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Roda Dos Livros

As Mentiras que as Mulheres contam – Luís Fernando Veríssimo

Roda Dos Livros, 26.06.17

35445017Luís Fernando Veríssimo é, habitualmente, dotado de um sentido de humor excecional. De entre os seus livros o meu preferido continua a ser “As Mentiras que os Homens contam”.

Talvez por, como é óbvio, o autor conseguir entrar melhor numa cabeça masculina do que numa feminina, as minhas expectativas em relação a este “As Mentras que as Mulheres contam” tenham saído um pouco defraudadas.

De facto apesar de alguns dos contos terem uma boa dose de humor, raros são os que têm as mulheres na primeira pessoa e muitas vezes as histórias giram em torno de homens.

Quanto a mentiras, também não encontramos muitas neste livro.

De qualquer modo Veríssimo é sempre Veríssimo e o livro vale pela correção linguística e pela leveza e descontração com que se lê.

Uma obra que proporciona uns momentos bem passados.

 

Excertos

“(...) Homem não tem ciúmes porque ama. Ciúmes não é uma questão entre o homem e a pessoa que ama. Ou é, mas a pessoa que ele ama é ele mesmo. Ciúmes é sempre entre o homem e ele mesmo .” (p.18)

“(...) – Nós fomos bobas, isso sim – continua Cinderela. – A Rapunzel continuou com suas tranças porque seu príncipe encantado a proibiu de cortar os cabelos e olhem o que lhe aconteceu. Se já existisse o feminismo no nosso tempo, nossas histórias seriam outras.

- Certo! Eu botava os anões a trabalhar para mim. E não me sentiria comprometida com o príncipe só porque o beijo dele me ressuscitou. Ele não me compraria por tão pouco!- E eu, em vez de ficar em casa sendo maltratada pela minha madrasta e as duas irmãs, ia sair, arranjar emprego, estudar comunicação, sei lá. Com trabalho, perseverança, decisão... e a varinha mágica, claro... faria uma bela carreira e depois compraria um príncipe ou dois. (...)” (p. 104)

“(...) – Vocês já notaram como o Miro é chato?- É, coitado.- Não, o Miro é muito chato. O Miro é extremamente chato. O Miro é, provavelmente, o homem mais chato do mundo!Claro. Uma extremófila não se contentaria com alguém apenas normal. Tinha que ser alguém radicalmente normal. Um chato até às últimas consequências. E até hoje, quando o Miro diz coisas como «Eu, se não durmo minhas oito horas por noite, fico imprestável», a Verinha olha em volta, radiante, desafiando alguém da turma a produzir um chato mais chato do que o seu.” (p. 168)

 

Sinopse

Tudo começa com a mãe, com o «Olha o aviãozinho!» à mesa do almoço. É a mentira inaugural, que se vai desdobrando noutras ao longo da vida. Mas calma lá. Nem sempre a ideia é disfarçar um caso ou ocultar um segredo. