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Roda Dos Livros

A última ceia, de Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 21.03.19

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A frase de Pablo Picasso "Os maus artistas copiam. Os bons roubam" ganha toda uma outra dimensão assim que percebemos a ousadia do autor que decidiu roubar um quadro.

Eu sei que isto não é uma trilogia (pelo menos é o que o Nuno diz) mas a minha expectativa era que este livro se debruçasse na terceira "religião do livro" , o Cristianismo, uma vez que do Islamismo o autor tinha tratado no "A célula adormecida" e  do Judaísmo no "Pecados Santos". Ora, como iria o Nuno fazer isso era algo que me deixava na expectativa uma vez que o que não falta por aí são thrillers baseados em teorias, dos mais diversos géneros, relativas às personagens mais marcantes do Cristianismo. E o Nuno resolveu... roubar um quadro. Claro que não podia ser um quadro qualquer, ele tinha que escolher logo o "A última ceia".

Como leitora, impressionou-me a pesquisa que, uma vez mais, se torna visível a cada página. E a forma como toda essa informação nos é transmitida, sem nos maçar, nem nos aborrecer. Não conhecendo muito de arte (nem da comum quanto mais da sacra) agradeci o que aprendi e que essa ignorância não me impedisse de apreciar o decorrer da história.

Este é um livro diferente dos anteriores. Não é tanto o "quem" mas sim o "como" e o "porquê" que nos levam a ler página após página.

A sinopse prometia-nos um romance. E um assalto. E uma história que não nos deixasse pôr este livro de lado. Claro que, quando começamos a ler um livro destes, estamos conscientes que vamos ser enganados. E depois do que o Nuno fez no "Pecados Santos", eu já não confio nas personagens criadas por ele (desculpa Nuno mas é verdade) pelo que estou de pé atrás a cada momento.

O autor não roubou apenas um quadro (ou três, sequer). Como podemos ver pelas notas finais (que são, como o Nuno me disse, "como o nome indica, para ler no fim e não no início") também roubou vários acontecimentos à realidade. E isso fez-me olhar para determinados acontecimentos com outros olhos (a verdade é que não há ficção literária que bata a realidade).

Eu sei que não vos falei da história, não é? Mas a verdade é que não vos quero estragar o prazer da leitura deste livro.

Uma nota final para um reencontro. O Afonso Catalão, apesar de não ser protagonista desta história, tem um papel aqui. E o Afonso é o meu personagem favorito de todos os livros do Nuno. Foi bom, muito bom, ver como ele (e a Diana) reagiram aos acontecimentos do livro "Pecados Santos". Uma das coisas que me irrita sobremaneira neste género de livros é que, na maioria das vezes, os acontecimentos passados, sejam ou não traumáticos, ficam no passado assim que são "resolvidos". Felizmente isso não acontece aqui. O Afonso está nestas páginas com todas as dores que trouxe do passado. E isso deu-lhe, uma vez mais, uma dimensão real.

Acho que fica apenas por dizer, se é que não o perceberam já, que gostei muito deste livro.

A Célula Adormecida - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 04.12.16

acelulaadormecidaTinha desde o início um bom feeling sobre este livro, tanto que o comprei assim que saiu e comecei de imediato a lê-lo. Li menos de um quarto até ao evento de lançamento e todo o resto das 577 (!!!) páginas nos dois dias seguintes, de um fôlego. 

Um início suave: começamos por navegar num assustador barco de refugiados que tenta chegar à Europa e percebemos de chofre, num rebate de consciência, o que estamos a permitir que aconteça no Mediterrâneo, o que está a fazer germinar os terroristas de amanhã. Acordamos, quatro anos depois, para um atentado na pacata cidade de Lisboa, na mesma noite em que o futuro primeiro-ministro recém-eleito aparece morto no gabinete e a bandeira do auto-proclamado Estado Islâmico é hasteada no Parque Eduardo VII. Cenário simpático, não acham?

