo parece controlado mas nada é plenamente vivido.

O romance é um inventário de falhas, de silêncios e de tentativas. Mesmo que ela própria não quisesse fazê-lo, lá está “o dedo da mãe” para lembrar tudo o que ficou aquém. E talvez seja nesse entrelaçado de dores e tentativas que o livro mais nos toca — porque reconhecemos ali não só Eliete, mas muitos de nós, a tentarmos viver com as telhas que restam.

"Jantar Secreto" de Raphael Montes - Opinião

Entre a Crítica e o Espetáculo do Horror

Efeitocris, 29.07.25

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Raphael Montes, conhecido pelo seu estilo provocador e sombrio, leva-nos em Jantar Secreto a uma narrativa onde o grotesco, o absurdo e a crítica social se entrelaçam. O livro apresenta-se como um thriller macabro, centrado num grupo de jovens que, em (supostas) dificuldades financeiras, decide organizar jantares clandestinos para uma elite disposta a pagar fortunas por um prato incomum: carne humana. No entanto, o que poderia ser apenas uma trama de terror ganha uma camada extra ao roçar questões morais e sociais inquietantes.

A analogia com a exploração animal na indústria alimentícia é evidente: Montes subverte a lógica habitual e, ao inverter os papéis, obriga-nos a questionar a hipocrisia do consumo de carne e até que ponto estamos dispostos a ignorar o sofrimento dos animais quando dele retiramos algum tipo de benefício e prazer.

No entanto, e importa muito destacar, essa crítica, por mais pertinente que seja, corre o risco de ser obscurecida pelo próprio espetáculo de horror que o livro encena, fruto das descrições sordidamente requintadas. Conseguindo, mais uma vez, sublinhar a hipocrisia do consumo de carne animal: isenta de cheiro e imagens do sofrimento dos animais quando a vemos no prato!

As descrições viscerais, muitas vezes gore, não apenas chocam, mas podem também afastar leitores que se sintam desconfortáveis com esse tipo de narrativa. Mais do que provocar reflexão, o horror gráfico pode conduzir à dessensibilização, tornando-se num entretenimento mórbido e até desconexo, afastando uma maior tomada de consciência. Essa desconexão é muito dada pelo tom da narrativa: se, por um lado, há uma tentativa de denuncia social, por outro, a linguagem e a abordagem juvenil do grupo de protagonistas dá um ar quase banal a atos de extrema crueldade.

Outro ponto que ressoa na leitura é a capacidade humana de normalizar atrocidades quando há um ganho envolvido. Jantar Secreto não é apenas um livro sobre canibalismo, clandestinidade e redes de tráfico, mas sobre a frieza e a maldade que podem emergir quando a conveniência se sobrepõe à moralidade.

E é nesse ponto que o livro ainda se torna mais inquietante: não por nos apresentar o horror de forma crua, mas por nos fazer perceber que, em algumas instâncias, a realidade não é assim tão diferente da ficção. E é aceite! A maldade é aceite e justificada.

No final, Jantar Secreto deixa uma questão em aberto: o impacto emocional gerado pela leitura é suficiente para despertar consciência e mudar comportamentos ou trata-se apenas de um choque momentâneo, que se dissipa no ritmo do thriller?

Repensar a maternidade: entre o instinto, o abismo e o silêncio

Efeitocris, 25.07.25

Maternidades em contraluz, leitura comparada entre Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum 

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As narrativas sobre a maternidade pedem hoje uma leitura crítica que reconheça a sua pluralidade de formas, vínculos e experiências. Não se trata de encontrar respostas, mas de abrir espaço para interrogações: o instinto maternal é mesmo natural? Ou é algo socialmente exigido às mulheres, independentemente do seu desejo ou circunstância?
É nessa zona de fricção que se encontram Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum — dois romances que, a partir de vozes e geografias distintas, desconstruem ideias feitas sobre o que significa ser mãe.

