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Roda Dos Livros

“Uma dor tão desigual” – Vários autores

Roda Dos Livros, 30.10.16

   contos 

“Só sobrevivemos numa corda muito fina estendida sobre um abismo. Todo o ser vivo é um equilibrista.”

Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

 

Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.

Definição de saúde de acordo com a OMS

 Há livros de apreciável valor literário, capazes de proporcionar momentos de leitura de grande prazer, cuja relevância transcende os limites da literatura. Este “Uma dor tão desigual” é um deles. Reúne contos desiguais, únicos na forma e no conteúdo, todos interessantes, tendo em comum a temática da saúde mental.Realidades dentro do real convencional, daquele percepcionado como tal pela grande maioria das pessoas; daquele considerado, sem sombra de dúvida, como verdadeiro e objectivo. As dores destas histórias evocam universos múltiplos que podem existir dentro daquele aspecto esquivo, ainda incompletamente explicado ou não conhecido na sua totalidade, ao qual chamamos consciência. Tal como a Márcia (
podem ler o texto dela aqui ), gostei deste conjunto de contos e hesito em destacar uns em detrimento de outros. Todos nos colocam perante pessoas fictícias habilmente construídas e confinadas às suas solidões únicas, aos seus traumas (não o estaremos todos?) e às fracturas das profundezas das suas mentes, perdidas nos seus labirintos mentais e , umas mais do que outras, incapazes de reconhecer e habitar a realidade como aqueles ditos “normais”. Um dos contos evoca as figuras mitológicas de Ariadne e Cassandra as quais não poderiam ser mais apropriadas neste contexto. Cada protagonista destas histórias precisa desesperadamente do seu fio de Ariadne, pessoal e intransmissível, para  ajudar a encontrar o equilíbrio no centro de si próprios. Por outro lado, quantos pedidos de ajuda, mais ou menos discretos, mais ou menos histriónicos, tal como as profecias de Cassandra, são desconsiderados, não são escutados, sendo remetidos para a prateleira das “fraquezas de espírito” de alguém aparentemente “bem na vida”?As vidas que povoam estes contos poderiam muito bem ser as dos nossos amigos e conhecidos, as dos nossos vizinhos, as nossas. O estigma e o preconceito são fronteiras quase inultrapassáveis mas aquela que separa o território do equilíbrio mental, ainda que relativo, do da doença poderá não ser mais do que um véu fino e frágil, facilmente rasgável. Um dia poderá ser o meu ou o teu a rasgar-se. Também por isso, este é um livro que merece ser lido.Sinopse: Este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda. Estas são histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. São relatos de gente que podíamos conhecer e talvez conheçamos, histórias íntimas e ricas de homens e mulheres como nós. A área da saúde psicológica está ainda sujeita a muitos preconceitos, que dificultam a procura de ajuda profissional e estigmatizam quem sofre. Pretende-se com este livro combater esses preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída 

Se Eu Fosse Chão - Nuno Camarneiro

Roda Dos Livros, 03.10.15

89ba2-capa-ncamarneiroEm algum momento, numa estadia de hotel, interrogamo-nos sobre as muitas histórias, fragmentos de vidas, que se encerram entre as paredes daqueles quartos.Que memorias preservam, boas e más, de jubilo ou de dor, angústia ou exaltação, resignação ou coragem? Que poderiam contar sobre os protagonistas? E os que lá trabalham, silenciosas testemunhas, que guardam para si?

"Um quarto de hotel é também um repositório das vidas que por lá passaram."  

Nesta base, três épocas distintas (1928, 1956 e 2015), em 51 quartos de um qualquer Palace Hotel em Portugal, por ordem sequencial e temporal pequenas narrativas coloridas por personagens (enquanto hospedes daquele hotel) que, em parcas palavras contam tanto sobre si, as circunstancias em que se encontram e o mundo que os cerca. Um pequeno núcleo representativo de um universo muito maior, porque "um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior", e este o meu ponto de partida para esta leitura, como se espreitasse pelo buraco da fechadura para desvendar vidas alheias e antever um filme que passa na minha cabeça.

"Um quarto fechado é sempre uma história por contar, enquanto não o abrirem, cada um há-de ter a sua".

