«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Opinião


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Falando propriamente da sessão em si, mesmo sendo poucas, a participação foi variada. Houve quem trouxesse livros que representaram "as mulheres da minha vida", duas das nossas rodistas escolheram assim: Alicia Vieira, Pear S. Buck, Sophia de Mello Breyner Andresen, Daphne du Maurier, Ana Teresa Pereira, Rebecca Solnit ou Margaret Atwood, entre outras que se repetiram durante a conversa.Outra sugestão interessante foi apontar Gillian Flynn na construção de heroínas que fogem ao modelo de policiais escritos por outras mulheres, e inevitavelmente se tocou no nome de Agatha Christie. O policial pode por vezes parecer um género menor, mas não aqui entre as nossas leituras.A conversa viajou a largos passos e atravessou continentes, nomes como Hiromi Kawakami, para nos dar a típica atmosfera nipónica contemporânea, por contraste com a cultura e o papel da mulher no Ocidente, como tão bem descreve Meg Wolitzer nos seus romances, onde a expectativa, a solidão e a traição estão sempre presentes. E logo se voltou a falar de Pearl S. Buck, com inúmeros livros que atravessam a história da China e por sinal a história da mulher nesse mesmo registo cultural.De solidão e de períodos conturbados, sejam eles individuais sejam colectivos da história de um país, esticámo-nos no assunto, tentando perceber que aura tão pessimista continua a pairar na escrita de autores nacionais e daí lá voltámos à aura tão própria da escrita de Sophia. Ou até de Ana Teresa Pereira e do quanto os livros de uma autora nos podem, e levam, aos livros de outra ou de outras.O conflito e a guerra, a devastação e a miséria humana foi outro dos temas abordados e nomes como Dubravka Ugresic, Chimamanda Ngozi Adichie ou até a mais recentemente publicada em Portugal, Ayobámi Adébáyò, foram alvo da nossa atenção. A literatura mais a Leste ou para os confins de África tem sido recorrente em várias outras reuniões. A História cruza-se com enredos familiares ou desaires amorosos e isso preenche os gostos de muitos do nossos rodistas, juntando ficção, política e História, ou melhor dizendo, entretenimento e aprendizagem.A conversa deu ainda mais voltas, tal como as voltas que a escrita dá para abranger tudo o que o feminismo abrange, mas aqui ficam as principais e a habitual lista de sugestões:Ana Borges: "Em parte incerta" de Gillian FlynnCris Rodrigues: "Departamento de especulações" de Jenny OffillFernanda Palmeira: Poesia reunida de SophiaIsabel Castelo Branco: "E se nos encontrarmos de novo", de Ana Teresa PereiraRenata Carvalho: "O Museu da Rendição Incondicional" de Dubravka UgresicVera Sopa: "A Persuasão Feminina" de Meg WolitzerMais para ler

A violência tolhe a liberdade, a ignorância destrói a vontade e torna-se possível construir uma sociedade baseada em valores distorcidos. As mulheres são, como tantas vezes na História, transformadas em seres sem vontade, fracos, amorfos. Dividas em castas e com cores a representá-las são as Servas, mulheres férteis e reprodutoras numa sociedade seca e estéril, as protagonistas desta história.
Defred conta-nos a sua história, a sua passagem de mulher moderna, mãe e trabalhadora, casada e feliz a mulher sem nome, sem passado ou futuro, entregue a uma família para fazer aquilo de que o seu corpo já provou ser capaz: reproduzir-se. Reproduzir-se é a palavra certa, ser mãe é tão mais do isso e se algum dia engravidar, Defred sabe que não o poderá ser, que nunca poderá chamar seu a um bebé que lhe saia das entranhas.
O drama da geração de Defred é a memória, é o saber, o lembrar-se ainda de que houve um tempo em que ler era normal, em que ir à praia também, em que ter uma conta no banco ou simplesmente apaixonar-se era aceitável. Haverá gerações de mulheres que, por não se lembrarem, por nunca terem sabido deixarão de considerar possível ser mais do que a aquilo em qua as transformaram, a que as reduziram. Vencer pela ignorância.
E quantas vezes o vemos, o vimos e ainda o veremos? Em quantas partes do mundo ainda se vence pela violência, se ensina com ignorância, se reduz pelo medo?
Até que ponto será possível cair-se no extremismo de uma religião, deturpar-se leis e pensamentos, interpretar-se de forma abjeta textos “sagrados” e datados de uma época que não é a nossa?
Ciclicamente na História do mundo tem havido gentes, géneros ou povos que se consideram superiores e que sendo militarmente superiores vergam à sua medida gentes e países.
Gostei muito deste livro que levanta muitas questões, incluindo uma a que é tão difícil dar resposta: Seria possível?
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Penso que todos criamos a imagem de que há autores que não podem desiludir. Criamos um espaço especial para eles na estante e sabemos que é garantido. Mas não é. E Margaret Atwood é tão completa que até escreveu Ressurgir, um livro que, infelizmente, me desiludiu e ficou muito aquém das expectativas.