Com uma escrita quase irrepreensível, o autor conduz-nos pela história cruzada de meia dúzia de famílias como se andássemos lado a lado com o professor Afonso Catalão, partilhando os seus passeios, refeições e pesadelos. É ele o fio condutor entre todos os outros intervenientes. Ao contrário de algum sensacionalismo que poderíamos esperar após os acontecimentos iniciais, “A Célula Adormecida” ensina tanto quanto entusiasma. 

A história passa-se durante os 30 dias do Ramadão e quase não nos deixa respirar entre idas à Síria, à Universidade Nova de Lisboa, à Turquia, à redação de Diana Santos Silva e à Mesquita Central de Lisboa. O drama dos Fharan, uma família Síria refugiada em Portugal, a infinita compaixão do imã Yusef, que luta diariamente por uma comunidade muçulmana pacífica e integrada em Portugal, os fantasmas que não largam Afonso desde a Turquia e o momento fulcral da carreira de Diana Santos Silva são-nos contados em paralelo com a história de Istambul, o eclodir da Primavera Árabe, as causas da Guerra da Síria, os fundamentos para a divisão do Islão em Sunitas e Xiitas e o significado de cada uma das partes do Ramadão. Tudo isto com uma mestria que não nos permite largar a história destas personagens de quem já começo a sentir saudades.

Uma história dramaticamente actual, que todos devíamos ler para compreendermos melhor o mundo louco que nos rodeia e aprendermos a ver com os olhos e o coração do outro. 

“A Célula Adormecida é um thriller que mistura religião e terrorismo, sobre como a convivência pacífica entre as culturas é a melhor forma de integração na sociedade, como o ódio destrói, mas o amor constrói.” Foi assim que estas quase 600 páginas foram resumidas pelo Sheikh David Munir, Imã da Mesquita Central de Lisboa na vida real. E esta é a mensagem mais importante de espalhar. 

Sinopse“Em plena noite eleitoral, o novo primeiro-ministro português é encontrado morto. Ao mesmo tempo, em Istambul, na Turquia, uma reputada jornalista vive uma experiência transcendente. E em Lisboa, o pânico instala-se quando um autocarro é feito refém no centro da cidade. O autoproclamado Estado Islâmico reivindica o ataque e mostra toda a sua força com uma mensagem arrepiante.O país desperta para o terror e o medo cresce na sociedade. Um grande evento de dimensão mundial aproxima-se e há claros indícios de que uma célula terrorista se encontra entre nós. Todas as pistas são importantes para o SIS, sobretudo, quando Afonso Catalão, um conhecido especialista em Ciência Política e Estudos Orientais, é implicado.De antecedentes obscuros, o professor vê-se subitamente envolvido numa estranha sucessão de acontecimentos. E eis que uma modesta família muçulmana refugiada em Portugal surge em cena.A luta contra o tempo começa e a Afonso só é dada uma hipótese para se ilibar: confrontar o passado e reviver o amor por uma mulher que já antes o conduziu ao limiar da própria destruição.Com uma escrita elegante e o seu já tão característico estilo intimista e sofisticado, inspirado em acontecimentos verídicos, Nuno Nepomuceno dá-nos a conhecer A Célula Adormecida. Passado durante os 30 dias do mês do Ramadão, este é um romance contemporâneo, onde ficção e realidade se confundem num estranho mundo novo e aterrador que a todos nos perturba. Um thriller psicológico de leitura compulsiva, inquietante, negro e inquestionavelmente atual.”Topbooks, 2016

A Célula Adormecida - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 27.11.16

acelulaadormecidaA leitura foi rápida. As quase seiscentas páginas são feitas de adrenalina e o ritmo imposto não tem piedade do leitor. Mas isso eu já esperava, pois foi assim com a Trilogia Freelancer (O Espião Português, A Espia do Oriente e A Hora Solene). Desta vez eu queria mais.

Tem-se tornado algo difícil ler os livros de quem estimo. E o Nuno, pela sua dedicação e capacidade de trabalho, é um autor que cada vez mais admiro e que gosto de acompanhar de perto. Curiosamente, em vez de me tornar benevolente e dar palmadinhas nas costas, torno-me mais exigente e severa com as pessoas de quem gosto. Mas só com aquelas que acho que podem chegar mais longe. É uma forma esquisita de demonstrar carinho, eu sei, mas sou dura porque acredito e porque quero (quero mesmo) que quem tem talento e investe tempo e suor na escrita tenha a devida compensação.

Bom, está mais do que visto que esta opinião dificilmente será imparcial, mas, dada a natureza do que explico acima, o meu grande receio era prejudicar o autor. E isso eu não podia conceber.

O livro está lido e os receios postos de parte. O Nuno superou as expectativas e poupa-me os remorsos de ter que escrever que esperava melhor. Bom, na verdade espero mais. Espero sempre. Mas para o próximo livro.

Depois desta longa introdução quero dizer-vos que esta foi uma leitura envolvente, com várias áreas de acção, cheia de mistério e pulso acelerado. O tema é extraordinário, não só por ser actual, mas por permitir tantas possibilidades de intriga que o Nuno soube (muito bem) aproveitar.

Quem nunca pensou na possibilidade de um atentado terrorista em Portugal? Nos tempos que correm é fácil conceber essa hipótese, infelizmente. Um atentado em Lisboa na noite das eleições legislativas é a premissa para esta fantástica viagem que, mais do que um romance policial ou de espionagem, é uma brilhante chamada de atenção para a intolerância religiosa.

É notória a pesquisa e a preparação do autor para este livro, eu diria até notável, e, ao contrário do que verifiquei nos livros anteriores, a forma como a informação passa para o leitor é mais cuidada. Os dados (políticos, sociais ou geográficos) são tema suculento de diálogos, por vezes acesas discussões que aumentam o estado de alerta para assimilar informação. Os locais vão sendo descritos de modo cadenciado, sem precipitações, como um palco que vai sendo montado à medida que se desenrola a trama. Em algumas ocasiões senti que podia estar a ler um livro de viagens, nomeadamente na parte que decorre na Turquia.

Em resumo, neste novo livro, Nuno Nepomuceno toca na ferida de temas polémicos da actualidade com a sua escrita envolvente e elegante. De forma fluída e muito bem conseguida expõe o drama dos refugiados sírios, o conflito do médio oriente (ou talvez conflitos seja mais adequado) e a guerra do petróleo. Mostra uma Lisboa multicultural e (infelizmente) intolerante. Leva o leitor pela mão à Mesquita Central de Lisboa e ensina (ou não tivesse sido ele professor) o que significa ser muçulmano. Faz uma viagem pelo mundo fútil de quem vive da imagem e pela manipulação dos media. Apresenta uma das minhas personagens preferidas de sempre, Afonso Catalão, que, como tem de ser, não é o que aparenta. E é, de resto, o principal símbolo da maturidade deste livro. André Marques-Smith ficou lá atrás. Confesso que gostava de me voltar a encontrar com o Afonso noutros livros.

Se é previsível? Sim, quanto baste, mas se calhar no que menos importa. Descansem que as surpresas são muitas e estarão constantemente a repetir com os olhos arregalados “só mais um capítulo!”.

Leiam-no! É aposta segura.

Sinopse

“Em plena noite eleitoral, o novo primeiro-ministro português é encontrado morto. Ao mesmo tempo, em Istambul, na Turquia, uma reputada jornalista vive uma experiência transcendente. E em Lisboa, o pânico instala-se quando um autocarro é feito refém no centro da cidade. O autoproclamado Estado Islâmico reivindica o ataque e mostra toda a sua força com uma mensagem arrepiante.O país desperta para o terror e o medo cresce na sociedade. Um grande evento de dimensão mundial aproxima-se e há claros indícios de que uma célula terrorista se encontra entre nós. Todas as pistas são importantes para o SIS, sobretudo, quando Afonso Catalão, um conhecido especialista em Ciência Política e Estudos Orientais, é implicado.De antecedentes obscuros, o professor vê-se subitamente envolvido numa estranha sucessão de acontecimentos. E eis que uma modesta família muçulmana refugiada em Portugal surge em cena.A luta contra o tempo começa e a Afonso só é dada uma hipótese para se ilibar: confrontar o passado e reviver o amor por uma mulher que já antes o conduziu ao limiar da própria destruição.Com uma escrita elegante e o seu já tão característico estilo intimista e sofisticado, inspirado em acontecimentos verídicos, Nuno Nepomuceno dá-nos a conhecer A Célula Adormecida. Passado durante os 30 dias do mês do Ramadão, este é um romance contemporâneo, onde ficção e realidade se confundem num estranho mundo novo e aterrador que a todos nos perturba. Um thriller psicológico de leitura compulsiva, inquietante, negro e inquestionavelmente atual.”

Topbooks, 2016

A Espia do Oriente - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 25.08.16

aespiadoorienteDeparei-me com a trilogia Freelancer na Feira do Livro de Lisboa do ano passado, por sugestão da Patrícia. Li o primeiro volume a grande velocidade, em apenas três dias (quase tão rápido como a Márcia, cuja opinião podem encontrar aqui) e tal como o primeiro, este segundo volume da história lê-se muito rapidamente.

A verdade é que esta história, apesar de complexa, tem poucas personagens e todas com bastante personalidade, o que torna a acção rápida, porque estamos sempre a acompanhar uma personagem importante, e coerente. Fiquei completamente agarrada à leitura, a querer saber o que se iria passar a seguir, sobre tudo quando no auge da luta pelos tão preciosos documentos surge, não se sabe de onde, uma terceira facção. Mistério! Quem são eles e o que querem? Qual é a ligação aos documentos? Entretanto, a passagem da equipa por Courchevel garante umas boas gargalhadas pela descrição dos ataques d' A Diva e do seu séquito. Polvilhar humor numa fase dramática da história não é para todos e o autor saiu-se muito bem. Tudo isto acontece a par da preparação de uma cimeira da União Europeia em Lisboa, para assinatura de um tratado. Não dá para parar de ler. 

O único ponto negativo é que há vários momentos em que acontecem coisas pouco verosímeis e que me fizeram pensar "isto já é um bocadinho demais!". Porém, e ao contrário do primeiro, este segundo volume termina com uma enorme e inesperada reviravolta que nos faz querer começar o terceiro de imediato.

Sinopse

“Dubai, Emirados Árabes Unidos.De férias na região, um investigador norte-americano é raptado do hotel onde se encontrava instalado. Uma nova pista sobre um antigo projecto de manipulação genética é descoberta e a Dark Star, uma organização terrorista internacional, está decidida a utilizar os conhecimentos deste cientista para ganhar vantagem.Contudo, de regresso à Europa, uma das suas operacionais resolve trair o sindicato do crime e oferece-se para trabalhar como agente dupla ao serviço da inteligência britânica. O mistério adensa-se quando esta mulher, de nome de código China Girl, impõe como única condição colaborar com André Marques-Smith, o director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português e espião ocasional.Obrigados a trabalhar juntos para evitarem um atentado a uma importante líder europeia, uma atmosfera tensa, de suspeição e desconfiança, instala-se de imediato entre os dois. Mas que segredos esconderá esta mulher, cujo próprio nome é uma incógnita? Serão as suas intenções autênticas? Será o espião português capaz de resistir à sua invulgar e exótica beleza?Vencedor do Prémio Literário Note! 2012, Nuno Nepomuceno regressa com A Espia do Oriente, o segundo livro da série Freelancer. Por entre os cenários reais de Budapeste, Berlim, Londres, Courchevel, Dubai e Lisboa, o autor transporta-nos para um mundo de mentiras, complexas relações interpessoais, e reviravoltas imprevisíveis. Uma reflexão profunda sobre os valores tradicionais portugueses, contraposta com a sua já habitual narrativa intimista e sofisticada, e que vai muito além do tradicional romance de espionagem.”Topbooks, 2015

A Hora Solene - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 08.12.15

ahorasoleneChega o dia de começar a viagem para o fim. Abro a primeira página e quero que as quase quinhentas páginas voem a caminho da descoberta. Na dúvida do que é mais importante, se o percurso ou a chegada, não hesito e leio o fim. Fiz o mesmo no livro anterior, A Espia do Oriente, e não me arrependo em nenhum dos dois. Vivo mais o percurso assim, gosto de apreciar a construção e as reviravoltas sabendo quem vai cruzar a linha da meta. Em todo o caso é melhor não o fazerem…digo eu…

Quanto a finais não me vou deter em muitos comentários, mas tenho de dizer que o final de A Espia do Oriente me entusiasmou muito mais do que o do terceiro volume, que, acredito, será muito mais consensual e, se calhar, até solene. Mas que posso fazer? Gosto da sensação de ficar pendurada em penhascos, da pequena maldade de torturar o leitor, castigando-o com aquela pontinha de irritação que o levará ao livro seguinte assim que esteja disponível. Bem jogado.

Não vou esconder que o meu preferido é A Espia do Oriente, talvez por ter revelado uma evolução da escrita do autor e, consequentemente, um maior distanciamento qualitativo em relação ao primeiro volume, o Espião Português. A Hora Solene tem o peso do desfecho, do querer satisfazer ânsias e curiosidades e, ao mesmo tempo, evoluir para áreas mais arrojadas. Há muita acção e violência, os cenários simultâneos estão bem construídos, as pontes entre eles são lançadas no momento certo e o efeito global é muito bom. O início deste livro é fenomenal, tanto que receei um previsível esmorecimento, que se verificou. Contudo, seria necessário acalmar os ânimos e, no geral, não posso dizer que haja tempos mortos. Há talvez excesso de informação relacionada com os livros anteriores, para mim desnecessária por os ter lido quase seguidos, mas que compreendo e julgo ser útil para quem optar não ler os livros anteriores. Coisa que acho uma pena e deixo aqui o apelo de “ou tudo ou nada”, é ler a Trilogia Senhores!

Adorava contar mais coisas mas pode ser perigoso para vocês, leitores que não fazem a batota de ler o final. Por isso vos recomendo este livro, para se surpreenderem. Para se envolverem na história do André, no seu passado diferente e no seu futuro incerto. Para descobrirem, página após página, uma história bem construída, narrada de forma fluida e elegante, sem pontas soltas e questões em aberto.

Leiam os três livros do Nuno Nepomuceno e fiquem, como eu, à espera de mais e melhor. A Trilogia Freelancer está concluída e cumpre os seus objectivos de uma leitura entusiasmante que não se fica pelos meandros da espionagem internacional, mas que pisca constantemente o olho a valores de base como a família, a amizade e o amor. A humanidade que se descobre nestas páginas, e que faz com que os leitores se identifiquem e se apaixonem por este espião é, talvez, o factor diferenciador destes livros. O leitor é inevitavelmente apanhado numa teia de sentimentos que se espalha como o sangue das vidas que ficam pelo caminho. Contraditório? Definitivamente. Mas que tudo é conciliado, isso vos garanto.

Quanto a mim fica o desejo de ver o Nuno alcançar outros patamares. Continuar a subir os degraus de uma escrita que promete amadurecer, ganhar consistência e sofrer as inevitáveis depurações. Aguardo outras personagens e outras histórias. O André cumpriu os seus desígnios.

Leiam e comprem para oferecer, que é Natal. Mais logo, na Fnac Colombo, podem levar os livros para casa com autógrafo.

Sinopse

“Numa fria noite de tempestade, um homem é esfaqueado e abandonado na rua. A poucos quilómetros de distância, um terrorista pertencente a uma organização criminosa auto-intitulada O Gótico entrega-se aos serviços secretos. Ao mesmo tempo, um avião sofre um violento atentado ao sobrevoar a Irlanda e um vídeo é enviado à redação de uma famosa cadeia televisiva.A intriga acentua-se quando um milionário começa a ser alvo de extorsão. No centro destes acontecimentos, encontra-se André Marques-Smith. Alto funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o espião português é obrigado a protegê-lo. Mas não está sozinho. Foragidos, dois colegas dissidentes regressam e revelam ao mundo a verdadeira génese de um antigo projeto de manipulação genética. E há ainda uma mulher. Em parte incerta, esta enigmática espia de feições orientais poderá ser a chave de todo o mistério. Mas que explicação haverá para o seu desaparecimento? Conseguirão os dois agentes ultrapassar o fosso criado entre eles?Através de uma viagem frenética por entre os deslumbrantes cenários reais de Moscovo, Londres, Hong Kong, Macau, Praga, o Grande Buraco Azul e Lisboa, os perigos multiplicam-se e André dá por si a lutar pela sobrevivência. Questões sobre ética, moral, religião, família e o valor da vida humana são levantadas. E uma teia de falsas verdades, ilusões e complexas relações interpessoais é desvendada no derradeiro capítulo de uma série policial que já marcou a ficção portuguesa.Inspirado num discurso de guerra de Winston Churchill, depois de ver o talento confirmado com A Espia do Oriente, revelado ao público através da vitória no Prémio Literário Note! 2012 com O Espião Português, Nuno Nepomuceno apresenta A Hora Solene, a terceira e última parte da trilogia Freelancer. Um romance de espionagem imprevisível, no já característico estilo sofisticado e intimista do autor, onde os valores tradicionais da cultura nacional se fundem com uma abordagem inovadora e única que o irá surpreender.” 

Topbooks, 2015

A Espia do Oriente - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 16.05.15

aespiadoorienteIsto das sequelas tem que se lhe diga. A minha opinião sobre “O Espião Português” é muito positiva, quando terminei a leitura fiquei bastante ansiosa pelo próximo livro, o já anunciado “A Espia do Oriente”. Contudo, admito, tive sempre um receio em relação a este segundo livro, temi que a Espia e o Espião se envolvessem de forma romântica e que a componente de acção e espionagem ficasse em segundo plano, dando lugar a desenvolvimentos, para mim, aborrecidos e lamechas. Seria um caminho. Lógico e desejável (possivelmente) para alguns leitores, mas não para mim.

E foi um grande alívio verificar que isso não aconteceu. Não estou a dizer que eles não se envolvem, como também não digo o contrário, que é para não estragar leituras, apenas posso dizer que não há cenas que poderiam fazer descambar isto tudo em algo banal. Prova superada e ainda bem, que eu ía odiar não adorar este livro.

Mais uma vez a leitura é compulsiva, mesmo tendo este volume quase quinhentas páginas, nunca se perde o ritmo, e a vontade de saber o que vai acontecer fez-me ler as primeiras trezentas páginas praticamente seguidas. Terminado o fim-de-semana é mais difícil manter a cadência, mas os quatro dias que levei a lê-lo significam, para mim, que o autor, não só conseguiu manter o nível do primeiro livro mas também superá-lo. De facto as melhorias são notórias, tanto ao nível da escrita, que me mostrou um Nuno Nepomuceno mais palavroso, avançando em alguns casos para parágrafos mais longos, com uma riqueza de vocabulário acrescida, como ao nível das descrições das situações e cenários. Cenas de acção algo complexas, com intervenção de várias personagens, cada uma com o seu papel, a que assisti de forma quase cinematográfica, sem me perder.

A componente humana do André continua a ser, tal como no primeiro livro, fundamental. A Espia não lhe tira protagonismo, acompanha-o. Nota-se claramente a preocupação por parte do autor em que os livros possam ser lidos de forma independente, mas eu garanto que qualquer leitor retirará maior proveito lendo em sequência. Os livros completam-se, tal como esta dupla se completa na trama. Senti que se fecharam algumas pontas do primeiro livro, analisando as mesmas situações pelo ponto de vista da Espia. Aliás, é concedido várias vezes ao leitor o privilégio de saber o que cada um pensa acerca das mesmas coisas, há uma entrada directa para a as dúvidas, medos e inseguranças nas mentes das personagens, e não só das principais. Um trabalho bem conseguido, um bom exercício de escrita.

Dúvida. Confiança. Traição. Três palavras sempre presentes. Palavras difíceis de digerir. A traição é um murro no estômago, a dúvida desorienta, a confiança é frágil na presença das outras duas. Identifico-me muito com o André, confesso, acho que assim será com a maioria das pessoas, ele enfrenta dificuldades e medos comuns a todos nós, desde problemas no emprego a desilusões amorosas, passando por zangas familiares, tudo por acreditar e por se entregar. Claro que a um nível diferente, afinal o André é Espião, o que lhe confere um charme que poucos de nós terá (mas nós também não somos personagens de livros), só que ao mesmo tempo, é esse poder do terra-a-terra que faz com que se goste muito dele.

Não é que a Espia não mereça mas não vou escrever sobre ela. Apenas revelar que é uma personagem já presente no “Espião Português”, que sai do elenco secundário e toma agora o palco principal. Muito misteriosa, com uma sensualidade poderosa e um passado surpreendente, esta mulher eleva a “Dúvida. Confiança. Traição.” a um outro nível. Eu cá acho que devem conhecê-la. E depois é esperar pelo terceiro livro. Esperar de forma ansiosa e intranquila. Como convém.

“Vendo bem, acreditar nos outros sempre foi a sua maior fraqueza. (…) Gostava de ter tido a coragem de ser mau.” (Pág. 323)

Sinopse

“Dubai, Emirados Árabes Unidos.De férias na região, um investigador norte-americano é raptado do hotel onde se encontrava instalado. Uma nova pista sobre um antigo projecto de manipulação genética é descoberta e a Dark Star, uma organização terrorista internacional, está decidida a utilizar os conhecimentos deste cientista para ganhar vantagem.Contudo, de regresso à Europa, uma das suas operacionais resolve trair o sindicato do crime e oferece-se para trabalhar como agente dupla ao serviço da inteligência britânica. O mistério adensa-se quando esta mulher, de nome de código China Girl, impõe como única condição colaborar com André Marques-Smith, o director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português e espião ocasional.Obrigados a trabalhar juntos para evitarem um atentado a uma importante líder europeia, uma atmosfera tensa, de suspeição e desconfiança, instala-se de imediato entre os dois. Mas que segredos esconderá esta mulher, cujo próprio nome é uma incógnita? Serão as suas intenções autênticas? Será o espião português capaz de resistir à sua invulgar e exótica beleza?Vencedor do Prémio Literário Note! 2012, Nuno Nepomuceno regressa com A Espia do Oriente, o segundo livro da série Freelancer. Por entre os cenários reais de Budapeste, Berlim, Londres, Courchevel, Dubai e Lisboa, o autor transporta-nos para um mundo de mentiras, complexas relações interpessoais, e reviravoltas imprevisíveis. Uma reflexão profunda sobre os valores tradicionais portugueses, contraposta com a sua já habitual narrativa intimista e sofisticada, e que vai muito além do tradicional romance de espionagem.”

Topbooks, 2015

O Espião Português - Nuno Nepomuceno

Roda Dos Livros, 18.04.15

CAPA_espiao-200x300Lido em dois dias. Há muito que não lia tão compulsivamente, e este “Espião Português” veio mesmo a calhar numa fase em que cada leitura estava a demorar muito tempo. Fases estranhas em que as páginas demoram a passar, em que a concentração é fraca porque há demasiadas coisas em que pensar.

Então nada como um livro envolvente e cheio de acção, absorvente, de modo a sugar toda a atenção, e deixar de parte aquelas chatices do dia-a-dia, que não interessam nada, que não matam mas moem.

No sábado abri a primeira página e entrei na vida do André. Ou ele entrou na minha, não sei, porque enquanto a leitura durou, ou estava a ler ou a pensar no que iria passar-se a seguir. Queria sempre saber mais. O livro está bem pensado e bem estruturado, cumpre o seu objectivo, é um claro “page-turner”, e mesmo nos capítulos mais longos o entusiasmo não esmorece, até porque é nesses que se passam os momentos mais empolgantes, são picos em que me deixei levar completamente pela história e repetia para mim mesma: “só mais uma página”!

E, página após página, cheguei rapidamente ao final (segunda-feira), por um lado pensando porque ainda não tinha lido este livro, mas ao mesmo tempo concluindo que foi melhor assim, já que no dia 6 de Maio a leitura pode seguir para o segundo volume, “A Espia do Oriente”.

É difícil escrever sobre este livro. Não porque não tenha muito a dizer, mas porque corro o risco de revelar demais, o que é muito pouco conveniente para um livro de mistério, em que se deseja, pelo menos eu desejo, ser surpreendida. Acima de tudo senti um grande cuidado na construção da personagem do André, foi criado para que gostem dele, sofram por ele, é um tipo bem-parecido, inteligente, atlético, com excelentes princípios, apesar de enfim, ser espião e poder matar e magoar pessoas. Mas isso interessa pouco quando há a dita empatia, o André é o herói e não há mais conversa, principalmente, desconfio eu, para as leitoras femininas mas sensíveis, enfim, aos encantos descritos. Bem jogado e bem conseguido por parte do autor, fica tudo em brasa depois deste final em que…pois… é melhor não contar.

Eu gostei de muitas coisas neste livro, se calhar até gostei de tudo, que é uma coisa muito rara, mas o que gostei mesmo foi de ler um livro de espionagem e mistério de alto nível escrito por um autor português. É de apreciar, apoiar e, acima de tudo, ler. Ler com prazer na nossa língua linda, tantas vezes maltratada, subestimada e rejeitada para o que vem de fora. Preconceitos parvos de quem vai atrás da fama e dos números. E querem mesmo saber porque é que há tanto tempo não escrevia uma opinião sobre um livro de policial/mistério/espionagem? Porque em todos os que peguei recentemente não me dei ao trabalho de chegar ao fim. É pena. Mas o entusiasmo de uma leitura como esta acaba por compensar e apagar essas páginas perdidas.

E pronto, leiam lá que se não fosse bom eu não vinha para aqui dizer, já sabem do que a casa gasta.

Sinopse

“E se toda a sua vida, tudo aquilo em que acredita, não passar de uma mentira? O que faria?

Quando André Marques-Smith, o jovem director do Gabinete de Informação e Imprensa do Ministério dos Negócios Estrangeiros português é enviado à capital sueca, está longe de imaginar que aquele será um ponto de viragem na sua vida.Ao serviço da Cadmo, a agência de espionagem semigovernamental para a qual secretamente trabalha, recupera a primeira parte de um grupo de documentos pertencentes a um cientista russo já falecido. Mas quando regressa a Portugal, tudo muda. Uma nova força obteve a segunda parte do projecto e, de uma forma violenta e aterrorizadora, resolveu mostrar ao mundo que está na corrida pelos estudos do cientista.Por entre cenários reais de cidades como Estocolmo, Roma, Viena, Londres e Lisboa, a luta pelo inovador projecto começa, os disfarces sucedem-se, as missões multiplicam-se. E, enquanto é forçado a lidar com os condicionalismos de uma vida dupla, André vê-se inesperadamente envolvido num mundo de mentiras e traições, o mesmo que o levará a fazer uma descoberta que poderá mudar toda a Humanidade.Vencedor do Prémio Literário Note 2012, O Espião Português funde elementos tradicionais da ficção de espionagem com uma abordagem inovadora, intimista e sofisticada. Thriller intenso e vertiginoso, ode à família, amizade e amor, este é um romance imprevisível e contemporâneo ao qual não conseguirá ficar indiferente.”

Topbooks, 2015