Sinopse:

«Um hotel é um mundo pequeno feito à imagem do outro maior. Nós garantimos que a escala permaneça justa, sem nada aumentar ou reduzir. Não nos peçam para corrigir o que vai torto ou torcer o que anda certo. Servimos os nossos hóspedes e damos-lhes a importância que merecem, ou que podem pagar. O resto pertence à justiça ou à igreja, não somos juízes nem padres. Somos artífices do detalhe e da memória, e não nos peçam mais.»
Num grande hotel, as paredes têm ouvidos e os espelhos já viram muitos rostos ao longo dos anos: homens e mulheres de passagem, buscando ou fugindo de alguma coisa, que procuram um sentido para os dias. Num quarto pode começar uma história de amor ou terminar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou lembrar-se a perna perdida numa guerra, pode investigar-se um caso de adultério ou cometer-se um crime de sangue. Em três épocas diferentes, entre guerras que passaram e outras que hão-de vir, as personagens de "Se Eu Fosse Chão" – diplomatas, políticos, viúvos, recém-casados, crianças, actores, prostitutas, assassinos e até alguns fantasmas – contam histórias a quem as queira escutar.

«Se eu fosse chão» de Nuno Camarneiro :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.09.15

"Todas as obras de arte são melhores ou piores do que o artista, mais profundas ou frívolas, mas nunca iguais. (...) A literatura é a mais horrenda das artes, porque é feita da mesma matéria com que falamos e nos enganamos a nós e aos outros. (...) Lemos o que queremos ou precisamos de ler, lemos como amamos e caímos."
Não é assim que se pisa o chão e se entra no hotel de Nuno Camarneiro, mas podia muito bem ser. À medida que entramos em cada quarto iremos ler o que queremos e iremos sentir o que precisarmos de despertar. A escrita simples, acutilante, rápida e concisa de Camarneiro consegue tudo isso e mais. Cada quarto é introspectivo e alguns sufocantes e esmagadores.
"Senhor, dai-me pelo menos a potência de chorar."
Recebemos sentimentos em contramão de pessoas em trânsito, amores estagnados e fora de tempo, loucuras inexplicáveis e traições, acidentes e incidentes, tristezas e alegrias, tudo em doses curtas e de toma única.
"Tanto tempo a amar em contramão, como um velho de vista cansada e juízo turvo, ignorando as luzes em sentido contrário, ignorando a realidade. Mas há tantas realidades (...) Estava eu a amar tão bem, sozinho, mas tão bem."
Acredito que passamos mais tempo a pensar no que a escrita nos transmite do que propriamente a ler o livro, esse devora-se! Se o detalhe, a ligação entre o 313 e o 314 ocorresse mais vezes entre quartos, tínhamos enredo, tínhamos romance, assim temos uma série de episódios que filmados por exemplo por uma Sofia Coppola dariam um filme ora frenético, ora melancólico e nostálgico.
Alexandre, o ascensorista é maravilhoso, leva-nos a dar a volta ao mundo, como se fôssemos minúsculos e estivéssemos, como um rato numa roda, correndo freneticamente sob o globo terrestre, sem nunca sairmos de cima da secretária. Só isso dava um filme!
Camarneiro não desilude, mesmo não sendo um romance e sim um conjunto de microficções todas debaixo do mesmo tecto, é na efabulação deixada a cargo do leitor que o livro brilha e dessa forma criamos um romance. Foi o que eu senti. É curioso como numa pouca dezena de quartos o autor nos leva a olhar o mundo, composto por histórias que talvez se toquem e entrelacem com as nossas, tal como já tinha feito com o prédio que lhe valeu o Prémio. Menos é mais e é verdade!

Se eu fosse chão - Nuno Camarneiro

Roda Dos Livros, 28.06.15

Se Eu Fosse ChãoOs livros fazem-me pensar sobre o que li, sobre os locais onde me levaram, o que senti quando lá cheguei. Penso sobre o que se escreveu e imagino o modo como foi escrito. E, por vezes, leio livros em que o que não se escreve, o que não se diz também conta. Porque me oferece uma viagem diferente, em que participo, à boleia de tantos inícios e possibilidades.

“Se eu fosse chão” é o meu livro preferido do Nuno. Chegada ao fim quis voltar ao início e experimentar todas as novas possibilidades de cada capítulo. Um livro pequeno, mas que na verdade nunca acaba.