Os elementos principais da sua escrita estão lá, assim como, as suas ideias e filosofia de vida. O que é fantástico tendo em conta que este é o seu segundo romance, escrito em 1972. Mas senti falta do empolgamento a que me habituei ao ler Atwood. Ressurgir é morno se comparado com Orix e Crex ou o Ano do Dilúvio. É necessariamente mais simplista e embrionário, afinal são trinta anos de diferença.
Encontrei uma Atwood emergente, com ideias bem claras sobre o lugar da mulher na sociedade e o papel do Homem na natureza. A igualdade de sexos e de espécies. O caminhar ao lado e não à frente. A procura de respostas para perguntas diferentes e inovadoras na década de setenta. Confirma-se uma mulher muito à frente do seu tempo mas que, quanto a mim, ainda estava a aprender a utilizar tais armas.
Este livro é, por isso, bastante experimental. Por querer tanto demonstrar uma filosofia e modo de vida inovador arrasta-se e repete-se, o que me dificultou a leitura. O prazer das primeiras páginas foi sendo anulado pois senti que a forma de transmitir ideias se limitou à mera insistência. O tempo corre de forma lenta, numa ilha com um lago, em que um grupo de quatro amigos procura alguém desaparecido. Essa busca transforma-se num viver em harmonia com a natureza, num conjunto de rituais repetitivos e francamente chatos. Às tantas fui perdendo o fio condutor, pois não consegui evitar saltar páginas. Posso ter perdido desenvolvimentos importantes e ter deixado escapar a “chave” que me iria fazer olhar para este livro de forma completamente diferente, mas a verdade é que, a certa altura, deixou de me apetecer lê-lo.
Atwood aprendeu, com o tempo, a levar o leitor de outras maneiras e ainda bem.
Irei certamente continuar a descobrir a sua obra.
“Eles devem achar estranho um homem com a idade dele passar o inverno sozinho numa cabana, a quinze quilómetros de nenhures; eu nunca questionei essa opção, para mim era lógica. Eles sempre desejaram mudar-se para aqui logo que pudessem, depois da reforma: ele amava a solidão. Não é que não gostasse das pessoas, achava-as apenas irracionais; os bichos dizia ele, eram mais consistentes, pelo menos comportavam-se de um modo previsível.” (Pág. 59)
Sinopse
“"Ressurgir" é o segundo romance de Margaret Atwood e nele são já visíveis os traços essenciais da sua ficção.Uma jovem mulher viaja até à remota ilha da sua infância, com o companheiro e um casal amigo, para investigar o misterioso desaparecimento do seu pai. Após a chegada à ilha, antigos segredos afloram à superfície do lago que os rodeia, com objetos nele afundados.Imersa nas suas memórias, a narradora compreende que regressar a casa é não apenas voltar a outro lugar, mas também a outro tempo. E depois de descobrir uma caverna submersa com pinturas rupestres, imagina-se em fusão anímica com a natureza."Ressurgir" é um romance preocupado com as fronteiras da língua, da identidade nacional, da família, do sexo e dos corpos, tendo como pano de fundo um Canadá rural, transformado pelo comércio, a construção, o turismo e a engrenagem dos média.”
Relógio d’Água, 2014
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Este livro, escrito em 1965, quando Margaret Atwood tinha 26 anos, surpreendeu-me por já conter tanto do que encontro nos seus livros mais recentes. Descobri Margaret Atwood há pouco tempo, o que é francamente tarde. Tarde, porque o tipo de livros que nos abrem os olhos, devem começar a fazer o seu trabalho o mais cedo possível.
“A Mulher Comestível” surpreendeu-me por vários motivos e deixou em mim uma opinião positiva e negativa. Vou começar pela parte negativa para arrumar o assunto. A tradução é deplorável. Pronto já está. É uma pena que grandes romances continuem a ser arrasados desta forma implacável, com erros crassos de construção de frases. Verdadeiramente assustador.
Fazendo um exercício de me desligar dos problemas da tradução (francamente difícil), posso dizer que me fui surpreendendo a cada página com a forma como uma mulher na casa dos vinte, nos anos sessenta, já olhava para uma sociedade doentiamente machista de uma forma tão analítica, sem cair no extremo oposto da superioridade feminista.
Marian tem uma vida banal, trabalha numa empresa de estudos de mercado e divide casa com uma amiga. A partir do momento que decide casar com Peter, o namorado, tudo no seu dia-a-dia se começa a alterar. Desde o emprego à família, passando pela própria relação com Peter e com os amigos, tudo parece conspirar à sua volta para Marian se tornar uma digna senhora casada. De forma quase imediata é dispensada do emprego, Peter comporta-se como seu dono e os amigos estão felizes por finalmente a verem assentar. E então assistimos à divisão de Marian entre o socialmente aceite e o que deseja para si. Sendo que não sabe exactamente o que deseja e passa a sofrer diariamente de sintomas físicos provocados pela angustia. Ao longo do livro os sintomas agudizam-se e privam-na de relacionamentos sociais ditos normais. Desde ataques de pânico que a fazem fugir a correr, até deixar de comer por não tolerar os alimentos, muitos são os avisos simbólicos inconscientes.