Em Boulder, a maternidade surge como algo imposto, não desejado. A protagonista, envolvida numa relação com outra mulher, vê-se arrastada para uma parentalidade que não quer. O seu percurso revela o desconforto que nasce quando se espera que o instinto apareça “naturalmente” — só porque é mulher, só porque ama outra mulher. A linguagem de Baltasar é afiada, condensada, e traduz essa ambivalência: a protagonista tanto acolhe como repele, tanto ama como se ausenta. O livro não oferece reconciliação, mas um retrato cru da mulher que não se reconhece no papel que lhe é atribuído.

No extremo oposto, Como amar uma filha explora a história de Yoella, mãe que sempre quis sê-lo. No entanto, perde o vínculo com a filha, que corta o contacto e a deixa num silêncio irreparável. A partir desse vazio, a narrativa reconstrói a tentativa de “ter feito tudo certo” — proteger, cuidar, amar. Mas a ausência da voz da filha e o olhar obsessivo da mãe levantam uma pergunta difícil: quando é que amar se transforma em vigilância? E o instinto, por mais presente que esteja, basta?

Ambos os romances recusam a visão idealizada da maternidade. Mostram que ela pode ser desconforto, desencontro, cansaço ou excesso. E que o amor, mesmo quando existe, não garante pertença. Ao problematizarem o que é ser mãe — ou não querer sê-lo — Baltasar e Blum contribuem para pensar a maternidade como um território plural, cheio de zonas cinzentas. E isso, hoje, é mais necessário do que nunca.

*

Para ler mais sobre Boulder, clique aqui e sobre Como amar uma filha, aqui. Boas leituras.

«A Mãe e o Crocodilo» de José Gardeazabal :: Opinião

Efeitocris, 24.07.25

De vez em quando apetece revisitar um livro, mesmo daqueles já lidos há um ano ou mais e dedicar-lhes um texto. Hoje foi a vez deste. Já leram? Se não, espero que a minha review vos espicace o suficiente para o lerem.

Dizer que A Mãe e o Crocodilo é um romance é, no fundo, não dizer nada. Porque este livro não se deixa agarrar por categorias comuns, nem por palavras isentas de um sentido duplo. O que temos aqui é uma narrativa onde as palavras tremem, as personagens ao que parece só aprendem a andar para trás, e a realidade... bem, a realidade passa por nós a correr e nem sempre acena. Pior é não saber o que esperar do futuro, pois ele está cheio de sentimentos e saber que: “Há pessoas à espera do futuro para gritar.”

Os sentimentos são um lago. Está escrito. Um lago onde as pessoas se molham até ao pescoço. Mas o narrador está de fora — não sabe nadar. O leitor também não sabe, mas entra. Porque Gardeazabal não escreve para os que sabem nadar. Escreve para os que se vão afundando. Boia-se no absurdo, como quem flutua numa banheira de realidade reciclada e reciclar rima com ressuscitar e a ressurreição do mundo está na mão dos assalariados da fábrica de reciclagem. Os pobres. E os pobres estão sozinhos e precisam de ficção.

Estranho?

Ainda não, porque eu nem falei da mãe ou do crocodilo Benito.

Gardeazabal não escreve para o leitor comum — escreve para o leitor que aceita o desconcerto como ponto de partida. E esse desconcerto não é estético, nem gratuito: é estruturante. Nem que seja de um universo muito próprio, mas que está cheios de semelhanças com o do leitor. E o leitor somos todos nós!

A intriga é cheia de escamas. Grossas. Ancestrais. É com elas que nos desarma e nos impede de aplicar categorias confortáveis, ou ter certezas… um pouco como Vladimir, personagem-narrador quando diz: “Uma luzinha entra pela claraboia. Suspeito de um sol extraordinário do lado de fora. Não saio, para continuar em dúvida."

E não andamos nós, por aí, todos os dias, cheios de dúvidas? Cheios de ficção.

“O amor, para mim, é primeiro imaginação, e depois realidade. Para mim, amar uma mulher é ficção. Ficção e mentira são coisas diferentes, os pobres e os sozinhos precisam muito de ficção.”

