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Roda Dos Livros

Quem matou Palomino Molero? – Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 23.05.17

capa_3Na escrita forte e despudorada que tão bem o carateriza, Mario Vargas Llosa faz-nos o relato da morte violenta de Palomino Molero, que ocorre no hermético mundo militar.

A violência atravessa este livro como um fio condutor. Da violência física à violência psicológica. O baque causado pela primeira página, em que nos é descrita pormenorizadamente a forma como é encontrado o corpo de Palomino, o ascendente do general Mindreau sobre a sua filha Alicita...

Passo a passo vamos acompanhando a investigação do guarda Lituma, personagem conhecida de Llosa, e do tenente Silva. E em simultâneo acompanhamos a paixão do tenente pela ‘gorda’ dona da tasca, dona Adriana.

Conhecendo a escrita crua e direta de Vargas Llosa e o seu estilo sabemos de antemão que nos serão apresentados todos os pormenores da história, os seus porquês. Livros com princípio, meio e fim, o que não implica uma linha de narração cronológica.

Mais uma fabulosa obra deste autor que aconselho e em que vamos desvendando tudo o que se passou através de uma rica panóplia de personagens.

Um livro que é uma forte crítica ao sistema militar, o ‘peixe graúdo’ intocável.

 

Excertos

“(...) É outra coisa que tens que aprender. Não há nada fácil, Lituma. As verdades que pareciam mais verdades, se lhes dás muitas voltas, se as observas de perto, só são meias verdades ou deixam de o ser.” (p. 99)

“(...) Também os aviadores me surpreenderam. Ao fim e ao cabo eram seus colegas. Há, em todos, um fundo bestial. Cultos ou incultos, todos. (...)” (p. 147)

 

Sinopse

- Filhusdumagrandessíssima – balbuciou Lituma, sentindo que ia vomitar. - Como te deixaram, franzino. O rapaz estava ao mesmo tempo enforcado e espetado numa velha alfarrobeira, em posição tão absurda que mais parecia um espantalho ou um Rei Momo escarranchado do que um cadáver.» Pode um morto ser o personagem central de um romance? Se o tenente Silva e o guarda Lituma são personagens essenciais da investigação que procura desvendar o que se esconde por detrás da estranha morte de um jovem aviador, é sobre a figura do inocente Palomino que se desenvolve toda a trama. Mario Vargas Llosa apresenta em Quem Matou Palomino Molero? um surpreendente e inesperado registo policial que prende o leitor tanto pela originalidade estilística como pelo próprio enredo arrebatador e imprevisível.

 

Leya, 2017

"O Falador" de Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 01.06.14

o-falador

Começo este texto com uma confissão insignificante e irremediavelmente fútil: escolhi este livro pela capa. Andava há uns tempos a pensar em voltar à obra ficcional de Llosa mas não conseguia escolher nenhum livro em particular, talvez temendo uma desilusão como aquela trazida por “Travessuras da menina má”. Assim, foi o desenho colorido da arara que me levou a comprar este livro. Isso e também o título, simples, mas pleno de possibilidades: “O Falador”. E através deste me reconciliei com a escrita de um grande autor. Uma das características que mais aprecio na literatura é o modo de escrever fluido e natural, por vezes muito belo, mas sempre sem esforço aparente, sem parecer forçado, que é uma marca indelével dos escritores de excelência. E foi exactamente isto que me trouxe este romance; o fascínio de uma história bem contada, escrita de forma primorosa embora, neste caso, sejam duas as narrativas que se vão alternando, com estilos literários totalmente distintos. Seguimos o percurso de um escritor que evoca uma amizade de juventude terminada de forma abrupta pela partida, para local desconhecido, do seu amigo bem como o périplo de um “falador”, um contador de histórias de tradição oral, duma tribo amazónica. De modo despretensioso, sempre claro e acutilante, o leitor é confrontado com algumas questões muito pertinentes: a construção de uma sociedade mais justa no contexto político da América do Sul, a inserção, ou não, das várias etnias nativas no seio da cultura trazida pelos colonizadores europeus bem como o respeito e a valorização da Natureza e de modos de vida diferentes daquele que é dominante. Todos estes aspectos são, sem dúvida alguma, interessantes, mas vejo este livro como um testemunho de algo mais, como um reflexo de uma faceta humana simultaneamente intrigante e cativante: o fascínio imenso perante a narração de uma história bem contada que nos acompanha desde tempos imemoriais, muito antes da invenção da escrita, talvez até mesmo desde o surgimento da nossa espécie. Será que as histórias, para além de repositórios da cultura dos povos, são também uma forma de nos conhecermos, entendermos e aceitarmos o nosso lugar na existência? Eu acredito que sim.Uma leitura invulgar e muito interessante, apesar de umas pequenas incorrecções, provavelmente relacionadas com a tradução, como a menção de tigres e pumas como espécies da fauna amazónica. Recomendo, sobretudo a quem se interesse pelas questões ligadas às histórias de tradição oral, à mitologia e às culturas nativas da Amazónia.Excertos:“Deixemo-los com as suas flechas, as suas penas e as tangas. Quando te aproximas deles e os observas com respeito, com um pouco de simpatia, dás-te conta de que não é justo chamar-lhes bárbaros nem atrasados. Para o meio em que estão, para as circunstâncias em que vivem, a sua cultura é suficiente. E além disso, têm um conhecimento profundo e subtil de coisas que nós esquecemos. A relação do homem com a natureza, por exemplo. Do homem com a árvore, do homem com o pássaro, do homem com o rio, do homem com a terra, do homem com o céu. E também do homem com Deus. Nós nem sabemos o que é essa harmonia que existe entre eles e essas coisas, pois que a quebrámos para sempre.”“- São uma prova palpável de que contar histórias pode ser algo mais do que uma mera diversão – ocorreu-me dizer-lhe. – Algo primordial, algo de que depende a própria existência de um povo. Talvez tenha sido isso que me impressionou tanto. Uma pessoa nem sempre sabe porque é que as coisas o comovem, Mascarita. Tocam-te numa fibra secreta, e é tudo.”“Antes, todos foram homens. Nasceram a falar, ou, melhor dizendo, do falar. A palavra existiu antes deles. Depois, o que a palavra dizia. O homem falava, e o que ia dizendo aparecia. Isso era antes. Agora, o falador limita-se a falar. Os animais e as coisas já existem.”“Porque falar como fala um falador é ter conseguido sentir e viver o mais íntimo dessa cultura, ter penetrado nos seus meandros, ter chegado ao âmago da sua história e da sua mitologia, ter somatizado os seus tabus, reacções, desejos e terrores ancestrais. É ser, da maneira mais essencial possível, um machiguenga radical, um mais da antiquíssima estirpe que, já na época em que esta Florença em que escrevo produzia a sua efervescência alucinante de ideias, imagens, edifícios, crimes e intrigas, percorria os bosques do meu país levando e trazendo as histórias, as mentiras, as fabulações, as mexeriquices e as anedotas que fazem deste povo de seres dispersos uma comunidade e que mantém vivo entre eles o sentimento de estarem juntos, de constituírem algo de fraterno e compacto.”

