Apontamentos de leitura – II – Emily St. John Mandel
O primeiro livro que li de Emily St. John Mandel, há cerca de um ano, foi “Estação Onze”. Gostei da escrita e da história, e ficou imediatamente na minha lista de autoras a seguir de perto. Os seus dois livros mais recentes encheram-me ainda mais as medidas, confirmando a minha impressão inicial. Está definitivamente incluída no grupo das minhas escritoras favoritas.
ESTAÇÃO ONZE

As relações humanas antes e depois de uma pandemia apocalíptica. A arte como necessária à sobrevivência. Um tema ousado e bem desenvolvido. Escrita fluida e motivadora. O enredo anda para trás e para a frente, estabelecendo aos poucos uma teia de relações entre as personagens principais. Nada está ali por acaso, e não há facilitismos no enredo. Muito bom.
O HOTEL DE VIDRO

Uma história circular sobre várias pessoas envolvidas e/ou afectadas por um esquema Ponzi (inspirado no caso de Bernard Madoff). Um leque de personalidades que se cruzam, cada uma com as suas motivações e angústias. Os acasos que levam a mudanças radicais de vida, ou por vezes a tragédia. As fragilidades humanas. Uma escrita limpa mas cheia de subtilezas, que projecta imagens na nossa mente, sem ser vulgar nem cansativa. Muito bom.
MAR DA TRANQUILIDADE

Excelente. Uma história tecida de viagens no tempo e interrogações: somos reais ou apenas uma simulação, num mundo virtual gerido por um software? E isso terá de facto alguma importância para nós? Se viajássemos no tempo, seríamos capazes de resistir a não o alterar? O enredo é-nos dado aos pedaços, que são sendo unidos pouco a pouco por uma linha condutora, e o fim consegue surpreender. Tem em comum com “Estação Onze” a ideia de errância, de história que é um patchwork, de inevitabilidade – a interligação entre as personagens explora a perspectiva de que nada acontece por acaso. Curiosamente, numa espécie de spin-off de “O Hotel de Vidro”, envolve algumas personagens secundárias deste livro. Contudo, o pano de fundo da história é completamente diferente, pese embora tudo gire sempre à volta dos sentimentos que nos tornam realmente humanos. Entre estes três livros da autora, é o meu preferido.