“Mulher Comestível” é uma espécie de sátira subtil ao casamento, à família, e ao lugar da mulher servil numa sociedade de machos pouco inteligentes. Marian vive rodeada de sinais de alerta, sente que o seu caminho é outro, e mesmo assim vai-se deixando esmagar pelos rituais sociais.
Um livro que está aquém da mais recente obra da autora, mas que impressiona por tudo aquilo que Atwood, tão nova, já trazia dentro de si. Uma mulher que desde cedo questiona, denuncia e procura o seu caminho. Fascinante.
“Um tipo não pode andar indefinidamente aos caídos. E, a longo prazo, também será muito melhor na minha profissão, visto que os clientes gostam de saber que temos uma esposa; (…) Começava a sentir as ferroadas do instinto de propriedade. Portanto aquele objecto pertencia-me.” (Pág. 112 e 113)
“- Então ela também andou na Universidade. Eu devia ter percebido. É então essa a nossa paga – disse, de forma desagradável – por darmos uma educação às mulheres. Ficam com toda a espécie de ideias ridículas.” (Pág. 193);
“Quanto tempo demoraria a adquirir aquele ar de dona de casa com rendimento médio/baixo, aquele ar desgastado e miserável, e a ter as roupas puídas nos punhos e em volta dos botões pelas bolsas de pele falsa? Quanto tempo seria necessário para ter a quele trejeito de boca e aquele olhar que media tudo e todos? E, acima de tudo, aquela cor invisível semelhante a um odor de tapeçarias bolorentas e linóleo gasto que, ao contrário de si, as tornava legítimas naquele leilão de cave?” (Pág. 259)
“Penso que as coisas são mais difíceis para ela do que para a maioria das mulheres; penso que são mais difíceis para qualquer mulher que tenha andado na universidade. Ficam com a ideia de que possuem uma mente, os professores prestam atenção ao que têm para dizer e tratam-nas como seres humanos; esse núcleo é invadido quando se casam…” (Pág. 287)
Sinopse
“Marian é uma mulher deliberadamente vulgar, que espera casar-se mais dia menos dia. Gosta do seu trabalho, da amiga quase ninfómana com quem partilha o apartamento, do seu noivo excessivamente fleumático. Ao princípio tudo parece correr bem. Mas Marian não contou consigo mesma, com aquilo que é na realidade: uma mulher que deseja um pouco mais do que aquilo que tem, que inconscientemente vai sabotando os seus próprios planos, a sua rotina, a sua digestão. E Marian descobre, por fim, que há coisas que não suporta...”
Livros do Brasil, 2002
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Antes de mais, devo dizer que Margaret Atwood é uma das minhas escritoras predilectas e, por isso, ao iniciar a leitura de um dos seus livros, sinto-me desde logo predisposta a gostar da história que me vai ser contada. Talvez isto constitua um factor de enviesamento importante, levando-me assim a olhar o seu trabalho de modo mais favorável e menos imparcial do que seria desejável para emitir uma opinião sobre este romance. Posto isto, aqui ficam as minhas impressões pessoalíssimas sobre este livro:
“Ressurgir” foi publicado originalmente em 1972 e aborda alguns dos temas, recorrentes na obra da autora, que eram, à época, grandes questões emergentes na sociedade ocidental e que permanecem, em larga medida, ainda hoje actuais: o estatuto das mulheres, as mudanças nas relações entre os sexos catalisadas pela revolução sexual dos anos 1960, a questão ecológica relacionada com a exploração excessiva e/ou inadequada dos recursos naturais e os efeitos da desertificação das zonas rurais mais remotas. De leitura absolutamente compulsiva, este romance agarra-nos desde a primeira linha e não nos dá tréguas; em vez de respostas ou soluções oferece-nos mais perguntas e faz-nos reflectir sobre as fundações em que assenta esta nossa sociedade, dita de consumo. Serão as mudanças sociais iniciadas na década de 60 do século XX verdadeiras libertações ou apenas mistificações para encobrir o facto de tudo permanecer essencialmente na mesma? Isto é, houve uma alteração genuína e real ou apenas uma alteração superficial de circunstâncias, permitindo assim a continuação do primado da ganância, do desejo desmedido de poder, do desrespeito pelos seres humanos, homens ou mulheres e da exploração descontrolada dos recursos naturais com a consequente devastação de tantos ecossistemas preciosos? Não continuamos nós a viver numa era de objectificação de tudo e todos passível de justificar qualquer acto de violência quer contra os nossos semelhantes, quer contra a própria Terra? Continuamos ou não prisioneiros das nossas fraquezas e dos nossos medos, desejando e temendo amar e ser amados? Em que medida a linguagem verbal, um exclusivo da nossa espécie, nos proporciona um falso sentido de superioridade, afastando-nos assim das nossas origens e criando a ilusão de sermos distintos e melhores do que os restantes seres com os quais partilhamos a existência neste planeta? E poderá uma hábil manipulação das palavras justificar toda e qualquer acção, tranquilizando as consciências dos que olham em volta e apenas vêem algo a explorar em proveito próprio? Seríamos nós mais humanos se prescindíssemos das palavras? E se o fizermos, mesmo que seja durante um curtíssimo momento, será que conseguiremos por fim aceder às profundidades da nossa essência e atingir assim o conhecimento perfeito?