A assinatura do autor, para quem já leu obras anteriores, é clara como um crocodilo num quintal: há sempre uma figura estranha a ocupar o lugar do óbvio. Benito, o crocodilo domesticado, aquece-se ao sol tendo nostalgia do que não viveu. O leitor olha, desconfiado, mas fica. Porque sabe — ou começa a saber — que ali, no coração da bizarria, está uma forma de verdade.

“O crocodilo aquece a barriga mole no calor do cimento, a pose de um velho forçado à experiência das trincheiras. No dia seguinte, o gato do vizinho desapareceu. Também se aquecia no cimento, ao lado do crocodilo, e Benito gostava do gato. Olhava-o, sem se mexer, como um avô a imaginar o fim de uma grande guerra.”

Porque na verdade a guerra está à porta, negá-la é não olhar com atenção às diferentes máscaras com que se apresenta, é negar os transparentes.

“Os mais velhos lembram-se, normalização quer dizer que vai morrer gente. Racionalização, que a matança será organizada. Comboios, horários secretos, construções no campo, cães pastores. Ao fundo, o fumo dos mortos. À chegada, a roupa dos nus amontoada em pirâmides frias.”

A narrativa de Gardeazabal não nos dá respostas, antes oferece o desequilíbrio do silêncio, da reflexão que se entranha pelas ideias bizarras que de tanto chamarem à nossa atenção ganham corpo. Ganham realidade.

“A vida depois da morte é parecida com a vida antes da morte, nós sabemos, vivemos aqui. (…) Um ano depois do fim da reciclagem (e já depois do fim da mina) as pessoas pareciam transparentes, de uma maneira má (…) a pobreza perdeu o seu romantismo, não há mais nada a perder.”

 

A Morte de uma Livreira, de Alice Slater :: Opinião

Efeitocris, 22.07.25

Este sábado que aí vem, em plena canícula do fim de Julho, é dia de andar à Roda e desta vez vou antecipar-me e postar a minha opinião para uma das sugestões que irá para a pilha. 

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“A Morte de uma Livreira” não é um thriller convencional. E ainda bem!

Começa com o típico prólogo enigmático, e segue com uma cadência deliberadamente lenta, onde a intensidade é servida quase em doses homeopáticas (e não esquecer que são quase 400 páginas). A narrativa instala-se no desconforto como atmosfera principal, com o foco na psique obsessiva que desafia expectativas sobre um thriller comum e empurra o leitor para territórios psicológicos mais sombrios, deixando antever um final que faz jus àquela máxima: "os maus voltam sempre!" 😉 A piscadela de olho chega entre referências literárias, reflexões livrescas e turnos na livraria que parecem aligeirar a obscuridade absorvente.

“A minha vida começou realmente quando desisti de tentar integrar-me, quando me instalei em mim própria, como um crocodilo que se afunda num pântano.”

E aí, no lodo, as personagens podem ser desagradáveis, fragmentadas e emocionalmente destruídas, sob tensão, mas desdobram-se num ambiente realista, ainda que com alguns exageros caricaturais. Prova disso é o esforço da autora em detalhar os seus dramas, hábitos, vidas sociais e, claro, o trabalho na livraria — que assume quase o papel de uma personagem. Para dar corpo à rotina numa livraria corporativa, reflexo da experiência pessoal da autora como livreira, ela cria um rol de personagens secundárias que vêm dar sentido e pano de fundo.  A única exceção talvez seja o turno da noite, que só faz sentido para o rumo narrativo que a autora quis seguir. Mas não vou ser picuinhas pois as tensões entre a equipa estão muito bem conseguidas nos diálogos e na frase do plástico bolha 😉 que espelha bem o nível de stress que um trabalho pode gerar.

A obsessão da Roach, num cansaço ósseo que a corrói, supera o simples entusiasmo pelos relatos do true crime: à medida que escala e se transforma em comportamentos extremos — stalking, invasão de privacidade, roubo de objetos pessoais (e mais não digo). Tudo isto motivado por uma ideia distorcida — sublinhe-se: distorcida — de uma “irmandade de sangue” entre ela e Laura, disfarçada, apagada e encerrada no seu trauma e solidão que tanto a abraçam como lhe pesam.