A Tia Julia e o Escrevedor - Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 01.05.14

tiajuliaCusta-me cada vez mais escrever sobre livros. Bons livros. Porque não há nada que eu possa fazer para os tornar melhores, nem tal ambição tenho o desplante de ter, e porque sinto que escreva o que escrever, será sempre insuficiente.

Mas, e porque estes joguitos de palavras que faço me dão um certo gozo, não resisto a pelo menos tentar descrever o prazer de ler um livro excepcional.

Já li alguns livros de Llosa. Este é diferente. Autobiográfico. Não sei, tem logo assim à partida uma espécie de seriedade cheia de verdades. Mete respeito pensar que se vai entrar na vida privada do senhor quando tinha dezoito anos, descobrir uma espécie de incesto por afinidade que aguça a curiosidade, mas ao mesmo tempo me fez recear ficar a salivar pelas personagens delirantes dos outros livros que li do autor.

Mas não. Pois que o delírio continua. A imaginação de Vargas Llosa é, sem dúvida, poderosa, mas as situações da sua vida e aqueles que o rodearam terão sido, a meu ver, um impulso decisivo para criações tão fantásticas. O meio terá influenciado o criador. Sorte ter a genialidade e movimentar-se num laboratório vivo, cheio de cobaias mesmo a pedir a imortalização. Num livro. Partindo do princípio que tudo no livro é verdade. A mim apetece pensar que sim.

E mais me apetecia ter lá estado. Para conhecer Pedro Camacho que, não sendo o meu grande favorito Dom Rigoberto, me encantou com a sua dedicação exaustiva à escrita, pela forma como sugou a sua imaginação até ao esgotamento, citando o próprio “Para a arte não há horário”.

Não interessa o que Camacho escreve mas como o faz. Pois que explicando a sua dedicação à causa qualquer aspirante a escritor o idolatrará de imediato, aprofundando a questão acerca do tema dos seus escritos, já não é assim tão fascinante. Por isso e para manter por mais um pouco esta ideia romântica do escritor lunático, vou adiar a explicação mais exacta (a verdadeira, pronto) para depois.

Camacho escreve como um actor. Muda de indumentária para entrar totalmente na personagem. Enfiado num cubículo com a Remington “emprestada” cria capítulos para a cada dia, a cada hora, surpreender e fascinar ainda mais os seguidores. Estes, mesmo depois, de ele dar provas óbvias de ter entrado nas suas próprias estórias ao ponto de enlouquecer, ainda o adoram mais. Ficam diariamente, à hora certa, ansiando ouvir a radionovela, os folhetins do grande Pedro Camacho. Um escritor para massas, um escritor de banalidades, que leva o seu trabalho tão a sério que representou uma grande inspiração para Llosa.

