![250_9789722031462_travessuras_da_menina_ma]()
Depois de ter lido e ouvido críticas positivas e negativas, iniciei a leitura deste livro convencida de que iria adorá-lo ou detestá-lo. Para minha surpresa, cheguei sensivelmente a meio da obra sem me suceder uma coisa nem outra. Parecia-me apenas mais uma versão de uma das histórias mais banais deste mundo: o menino bom que ama de todo o coração uma menina má, insensível e calculista, que aproveita esse amor para o usar quando precisa dele, ignorando-o sempre que lhe surge uma alternativa mais vantajosa. O menino bom não é estúpido, percebe perfeitamente o que se passa, tenta esquecê-la mas não consegue porque, simplesmente, a ama demais.
Ao fim de cerca de duzentas páginas sem surpresas, onde esta história, se bem que exemplarmente bem escrita, se repete num ciclo interminável de desilusão amorosa - nova esperança - nova desilusão, estava já convencida de que o resto do livro se desenrolaria no mesmo tom, quando, sem aviso prévio, o Autor introduz uma nova variável nesta equação tão antiga: afinal as meninas más também podem ser vítimas de um sofrimento muito semelhante àquele que causam. E digo semelhante, e não igual, porque aqui Vargas Llosa não faz concessões sentimentalistas: quem nasce sem coração não amará nunca. Logo, nunca sofrerá por amor. Mas pode sofrer um martírio equivalente, tornando-se dependente de outra pessoa, não porque a ame, mas porque essa pessoa se tornou, para si, uma ideia fixa. E, por causa dessa ideia fixa, pode deixar-se usar, manipular, humilhar até limites tão extremos como aqueles a que chegam aqueles que usa porque têm a fraqueza de lhe ter amor.
Posto isto, Vargas Llosa entra no domínio das interrogações: quando uma menina má, incapaz de qualquer sentimento, habituada a usar os outros para os seus próprios fins, desce às profundezas do desespero humano por causa de alguém que a maltratou e é resgatada in extremis pelo mesmo menino bom que a amou desde criança e a quem já desprezou inúmeras vezes, como reagirá a essa suprema prova de amor? Uma vez recuperada, como se comportará com o seu salvador? Em última análise, poderá uma situação extrema modificar uma personalidade também, em si mesma, extrema?
O Autor é magistral na gestão desta incerteza, levando-nos a colocar todas as hipóteses e chegando mesmo a fazer parecer plausível aquilo que, no nosso íntimo, sabemos ser impossível. Mas, por fim, a sua conclusão é de uma clareza cruel: quem não ama tem uma vantagem inultrapassável sobre quem ama. Quem não ama também não sente empatia, nem remorso. Tem, por isso, uma liberdade que o comum dos mortais não tem: pode fingir sentimentos quando isso lhe é útil e desfazer a farsa num segundo quando deixa de o ser. E quem melhor para servir os seus interesses do que alguém que nada lhe consegue recusar? Eis a pessoa perfeita para explorar quando necessário e descartar logo que possível. E, se conveniente, para voltar a usar mais tarde, uma e outra vez, bastando para isso dizer-lhe que o amor acabou de despertar no seu coração. Um verdadeiro menino bom, por mais que o seu lado racional o tente chamar à razão, nunca resistirá ao apelo romântico da pessoa que ama. Por muitas desilusões que o seu amor já lhe tenha causado, acreditará sempre uma última vez. É essa a sua desgraça.
Assim, afinal este livro é tudo menos banal. Parte de uma história vulgar e revela-lhe cambiantes insuspeitos, faz do previsível inesperado, obriga-nos a questionar o que tínhamos por certo e estabelecido. Baralha as premissas e questiona tudo. Para, finalmente, quando já estamos capazes de admitir hipóteses que no início nos pareceriam risíveis, nos reconduzir ao ponto de partida: em que estávamos a pensar para nos deixarmos enganar como qualquer menino bom pateta? É claro que as pessoas não mudam.
Excertos:
"Para que insistia em me telefonar, de tanto em tanto tempo? Porque, na sua intensa vida, eu devia ser uma das poucas coisas estáveis, o idiota fiel e apaixonado, sempre ali, à espera da chamada para fazer sentir à ama que ainda era o que sem dúvida já estava a deixar de ser, o que em breve não mais seria: jovem, bonita, amada, cobiçada. Ou necessitava porventura de alguma coisa de mim? Não era impossível. De repente tinha aparecido na sua vida algum pequeno vazio que o borra-botas podia preencher. E, com aquele seu gelado carácter, não hesitava em me procurar, convencida de que não havia dor, humilhação, que ela, com o seu infinito poder sobre os meus sentimentos, não fosse capaz de dissipar em dois minutos de conversa. Conhecendo-a, era certo e sabido que não daria o braço a torcer, continuaria a insistir, de tantos em tantos meses, de tantos em tantos anos. Não, desta vez enganavas-te. Não voltaria a atender-te o telefone, peruaninha." (pág. 208).
"- Sabes bem que tentei adaptar-me a este tipo de vida, para te fazer a vontade, para te pagar o que me ajudaste quando estive doente - a sua frieza parecia agora a ferver de furor. - Não posso mais. Isto não é vida para mim. Se continuasse contigo por compaixão, acabaria por te odiar. Eu não te quero odiar. Tenta compreender-me, se puderes.
(...)
"- Aqui asfixio - acrescentou, lançando uma olhadela à sua volta. - Estas duas assoalhadazinhas são uma prisão e já não as suporto. Eu sei qual é o meu limite. Esta rotina, esta mediocridade, estão-me a matar. Não quero que o resto da minha vida seja assim. Tu não te importas, tu estás satisfeito, melhor para ti. Mas eu não sou como tu, não me sei conformar. Tentei, bem viste que tentei. Não consigo. Não vou passar o resto da vida ao teu lado por compaixão. Desculpa falar-te com esta franqueza. É melhor que saibas a verdade e que a aceites, Ricardo." (pág. 343).