A aparente facilidade com que a autora esculpe as frases e a fluidez da sua narrativa são verdadeiramente arrepiantes e impressionantes; a sua escrita é soberba, acutilantemente inteligente e de uma elegância mordaz extraordinária. O desenvolvimento da história é surpreendente e a força e lucidez da sua protagonista, que se perde para se poder encontrar, também.Sem dúvida, um dos melhores livros que li este ano e que aumentou ainda mais a grande admiração que tenho por esta autora fantástica.
Excertos:
“Eles não têm o direito de envelhecer. Invejo as pessoas cujos pais morreram novos; torna-se mais fácil recordá-los, permanecem sem mudanças. Eu tinha a certeza de que os meus, pelo menos, não iriam mudar, podia deixá-los e regressar muito depois, que estariam na mesma. Eu via-os como se eles vivessem num outro tempo, como se vivessem a sua vida por detrás de uma parede tão transparente como gelatina, mamutes congelados num glaciar. Tudo o que precisaria de fazer era regressar quando estivesse preparada, mas ia adiando esse passo, haveria demasiadas explicações a dar.”
“Amor sem medo, sexo sem risco, eis o que eles desejavam que fosse verdade; e quase o alcançaram, pensei, quase conseguiram mas tal como nos truques de magia ou os furtos, meio sucesso é o mesmo que fracasso, e agora voltámos às outras medidas. Amor é tomar precauções. (…) Antigamente o sexo cheirava a luvas de borracha, e agora volta a cheirar a isso, é o adeus às práticas embalagens de plástico verde em forma de lua, para que a mulher possa fingir que ainda é natural, cíclica, em vez de uma slot machine química. (…) Depois do primeiro, não quis voltar a ter filhos, é demasiado sofrimento para nada, somos fechadas num hospital, rapam-nos os pêlos e atam-nos as mãos e não nos deixam ver, não querem que compreendamos nada, querem-nos fazer acreditar que o poder é deles, não nosso. Espetam-nos agulhas para que não ouçamos nada, é como se fôssemos um porco morto, com as pernas para cima, pousadas numa estrutura de metal, e eles debruçam-se sobre nós, técnicos, mecânicos, carniceiros, estudantes desajeitados ou que se riem em voz baixa enquanto treinam no nosso corpo, tiram o bébé com um garfo, como quem extrai picles de um frasco. No final enchem-nos as veias de plástico vermelho, eu vi-o a correr pelo tubo. Não permito que voltem a fazer-me tais coisas.”
“Salvar o mundo, eis o que toda a gente deseja; os homens pensam que o podem fazer com armas, e as mulheres com o seu corpo, o amor conquista tudo, os conquistadores amam tudo, miragens criadas por meio de palavras.”
“Lentamente regresso pelo trilho. Algo aconteceu aos meus olhos, os meus pés estão libertos, alternam, vários centímetros acima do chão. Sou límpida como gelo, transparente, os meus ossos e a criança que trago dentro vêem-se através das verdes tramas da minha carne, as costelas são sombras, os músculos gelatina, também as árvores estão assim, estremecem, os seus cernes brilham sob a madeira e a casca. A floresta irrompe para cima, gigantesca, tal como era antes de eles a terem cortado, colunas de luz congelada; os pedregulhos flutuam, fundem-se, tudo é feito de água, mesmo as rochas. Numa das línguas não existem nomes, apenas verbos sustidos por um largo momento.
Os animais dispensam qualquer idioma, para quê falar quando se é uma palavra?
Reclino-me contra uma árvore, sou uma árvore reclinada.
Saio de novo para a luz do dia e encolho-me, a cabeça contra o solo.
Não sou um animal nem uma árvore, sou a coisa sobre a qual as árvores e os animais se movem e crescem, sou um lugar.”
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A “Órix e Crex” segue-se “ O Ano do Dilúvio”. Talvez não seja exactamente uma sequela, é mais um complemento, dado que este livro preenche alguns espaços do anterior. Fiquei a conhecer melhor as personagens de “Órix e Crex”, que agora aparecem sob o olhar de novos elementos.