Fascinante e caricato, este é (mais) um livro de Vargas Llosa que me levou muito mais longe do que eu esperava ir. Ao compasso do seu amor pela Tia Julia, fui sendo surpreendida com capítulos com uma certa estrutura de conto, que me foram fazendo imaginar que, também ou, ouvia a radionovela.

“Começo a escrever com a primeira luz. Ao meio-dia o meu cérebro é uma tocha. Depois vai perdendo fogo e à tardinha paro porque só restam brasas. Mas não importa, pois nas tardes e nas noites é quando mais rende o actor. Tenho meu sistema bem distribuído.” (Pág. 47)

“Quando lhes perguntei porque é que os preferiam aos livros, protestaram: que palermice, como é que se podiam comparar, os livros eram a cultura, os folhetins simples extravagâncias para passar o tempo. Mas o certo é que viviam apegadas ao rádio e que nunca tinha visto nenhuma delas abrir um livro” (Pág.96)

“Cada vez se me tornava mais evidente que a única coisa que queria ser na vida era escritor e cada vez, também, me convencia mais que a única maneira de sê-lo era entregando-me à literatura de corpo e alma. Não queria de modo nenhum, ser um escritor a meias e aos bocadinhos, mas sim um de verdade, como quem? O mais próximo desse escritor a tempo inteiro, obcecado e apaixonado pela sua vocação, que conhecia, era o radionovelista boliviano: por isso me fascinava tanto.” (Pág. 198)

Sinopse

“A Tia Julia e o Escrevedor é um dos livros mais originais de Vargas Llosa. Conta a história de Varguitas, um jovem peruano com ambições literárias que se apaixona por uma tia com quase o dobro da sua idade. Em paralelo a esse romance proibido, na Lima dos anos cinquenta, Varguitas conhece Pedro Camacho, autor excêntrico de radionovelas cujos enredos mirabolantes fascinam os peruanos. As novelas vão muito bem, até ao dia em que Pedro Camacho, sobrecarregado, começa a confundir enredos e personagens. E, ao mesmo tempo, o romance entre Varguitas e a tia Julia é descoberto pela família. Ironia e romance em doses perfeitas, memórias autobiográficas e criação literária magistral fazem deste livro um clássico da literatura contemporânea.”

D. Quixote, 2011

O Herói Discreto - Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 16.03.14

oheroidiscretoLer algo de Vargas Llosa oferece-me uma espécie de garantia desde que abro a primeira página. Um dos meus escritores favoritos, que me consegue levar sempre numa exclusiva viagem de palavras.

“O Herói Discreto” é mais um brilhante livro do autor, que me proporcionou excelentes momentos de leitura e uma espécie de revisitação a um dos meus personagens favoritos de sempre, o peculiar D. Rigoberto.

Uma narrativa em dois espaços alternados capítulo a capítulo. A história de Felícito Yanaqué, um verdadeiro herói, íntegro, corajoso, honesto, de aparência frágil mas na verdade um duro que não cede aos princípios em que sempre regeu a sua vida; é por isso discreto, reservado, inesperado, e mesmo surpreendente na forma como reage a sucessivas ameaças de um grupo de chantagistas que lhe tenta extorquir dinheiro de destruir o negócio que toda a vida lutou por construir e manter.

À medida que Felícito avança, ajudado pelas autoridades, na investigação de quem está por trás das ameaças, o leitor vai sendo verdadeiramente brindado com os capítulos dedicados a D. Rigoberto, esse expoente do hedonismo, dos prazeres carnais, intelectuais e, acima de tudo, mundanos. Continuam os jogos de prazer com a sua amada Lucrécia, assim como as confusões com Fonchito, sempre a encontrar novas formas de fazer perder a cabeça ao pai e à madrasta.

Estive praticamente todo o livro a pensar onde é que D. Rigoberto se iria cruzar com Félicito. Tão diferentes e geograficamente distantes, vivendo realidades tão díspares, cheguei a pensar que não haveria qualquer relação…e na verdade D. Rigoberto é de tal modo excêntrico e único que nem precisa de motivos para surgir, um personagem que o é mesmo sem palco, que existe perfeitamente só, e encontra lugar na história de qualquer herói (discreto ou não).

Mas o que mais guardo deste livro é a habilidade de Llosa de contar uma história. Ou melhor, de contar várias histórias, ao mesmo tempo, misturando diálogos de conversas actuais com situações passadas, saltando entre uma e outras com uma habilidade admirável e sem nunca deixar o leitor perdido entre acontecimentos.

Escrever bem é, sem dúvida, fruto de trabalho, prática, insistência, solidão. Mas quando se tem o dom, junta-se tudo como pura magia.

Sinopse

“Felícito Yanaqué é um homem de cinquenta anos, respeitado pela comunidade e proprietário de uma empresa de transportes que fundou e fez prosperar na cidade de Piura, no noroeste do Peru. Sem instrução, oriundo de uma família pobre e gestor cuidadoso dos seus bens, Felícito conquistou tudo a pulso, de uma forma tranquila, discreta e constante, atributos que se poderiam também aplicar à sua personalidade. Casado, com filhos já adultos, Felícito Yanaqué mantém uma amante de longa data, exuberante beleza da cidade. E também outra relação - não de natureza sexual - com Adelaida, uma vidente cujo conselho Felícito segue quase sempre, quer se trate de negócios ou de matéria puramente pessoal ou, mesmo, íntima.

Tudo corre bem na sua cidade; tudo normal. Só que Felícito Yanaqué começa a receber cartas anónimas de extorsão; e quando a ameaça de represálias passa à concretização, Yanaqué decide resistir a tudo isto sem apoio, estoica e discretamente. Como um herói.

Depois da atribuição do Prémio Nobel, do romance O Sonho do Celta ou de A Civilização do Espetáculo (conjunto de ensaios sobre o estado da cultura na atualidade), Mario Vargas Llosa regressa agora com um extraordinário e invulgar romance que relembra os cenários, os personagens e alguns dos temas dos seus livros fundadores - a coragem, o medo e a necessidade de resistir a novas formas de injustiça e de maldade.”

Quetzal, 2013

«A Civilização do Espectáculo» de Mario Vargas Llosa - Opinião

Roda Dos Livros, 10.12.13

A metamorfose da palavra cultura, ou melhor do seu significado e conteúdo é o alvo desta radiografia ensaísta do Prémio Nobel da Literatura de 2010. Mario Vargas Llosa afirma-se preocupado com o desaparecimento da cultura (se é que já não desapareceu) e a banalização e frivolidade dos conteúdos exibidos sob a denominação de cultura.

Vargas Llosa não está só preocupado com a fragmentação e as temáticas temerárias que alastram na cultura dos nossos dias, mas também com a complacência e a letargia do receptáculo, que, ao que parece, não se preocupa ou ainda não se apercebeu o quão nefasto é esta falta de qualidade actual, degenerando assim a sociedade em geral.

Num ensaio curto e com uma escrita pragmática, sem rodeios nem polimentos, o nobel encaminha-nos pelos meandros da cultura, que desde o início nos indica considerar perdida e vendida às exigências de uma sociedade dependente do fácil, do superficial, do vendável e das modas. Questionando a massificação da cultura e culpando-a pela perda da mesma.

Citando T. S. Eliot, na sua obra Notas para a definição de cultura (1948) "Não vejo razão alguma pela qual a decadência da cultura não possa continuar e não possamos prever um tempo, de alguma duração, do qual se possa dizer que tem falta de cultura", o autor adianta-se e desde logo afirma (p. 12), sem rodeios, que "esse tempo é o nosso".

Desde o início deste livro, a sua leitura envolve-nos em diversos conceitos, especulando inúmeras questões e alertando-nos para leituras paralelas ou posteriores, espicaçando-nos para compreender melhor aquilo que Steiner chama «a retirada da palavra» e a degradação progressiva da mesma já que a cultura actual subverte-se ao poder da imagem e à rapidez de absorção desses conteúdos imagéticos.

Qual é o impacto deste bombardeamento asfixiante de ideias, imagens, diversão, espectáculo...?Que papel tem a inquietação e a ansiedade que o consumismo desenfreado provoca?Numa época cada vez mais individualista como se aceita uma cultura cada vez mais despersonalizada?

Vargas Llosa alerta também para a constante alienação (Marx, 1884) provocada pela Civilização do Espectáculo que vem expandir o fenómeno da «reificação» ou da «coisificação» do indivíduo, anestesiando-o e afastando-o dos reais problemas. As políticas de facilitismos, camuflam estratégias de aprisionar o indivíduo a uma sociedade industrial, criando necessidades onde não existem, estupidificando e futilizando a sociedade, deslocando assim a sua atenção.

A crítica é incisiva e toca a todos, expande-se pelos vários acontecimentos político-sociais da actualidade, questionando o prazer, o poder, a arte, a proibição, a religião, a informação, a guerra... ou seja, muitas das ramificações que estruturam e atribuem valor e conteúdo a uma cultura que se tem vindo a perder. Fundamentando e expandindo os seus próprios escritos, o Nobel da literatura faz a ponte com inúmeros escritores, filósofos, sociólogos e obras de renome, abrindo assim um leque vastíssimo quando se deseja aprender mais.A reflexão continua e divide-se entre seis capítulos e uma reflexão final, tendo todas elas um fragmento extra, intitulado de pedra de toque (a designação não será acidental), conferindo assim uma maior acidez ao discurso e afirmando ainda mais o seu carácter crítico e o olhar desencantado de quem se sente um dinossauro numa época profanada pelo light, e aqui entenda-se que este light é pesado e enredado, é irresponsável e manipulador.