Roach ultrapassa todas as linhas do aceitável, sem qualquer empatia ou entendimento pela experiência das vítimas, que deveriam ser protegidas, e não exploradas. Ser vítima e viver com o trauma não faz de Laura uma normie.

Mas a estranheza de Roach faz dela uma snarky e, poderia o seu humor cortante e sarcástico — típico de uma livreira desencantada e subversiva — ter um tom ácido peculiar e inteligente que nos deixasse groupies mas a sua obsessão fá-la resvalar para uma caricatura assustadora de psicopata e o leitor entre em dilema moral.

“Foi um caso bastante mediático e... Detesto o facto de o meu trauma estar ligado a esta história horrível e de não poder falar de um sem falar do outro. Detesto que o nome dela fique para sempre associado ao homem que a matou e detesto que o mundo só se lembre dela como um capítulo da história da vida dele. Segue-se um longo silêncio e pergunto-me qual deles estará em pulgas para fazer a pergunta inevitável: Mas qual deles? Quem era o serial killer?”

O nível de obsessão desafia a empatia tradicional do leitor, que se vê perante uma personagem perturbada, socialmente desajustada, mas à qual a autora — notoriamente #teamroach — dá todo o espaço narrativo. Torna-a complexa, quase humana, e nunca a condena. No entanto, levanta diversos tópicos para reflexão nas entrelinhas das discussões livreiras. E talvez esse talvez seja um dos lados mais interessantes do livro.

Por trás da obsessão de Roach e da vida quotidiana da livraria esconde-se outro debate, mais estrutural, que ecoa temas anticarcerários e críticos do sistema #ACAB: que narrativas valorizamos, quem lucra com o consumo de tragédia e a quem damos voz nas livrarias? O true crime funciona como mercadoria, e as vítimas — como Laura e a mãe dela — são secundarizadas em favor de uma fascinação mórbida. Laura, em contraste, utiliza a poesia para restaurar humanidade às vítimas, heroicamente recusando-se a cair nesse culto ao criminoso.

Slater não levanta cartazes, mas deixa no ar uma pergunta difícil: será que o fascínio por violência não perpetua exatamente aquilo muitos querem contrariarontar — a exibição do sofrimento como entretenimento e a exploração dos que jamais escolhem ser protagonistas. Não podendo por isso fugir aos tópicos da cultura de cancelamento, a crítica ao consumo voyeurista do true crime e personificar isso em duas mulheres que simbolizam duas escolhas — exploração versus reparação — numa narrativa que convida a pensar além das páginas.

 

Entre purpurinas e sangue: o corpo como espelho partido - leitura comparada entre Maus Hábitos, de Alana S. Portero e As Malditas, de Camila Sosa Villada

Efeitocris, 12.07.25

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Maus Hábitos, de Alana S. Portero, é uma autobiografia disfarçada de ficção, onde se entrelaçam memórias familiares dolorosas com marcas de exclusão social profundas, formando um retrato sombrio de uma época. A repressão da Madrid operária e mais suburbana, pano de fundo para uma juventude trans que cresce entre a violência doméstica e o desprezo público. A segregação do corpo que só encontra soltura nas calles onde se escondem, mas onde também se oferecem e resistem, as que ousam existir à margem.

Portero escreve com crueza sem esquecer o lirismo, mesmo quando descreve o dedo esticado que a catalogava de aberração, por vezes o mesmo dedo com que espalhava purpurina. Maus Hábitos revela a luta contra os outros, mas ainda mais a luta contra si mesma, onde o corpo é centro e ferida. Esse corpo “que não é um erro, mas também não é um milagre”.

Entre os ecos da infância e a prostituição noturna, há uma violência que se repete e um desejo que, mesmo sob ameaça, insiste em brilhar. Uma violência, no corpo, nos hábitos, nos abusos que liga ambos os livros.