Apenas na fase final se poderá encontrar uma sequência de acontecimentos, na medida em que neste livro se avança (pouco) em relação ao ponto em que “Órix e Crex” terminou. Ou seja, fica a grande vontade de saber mais, de descobrir como Atwood vai encontrar um desfecho que eu não espero que seja menos que perfeito. Quanto mais leio e conheço a autora mais as minhas expectativas ficam nos píncaros, e não saber neste momento se a Bertrand (ou alguma outra editora) vai publicar a tradução do recente “MaddAdam”, deixa-me num estado de deplorável ansiedade.
Como poderá ser o fim da humanidade? Que doenças ou catástrofes podem exterminar a nossa espécie? Quem nunca pensou nisso? Quem nunca se deixou levar pelos alarmismos dos media em relação a pandemias, chuvas de meteoritos, maremotos, terramotos, tempestades e dilúvios?
Nos “Universos Atwood” que tenho vindo a descobrir a ficção é uma possível realidade. Sabemos que não é verdade mas é tão verosímil que acreditamos que pode acontecer. E o Dilúvio assim aconteceu como previsto por Crex, um homem que se assume como Deus criador de um novo Homem, perfeito e superior à espécie humana que o Dilúvio criado em laboratório vai extinguir.
“O Ano do Dilúvio” não me foi tão fácil de ler como o anterior. A realidade exposta (que prefiro não revelar) não me atraiu tanto como eu gostaria. É uma espécie de outra perspectiva da mesma acção. Há interacção entre o que posso chamar de “dois mundos” em que um é supostamente superior e o outro mais banal. Mas ambos igualmente vítimas. Igualmente alvos.
E como fica o Mundo sem seres humanos? Ou melhor, sem Homens como os conhecemos, agora substituídos por uma humanidade aperfeiçoada e superior, que curiosamente só o é porque não pensa e age por instintos. Mas e se alguns sobreviverem? Alguns que não sabemos quantos são, que estão fracos, subnutridos e desidratados mas que por alguma razão resistiram ao Dilúvio? Penso que a resposta estará então no novo “MaddAdam”. Ou então só teremos mais perguntas. Perguntas duras e difíceis daquelas que só os livros muito bons semeiam na nossa mente. Só livros excelentes como “Órix e Crex” e agora “O Ano do Dilúvio” nos deixam a semente da dúvida, do pensamento e da reflexão, que germina mesmo depois dos livros terminados.
“Merecemos nós este Amor por meio do qual Deus sustém o nosso Cosmos? Merecemo-lo como espécie? Pegámos no Mundo que nos foi dado e descuidadamente destruímos o seu edifício e as suas Criaturas. Outras religiões ensinaram-nos que este Mundo será enrolado como um rolo de pergaminho e queimado até deixar de existir, e que um novo Céu e uma nova Terra irão então aparecer. Mas porque nos daria Deus outra Terra, quando maltratámos esta de tal forma?
Não, meus Amigos: não é esta Terra que será demolida; é a Espécie Humana. Talvez Deus crie outra raça, mais compassiva, para nos substituir.
Pois o Dilúvio Seco varreu-nos – não como um imenso furacão, nem como um fogo de barragem de cometas, nem como uma nuvem de gases venenosos. Não; como suspeitámos durante tanto tempo, é uma peste – uma peste que não infecta outra espécie que não a nossa e que deixará todas as outras Criaturas incólumes.” (Pág. 466).
Sinopse
“O Sol já brilha no céu, dando ao cinzento do mar o seu tom avermelhado. Os abutres secam as asas ao vento. Cheira a queimado. O dilúvio seco, uma praga criada em laboratório pelo homem, exterminou a humanidade. Mas duas mulheres sobreviveram: Ren, uma dançarina de varão, e Toby, que do alto do seu jardim no terraço observa e escuta. Está aí mais alguém? Um livro visionário, profético, de dimensões bíblicas, que põe a nu o mais ridículo e o mais sublime do ser humano, a nossa capacidade para a destruição e para a esperança. Negro, terno, inquietante, violento e hilariante, revela Margaret Atwood no seu melhor.”
Bertrand, 2011
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As vantagens de pertencer à Roda dos Livros são inúmeras, mas as sugestões de leitura e as possibilidades que todos os meses se abrem de conhecer novos autores, têm marcado significativamente o último ano.
Margaret Atwood, uma Senhora da Literatura que pertence à minha “existência pós-Roda”, virá possivelmente a tornar-se uma das minhas escritoras favoritas de sempre. Órix e Crex é o terceiro livro que leio dela e a vontade de continuar a descobrir o “Universo Atwood” é gigante.
A sua imaginação prodigiosa e a capacidade de me fazer acreditar, e sobretudo, viver nos seus “mundos-limite”, conquista-me mais um pouco a cada livro. Uma ficção verosímil que me faz reflectir sobre uma enormidade de temas da nossa sociedade, designada pela própria por “Ficção Especulativa”.