É urgente a mobilização de consciências e o compromisso de não nos volatilizarmos tanto, sem prejuízo, é certo, de sermos capa

zes de nos divertir e entreter, mas não fazendo disso o adágio dos nossos dias. O entretenimento não pode converter o mundo num palco gigante, banalizando o sofrimento e a violência, que nos consegue tornar apáticos e passivos, uns conformistas conflituosos, superficiais e cheios de opiniões, meramente exibicionistas e pouco fundamentadas ou conscientes.

O inconformismo do autor é descaradamente delicioso de ler, já que nos brinda com uma escrita explícita e em nada labiríntica ou complexa contrariando muitos dos ensaios que nos inibem de lê-los, adivinhando ideias intrincadas e parágrafos que nunca mais terminam, mas neste livro nada disso ocorre, levando-nos a acreditar que este género de prosa ensaísta seja o último reduto e chame a si os produtos da sociedade actual.
«A Civilização do Espectáculo» é uma edição Quetzal, tenha mais informações aqui ou no blogue da editora.

Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 24.04.13
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Depois de ter lido e ouvido críticas positivas e negativas, iniciei a leitura deste livro convencida de que iria adorá-lo ou detestá-lo. Para minha surpresa, cheguei sensivelmente a meio da obra sem me suceder uma coisa nem outra. Parecia-me apenas mais uma versão de uma das histórias mais banais deste mundo: o menino bom que ama de todo o coração uma menina má, insensível e calculista, que aproveita esse amor para o usar quando precisa dele, ignorando-o sempre que lhe surge uma alternativa mais vantajosa. O menino bom não é estúpido, percebe perfeitamente o que se passa, tenta esquecê-la mas não consegue porque, simplesmente, a ama demais.

Ao fim de cerca de duzentas páginas sem surpresas, onde esta história, se bem que exemplarmente bem escrita, se repete num ciclo interminável de desilusão amorosa - nova esperança - nova desilusão, estava já convencida de que o resto do livro se desenrolaria no mesmo tom, quando, sem aviso prévio, o Autor introduz uma nova variável nesta equação tão antiga: afinal as meninas más também podem ser vítimas de um sofrimento muito semelhante àquele que causam. E digo semelhante, e não igual, porque aqui Vargas Llosa não faz concessões sentimentalistas: quem nasce sem coração não amará nunca. Logo, nunca sofrerá por amor. Mas pode sofrer um martírio equivalente, tornando-se dependente de outra pessoa, não porque a ame, mas porque essa pessoa se tornou, para si, uma ideia fixa. E, por causa dessa ideia fixa, pode deixar-se usar, manipular, humilhar até limites tão extremos como aqueles a que chegam aqueles que usa porque têm a fraqueza de lhe ter amor.

Posto isto, Vargas Llosa entra no domínio das interrogações: quando uma menina má, incapaz de qualquer sentimento, habituada a usar os outros para os seus próprios fins, desce às profundezas do desespero humano por causa de alguém que a maltratou e é resgatada in extremis pelo mesmo menino bom que a amou desde criança e a quem já desprezou inúmeras vezes, como reagirá a essa suprema prova de amor? Uma vez recuperada, como se comportará com o seu salvador? Em última análise, poderá uma situação extrema modificar uma personalidade também, em si mesma, extrema?

O Autor é magistral na gestão desta incerteza, levando-nos a colocar todas as hipóteses e chegando mesmo a fazer parecer plausível aquilo que, no nosso íntimo, sabemos ser impossível. Mas, por fim, a sua conclusão é de uma clareza cruel: quem não ama tem uma vantagem inultrapassável sobre quem ama. Quem não ama também não sente empatia, nem remorso. Tem, por isso, uma liberdade que o comum dos mortais não tem: pode fingir sentimentos quando isso lhe é útil e desfazer a farsa num segundo quando deixa de o ser. E quem melhor para servir os seus interesses do que alguém que nada lhe consegue recusar? Eis a pessoa perfeita para explorar quando necessário e descartar logo que possível. E, se conveniente, para voltar a usar mais tarde, uma e outra vez, bastando para isso dizer-lhe que o amor acabou de despertar no seu coração. Um verdadeiro menino bom, por mais que o seu lado racional o tente chamar à razão, nunca resistirá ao apelo romântico da pessoa que ama. Por muitas desilusões que o seu amor já lhe tenha causado, acreditará sempre uma última vez. É essa a sua desgraça.

Assim, afinal este livro é tudo menos banal. Parte de uma história vulgar e revela-lhe cambiantes insuspeitos, faz do previsível inesperado, obriga-nos a questionar o que tínhamos por certo e estabelecido. Baralha as premissas e questiona tudo. Para, finalmente, quando já estamos capazes de admitir hipóteses que no início nos pareceriam risíveis, nos reconduzir ao ponto de partida: em que estávamos a pensar para nos deixarmos enganar como qualquer menino bom pateta? É claro que as pessoas não mudam.

