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Roda Dos Livros

Uma Escuridão Bonita - Ondjaki e António Jorge Gonçalves

Roda Dos Livros, 01.07.16

uma_escuridao_bonitaHá livros que parecem ter poucas palavras. Mas depois de lidos sentimos que têm as palavras suficientes. Na verdade, quando as palavras são perfeitas parece que incham, engordando as páginas e obrigando o leitor a equilibrar as palavras dentro do livro, relendo.

Quando as palavras perfeitas se acomodam em ilustrações perfeitas, que as vestem no tamanho certo, tanta beleza parece querer sair para fora das páginas. E sai. É o leitor que a leva consigo. Pelo menos uma parte. A outra guarda dentro do livro para se maravilhar muitas mais vezes.

“Quando somos crianças o mundo fica bonito de repente. E simples. Parece um céu aberto com estrelas possíveis de serem apanhadas e guardadas numa gaiola sem paredes de fechar ninguém.” (Pág. 93)

No escuro da noite a luz do que se diz. E como ilumina o que fica por dizer.

Uma Escuridão Bonita, quando nos chega às mãos, tem menos palavras do que aquelas que julgamos ser necessárias. Mas não precisa de mais para ser eterno. Ficará comigo para sempre.

Sinopse

“Numa das muitas noites em que falta a luz em Luanda, dois adolescentes ensaiam o seu primeiro beijo, mas este primeiro beijo precisa de muitos ensaios, de muitos momentos de aproximação e afastamento, de certezas e de inseguranças... O ambiente ajuda e o pretexto surge: estão os dois na varanda da avó Dezanove, às escuras, à espera do cinema bu: um cinema que só acontece quando um carro passa com a velocidade e os faróis certos para projetar sombras/imagens nas paredes brancas das casas da rua escura. Esta é uma das mais comoventes estórias do narrador infantil do Ondjaki. Uma Escuridão Bonita integrou a seleção dos melhores livros de 2013 da revista Visão.”

Caminho, 2015

"Os Transparentes", de Ondjaki - Opinião

Roda Dos Livros, 19.12.14

Em Os Transparentes, Ondjaki expõem uma Luanda, que talvez não resuma, mas caracteriza Angola, naquela globalização e capitalismo acelerados, na imposição de uma mutação acelerada.É com base nessa realidade que o escritor conhece e sobre a qual escreve, uma realidade que estrangula a ficção e expõe a verdade. A urgência da verdade! A desconstrução moral e a urgência do capitalismo bruto que urge, que queima e que expõe uma cidade, um povo, diria eu, a uma corrupção desenfreada que não olha a meios."- a verdade é ainda mais triste, Baba: não somos transparentes por não comer... nós somos transparentes porque somos pobres." (pág. 203)É nesta constatação da transparência de um povo, que Ondjaki revê também os portugueses. Talvez, arrisco a dizer, também os veja com o humor que reconhece no povo angolano, na alegria de viver, no desenrascanso típico, por vezes arrojado e criativo, tanto para sobreviver como para atalhar nas dificuldades da vida. Se neste livro eu li e vi Luanda, vi também Portugal. As makas podem ser outras, a banga também, mas os vijús tendem a ter a mesma vivacidade na hora de inventar e dar corda ao mujimbo ... ;)É também nesta particularidade linguística e de contexto que o livro de Ondjaki ganha riqueza e promove aprendizagem. Há uma certa vivência que se experimenta lendo assim estes diálogos, que tendem a arrancar de nós uma certa teatralidade e interpretação, fazendo-nos rir e experienciar o livro."(...) desorientado por vocação, acordava cedo para ter mais tempo de não fazer nada." (pág.25)Talvez a característica do Ciente seja uma forma de compreender a noção de tempo e o que se faz com ele... espelha uma certa contrariedade, uma atitude dúbia, mas que nos deixa a pensar. Aliás, todas as personagens irão ter características chave que nos deixam alerta: o Carteiro, o VendedorDeConchas ou o Cego, e a dureza da luta diária, mas também a simplicidade. A ideologia e o credo da AvóKunjikise, a corrupção e as manhas dos Fiscais ou do Ministro,... o amor à cidade e a transparência de Odonato... são transparentes, mas cheios de conteúdo!"(...) porque só os grandes homens choram na companhia solitária de outros homens..." (pág.201)Outro conteúdo que é trazido para o livro é a cidade, metamorfoseada pela exploração, pela corrupção... pelos mesmos de sempre e agora pelas perfurações em busca de petróleo... Ondjaki, tal como refere em algumas entrevistas, pretende chamar à atenção para a necessidade de se pensar Luanda, como cidade, como ser vivo, volátil e permeável a todas as mudanças trazidas pela globalização e capitalismo. É nessa mutação acelerada que a cidade perde qualidades e esmaga o povo, que luta pela dignidade de um dia melhor, menos sofrido, menos explorado... com menos fome. A fome é também uma grande temática.Com um estilo e humor característico, o autor vai levantando o véu e denunciando o que lhe preocupa:"- mas quem manda em tudo isto?- gente muito superior.- superior.. como deus?- não. superior mesmo! aqui em Angola há pessoas que estão a mandar mais que deus."A cada parte do livro, o leitor ganho um novo fôlego, naquelas páginas a negro, onde as palavras do autor ganham uma nova aura e anunciam a imaginação essa "faculdade que nos separa dos outros seres" ... essa potencialidade que tanto a ciência como a humanidade precisam.Espelho dessa humanidade, mas também da criatividade do autor, é o prédio, metáfora para o povo e daquilo que os homens são feitos. Ele, o prédio, é o palco de uma Luanda esburacada, fragmentada.Na lança que Ondjaki solta com este romance está uma imaginação que se embriagou nas estórias de um povo bom vivant que talvez ainda queira a sua Angola de outros tempos.