É espantoso o seu conhecimento acerca da sociedade e da ciência, pelo menos para mim, que de cientista nada tenho. Atwood leva temas como a clonagem a um nível impensável (para mim, volto a repetir), “brinca” de forma séria com doenças fabricadas, testes e vacinas. Desde o início que percebi que há um Mundo onde toda a acção decorre, é o Mundo que interessa, pois o outro, o inferior, cheio de gente que não se enquadra nas regras, pode muito bem ser o nosso. Ainda consegue aliar a religião a este cenário, na medida em que tudo acontece sob as decisões de um só homem, como se fosse o próprio Deus a criar todas as coisas.
A organização estrutural de “Órix e Crex” é admirável. Não há linearidade na sucessão dos acontecimentos, isto é, a forma como a história nos é apresentada não obedece a qualquer regra lógica. O leitor trabalha e esforça-se, joga no meio das peças do puzzle do tempo que vai juntando. Senti-me como se a ler, também fizesse parte desta construção, pois que fui tecendo tudo na minha cabeça, e tudo vai fazendo sentido de uma forma estranhamente ponderada. Quero com isto dizer que não é um livro com um final inesperado ou surpreendente, mas sim um percurso que se absorve a cada página, a cada capítulo. Existe uma ponderação e uma organização de caos que me sinto muito limitada a explicar mas que resulta, absorve, envolve e, acima de tudo, me deixou perfeitamente convencida.
Distopia, Utopia, Realidade, Ficção. Não sei onde enquadrar Órix e Crex. Nem quero. Algo levou a que no fim só houvesse um Homem – O Último Homem, sendo que o fim é o princípio. Confuso? Não. Simplesmente Genial.
Sinopse
“Pode ser que os porcos não voem, mas estão completamente alterados. O mesmo se passa com os lobos e outros animais. Um homem, que em tempos se chamou Jimmy, vive numa árvore, embrulhado no seu lençol e diz chamar-se Homem das Neves. A voz de Órix, a mulher que ele amava, provoca-o e persegue-o. E os Filhos de Crex são agora responsabilidade sua. Como é que o mundo inteiro se desmoronou tão depressa? Com a sua habitual agudeza de espírito e o seu humor negro, Margaret Atwood apresenta-nos um mundo novo, habitado por personagens que não nos deixarão acabado o último capítulo.”
Bertrand, 2010
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A descoberta de um autor que me satisfaz torna-me reincidente. Saber que há ainda tanto para conhecer alarga o alcance da descoberta e torna-a agradavelmente infinita. Assim me sinto, num percurso que apenas vai no início mas que tem muito para oferecer. Como se, com Margaret Atwood, tivesse aberto uma porta que oferece muitas outras para abrir. Desta vez abri a porta da distopia. O que nunca antes me interessou é agora algo a explorar atentamente.
“A distopia, também conhecida como antiutopia, é um conceito filosófico adotado por vários autores e expresso em suas criações ficcionais, nas quais eles retratam uma sociedade construída no sentido oposto ao da utopia, que por sua vez prevê um sistema perfeito, um estado ideal, onde vigora a máxima felicidade e a total concórdia entre seus cidadãos.
A literatura distópica também pode representar um regime utópico que na prática destoa da teoria. As comunidades regidas pela distopia normalmente apresentam governos totalitários, ditatoriais, os quais exercem um poder tirânico e um domínio ilimitado sobre o grupo social.” (Tirado daqui).
“A História de uma Serva” é um livro silencioso. Um silêncio opressivo imposto pelo medo, fruto de uma espécie de adaptação ou aceitação. Uma sociedade que se transforma, que coloca as mulheres no centro e valoriza as suas funções mais primitivas. Uma sociedade assente na procriação, mas em que só algumas são as escolhidas para essa função. Esse privilégio cabe a um número de mulheres cuja existência se reduz a assegurar a descendência da espécie e que, focadas nessa tarefa, deixam de poder agir por vontade própria. Treinadas e controladas por um sistema que tudo vê, as servas são uma inspiração bíblica, a meu ver uma desculpa que impõe a esta sociedade uma componente religiosa a cair no fanatismo.
As servas perdem o seu próprio nome para ganhar outro, um nome escolhido de uma forma extremamente redutora mas que é mais um ponto demonstrativo do brilhantismo e criatividade de Atwood. As razões são explicadas no final e não me sinto no direito de as revelar aqui. Além do mais achei que a leitura é francamente estimulante por ser pautada por constantes dúvidas e alguma revolta. Sentimentos que me impeliram a ler em todos (mesmo todos) os momentos em que era possível conciliar qualquer tarefa com um livro.
Estas escolhidas não podem ler, não podem ter acesso a nada que tenha letras e lhes possa estimular minimamente o pensamento. Querem-se cerebralmente mortas de modo a aceitar sem questionar as regras pelas quais se pautam os seus dias. Não escolhem as suas roupas, até porque o traje é uma forma de serem identificadas, não escolhem a comida, não podem ter nada de seu, não sabem onde estão as suas famílias nem os amigos, são formadas para esquecerem que houve uma outra vida e para se dedicarem em exclusivo à causa. São colocadas em lares de casais que não têm filhos e sobre elas cai a responsabilidade de engravidarem do homem (aqui chamado de Comandante), num ritual com contornos doentios. O objectivo e razão de máxima felicidade é darem um filho a este casal como se por ele tivesse sido concebido. Uma vez o objectivo concretizado a serva segue o seu percurso para outra casa, onde continua a exercer as suas funções de “útero ambulante”. Sempre sem nada de seu, sem qualquer direito à criança que eventualmente tenha dado à luz.