“Se Deus pudesse ser chão, pensa o terceiro homem. Um chão de palavras fortes e seguras, onde os pés não se afundem e ganhem forças. Mas talvez o nosso Deus seja caminho, e não lugar.” (Pág. 28);

“Não devíamos ter voltado. Os lugares que não mudam deixam-nos com a certeza de que estamos diferentes.” (Pág.61);

“A literatura é a mais horrenda das artes, porque é feita da mesma matéria com que falamos e nos enganamos a nós e aos outros. “Quero-a”, “quero-te”, “podes confiar em mim”. Lemos o que queremos ou precisamos de ler, lemos como amamos e caímos.” (Pág. 94);

Sinopse

“Num grande hotel, as paredes têm ouvidos e os espelhos já viram muitos rostos ao longo dos anos: homens e mulheres de passagem, buscando ou fugindo de alguma coisa, que procuram um sentido para os dias. Num quarto pode começar uma história de amor ou terminar um casamento, pode inventar-se uma utopia ou lembrar-se a perna perdida numa guerra, pode investigar-se um caso de adultério ou cometer-se um crime de sangue. Em três épocas diferentes, entre guerras que passaram e outras que hão-de vir, as personagens de Se Eu Fosse Chão - diplomatas, políticos, viúvos, recém-casados, crianças, actores, prostitutas, assassinos e até alguns fantasmas - contam histórias a quem as queira escutar.”

D. Quixote, 2015

«Debaixo de Algum Céu», Nuno Camarneiro - Opinião

Roda Dos Livros, 03.01.14

Desde «O Retrato de Dorian Gray» de Oscar Wilde ou «O Filho de Mil Homens» de Valter Hugo Mãe que eu não me sentia tão arrebatada pelas palavras que se desenrolavam debaixo dos meus olhos.As palavras de Nuno Camarneiro são verdades debaixo dos nossos olhos, e é no debaixo que está o problema. Nem sempre o que está perto nos envolve, nem sempre o que é óbvio nos chama à atenção.O enredo de «Debaixo de Algum Céu» é mesmo isso, de algum, de mim, de ti, dele, do outro, alguém ao nosso lado, vocês... os outros - é o somos todos e não é nenhum!Mentira! Acontece a mim, acontece a todos!

A Margarida, o David ou a Beatriz, entre outros, todos eles têm um pouco de nós e um pouco dos outros, basta olhar, mas olhar com olhos de ver!

"Abria os livros e tocava as páginas com os dedos e com os olhos, sem ler, sem nunca ler para que os mistérios do homem que amou não lhe fugissem. Um dia cansou-se dos livros e procurou um gato..."

O desenho bem delineado que Nuno Camarneiro faz de cada personagem, é preciso, é real, é preocupado, fica preso à rotina rotineira, calendarizada, encaixada... nefasta, mas segura!No entanto, o leitor ganha a liberdade e pode, assim como que colorir cada uma delas, com as cores do mar, a rudeza da areia, a textura dos desejos, os cheiros dos beberetes festivos ou então deixá-los a preto e branco, acentuando-lhes a cruz que carregam ou ainda em tons sépia, esbatendo-lhes os sonhos e as ideias, numa mancha mais uniforme, unificando-os, unificando-nos!

"Um pedaço de corda azul, um búzio, algumas garrafas de plástico, dois caranguejos, uma bóia... Moço recolhe cada pedaço (...) Há coisas que lhe servem a ele e a mais ninguém..."

Encaixilhando o desenho, amarrando ideias e vidas, há um organismo que pulsa, sobe e desce, carregando as angústias, as surpresas, as traições, as pequenas vitórias... como um elevador de onde entra e sai gente.Talvez o prédio, seja um Lote A aqui ou um Nº 8 ai, o que é certo a cada um de nós, é que todos temos um prédio, aquele onde as paredes e os tectos "são barreiras importantes feitas pelas mãos a espelharem cabeças".

Temos ou não temos um prédio chamado sociedade apelidado de cultura e intitulado de comunidade ou até coroado de Humanidade!? Igualemos as paredes às leis, os tectos aos valores, as escadas às liberdades, as portas às oportunidades... e temos ou não um prédio comum a todos!?

"Nenhum mundo pode ser perfeito se não tiver lugar para homens imperfeitos. No limite (...) a excentricidade como premissa."

Na premissa de sermos excêntricos, precisaremos de um dicionário para cada um de nós? Um deus pessoal e intransmissível? Quiçá um prédio só para nós?

«Debaixo de Algum Céu» está pensado para nos fazer pensar, talvez até nos educar - a sabermos olhar melhor, sentir melhor e largarmos os fantasmas, não só os do passado mas mais ainda aqueles "de gente viva, porventura os piores..."