As Malditas, de Camila Sosa Villada, parte de coordenadas semelhantes: abandono, marginalização, prostituição;  mas envereda por uma fábula furiosa e mística. Aqui, as travestis – as malditas -  organizam-se tal matilha esfomeada, criam códigos próprios e até fazem justiça com as próprias mãos.

Maus Hábitos esmiúça os escombros íntimos até à verdade dolorosa, As Malditas inventa um universo mágico onde se pode sobreviver sem pedir desculpa. Ambos existem mais na noite, no salto incrivelmente alto de acrílico transparente que é a metáfora perfeita para o equilíbrio periclitante que ambas vivem. Ou sobrevivem.

A vida noturna, nos dois livros, é o último reduto possível. Um lugar onde podem existir, brilhar, fugir ao escrutínio e ao escárnio do dia, aos olhares que as rejeitam e as denunciam como aberrações. Mas a noite é também uma arena onde se repete a violência — “a sombra de não saber qual é verdadeiramente o inimigo”. A casa ou a rua? O pai ou o cliente? A dor ou o desejo? O corpo que pulsa ou o futuro? A noite é o replicar da violência que acompanha os corpos. Define-os!

O travestismo, longe de ser só performance, é armadura, é ritual que as prepara para uma realidade palpável e procurada. Desejada. Uma segunda pele. Mas a pele vai somando idade e estas mulheres não querem apenas sobreviver — querem verdadeiramente existir. Querem brilhar. Na sua transição são diamantes em bruto. E querem brilhar.

Lê-las é espalhar esse brilho. Fica a sugestão. Boas leituras

«Como um romance» de Daniel Pennac :: Opinião

Efeitocris, 11.05.25

"O verbo ler não suporta o imperativo. É uma aversão que compartilha com outros: o verbo «amar»... o verbo «sonhar»... 

É evidente que se pode sempre tentar. Vejamos: «Ama-me!» «Sonha!» «Lê!» «Lê, já te disse, ordeno-te que leias!»
- Vai para o teu quarto e lê!
Resultado?
Nada.
Ele adormeceu em cima de um livro."
 
11
(pelo) Direito de adormecer com um livro
 
E se o leitor adormecer não tem mal. «Como um romance» de Daniel Pennac é um óptimo romance para se ter na mesinha de cabeceira. É um excelente companheiro, nada reclamador, mesmo que numa amizade longínqua, em que apenas lhe prestemos uma visita uma vez por década. A última leitura havia sido em 2010 e há pouco tempo apeteceu-me abri-lo, reencontrar algumas ideias sublinhadas e prestar-lhe a devida homenagem: relê-lo 😍 "A repetição é tranquilidade. É uma prova de intimidade (...) Reler não é repetir, é renovar constantemente um infatigável amor."
 
4
o Direito de Reler 
 
As relações privadas, com a leitura, antes e durante da mesma, o enamoramento com o livros, os personagens, as histórias... as palavras e os efeitos dos livros são algo que se encontra a cada página. Existem piscadelas de olho, sorrisos e gargalhadas... nostalgia. E uma certeza enorme de que, desde cedo, escolhemos o passatempo certo para nós: os livros e a leitura. 
 
E com isso, todo um Universo paralelo.
 
Um com silêncio e os amigos leitores. Logo depois as bibliotecas, as livrarias, a caça a alguma preciosidade num alfarrabista, uma feira de velharias... só porque podem existir livros, a areia da praia como marcador, ou o guardanapo, as notas soltas aqui e ali, o pó que se acumula em casa, porque encontramos sempre um livro inacabado... 
 
20
O Direito de Ler em silêncio
 
Ler é ter um encontro com alguém para além de nós mesmos e ainda assim (parecer) estar sozinho. É rir em público, mais alto e com mais vontade que todos os outros e nem reparar que se riem de nós, por estarmos a rir sozinhos. Ler é encontrar intimidade com a solidão e o silêncio. E apreciar. Desejar esses momentos. Não querer mais nenhuma banda sonora a não ser a do cantar dos pássaros, a da leve brisa ou o rebentar das ondas e ter por companhia um cão sonolento a quem afagamos o pêlo, enquanto mudamos de posição e viramos mais uma página. 
 