Um relato extremista e doentio que, esmiuçado, leva a inúmeras considerações e reflexões sobre a nossa sociedade. Quantos de nós não nos sentimos já (pelo menos) algumas vezes meros peões ao serviço de algo considerado superior e desconhecido, e por isso temível? Estamos ou não rodeados de fanáticos religiosos e seitas fundamentalistas que arrasam a condição feminina e reduzem as mulheres a servas, a quem impigem o dever e a honra de servir os seus senhores?
Quem nunca sentiu a felicidade da ignorância? A tranquilidade de desconhecer algo terrível, que obviamente se evapora e se transforma numa pesada consternação chamada tomada de consciência? Quem tem mais poder pisa onde sente fraqueza, e qual a melhor forma de exercer pressão e levar os seus intentos senão através do medo?
A História da Serva Defred é um convite à discussão, à análise da sombria mente humana na sua luta pelo poder. Com exemplos que podem estar ao virar de qualquer esquina. Que tenhamos consciência que não há pessoas melhores, que todos nos poderemos transformar em monstros uma vez reunidas as condições. E que as servas (e servos) também acordam e que, normalmente, o facto de existirem em número superior tende a trazer algumas vantagens. Mas para quem?
“Caminhamos, sedadas. O sol está descoberto, há tufos de nuvens brancas no céu, do tipo que lembra ovelhas sem cabeça. Por causa das nossas abas, dos nossos antolhos, é difícil olhar para cima, é difícil conseguir uma visão completa, do céu, seja do que for. Mas podemos fazê-lo, um pouco de cada vez, um movimento rápido da cabeça, para cima e para baixo, para o lado e para trás. Aprendemos a olhar o mundo em arquejos. “ (Pág. 42).
“Vivíamos, como de costume, ignorando. Ignorar não é o mesmo que ignorância, exige esforço da nossa parte.” (Pág. 69).
“Passado o primeiro choque, depois de uma pessoa começar a aceitar, o melhor era deixar-se ficar letárgica. Podíamos dizer a nós próprias que estávamos a poupar forças.” (Pág.86).
“A minha presença aqui é ilegal. É-nos proibido ficarmos a sós com os Comandantes. Servimos um propósito reprodutivo: não somos concubinas, gueixas ou cortesãs. Pelo contrário: fizeram-se todos os possíveis para nos retirarem dessa categoria. Não deve haver nada de recreativo em nós, não pode haver espaço para o desabrochar de desejos secretos; não podem ser concedidos favores especiais, nem por eles nem por nós, não pode haver pontos de partida para o amor. Somos úteros andantes, nada mais: veículos sagrados, cálices ambulatórios.” (Pág.157).
“Mas, a toda a volta, as paredes têm prateleiras. Estão cheias de livros. Livros, livros e mais livros, ali mesmo à vista, sem cadeados, sem caixas. Não admira que não possamos aqui entrar. É um oásis do proibido. Tento não ficar a olhar.” (Pág.158).
Sinopse
“Uma visão marcante da nossa sociedade radicalmente transformada por uma revolução teocrática. A História de Uma Serva tornou-se um dos livros mais influentes e mais lidos do nosso tempo. Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.”
Bertrand, 2013
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Margaret Atwood foi até há pouco tempo uma autora desconhecida para mim. A avalanche de livros editados diariamente, e o culto das novidades literárias por parte dos media, tendem a distrair a minha atenção, não só dos clássicos, mas também de excelentes livros já publicados há alguns anos.
Tenho tentado inverter esta tendência. Contudo, a divulgação massificada das novidades nem sempre é fácil de gerir para quem adora livros, e quer estar sempre a par do que se passa. A Roda dos Livros tem tido um papel fundamental nessa “libertação” que me proponho levar a cabo. Não quero deixar de saber o que há de novo no mercado editorial, nem conseguiria, mas cada vez mais quero conhecer o que já está escrito há alguns anos e que, acima de tudo, deixou marcas nos leitores.
E assim descobri Atwood. Ou melhor, “apresentaram-me” e eu decidi descobrir. Com apenas um livro lido sinto estar na presença de uma escritora brilhante que quero continuar a conhecer. Margaret Atwood conseguiu, em pouco tempo, bastante espaço na minha estante. Um livro lido e mais cinco para ler. A pesquisa sobre a autora deixou-me rendida e o fantástico preço de alguns dos seus livros fez o resto. As expetativas são elevadas e a vontade de ler imensa.