Ondjaki, vence Prémio José Saramago, veja a notícia em Novembro 2013, aqui.

A Avó Dezanove e o segredo do soviético” de Ondjaki

Roda Dos Livros, 14.12.14

avó Dezanove

Há livros assim. De uma candura encantadora, feitos de palavras leves e mornas que nos embalam e nos deixam a sorrir. Não creio ser capaz de exprimir precisamente o quão deliciosa foi mais esta incursão literária pela obra de Ondjaki. O melhor é mesmo ler o livro. Até a escolha de excertos se revelou uma tarefa hercúlea; como escolher umas poucas frases ou parágrafos quando nos apetece transcrever página após página da maravilhosa escrita deste autor? A inocência e a coragem ingénua da infância, a capacidade de resistir, de se adaptar a circunstâncias difíceis, de aprender a conviver com a guerra e com a escassez material sem perder uma certa alegria de viver, sem desistir. As avós, os netos, as brincadeiras na rua e na praia, os laços de amor e de amizade sincera, a solidariedade, povoam este romance absolutamente delicioso que nos mostra tantas facetas luminosas do ser humano sem deixar de denunciar a violência atroz da guerra e da injustiça, eternas sombras deste mundo.

Não é possível dizer muito mais sem correr o risco de revelar a história deste “A Avó Dezanove e o segredo do soviético”. Digo apenas que lê-lo foi um puro deleite e que vale bem a pena imergir nas palavras encantatórias de Ondjaki.

Excertos:

“A explosão até acordou os pássaros adormecidos nas árvores e os peixes vagarosos do mar – aconteceram cores de um carnaval nunca visto, amarelo misturado com veremelho a fingir que é laranja num verde azulado, brilhos a imitar a força das estrelas deitadas no céu e barulho tipo guerra dos aviões Mig. Era afinal uma explosão bonita de ser demorada nos ruídos das cores lindas que os nossos olhos olharam para nunca mais esquecer.

Nós, as crianças, ficámos a olhar o céu se encher de umas maravilhas acesas como se todos os arco-íris do mundo tivessem vindo a correr fazer um brinde no tecto da nossa cidade escura de Luanda.”