"Ninguém se cura desta metamorfose. Não se regressa indemne de tal viagem (...)"
 
Os livros são um meio seguro para prender e manter acesso esse desejo de continuar a aprender. Eles criam o desejo, de aprender, de conhecer, de sonhar, de mudar, de se enraivecer, criticar, espernear...
 
É isso mesmo, ler é sentir! 
 
Mas Pennac pensa sobre num aspecto ainda mais importante: como conquistar leitores, como mantê-los focados nesta coisa se sermos sempre leitores-inacabados, sermos sempre aprendizes - absolute bigenners - estarmos sempre dispostos à surpresa e ao confronto, porque isto de ler e ler muito, também tem os seus percalços e revezes, perdas de entusiasmo e esquecimentos, mas feitas bem as contas o livro nunca nos cobra nada e espera-nos pacientemente, seja na mesinha de cabeceira, na estante ou na biblioteca onde vamos décadas e décadas e fio.
 
14
O Direito de visitar a biblioteca como se fosse uma livraria
 
«Como um romance» é realmente uma preciosidade. É tantas coisas ao mesmo tempo que merece diversas leituras ao longo da nossa carreira de leitor. Mas uma ideia que desta vez me fez muito sentido foi pensar sobre a leitura versus a escola e em como existe uma suposta aversão à leitura. Pior, à leitura como fonte de prazer; e talvez porque na escola se associe muito os programas e as aprendizagens à obrigação. Então, como forma de combater isso, o estudante emancipado, assim que pode, põe fim à leitura e orgulha-se muito disso em idade adulta, é com altivez que diz, orgulho: "o último livro que li foi na escola." E por lá ficou a obrigação e o sofrimento.
 
Mas não será errado?
A leitura foi um dos meios usados para a aprendizagem, sem ela, pouco teria acontecido, por isso, ler e gostar de ler em idade adulta deveria ser uma celebração e uma homenagem à nossa infância. Ler é, para além de prazer, uma forma de liberdade.
 
13
O Direito de querer mais leitores. Leitores em todo o lado. 
 
Numa próxima releitura e escrita de impressões vou focar-me nas leituras inacabadas, nos livros que temos vontade de deitar beiral afora; afogá-los na primeira poça, fechá-los, simplesmente. E fazê-lo sem culpas, apenas saber que estamos a ler mal o mapa...
 
"Mas se até agora não consegui atingir o cimo da Montanha Mágica, certamente que a culpa não é Thomas Mann.
O grande romance que nos resiste, não é necessariamente mais difícil do que qualquer outro... há entre ele - por maior que seja - e nós - por mais aptos que estejamos a «compreendê-lo» - uma reacção química que não resulta. (...)
Temos, então, uma opção: ou consideramos que a culpa é nossa, que nos falta um parafuso, que temos uma falha qualquer, ou vasculhamos a noção controversa de gosto e procuramos traçar o mapa dos nossos."
 
5+7=12 🤣😇
O Direito de Ler não importa o quê, não importa onde
 
E para controvérsias e vasculharmos noções de gosto ainda temos a nossa querida Roda dos Livros, mas sobre isso... 
 
10 - O Direito de não falar sobre o que se leu!

"Firmin" de Sam Savage :: Opinião

Efeitocris, 16.12.14

Firmin” é o verdadeiro rato de biblioteca!

 
Nascido na Pembroke Books, uma livraria da Boston dos anos 60, Firmin começou cedo nos clássico, ou não tivesse ele nascido em cima de Joyce! Aprendeu a ler devorando, literalmente, páginas e páginas de inúmeros livros. Insaciável, as suas leituras e interesses conferem-lhe um humor e um perfil quase “humano” preso num corpo de ratazana… essa foi a sua tragédia!
 
