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Roda Dos Livros

Teoria dos Limites - Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 18.08.16

 O que é e7afe-teoriadoslimites-mmva realidade? Para cada um de nós, é a percepção que dela temos. E como é construída essa percepção? Maria Manuel Viana parte da teoria das mónadas, de Leibniz, para propor uma construção teórica que, ela mesma, não pretende ser mais do que uma das possíveis formas de ver a questão.E se cada um de nós fosse uma mónada, uma partícula simples e minúscula que funciona como um espelho, conjugando tanto as imagens reflectidas pelas outras mónadas que a rodeiam como as que formam a sua própria essência? Assim, a nossa concepção do mundo seria formada por uma combinação das nossas próprias percepções com as percepções daqueles com quem contactamos; mais: a nossa natureza de espelho multifacetado permitir-nos-ia ter uma imagem prévia das diversas reacções possíveis a uma situação e escolher entre elas, optando entre uma atitude e o seu oposto; e mais ainda: poderíamos transitar de uma opção para outra por influência de qualquer circunstância fortuita e, no limite, entre o ocorrido e o que poderia ter ocorrido.Este é, obviamente, um ponto de partida sublime para a construção de uma obra literária. E a autora aproveita-lhe todas as potencialidades, apresentando-nos as vivências diferentes mas complementares de um mesmo acontecimento (a morte de um familiar) pelos diversos membros da família, e, de caminho, tecendo um verdadeiro tratado de filosofia acerca da construção da personalidade, das opções de vida, dos afectos, da auto-estima, e, claro, dos limites... dos limites nas suas mais variadas acepções.Não houve um único ponto da leitura desta obra em que não me tenha sentido a aprender e a enriquecer-me. Foram muitas as vezes em que tive de repetir a leitura de frases para lhes apreender o sentido e as implicações, e não tenho, de modo algum, a pretensão de ter compreendido tudo. Mas, apesar da complexidade do tema, da repetição dos mesmos factos vistos por diversos ângulos e das referências filosóficas que ultrapassam em muito a minha bagagem cultural, desde Leibniz aos filósofos chineses, nunca experimentei um momento de cansaço ou de esmorecimento de interesse. A autora sabe como ninguém despertar a face inquisidora do leitor e confrontá-lo com dúvidas e questões que o impelem a prosseguir nesta descoberta surpreendente cada vez com mais avidez.Deixo aqui apenas uma das dúvidas que o livro me suscitou: se a justificação para a literatura ser apelidada de "experiência dos limites" ou "experiência limite" é o facto de a literatura ser uma experiência sobre os limites, e se a realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, não será antes a vida a "experiência dos limites" ou "experiência limite" por excelência, e não será a literatura antes uma mónada da vida, reflectindo-lhe as diversas cambiantes, combinando-as, permitindo a opção entre elas e até a substituição das que foram pelas que poderiam ter sido? E, no entanto, não será a própria vida constituída por mónadas e, como tal, também influenciada pela literatura? Excerto:"Os mundos não são paralelos, essa é uma imagem de má ficção científica. No final do século XVII, Leibniz, o filósofo de quem partem todas estas construções, escreveu um livro, a Teodiceia, onde, para exemplificar a noção de livre-arbítrio, propõe que se imagine uma pirâmide, a que chamou o palácio dos destinos, dividida por uma espécie de andares, em que cada um dos habitantes pode ver o seu duplo, todos os seus duplos, uma infinidade de duplos e seguir as atitudes e acções desses outros antes de escolher as suas. É por isso que se chama a Pirâmide dos possíveis, sendo que a base tende para o infinito, onde se acumulam os mundos imperfeitos, e o topo é o mundo absolutamente perfeito. Não tem, portanto, nada a ver com planetas ou mundos habitados por aliens ou marcianos à espera de uma oportunidadezeca para invadirem a terra e se tornarem donos do mundo." (pág. 123). Teodolito, 2014

A Gramática do Medo, de Maria Manuel Viana e Patrícia Reis

Roda Dos Livros, 09.08.16

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"esta semana trocamos, fazes de mim e eu de ti"

Sara Santiago e Mariana Sampedro. Mariana e Sara. Duas mulheres que são o avesso uma da outra, a metade uma da outra. Iguais e diferentes. Tão diferentes quanto duas pessoas podem ser sendo iguais.