"Deus é bom mas liga pouco a pormenores."Façamos o mesmo, esqueçamos mais o umbigo que é o apartamento e pensemos mais no prédio, que é o mundo!

«Debaixo de Algum Céu» é o lugar ao céu, o céu que é de todos!

«No meu peito não cabem pássaros» Nuno Camarneiro, Opinião

Roda Dos Livros, 03.01.14

Perdoem-me a desatenção, mas o nome Nuno Camarneiro só chegou até mim pelas palavras de Maria do Rosário Pedreira aquando da apresentação de segundo romance do autor, aquele que ganhou o Prémio Leya 2012 e que foi a minha primeira leitura e contacto com a divinal escrita do autor. As palavras que destaquei na outra apreciação repetem-se agora e têm mesmo que se repetir, ler Camarneiro é apaixonante!

Em diversas entrevistas, críticas literárias ou pequenas sinopses do livro, faziam sempre questão em destacar que as personagens deste romance eram Fernando (Pessoa), Franz (Kafka) e Jorge (Luís Borges), acredito que quem pegue no romance sem ler nada não identifique (logo) tais personagens, talvez Pessoa, apenas por nos ser mais próximo, mas o que eu quero com isto dizer é que se as viagens pelas palavras de Camarneiro são uma versão biográfica destes três monstros da literatura, tal monstruosidade é esmagada pelas palavras simples e as ideias concretas que são servidas a frio como se de uma catarse pessoal se tratasse.

Chego ao fim desta leitura e é como se desejasse voltar ao início ou ao outro livro ou desejar que existisse já um terceiro. Camarneiro escreve com um pragmatismo lírico, o que parece desde logo antagónico, mas é exactamente isso que a sua escrita me transmite, a total clareza de conseguirmos ser pragmáticos em reconhecer que temos tantas dúvidas. Não sei se me faço entender!?

"O mundo, senhor Fernando, é para ser visto e entendido, não inventado."

E o que restará de nós se nunca inventarmos nada?Obrigada Nuno pelas palavras, pela combinação que com elas inventas, são elas que são responsáveis por nos reinventarmos a cada leitura. A dúvida que fica, essa sim merece ser vista e analisada. Há pessoas que têm o dom, de com clareza e paixão, nos fazerem pensar. Eis o que tanto absorvo da tua escrita.

"Quando um achador de terras se cansa de procurar caminhos, resta-lhe desistir ou abrir uma estrada nova (...). Por uma estrada inventada chega-se a qualquer lugar e por palavras escritas chega-se a qualquer vida em qualquer época."

Tal como Fernando encara a vida e vê que ela se "afasta dos livros assim que se fecham", num espaço onde "tudo são incertezas e tropeços", talvez seja assim que as tramas que Camarneiro cria, se aproximam do nosso tempo, unindo os pontos e formando as linhas que a todos nos unem, seja com uma cidade de distância, um país, uma cultura, um oceano. Três personagens perdidos por três cantos do mundo, diferentes  por partes é certo, mas iguais num todo. Assim seremos todos? Serão as preocupações as semelhanças que nos unem? Não comungaram todas no mesmo sentido?

"A todo o momento há diabos a quererem entrar na gente, espíritos de fogo à procura de queimar corpos e almas (...) A cabeça de alguns é um diabo a quem deram um corpo e uma data de nascimento, uma possessão à espera de acontecer."

"Alguns homens são de tripas e escamas, depois de amanhados ficam um pouco que não chega e mal se vê. Há outros em que tudo se aproveita, homens com segredos nas entranhas e na pele, que contam histórias sem fim."

Mais uma vez, somos brindados com um livro excepcional, recheado de passagens que merecem destaque, correndo o risco de destacarmos a maior parte do livro. Há como que uma geografia insólita que fragmenta vários homens como se multiplicassem as preocupações, amores e incertezas de um só que ao mesmo tempo pode ser a alegoria de todos os homens. A meu ver, um narrativa que espelha sentimento, dor, lamento, amor, perda, paixão, busca, desejo... a sofreguidão de viver a vida.

São difíceis de encontrar as palavras que façam justiça a este romance. São as dores de uma vida vivida, aguardando o milagre!

"O verdadeiro bilhete de um suicida é a sua vida como ele a viveu."