“Tornei-me um cidadão bem informado e, quando o jornal mencionava o «o público em geral», sentia uma pontinha de orgulho.” (pp.82)
 
Era assim mesmo que se sentia Firmin. Depois de muitas e muitas páginas devoradas, mesmo que de clássicos amarelados e já quase caídos em desuso, Firmin considerava um ser interessante (à parte do aspecto físico) e cheio de interesses. Era um ser culto, conhecedor de inúmeros autores e seus respectivos períodos literários, era um conhecer de cinema clássico e profundo apaixonado por Fred Astaire e a sua bela Ginger Rogers. Firmin era um frequentador assíduo  da livraria e do cine teatro da Scollay Square da velha Boston.

Firmin não seria propriamente um BIBLIOBÚLICO, pois ele não esqueceu o mundo à sua volta, aliás passou a interpretá-lo melhor. Este rato de biblioteca, ou neste caso de livraria é mais um caso de BIBLIOBULIMIA. Ele era incapaz de parar. A ingestão literária era tão elevada que Firmin não se esqueceu do mundo, esqueceu-se sim do seu lugar típico no mundo. E é isso que é fantástico neste enredo. A autenticidade da paixão pelos livros. A forma enternecedora como é relata essa paixão. O amor inocente e platónico que desenvolve pelas personagens, pelos escritores, pelo livreiro… É a amizade, mas é também a solidão, é a imaginação fértil que o anima, mas a dura realidade que o abate, que o põe em risco.
Ao fim ao cabo, a literatura é capaz de ser um assunto violento e de colocar o leitor em risco de vida… em especial se for uma ratazana 

“Quando se tem fome, come-se o que há. O simples acto de mastigar e engolir seja o que for pode não alimentar o corpo, mas alimenta os sonhos. E os sonhos com comida são como os outros sonhos – pode-se viver deles até morrer.” (pp.27)

É neste sonho que se alimenta e se firma na BIBLIÓFILO, dos seus observatórios suspensos, o Balão e a Varanda, Firmin apaixona-se por Norman e arrelia-se com algumas manias de outros leitores, como é o caso das dedicatórias, fazendo achar que os livros deveriam ser enterrados com os donos… A educação desta ratazana grotesca (descrição pelo próprio) evoluiu para além da Pembroke Books, estendendo-se às incursões no Rialto Theater, apaixonando-se por filmes antigos entre uma dentada num resto de uma pipoca ou de um rebuçado.

Porém, todo este equilíbrio educacional será posto em causa. “O futuro estava agora envolto numa neblina venenosa”.

Sam Savage criou uma fábula muito rica e desenhada para brindar ao leitor apaixonado por livros. Um leitor que se reconheça em certas taras e manias de Firmin, irá apaixonar-se ainda mais por este livro.

Se por acaso e acredito que muito dificilmente não se apaixone por Firmin, apaixone-se e aprecie Sam Savage, em especial com o livro “O Grito da Preguiça”, comentado aqui ou o mais recente “As Recordações de Edna”, também lido e comentado aqui.

 

«As Recordações de Edna» de Sam Savage :: Opinião

Efeitocris, 08.01.14

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“Quero falar acerca do silêncio: é o silêncio da ausência de rugido, um rugido que se ouve (…) um rugido cacofónico e mesclado da amálgama de pessoas…” (pág.31)
 

É neste rugido, já quase imperceptível, não que esteja a ficar surda, mas porque já o ignora, que Edna vê passar os seus dias. É no silêncio e na ausência que Edna para e sente, realmente, o passar do tempo e Clarence que já se foi.

Inclinada para a divagação, Edna tem em mãos a árdua tarefa de dissertar acerca de Clarence, aquele que foi seu marido e companheiro de uma vida, mas de quem recorda tiques, manias, taras e alegrias, entre as suas próprias memórias, confundindo entre o que é seu e o que era de Clarence. O que me deixa logo a mãos com uma questão: ao fim de tantos anos de vida em comum, que memórias são as nossas, a não ser as que são de ambos!?