Um livro a que preciso voltar. Páginas que preciso reler. É demasiado fácil dizer que é um livro sobre o medo, isso é óbvio pelo título. É demasiado redutor dizer que é um livro sobre a amizade ou sobre o amor, apesar de ser isso tudo. É óbvio que é um livro que enaltece as palavras, a literatura, que joga com a realidade e ficção (e como se diz às páginas tantas "cabe ao leitor e espectador a terrível tarefa de discernir ficção e história").

Acho que é o tipo de livro que terá um significado diferente para cada leitor. Para mim é um livro sobre o auto-conhecimento. A procura e luta para nos (re)conhecermos. O quão nos castigamos por vezes e como nos iludimos. Sobre as várias partes de nós. A necessidade de morrer e voltar a nascer. A vida como circunferência e não como linha recta.

 Arrisquem. Leiam este livro. Falem sobre ele. Discutam as vossas interpretações do que aqui se conta. Há tanto para falar. Quando (antes da página 50) comecei a desenvolver uma teoria sobre o final, achei que me ia desiludir se "acertasse" mas a verdade é que, apesar de achar que acertei em cheio, não me desiludi nem um bocadinho, adorei todo este puzzle. E se já tinha decidido que queria ler tudo o que a Maria Manuel Viana escreveu, agora tenho que ler também tudo o que a Patrícia Reis escreveu. A  expectativa de ter tantos livros bons para ler é maravilhosa.Em Português e no Feminino escreve-se muito bem*."...agora sou eu quem te pede para de encontrares, se me encontrares, como eu preciso, posso salvar-nos e seremos um, entendes?* não por aqui, claro. Fico sempre com a sensação de que quanto mais gosto de um livro menos consigo transmitir isso. Por isso deixem-me resumir: Este livro é brutal (em vários sentidos). Leiam.

A vida dupla de Mª João, de Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 16.07.16

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Fiquei fascinada quando li o “Teoria dos limites”, da Maria Manuel Viana e assim que apareceram a Maria João e a Ana B., lembrei-me do que a autora nos contou, aquando da sua visita à Roda dos Livros. Ana B e Maria João são personagens recorrentes nas histórias da escritora. Ora, eu adoro estes mimos, estas histórias cruzadas que são, para além da importância que o escritor lhes dará, piscadelas de olho aos leitores.

Por sorte (e porque a roda dos livros é espetacular) tinha cá em casa este “A vida dupla de Maria João”, coincidentemente a personagem que mais me despertou a curiosidade na sua breve passagem pelo “Teoria dos Limites”.

Neste pequeno livro, que se lê num ápice, pode já ouvir-se, com clareza, a voz da Maria Manuel Viana. E Maria João é fascinante. Um misto de menina e mulher, de sabedoria e inocência, forte e ao mesmo tempo tão fraca. Autodestrutiva por natureza, obcecada para além do normal, é ainda assim (ou por isso mesmo) interessante e dona de uma personalidade que apetece conhecer. E se é verdade que passei metade do tempo com vontade lhe dar estalos, às páginas tantas tinha a certeza que passaria de boa vontade umas horas à conversa com esta mulher.

Não vale a pena pegar neste livro à espera de uma história rocambolesca, de uma vida genial ou de um romance feliz. Este livro é um mergulho na loucura e, pelo menos para mim, foi impossível dissociar-me completamente desta mulher.

Mais uma vez, gostei muito e fiquei com a certeza que quero continuar a ler Maria Manuel Viana.

Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 25.06.16

Teoria dos limites

Leibniz, matemático e filósofo, diz-nos, entre tantas outras coisas, que "o todo não é a soma das partes mas sim a sucessão, a integração  mais a sua interação". Pegar nisto, na noção de limite e continuidade, na pirâmide de base infinita e transformar tudo em literatura (sobre literatura) é algo assombroso mas perfeitamente possível para Maria Manuel Viana.

Tal como, apesar de uma função não estar necessariamente definida num ponto, o limite nesse ponto pode existir assim todos os personagens deste livro convergem para o Escritor, para o Outro que, enquanto vivo, foi uma âncora na vida de todos estes personagens. Aqui conhecemos, através da sua convergência para este homem, Mariana, Ana Sofia, Ana Lúcia, João Caetano, a Velha Senhora, Ana B e Maria João, e conhecemos as suas perspectivas em relação ao Outro sem, no entanto, o conhecer verdadeiramente.