“O vento não deve gostar de andar sozinho, se repararem bem, porque sempre quer levantar poeira, dobrar as árvores, soprar as folhas e arrastar as nuvens para longe. O vento deve ter uma casa no tão-longe e está sempre a tentar levar as nuvens para a casa dele, mas isso é uma coisa que eu penso sozinho sem contar a ninguém, porque outras crianças podem me chamar de chanfru e os mais-velhos podem querer me dar remédios para ver se bom da cabeça.”

“Acho que as lembranças são cócegas invisíveis que ficam dentro das pessoas. Eu quando me lembro dessas coisas começo a rir sozinho até o 3,14 me perguntar se eu sou maluco de rir tantas vezes sozinho.”

"Sonhos azuis pelas esquinas" de Ondjaki

Roda Dos Livros, 18.08.14

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Terminei a leitura de “Sonhos azuis pelas esquinas” num estado de espírito idêntico ao que senti quando acabei de ler, há uns meses atrás,“Os Transparentes”: com uma imensa vontade de continuar a explorar a obra de Ondjaki. Este pequeno volume, de aparência algo discreta, perdido na miríade de livros que povoam as estantes e os escaparates das livrarias, poderá parecer apenas mais um. Nada disso. Não é apenas mais um livro mas sim um sortilégio, um encantamento, uma espécie de concentrado de grande beleza sob a forma de palavras. O leitor encontra-se perante um conjunto de divagações oníricas de natureza muito diversa, um labirinto de sonhos, por vezes misteriosamente intrigantes, outras nem tanto, mas sempre imbuídos de sentidos e sentimentos, de emoções e de uma certa musicalidade feita palavra. Perder-me neste labirinto maravilhoso foi, pois, um enorme prazer.

Ondjaki é um verdadeiro Encantador de Palavras. E este “Sonhos azuis pelas esquinas” é um percurso literário que agradará a todos aqueles que gostam de se deixar fascinar pela pura perfeição das palavras. A ler, sem sombra de dúvida.

Excertos:

"Tinha nos olhos o peso de muitas viagens mas uma leveza de quem fez da vida simplesmente um aprendizado de bom humor.”

“Não fazer nada é uma questão de dedicação, não do número de pessoas. Valoriza-se mais a intensidade do que a quantidade.”

“Estar mudo, pensei, não é só não ter o que dizer. É também estar cheio de outras coisas que nos ocupam, e nos invadem, e nos sobrepõem de silêncio.”

“na minha varanda ouço o mar. o passarinho provoca as ondas, as pedras beijam a água. quero só esta visão de sonho repousado no meu olhar. Olho o limo das pedras e a poeira dos galhos – eu sou apenas o que vai desta margem à berma daquele cais.se eu tivesse pés de ficar e a minha vida não fosse em outros lugares, aceitaria uma vida aqui, plena de sobejares, pano vermelho enrolado ao pescoço, destino incerto, pedras, gatos, paz e o mar aqui tão perto.que brandura, que tranquilidade...oiço o barco. Para lá das ruas e das sombras espera-me o cais de partida e o mar.” “se me deito entre o teu olhar e a sombra densa da madrugada, adormeço. e que pesadelo bonito tenho ao frequentar o teu sono, aí onde dormes quieta e leve, de curta penugem vestida e pele doce a acompanhar-te o corpo – sonhos pendurados, inofensivas adagas, humidades arremessadas à noite contra a solidão. Beijo e brandura. mão e músculo. seio e sensualidade.és a madrugada onde o tango prolifera."