É no “martelar das teclas” que Edna se sente tentada a deixar “trovejar” os pensamentos e a aplicar-lhes pouco filtro… já se sabe, que muitos anos de vida em comum, são mais do que suficientes para apontar todos os defeitos… mas será isso que os leitores de Clarence querem ler!? Mas se assim não for, conheceram verdadeiramente o homem por detrás do escritor?

“As solidões, reparei, não gozam de atracção mútua.”

É nesta frase brilhante que Edna nos apresenta Potts, a vizinha que lhe fará uma brecha na solidão, não pela sua presença, mas por outra, um tanto peculiar e que aqui não vou desvendar.

«As recordações de Edna» são quase como um resumo atabalhoado daquilo que pode ser a vida conjugal, depois de muito se ter ido embora e apenas restarem as atribuladas e magoadas visões do passado, que poderão alternar-se entre saudade, nostalgia, remorso, frustração… afinal tudo isto se acumula ao longo da vida, ou não?

“Quando li aquilo pensei, mas qual é a vida que tem capítulos?” (pág.38)

Que capítulos se estabelece na idade geriátrica? É nessa canseira, entorpecida pelo peso da idade que Edna se vê confrontada com ideias e mais ideias que surgem em catadupa, numa torrente imparável, uma fonte que não seca, onde as águas se sobrepõem em movimentos enérgicos. Ainda para mais, tudo isto em contraponto com a falta de energia física, que apenas dá para uma voltinha no jardim e escrever à máquina virada para um vidro, literalmente, marcado pelo passar do tempo.

E o barulho das coisas mortas que incomoda tanto o silêncio dos vivos!? Curioso, não é?

Pensamentos de quem pensa demais. Pensamentos de quem deseja o sossego, para não encarar o desassossego dos outros e dos seus dias cheios de vida.

“(…) empurrada para aqui e para ali pelos ventos da veleidade e da memória (…)” Edna volta a escrever, perdão, a dactilografar, entreolhando as folhas escritas que teimam em fugir debaixo do pisa papeis, que é nada mais nada menos que O Peso do Mundo de Peter Handke, numa metáfora, a meu ver, surreal, para a mão critica de Edna sobre Clarence.

Mas afinal, que peso e importância teve Clarence na vida de Edna?

“O que me leva a perguntar se o importante é o que acontece no passado, ou o que nos lembramos que aconteceu.” (pág.98)

As divagações continuam e esperamos o resultado de tanta dactilografia de Edna. Mas, sucede-se o mesmo com as respostas que queríamos que Andrew Whittaker recebesse e nunca recebeu. É este estado de, sem resposta, que caracteriza os livros de Sam Savage. Esta tendência de abrir várias janelas e lançar muitas discussões, mas sem nunca bater com a porta ou dar o assunto encerrado.

Será isto uma analogia com a própria vida? Whittaker e Edna são ambos personagens solitários, terminaremos todos assim?

«Nem sequer é solidão, é pior do que solidão, é uma mente cheia de coisas» (p. 182)

E o que é esta mente cheia de coisas?

Talvez uma mente cheia de dúvidas!

«Há uma incongruência. Talvez os acontecimentos sejam demasiado grandes para as palavras. (…)Ou talvez seja ao contrário: as palavras é que são demasiado grandes; algumas palavras são demasiado grandes. A palavra «amor» é demasiado grande. (…)” (pág.163)

Que laço é esse o do amor? Uma ilusão? Um desgosto? Ou simplesmente o melhor que nos pode acontecer e que tanta falta nos faz quando o perdemos.

Na ilusão de que Clarence pode ter sido o tudo, como o nada, Edna vê-se presa às recordações e às dúvidas, à desconfiança do que teria sido, ou não, a sua vida ou até do que foi, deixando no ar a dúvida sobre se o destino cabe nas nossas mãos ou está às mãos do acaso.

A propósito de tal temática, Edna despertou-me a curiosidade para «Winesburg, Ohio», de Sherwood Anderson . E continuo também a querer ler Firmin, a primeira obra de Sam Savage.