Depois de me ter sido repetidamente aconselhado pelos Rodistas, rendi-me à escrita desta escritora e a este livro de pouco mais de 150 páginas mas que é do melhor que já li. Sem me querer armar em pedante, tenho total noção que este livro não é para toda a gente, que nem todos os leitores estão interessados neste género de literatura mas tenho a certeza que faria bem a todos lê-lo, obrigar-se a pensar, a refletir nas questões que este livro nos põe. E não tenho dúvidas que cada leitor o lerá de forma diferente. Para mim este é um livro sobre possibilidades, sobre escolhas e consequências. Sobre o que somos, como nos vemos e como os outros nos vêem. Na diferença entre essas três perspectivas. E no esforço que fazemos para que essas perspectivas se aproximem ou se afastem. E no que o que somos e as escolhas que fazemos influenciam os outros, os que, de alguma forma, convergem para nós.

Gramática do Medo - Maria Manuel Viana e Patrícia Reis

Roda Dos Livros, 01.05.16

Gramática do MedoMais um para o grupo dos livros que me deixa no vazio das palavras. Contudo os sentimentos que vivi ao lê-lo são reais, e é através deles que espero chegar às palavras.

Senti muito amor e muito medo. O amor de Sara e Mariana enche todas as páginas, um amor sincero e familiar, da família que a vida oferece, normalmente de forma casual, como aconteceu com elas. Um amor que escolhe e acolhe, e que as fez escolher uma à outra.

E depois o medo. O medo começa na capa, como um aviso de sombras, um alerta aos sentimentos mais belos, pois nem esses dão imunidade ao sofrimento. Mesmo sem saber do que havia de ter medo, já tinha, porque ele está sempre lá, até nas descrições dos sorrisos e confidências das amigas, esperamos que chegue, o medo, se calhar já na próxima página.

Por vezes deixava o marcador do livro, esquecido, ao meu lado. Imagem da capa focada na intensidade dos olhares de duas mulheres. São parecidas. Talvez como Sara e Mariana, que se misturam, e confundem, passando uma pela outra devido, possivelmente, a uma parecença feita do conhecimento mútuo e profundo. A força da imagem fazia-me virar o marcador ao contrário. É uma capa extraordinariamente bem conseguida, a arte tem de incomodar.

Mariana desaparece. Depressa chega a prometida página do medo.

A história tem de ser lida, por isso não me alongo por aqui com ela. Comigo ficou a força de um livro escrito de forma hábil por duas mulheres que admiro e de quem acompanho o trabalho. Maria Manuel Viana e Patrícia Reis não desiludem, escrevem com a força das mulheres que sabem o que querem, sobre mulheres que assumem o medo, sabendo que não havendo medo (mesmo que só um pouco) não haveria coragem.

“Só que o elemento primordial, o que aqui está em causa, não é tanto o ser e a sua essência, o ente e a existência, a radicalidade da questão ontológica, o jogo de linguagem, mas a palavra fundamental, medo, o medo que tudo cobre, porque ela sabe que no princípio está o medo e no fim, quem poderá sabê-lo?” Pág. 113.

Sinopse

“Amigas inseparáveis, Mariana e Sara partilham tudo desde que se conhecem (um curso de teatro e cinema, uma carreira difícil, amigos, ex-namorados, dinheiro e um quotidiano nem sempre fácil), até ao dia em que uma delas desaparece, misteriosamente, durante um cruzeiro pelo Mediterrâneo. Poucas são as pistas que deixa atrás de si mas, numa demanda que a irá levar a correr mais de metade da Europa, Sara tenta encontrá-la. O que vai descobrindo leva-a a perceber que, afinal, há muita coisa na vida da amiga que desconhece. Porque desapareceu Mariana, que fantasmas a perseguiam, do que quis fugir? Numa viagem simultaneamente interior e geográfica, esta é também a história do desaparecimento do sujeito na civilização actual, da dissociação da vida comum, da fragmentação da memória e da ténue fronteira entre ficção e realidade.”

D. Quixote, 2016

Conheçam aqui o trabalho de Dino Valls, autor da imagem da capa.

Roda dos Livros com Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 15.11.15

DSC03129O melhor da Roda dos Livros é ter amigos com quem falar de livros. Os nossos encontros são únicos e a discussão nem sempre é pacífica, pois temos, muitas vezes, opiniões e perspectivas diferentes sobre o mesmo livro.

Somos leitores diferentes. Mas quando há um livro que reúne consenso na maioria, sabemos que queremos conhecer melhor o seu autor(a). Foi o que aconteceu com A Teoria dos Limites.

A Maria Manuel Viana veio passar uma tarde connosco para uma conversa inesquecível sobre livros. Os seus, na sua perspectiva, partilhando detalhes do processo criativo. Os dos outros, os seus preferidos e inspiradores. E mais algumas coisas… que ficam na Roda e nas nossas memórias.

Somos uns grandes sortudos e agradecemos muito à Maria Manuel pela disponibilidade. Ficámos a saber mais sobre a escritora e descobrimos uma grande leitora.

Livros de Maria Manuel Viana:

  • A Paixão de Ana B (Alma Azul, 2002)
  • A Dupla Vida de M.ª João (Editorial Teorema, 2006)
  • Damas, Ases e Valetes (com Ana Benavente) (Editorial Teorema, 2007)
  • O Verão de todos os silêncios (Planeta, 2011)
  • Teoria dos limites (Teodolito, 2014)
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"Teoria dos Limites" de Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 17.10.15

e7afe-teoriadoslimites-mmv“Um livro que não merece ser relido também não mereceria ter sido lido.(...) Mas antes de o ler, não sabemos se merece ou não ser relido. A vida é muito cruel.”

Jaume Cabré in “Eu confesso”

 Ultimamente tem sido assim: uma sucessão de leituras esplêndidas no final das quais me vejo remetida a um silêncio, a uma ausência de palavras adequadas para traduzir toda a riqueza desses livros. Olho para o caderninho de notas onde estão registadas as impressões mais ou menos imediatas e desordenadas, geradas por este “Teoria dos Limites” e só me vem à cabeça um pensamento: não percam tempo a ler este artigo e leiam mas é o livro.Partindo de um funeral, limite derradeiro e inevitável de tudo o que vive, Maria Manuel Viana, constrói uma interessantíssima e muito bem escrita narrativa em redor das noções de limite e de possibilidade. Ao mesmo tempo que nos mostra alguns dos limites, tanto auto-impostos quanto originados pelas respectivas circunstâncias, das vidas de Mariana, Ana Sofia, Ana Lúcia, João Caetano, Velha Senhora, Ana B. E Maria João, desafia-nos, através das palavras do falecido Escritor, a questionar a influência das delimitações em níveis múltiplos. Desde a esfera da vida íntima até à construção da cultura humana nas suas diversas facetas, desenrola-se um trajecto delineado para interrogar o leitor sobre a importância e a natureza dos limites, se fazem ou não sentido e em que situações, se serão positivos, como quando impedem o mal ou contribuem para uma individuação saudável, ou, pelo contrário, se constituem um espartilho, um entrave ao progresso das ideias, das sociedades e do bem-estar das pessoas. Existirão limites para a imaginação, para a criatividade, para a bondade e para a maldade? Se sim, serão constitutivos, estarão gravados no nosso ADN, na nossa fisiologia? Poderemos algum dia suplantar os limites “negativos”, superando-nos finalmente de modo a construir um mundo melhor e mais justo para todos? E quanto às possibilidades e à superação das fronteiras positivas? ( Vejo possibilidade como uma oportunidade para tornar melhor mas, obviamente,  nem todas o serão ).Fará sentido compartimentalizar de modo rígido as várias áreas do conhecimento humano, separando as ciências naturais das sociais, as ciências das artes e da filosofia? Talvez, se pensarmos apenas em aplicações restritas de cada uma delas, mas serão esses limites benéficos para uma compreensão real e global do Universo e de nós próprios? Não sei, tenho dúvidas. Muitas. Nesta realidade e , creio que também, em todas as outras realidades possíveis, se estas existirem tal como defendia Leibniz.E a literatura, poderá ser uma ponte a unir todas estas manifestações da mente humana? Parece-me que sim, por nos oferecer narrativas capazes de atribuir sentido à existência de uma forma livre, sem peias, misturando tudo o que lhe apetecer, como neste caso, letras com matemática e filosofia, permitindo assim a fruição de vislumbres preciosos da maravilhosa complexidade do Cosmos e do ser humano. Este romance é um deles. A (re)ler.Excertos:“o mal, a dramaturgia da vida quotidiana, identidade e diversidade, diferença e fragmentação, regressava-lhe tudo o que fora dito à medida que se aproximavam do cemitério, o som da voz, o rosto sério e muito belo, a cor dos olhos que oscilava entre um verde escuro e um castanho sombrio, as mãos que dançavam ao ritmo das palavras, a sintaxe tão perfeita que ana B. Se distraía, escandindo frases em vez de as anotar, e novamente Leibniz, não o matemático, não o da construção do mundo com as suas mónadas perfeitas, pontinhos vagueando no universo, reflectora de luz, não, não, antes e sempre o da invenção de um alfabeto universal, de uma língua cultural e politicamente neutra, que permitisse ao homem ser livre, sujeito em vez de objecto da História, num mundo onde reinaria a pluralidade de perspectivas.”“(...) a literatura só persiste porque reescreve, revolucionariamente, não só o mundo em que vivemos como tudo o que já antes foi escrito.”“Nada há de radicalmente novo na história dos homens que fazem a literatura ou na da literatura feita pelos homens.”Sinopse:“A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.”

Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana :: Opinião

Roda Dos Livros, 02.04.15

"Não estou a falar de um mero jogo de combinações e articulações, à maneira de um puzzle, e sim da literatura como experiência limite, porque a literatura é uma experiência sobre aquilo a que chamamos limites, sobre o limes, que em latim significa também fronteira, delimitação, portanto, metonimicamente, um espaço onde o confronto e a experiência da morte são possíveis."
É exactamente numa experiência de puzzle a várias vozes que Maria Manuel Viana nos expõem uma geografia de afectos com fronteiras que não podem ser cruzadas, barreiras intransponíveis pelo que não pode ser dito, num mundo familiar onde os movimentos são estudados e os intervalos concedidos evitam os confrontos e a multiplicidade de resultados nefastos que daí poderiam ser escutados. Num relato sempre intenso o leitor é arrebatado para a linha de tensão no limite da vida, no hiato que é ou pode ser um enterro, Ele morreu, o Escritor, a persona a que muitos se referiam, mas poucos conheciam ou com quem privavam. A família assiste, instrospectiva e atenta, ao tom isolado e alheado de Mariana e todos, um por um, avaliam e pesam este confronto com o fim pensando no que a vida lhes tem reservado.
"(...) imagine o mundo como uma pirâmide dos possíveis, cuja a base tenderia ao infinito, onde cada um poderia ver e escolher as diferentes possibilidades: ama não ama, morre não morre, mata não mata - haverá melhor matéria literária? (...) não me interessa a gramática dos conceitos e sim inventar, a partir do que neles vi, uma geometria de afectos que será sempre a base de um romance meu, as relações entre as personagens, os movimentos, as velocidades, os hiatos, os intervalos, as pausas e os avanços, as precipitações, os confrontos, a duplicação e a multiplicidade, as linhas de tensão, os limites e os ângulos."
Utilizando exactamente esta completa e complexa geometria de palavras, entramos num relato familiar onde nada do que é dito, cada um por sua vez, fica completo, cumprindo muito bem "o que não pode ser dito" ou o que "talvez seja dito", acreditando até que muito ficará por ser dito, aumentando assim a extensa teia da tal matéria literária que é a realidade e por sua vez a imensidão de possibilidades que é a vida, num jogo ainda mais articulado que é a literatura.
"Porque a literatura, sabe?, é exactamente o oposto deste neopopulismo anti-intelectual que defende uma escrita linear para chegar ao grande público, esquecendo a herança de vinte e oito séculos e recusando-se a perceber que a literatura só persiste porque reescreve, revolucionariamente, não só o mundo em que vivemos como tudo o que já antes foi escrito."
Maria Manuel Viana leva-nos não só a entrar na ficção familiar aqui intensamente relatada, como a pensar na nossa mesma, permitindo-nos equacionar o seguimento de determinados acontecimentos que julgamos factuais e até limitados, o que me levou a questionar ate que ponto a realidade familiar e limitada no espaço e no tempo!? Mas este romance faz-nos ir mais além, é pensar a literatura, a palavra escrita, o amor aos livros e a até a responsabilidade que atribuímos a um autor, no final creio que é uma questão de pensarmos a individualidade, pois só ela nos confere o papel genuíno e autêntico no círculo onde nos inserimos.
"(...) apenas o nome próprio porque a sua existência não advém de nenhum parentesco, a individualidade que só o nome confere precisa de ser mantida para lá de circunstância fortuitas e desinteressantes como serem pais (...) é uma infantilidade egoísta querer que uma mulher passe a ser igual a todas as outras só porque teve um filho, é como retirar-lhe a identidade própria."
Julgo que há em todo o romance, a extrema preocupação de conferir o máximo de vida a todas as personagens, tornando-as todas tão interessantes e próximas de algo ou alguém nosso, fazendo com que o leitor se apegue ainda mais ao livro.
"(...) poderia ter procurado esses dois livros na biblioteca, tê-los lido e descoberto que o que não pode ser dito se transforma primeiro no que talvez seja dito, mais tarde no que irá ser dito, mas nunca o fizera, embora a aprendizagem mais solitária e importante de toda a sua vida tenha sido a de que os livros substituíam a vida, (...) e, sobretudo uma barreira contra o sofrimento."
Sem dúvida que o padecimento pauta este livro e é comovente a forma como o enterro e a morte são pano de fundo para todos os episódios de vida revivida, chegando a ser incomodo o silêncio e a solidão de cada personagem, cada uma tão próxima da outra, mas efectivamente tão afastada, calada e sofrida.
"foi o senhor quem me ensinou que o corpo é pensamento, o pensamento revolução e a revolução emancipação de todas as tutelas e opressões."
Fica Bach nas mãos de Tatiana Nikolayeva, não a partita 4, mas esta parte da 6 que fiquei a adorar.
Boas leituras!
«Teoria dos Limites» é uma edição Teodolito, 2014.