É a vida como a gente a vive, pautada pelas dores do amor, pelas estranhezas de quem vemos por fora, pela dissimetria do tempo, que escasseia e avança e nós aqui: "(...) sem nunca se sair de onde um dia se partiu."

Um livro que chega a ser pessoal, que nos entrega aquilo que nós quisermos tirar dele!

Debaixo de Algum Céu – Nuno Camarneiro

Roda Dos Livros, 16.07.13

debaixodealgumceuAs opiniões positivas na Roda sucederam-se e não resisti a antecipar a leitura deste livro. O facto de ter ganho o Prémio Leya e de eu ter gostado muito do vencedor da edição do ano passado também influenciou.

Comecei por estranhar o papel tão decididamente afirmativo do narrador, mas a beleza das palavras e o seu encadeamento encantou-me, fez-me distanciar desse narrador e levou-me através das histórias dos habitantes daquele prédio em que vivi durante a leitura e para além dela.

As minhas memórias de um prédio junto à praia, regressado das férias da minha infância e adolescência, reviveram em mim, bem como aquela praia que adoro e as gentes que habitam o meu passado. Não recordo, contudo, problemáticas tão duras como as que se vivenciam em “Debaixo de Algum Céu”. Fruto da inocência da idade, fruto dos tempos, fruto da realidade, os habitantes do prédio das minhas férias eram pessoas mais “leves”. Cada um de nós traz à leitura a sua vivência, o seu passado, a sua própria história.

“Debaixo de Algum Céu”apresenta-nos um conjunto de personagens, pessoas, com vidas complexas, deprimidas e deprimentes. Esse é, para mim, o óbice desta narrativa, a não existência em todo o livro, diga-se prédio, de uma personagem “de bem com a vida”. Os tempos são assim, dizem-me, mas fica-me a relutância.

Na semana em que decorre a história, entre o Natal e o Ano Novo, assistimos à total ausência da época vivida e do seu espírito. Excepção feita… salva-se o Menino, pelas mãos do Padre.

O fio condutor que encontro neste livro, que vejo como uma sequência de vários contos, será talvez esse mesmo traço depressivo. De todas as personagens, encantou-me Marco Moço e a sua melancolia, que percepciono como o velho lobo de mar com quem um dia gostaria de me sentar em frente ao mar para longas conversas. Também a complexidade, os dilemas e humanidade do Padre Daniel o transformaram numa personagem que gostei de ver crescer na história. Para mim, os dois menos deprimidos por, afinal, saberem de onde vêm e para onde vão, de forma convicta.

Senti, no início, a necessidade de fazer o esboço do prédio e seus habitantes, “arrumados” nos seus espaços para os conseguir relacionar e localizar, mas à medida que “subi e desci aquelas escadas”, as histórias fluíram.

Pese embora o mote da narrativa, gostei da escrita de Nuno Camarneiro, palavras belas em frases que encantam.

“As palavras são difíceis mas são o que temos. O sofrimento é único para cada homem e para cada mulher, são infinitas as dores e poucas as palavras que lhes dão nome: desgosto, arrependimento, comiseração, tristeza, pesar, mágoa, pena, lástima, aflição, angústia, nojo, desolação, comoção, choque, amargor. Faltam termos e sobram horas más. Não falta descrever o que se pensa, porque não importa, o sofrimento corre abaixo da cabeça, no corpo que apanha, às voltas num mesmo lugar que é o centro de tudo, como se chama o centro exacto de nós?” (pág. 73)

“Há uma beleza própria do que não tem propósito e uma alegria que vem com ela. O toque simples de uma mão na face, um telefonema sem assunto, um passeio sem destino, um poema secreto, um assobio, uma pedra redonda guardada no bolso. Coisas que não servem senão para sorrir e sentir que a vida é ainda cheia de mistérios.” (pág. 78)

Sinopse

Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças – vizinhos que se cruzam mas se desconhecem – andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive.

Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir. A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens – como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho.

Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer – e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem.

Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.

Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu primeiro romance, “Debaixo de Algum Céu” – obra vencedora do Prémio LeYa em 2012 – retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.