Excertos:

"Para que insistia em me telefonar, de tanto em tanto tempo? Porque, na sua intensa vida, eu devia ser uma das poucas coisas estáveis, o idiota fiel e apaixonado, sempre ali, à espera da chamada para fazer sentir à ama que ainda era o que sem dúvida já estava a deixar de ser, o que em breve não mais seria: jovem, bonita, amada, cobiçada. Ou necessitava porventura de alguma coisa de mim? Não era impossível. De repente tinha aparecido na sua vida algum pequeno vazio que o borra-botas podia preencher. E, com aquele seu gelado carácter, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com o seu infinito poder sobre os meus sentimentos, não fosse capaz de dissipar em dois minutos de conversa. Conhecendo-a, era certo e sabido que não daria o braço a torcer, continuaria a insistir, de tantos em tantos meses, de tantos em tantos anos. Não, desta vez enganavas-te. Não voltaria a atender-te o telefone, peruaninha." (pág. 208).

"- Sabes bem que tentei adaptar-me a este tipo de vida, para te fazer a vontade, para te pagar o que me ajudaste quando estive doente - a sua frieza parecia agora a ferver de furor. - Não posso mais. Isto não é vida para mim. Se continuasse contigo por compaixão, acabaria por te odiar. Eu não te quero odiar. Tenta compreender-me, se puderes.

(...)

"- Aqui asfixio - acrescentou, lançando uma olhadela à sua volta. - Estas duas assoalhadazinhas são uma prisão e já não as suporto. Eu sei qual é o meu limite. Esta rotina, esta mediocridade, estão-me a matar. Não quero que o resto da minha vida seja assim. Tu não te importas, tu estás satisfeito, melhor para ti. Mas eu não sou como tu, não me sei conformar. Tentei, bem viste que tentei. Não consigo. Não vou passar o resto da vida ao teu lado por compaixão. Desculpa falar-te com esta franqueza. É melhor que saibas a verdade e que a aceites, Ricardo." (pág. 343).

A Civilização do Espetáculo - Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 14.04.13

acivilizacaodoespetaculoQuase uma semana após a conclusão da leitura de “A Civilização do Espetáculo”, é que me atrevo a tentar escrever algo que possa refletir o que senti ao lê-lo.

Receosa de não conseguir exprimir e partilhar o brilhantismo de Llosa, tentarei explicar o porquê deste ser, provavelmente, o melhor, ou dos melhores livros que li em 2012.

Não escondo a minha predileção por este escritor, pelo que parto sempre para um livro dele com a certeza que me vai realizar como leitora. Neste caso, o tema, por me ser particularmente caro, deu-me um entusiasmo tal que as primeiras 100 páginas foram lidas de seguida já altas horas da noite, afastando qualquer hipótese de me deixar adormecer.

A cultura está em crise? Que género de crise? As pessoas não procuram cultura? Ou procuram o que acham que é cultura?

Muitas dúvidas e questões que ficam nas consciências de quem tem noção (como Llosa) de qual é o papel das iniciativas culturais na vida em sociedade. Este livro, direcionado para vários pontos culturais fulcrais, descreve uma verdadeira e total crise de valores e conceitos relacionados com a forma como a cultura se tornou um espetáculo, uma triste civilização de espetáculos fúteis, sensacionalistas e deprimentes.

Será Llosa um fundamentalista? Um exagerado? Estaremos todos, sem exceção, aos pés de uma sociedade de cordeirinhos num rebanho que aceita tudo o que lhes dão sem questionar? Que dizem que gostam porque toda a gente assim o faz?

Os livros ocupam grande parte deste ensaio. A forma como a vida útil de um livro o faz, atualmente, quase um objeto descartável, é alvo de uma crítica feroz mas construtiva por parte do autor. A sucessão de novidades, as edições em massa de lixo editorial promovido de forma enganosa estão a deformar o propósito enriquecedor dos livros. A partilha por empréstimo é quase inexistente, o consumo desenfreado chegou aos livros, que se vendem pela beleza das capas. Falo por mim, que durante bastante tempo me deixei “maravilhar” pela ”injeção” de novidades. Mais recentemente tenho parado um pouco para pensar e observar todos os livros mais antigos que comprei com gosto e prazer e que ainda estão na estante a aguardar a sua leitura. Deixei-me corromper por esta “Civilização do Espetáculo” doente e enganosa, mas acredito estar a tempo de me recuperar e voltar aos anos em que lia devagar e com mais gosto, saboreando livros bem escritos, lendo menos em quantidade mas atingindo mais em realização pessoal.

É feito um enquadramento, questionado o papel do governo na permissão e interessa nesta patética “Civilização do Espetáculo”. Claro que a busca cultural tem de partir do interesse de cada um, mas uma nação culturalmente doente, em que quem está ao leme descura e despreza o real conceito de cultura, não pode fazer surgir do nada o interesse por valores diferentes. À religião é também dedicada uma grande parte deste ensaio, dado que é, ainda hoje, uma influência fulcral na sociedade; confesso que foi a parte que menos me cativou, apesar de considerar as questões bem expostas e fundamentadas.