Teoria dos Limites - Maria Manuel Viana

Roda Dos Livros, 08.03.15

teoriadoslimitesEscrever uma opinião sobre este livro deixa-me em pânico. Não escrever deixa-me triste e frustrada, porque gostei tanto e é justo que o diga e escreva.

A parte do pânico é mesmo por se tratar de um livro genial, e sei que nada do que eu escreva será suficiente. Além de que é um livro complexo, tão complexamente interessante, que não me atrevo sequer a tentar explicar do que se trata. Pois consigo imaginar o fracasso de me aventurar a delirar sobre Leibniz, teorias matemáticas e filosofias, as gaffes, os erros, os ovos podres na minha cara.

Sim. Sim, confirmo que não entendi tudo. Tenho pena mas é verdade. A Teoria dos Limites sugere-me tantas dúvidas e novas questões sobre a sua aplicação às personagens deste livro, à acção, ao enredo, à vida real, que me sinto esmagada pela minha própria ignorância e pela felicidade de tudo o que existe para aprender.

Como leitora (acho que) reconheço o brilhantismo quando o encontro, ou quando o brilhantismo vem ter comigo, que foi o caso. A perícia da escrita. A magnífica construção da narrativa em diferentes perspectivas da acção. A habilidade de manter o interesse no livro contando o mesmo ao longo de tantas páginas, focando o mesmo momento através de olhares e sensações diferentes. Eu vivi tantas vezes a mesma coisa e senti sempre tudo como se fosse a primeira vez. Por vezes foi algo cinematográfico, visto do lado da realização (como imagino que possa ser), a sequência de cenas, a construção do todo, os cortes e novas tentativas até chegar a este livro, a este todo feito de peças, que vale, acima de tudo, para mim, pela escrita diabolicamente perfeita.

Imperdível para todos os que buscam formas de se maravilharem.

Sinopse

“A realidade é muito mais inverosímil do que a ficção, diz, a certa altura, uma das personagens deste romance. O aqui narrado parte da concepção fantasmática de um génio, uma espécie de mundo de ficção científica, com dois universos paralelos habitados por mónadas, essas substâncias simples, esses pontos metafísicos, essas individualizações infinitamente pequenas, como quartos sem portas nem janelas dentro de uma pirâmide cuja base tenderia ao infinito, onde bastaria uma ínfima coisa para passar de uma realidade para outra, e onde cada um de nós vê o seu duplo e pode escolher entre ser herói ou banal, amar ou resignar-se, sentir prazer ou raiva com a felicidade alheia, lutar pela liberdade ou jogar as regras do jogo, viver com dignidade ou ser passivo, aceitar a ignomínia ou revoltar-se, julgar o outro pondo-se no lugar dele, adoptar muitas perspectivas para perceber o todo, perguntar-se em que é que a ficção supera a realidade, se na beleza ou na construção não tão utópica quanto poderia parecer do melhor dos mundos possíveis.”

Teodolito, 2014