“Os transparentes” de Ondjaki

Roda Dos Livros, 24.05.14

Ondjaki

Durante a leitura de “Os transparentes” senti-me, não como tal, mas invisível, vagueando e acompanhando as deambulações e as vidas das pessoas através daquela Luanda agitada e caótica. Nesta cidade descrita por Ondjaki sobressaem, a resiliência, a força de viver e a criatividade de um povo alegre, persistente e, maioritariamente, optimista que incessantemente inventa mil e uma formas para sobreviver. Isto apesar da corrupção, da prepotência e da violência que nos são apresentadas em discurso mais do que directo, por vezes disfarçadas de eufemismos mirabolantes ou, pelo contrário, desbragada e impudicamente óbvias. Não conheço Luanda, não sei até que ponto este será, ou não, ou sequer se pretende ser um retrato fiel da sua realidade actual. Sei apenas que este livro possui, a meu ver, a marca distinta de um verdadeiro contador de histórias, de alguém capaz de capturar a nossa atenção desde as primeiras linhas. Sei também que a luz e que a escuridão características do espírito humano assim como a iníqua e injusta sociedade retratadas não são exclusivas de Luanda, nem de Angola, nem de qualquer outro país mas sim globais, mais ou menos patentes ou dissimuladas, conforme o ponto do planeta em que nos encontremos.Esta foi, pois, uma leitura provocadora, uma chamada de atenção aguda e premente, para a realidade de um país que, salvo as devidas proporções, não será, se calhar, assim tão diferente da nossa; uma agitadora de consciências, talvez demasiado acomodadas a um quotidiano em que as necessidades básicas da vida não constituem problemas diários. Mas este é também um livro que desencadeia o riso, a tristeza, a nostalgia e, até mesmo, a raiva. Um romance permeado por uma força enorme e por emoções imensas difíceis de esquecer. Para ler e pensar.

Uma nota final relativa à edição da Caminho: preferia que tivessem optado pela colocação de notas de rodapé que são muito mais cómodas para o leitor do que pela inclusão de um glossário no final do livro. Além disso, este revela-se parco pois não inclui várias palavras em línguas angolanas que se encontram ao longo do livro.

Excertos:“era um prédio, talvez um mundo,para haver um mundo basta haver pessoas e emoções. as emoções, chovendo internamente no corpo das pessoas, desaguam em sonhos, as pessoas talvez não sejam mais do que sonhos ambulantes de emoções derretidas no sangue contido pelas peles dos nossos corpos tão humanos. a esse mundo pode chamar-se “vida”.....nós somos a continuidade do que nos cabe ser. a espécie avança, mata, progride, desencanta, permanece. a humanidade está feia- de aspeto sofrido e cheiro fétido, mas permaneceporque tem bom fundo.”

“um homem come menos para dar de comer aos filhos, como se fosse um passarinho...e aí me vieram as dores de estômago...e as dores de dentro, de uma pessoa ver que na crueldade dos dias, se não tem dinheiro, não tem como comer ou levar um filho ao hospital...e os dedos começaram a ficar transparentes...e as veias, e as mãos, os pés, os joelhos...mas a fome foi passando: foi assim que comecei a aceitar as minhas transparências...deixei de ter fome e me sinto cada vez mais leve...estes são os meus dias...”

“...durmam enquanto vos anestesiam com doses de suposta modernidade! é carros lindos, é internetes que nem funcionam, é marginal nova com prédios construídos em areias dragadas sem pedir licença à Kianda, é furar o corpo da cidade sem querer ouvir os outros que já furaram o corpo das cidades deles, onde não deu certo...ouçam bem, seus dorminhocos, lá não deu certo, e aqui, porque somos estúpidos, cegos e coniventes, isto é, porque somos globalmente corruptos, aqui a cidade vai ser furada, a água vai ser privatizada, o petróleo vai ser sugado sob as nossas casas, os nossos narizes, e as nossas dignidades...enquanto os políticos fingem que são políticos...enquanto o povo dorme...enquanto o povo dorme...”

“ainda assim, o Partido no poder entende que, em Angola, não se vive o momento apropriado para as fulminantes celebrações que se avizinham – o Presidente tossiu levemente – assim sendo, e dado o recente passamento da camarada Ideologia, um dos pilares morais e cívicos da nossa nação, o Partido no poder decidiu cancelar quaisquer celebrações coletivas, propondo um período de três dias de luto nacional. nesse quadro, e imbuído dos poderes que me assistem, venho por meio comunicado afirmar que Angola anuncia ao país e ao mundo o cancelamento, repito, o cancelamento total do eclipse anunciado para os dias próximos. (...) a partir deste momento o Partido declara inteiramente cancelado o tão esperado eclipse total!”