Llosa, como amante e defensor das artes é arrebatado na defesa dos seus ideais. Por vezes  cruel pois a cultura também não pode ser, a meu ver, obrigação. A distração e divertimento têm de existir, de marcar a diferença, de ser um caminho cativante e colorido nas vidas cinzentonas daqueles para quem, por exemplo, a profissão é um castigo. Deverá ser uma forma de esquecer tristezas e sonhar.

É um facto que cultura é seriedade. Atualmente não é considerada como tal. Mas a indústria do entretenimento não deverá, a meu ver, ser tão seriamente condenada. Numa época em que a humanidade é, na generalidade, triste, não devemos colocar em causa o poder de um filme ou série de televisão só porque não atinge os mais altos padrões culturais. Mas sim dar-lhe uma oportunidade se, por uns momentos, trouxer alguma liberdade a quem se sente preso pelas exigências da vida atual. As pessoas têm a liberdade de escolher, se apenas optam pelo que é fácil e fútil, isso se deve à crise de valores, mas muitas há que procuram, necessitam e vivem de cultura, da original, a que alimenta a alma, faz pensar questionar e crescer.

Valorizei muito as opiniões pessoais e a partilha de experiências de vida que Mario Vargas Llosa faz neste livro. Fez-me pensar e questionar, por vezes concordar e por vezes achar que ele já estava a ir longe de mais. Acima de tudo fez-me meditar sobre o meu lugar, onde estou e onde quero estar. Um livro que não me deixou indiferente, que me trouxe revolta e alegria, que me fez querer ser melhor.

Sinopse

“A banalização das artes e da literatura, o triunfo do jornalismo sensacionalista e a frivolidade da política são sintomas de um mal maior que afeta a sociedade contemporânea: a ideia temerária de converter em bem supremo a nossa natural propensão para nos divertirmos. No passado, a cultura foi uma espécie de consciência que impedia o virar as costas à realidade. Agora, atua como mecanismo de distração e entretenimento. A figura do intelectual, que estruturou todo o século XX, desapareceu do debate público. Ainda que alguns assinem manifestos e participem em polémicas, o certo é que a sua repercussão na sociedade é mínima. Conscientes desta situação, muitos optaram pelo silêncio. Uma duríssima radiografia do nosso tempo e da nossa cultura, pelo olhar inconformista de Mario Vargas Llosa.”

Quetzal, 2012

"Travessuras da menina má" de Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 17.03.13

Hesitei muito em fazer um texto sobre este livro. Primeiro porque achei que seria presunçoso escrever e divulgar uma opinião negativa sobre uma obra de um autor Prémio Nobel. Em segundo lugar, tendo em conta que só consegui ler cerca de 1/3 do livro, é legítimo questionar se não mudaria de opinião caso tivesse sido persistente e o tivesse lido até ao fim. Finalmente, perguntei a mim própria se o problema não terá sido ter pegado neste livro de Mario Vargas Llosa depois de ter lido outros dois que me deslumbraram e impressionaram profundamente.  Mas depois a Márcia desafiou-me dizendo que seria bom colocar neste blog uma opinião negativa, que seria útil para um certo “espírito de contraditório” e para espicaçar o debate entre os leitores.Assim, devo começar por dizer que no início até estava a gostar do livro, tendo  achado até bastante piada à parte relativa à adolescência das personagens em Lima. Mas depois a coisa complicou-se...

Nem a excelente  e irrepreensível escrita do autor me conseguiu entusiasmar a levar até ao fim um livro cuja temática, neste momento pelo menos, não me interessou nem um bocadinho. Ou melhor, não foi bem isso, foi um certo tédio que começou a apoderar-se de mim quando comecei a ler os devaneios obsessivos do idiota do Ricardo sobre uma "Barbie" vigarista e frívola, totalmente desprovida de escrúpulos e de conteúdo. Antipatizei de imediato  com esses dois: ele porque me transmitiu a ideia de ser um homem que só aprecia as mulheres pela casca, ou seja, pela aparência, e que permanece obcecado, apesar de maltratado, revelando assim uma notável falta de respeito por si próprio; ela porque encarnava quase tudo aquilo que detesto e desprezo numa figura feminina - a utilização do corpo para manipular os homens, a frivolidade e a desonestidade sem pingo de remorso.

Em termos de personagens gostei do Paúl, do hippie peruano que vive em Londres e da respectiva benfeitora à qual achei imensa graça mas estes não foram suficientes para me convencer a continuar a leitura.

Talvez daqui a algum tempo volte a pegar neste livro. Tenho a impressão de não ter conseguido fazer-lhe justiça. Será que tudo isto não foi apenas uma questão de sequência temporal infeliz? “Bad timing”?

Sinopse:

Qual o verdadeiro rosto do amor?

Ricardo vê cumprido, muito cedo na vida, o sonho que sempre alimentara de viver em Paris. Mas o reencontro com um amor da adolescência mudará tudo. Essa jovem, inconformista, aventureira, pragmática e inquieta, arrastá-lo-á para fora do estreito mundo das suas ambições.