LeYa, 2013

Debaixo de Algum céu - Nuno Camarneiro

Roda Dos Livros, 02.07.13

Image
Os títulos dos livros atraem-me muitas vezes mas nem sei porquê não consigo atinar com este título que até é giro, que faz todo o sentido mas que por alguma razão não me fica na memória, tenho que fazer um esforço por me lembrar da frase que sei que incluí o “céu” mas que nunca sei se é debaixo de qualquer céu ou coisa parecida.
Mas vai ser difícil esquecer alguns personagens deste livro.
Mas vamos por partes. Comecei a lê-lo sem qualquer expectativas. Sim, sei bem que Nuno Camarneiro, com este livro, ganhou o prémio Leya. Mas já ouvi opiniões boas e outras más e acabei por ficar sem grande curiosidade e as expectativas bem balanceadas.
Encantei-me às primeiras páginas. Nem foi pela história, o que pode parecer estranho, foi pelas palavras, por uma espécie de poesia (provavelmente imaginada) que lhe senti. Li as primeiras folhas parando em várias frases, imaginando outras, tentando absorver a história, conhecer os inúmeros personagens. Depois veio um sentimento escuro, uma nostalgia e tristeza que me acompanhou até ao fim. Há livros que se explicam melhor por imagens, por cores e este é em tons de cinza e negro com alguns raios de luz (azul?) a lutar contra a escuridão.
 Não é gente feliz aquela e nem o toque de esperança final me mudou o sentido. Seremos todos, afinal, assim? Sem esperança, sem querer? Sem Crer?
Num livro passado em vários dias, com cada um especificado, não pude deixar de me arrepiar com a noite de Natal daquela gente. Sou uma apaixonada pelo Natal, pela confusão da família, pelas comidas, pelos doces, pelos risos, pelos jogos. Detesto televisão no Natal, detesto casas vazias, sono, solidão. Gosto da confusão, gosto da expectativa. E a esta gente faltou-lhes tudo, os risos, os beijos, a esperança, a ansiedade.  Acho que foi esse o momento mais negro deste livro.
De todos os personagens interessaram-me o David e o Marco Moço deste início. O David pelo mistério da personagem, pela solidão escolhida, pela tentativa de rebelião. O Marco Moço pela luz que cedo lhe intuí, pela paz que transmitia, imagino-o um velho com a pele morena curtida pelo mar e pelo sal, com voz doce e serena.
Não aconselho a que se leia este livro à espera de uma história complexa mas óbvia. E não sou daquelas leitoras que extrapola e faz paralelismos com a realidade e lê nas entrelinhas os segundos e terceiros sentidos que se imagina que os escritores quiseram transmitir. Leio um livro como ele se me apresenta, com as palavras a construírem cenas que contam uma história. E esta é uma história fragmentada em cenas isoladas, um puzzle que constrói uma imagem que é afinal um fragmento do todo que, se quisermos, imaginaremos.
Isto tudo para dizer que gostei deste livro, gostei mesmo muito. Não me interessa se foi premiado, se reúne ou não consensos. Um livro vale pelo que consegue transmitir. E eu, por algumas horas, vivi naquele prédio.

Debaixo de Algum Céu - Nuno Camarneiro

Roda Dos Livros, 02.06.13

Debaixo de Algum CéuQuero escrever sobre este livro mas não sei o quê. Sinto que se trata de um livro tão especial que me vai fazer (por incompetência minha, claro) cair num abismo de banalidades e lugares-comuns.

Dizer que é especial, que a escrita é cuidada e me maravilhou, que ainda gostei mais deste do que do outro, que é um livro sobre pessoas, sobre nós, todos nós, que estamos tristes e zangados com a vida, que não conhecemos quem vive na casa ao lado, por vezes não conhecemos quem vive na nossa casa. Que estamos perdidos. Que seguimos os dias todos uns atrás dos outros sem parar. Porque não sabemos. Parar. Já não sabemos.

Paramos quando há uma catástrofe. Quando as terríveis notícias na televisão nos lembram que só se vive uma vez. E que é esta. Esta vez. Esta vida. E que pode acabar. Mesmo agora.

Vivemos zangados. Insatisfeitos. Fartos. Desumanizados.

“Debaixo de Algum Céu” é a voz de uma sociedade de jovens cansados como velhos, com vidas rotineiras e sem brilho, sem vontade. Em crise, sempre em crise. Em crise de tanto estar em crise.

“Uma história são pessoas num lugar por algum tempo.” (pág. 13)

Acho que o Nuno aprendeu a escrever do que observa, aprimorou a qualidade da escrita pelo muito que lê. E depois há mais uma coisa. Que faz toda a diferença entre quem conta uma história e quem escreve. Chama-se Dom.