“O Assassino Cego” é um livro excecionalmente escrito e com uma estrutura bem imaginada. Surpreendente, envolvente e, acima de tudo, com uma excelente história para contar. Iris é uma octogenária peculiar, que enfrenta as habituais dificuldades físicas da idade avançada, e que surpreende com tiradas de humor sobre a sua própria condição, assim como sobre o meio envolvente que analisa com uma lucidez acutilante.
Iris “passeia” entre presente e passado e levou-me nessa viagem. Pelo presente, pelo passado, e também por alguns universos paralelos que me fizeram sentir ter um pé na ficção científica e outro no fantástico. Ler Atwood é, segundo a Renata Carvalho, sempre um novo passeio pelo inesperado. A imaginação e criatividade da autora devem de alguma forma ir beber numa fonte inesgotável, na medida em que são tantos os livros editados, sobre tão variados temas e assentes em tão diversos conceitos, que sinto que serão precisos anos para descobrir tudo. Se pareço fascinada é porque realmente estou, e ávida de me deixar levar por distopias, utopias, histórias de época e o que mais houver.
O mistério assume um papel fundamental neste livro e na forma como faz prosseguir a leitura. Tive uma constante sensação que havia algo para desvendar mas não sabia o quê. O desejo de compreender, de encontrar o encaixe entre duas histórias contadas paralelamente e que sabia que se relacionavam apesar de não saber como, associado à sensação de descoberta iminente fez precipitar as páginas de forma compulsiva.
Iris conta a história da sua família. Escreve para si própria pois sabe que se o fizer para um público não será totalmente sincera, tenderá sempre a ocultar este ou aquele pormenor que poderá mostrar a verdade desconhecida das pessoas que ama e até mesmo de si própria. Um percurso de diversos anos que os fatores históricos obviamente influenciam. As flutuações entre riqueza e pobreza são pautadas pelas crises, guerras, doenças que afetaram a humanidade e que deixaram a família de Iris, outrora abastada, literalmente à beira da ruína. O seu casamento é encarado como uma tábua de salvação, e Iris submete-se a uma vida sem amor rodeada dos que nada lhe dizem, sempre com a terrível sensação de que, afinal se entregou a uma causa sem sentido. As coisas verdadeiramente importantes foram-se perdendo pelo caminho.
Mais do que uma história bem contada, “O Assassino Cego” é uma reflexão sobre a vida, sempre buscando temas tão polémicos como a condição da mulher através dos tempos e como, ainda hoje, as mulheres se submetem a papéis que vão para além das suas aparentes forças, se anulam ao lado de companheiros que não amam, desempenhando vidas infelizes que apenas a imaginação e o sonho podem (ocasionalmente) salvar.
Desafio-vos a conhecer Iris Chase Griffen.
“Voltando à tarefa em mãos. Em mãos é a expressão apropriada: por vezes, parece-me que é apenas a minha mão que escreve, e não o resto de mim: parece que a minha mão ganhou vida própria e continuaria a escrever mesmo que fosse separada do resto do corpo, como um fetiche egípcio embalsamado e enfeitiçado, ou como as patas de coelho secas que os homens costumam pendurar nos retrovisores dos carros para dar sorte. Apesar da artrite nos meus dedos, esta minha mão tem manifestado ultimamente uma quantidade invulgar de energia, como que atirando paus aos cães. Sem dúvida que tem escrito muitas coisas que não lhe seriam permitidas, se estivesse sujeita ao meu julgamento.“ (Pág. 454)
Sinopse
“Qual boneca russa, “O Assassino Cego” apresenta uma complexa estrutura narrativa em que se interligam as recordações de Iris Chase – uma anciã que conta a história da sua família ao longo do século XX, detendo-se em especial na relação desta com a sua irmã Laura (já morta) – com episódios escritos em registos tão distintos como romance ou a ficção científica.No livro, chegada ao fim da vida, Iris Griffen começa a escrever a história secreta da sua família, evocando um mundo de prosperidade e miséria que se estende pelo período que separa as duas guerras mundiais. Mas o enigma central da história de Iris é a morte de Laura Chase, a sua irmã, também ela uma contadora de histórias. O único livro de Laura, um best-seller intitulado O Assassino Cego, narra o amor clandestino entre uma jovem de sociedade e um radical a monte. Mas como terá morrido Laura? Acidente ou suicídio? Quem é esse anarquista que habita as páginas de O Assassino Cego? E qual é a relação entre a história de ficção científica, que ele conta à amante em troca de sexo, e a realidade?O Assassino Cego é na verdade dois livros (pelo menos) e um labirinto de histórias que recorrem a uma multiplicidade de géneros literários, do romance à ficção científica, passando pelo jornalismo. Todos juntos, estes retalhos de narrativas vão dando contornos a uma história única: uma saga familiar que é também a História do mundo ocidental entre as duas Grandes Guerras e uma das histórias de amor mais complexas e inesquecíveis da literatura.”
Bertrand, 2009
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