Criando uma admirável tensão entre o cómico e o trágico, Mario Vargas Llosa joga com a realidade e a ficção para dar vida a uma história na qual o amor se nos revela indefinível, senhor de mil caras, tal como a menina má.

Paixão e distância, sorte e destino, dor e prazer... Qual é o verdadeiro rosto do amor?

Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa

Roda Dos Livros, 17.03.13

250_9789722031462_travessuras_da_menina_maDeliciei-me com esta leitura. Para mim há poucas coisas melhores do que uma história bem contada. Esta é absolutamente divinal. Serão todos os livros de Mario Vargas Llosa assim? Vou querer descobrir.

A menina má desaparece e aparece na vida de Ricardo sempre da mesma forma inesperada. Ricardo ama-a e tudo faz por ela, esta paixão é como uma doença que o consome e lhe rouba a sanidade. A menina má volta em todos os capítulos, por mais voltas que o autor dê ao texto, e por muito que a ponha a correr mundo, ela acaba por regressar sempre, por aparecer sempre de forma inesperada ansiando pelo romântico Ricardito, com as suas deixas melosas a que ela chama de piroseiras.

A menina má abomina a pobreza, anseia por uma vida próspera sem as dificuldades que viveu na infância; constrói um percurso de mentiras e deixa de parte os seus próprios sentimentos com o objectivo de obter o que, para ela, representa a máxima felicidade: dinheiro. Ricardo tem, desde a infância, o sonho de viver em Paris. Do Peru para a Europa persegue esse seu sonho. É um ser humano simples e sincero, apaixonado desde os 15 anos pela menina má, deixa-se enredar na sua teia de todas as vezes que ela surge na sua vida!

Eu acho que a menina má também o ama, mas como poderá ela sucumbir e deixar-se levar pelos amores de um pobre borra-botas, como ela lhe chama? Mas chega a altura em que a menina má, de tantas trafulhices e mentiras inventar, não tem mais ninguém na vida. E é nas alturas de maior solidão e desespero que podemos ver quem são os verdadeiros amigos. À menina má só resta Ricardito, o piroso borra-botas, que lhe dedicou toda a sua vida, esteve com ela nos períodos em que ela o quis e suspirou por ela quando desaparecia por anos a fio. Ricardo salva-a sempre, ama-a de forma sincera e sofredora, só deseja tê-la ao seu lado.

Podem as pessoas mudar e recuperar-se? Aceitar e viver o amor conforme a vida lhes oferece? Ou insistem nas suas teorias de grandeza, dando sempre mais valor aos bens materiais do que aos sentimentos? A miséria na infância marca decerto os objectivos e percursos na idade adulta, mas não será já exagero voltar sempre as costas a um amor sincero, seguindo sempre o caminho da ganância? Se calhar as pessoas nunca mudam, a menina má tenta, consome-se, e acaba sempre por ceder à sua natureza. E a Ricardo, valeu a pena perder quase tudo por ela?

Este livro lança uma ou duas dúvidas, não mais do que isso, mas que pela sua profundidade nos fazem meditar sobe a natureza humana e sobre o que se leva deste caminho sinuoso e curto que é a vida.

Escrito de forma brilhante, este texto embalou-me por horas de leitura seguida sem pensar sequer em pausas; adorei e sinto-me cheia daquela felicidade que só um livro brilhante nos faz sentir. Concluí este leitura no dia do meu aniversário. É um presente que guardarei para sempre.

“Desejo-te – sussurrei-lhe ao ouvido, mordiscando-lhe a borda da orelha. – Estás mais bonita que nunca, peruaninha. Amo-te, desejo-te com toda a minha alma, com todo o meu corpo. Nestes quatro anos não fiz outra coisa senão sonhar contigo, amar-te e desejar-te. E Também amaldiçoar-te. Cada dia, cada noite, todos os dias.

Passado um momento, afastou-me com as suas mãos.

- Tu deves ser a última pessoa no mundo que ainda diz essas coisas às mulheres. – Sorria, divertida, olhando-me como um bicho raro. – Que piroseiras me dizes Ricardito!” (pág. 123)

Sinopse

“Qual o verdadeiro rosto do amor?Ricardo vê cumprido, muito cedo na vida, o sonho que sempre alimentara de viver em Paris. Mas o reencontro com um amor da adolescência mudará tudo. Essa jovem, inconformista, aventureira, pragmática e inquieta, arrastá-lo-á para fora do estreito mundo das suas ambições.Criando uma admirável tensão entre o cómico e o trágico, Mario Vargas Llosa joga com a realidade e a ficção para dar vida a uma história na qual o amor se nos revela indefinível, senhor de mil caras, tal como a menina má.Paixão e distância, sorte e destino, dor e prazer... Qual é o verdadeiro rosto do amor?”

D. Quixote, 2010