E mais não digo. Há que ler.

“Talvez amemos só pelo que o amor nos traz, ou pelo que podemos ser quando nos ama. Seremos assim tão tortos? É possível que só saibamos dar a nós mesmos? Orgulho, respeito, altruísmo, abnegação. São coisas que atiramos porque sabemos que hão-de voltar, como um pau que um cão nos há-de devolver.

Já não sei nada, que se foda o amor, andamos todos para aqui a estragar as vidas uns aos outros com os melhores propósitos. “Eu sempre te amei”, “És a mulher da minha vida”. O caralho é que és, o caralho é que amei. Quis prazer como tu quiseste, serenidade, certeza, posse. Sim, quisemos isso tudo e pensámos que nos ficava de graça, uns beijos e algumas palavras, tudo por amor, mas não se trata de amor. Trata-se de outra merda qualquer que nos faz falta e não tem nome, é simplesmente outra merda qualquer.” (pág. 82)

Sinopse

“Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças - vizinhos que se cruzam mas se desconhecem - andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive. Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir.

A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens - como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho. Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer - e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem.

Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.

Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu primeiro romance, Debaixo de Algum Céu retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.”

Leya, 2013

Debaixo de algum céu

Roda Dos Livros, 24.05.13

debaixodealgumceuHoje visitei a Feira do Livro de Lisboa e reparei no destaque que este livro tem em muitas das bancas como vencedor do Prémio Leya 2012. Na passada semana, fui a uma apresentação do referido livro na Livraria Buchholtz porque tinha alguma curiosidade em conhecer o autor e perceber como se exprimia oralmente. Gostei muito do que assisti.

Romance maravilhoso que li e reli pelo cuidado com as palavras que expressam sentimentos profundos. 

Não é um livro fácil de ler pelo muito que em si contêm, mas recuso-me a considerá-lo como alegoria do mundo contemporâneo. Desencanto, desalento e solidão apesar de fazerem parte de muitas vidas não são um padrão.

A sinopse define bem do que se trata, mas citando o autor no prologo:

"Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence.  Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente. Esta é uma história de portas adentro. "

Belo? Pois é. Todo o livro o é. Mas, "as palavras são difíceis (...). O sofrimento é único para cada homem e para cada mulher, são infinitas as dores e poucas as palavras que lhes dão nome: desgosto, arrependimento, comiseração, tristeza, pesar, mágoa, lástima, aflição, angústia, nojo, desolação, comoção, choque, amargor. Faltam termos e sobram as horas más." (pag.73)

E assim é até ao final, com tanto para sentir, através das várias personagens que habitam naquele prédio e gerem difíceis existências.

Talento no uso das palavras. Um compreensível vencedor do prémio Leya, mesmo para alguém como eu tão reticente em ler autores portugueses. Para ler baixinho, em voz alta, ou para dentro, como melhor conseguir interiorizar esta brilhante narrativa.

Sinopse:

Num prédio encostado à praia, homens, mulheres e crianças – vizinhos que se cruzam mas se desconhecem – andam à procura do que lhes falta: um pouco de paz, de música, de calor, de um deus que lhes sirva. Todas as janelas estão viradas para dentro e até o vento parece soprar em quem lá vive.

Há uma viúva sozinha com um gato, um homem que se esconde a inventar futuros, o bebé que testa os pais desavindos, o reformado que constrói loucuras na cave, uma família quase quase normal, um padre com uma doença de fé, o apartamento vazio cheio dos que o deixaram. O elevador sobe cansado, a menina chora e os canos estrebucham. É esse o som dos dias, porque não há maneira de o medo se fazer ouvir.A semana em que decorre esta história é bruscamente interrompida por uma tempestade que deixa o prédio sem luz e suspende as vidas das personagens – como uma bolha no tempo que permite pensar, rever o passado, perdoar, reagir, ser também mais vizinho. Entre o fim de um ano e o começo de outro, tudo pode realmente acontecer - e, pelo meio, nasce Cristo e salva-se um homem.Embora numa cidade de província, e à beira-mar, este prédio fica mesmo ao virar da esquina, talvez o habitemos e não o saibamos.Com imagens de extraordinário fulgor a que o autor nos habituou com o seu anterior romance, Debaixo de Algum Céu - obra vencedora do Prémio LeYa em 2012 - retrata de forma límpida e comovente o purgatório que é a vida dos homens e a busca que cada um empreende pela redenção.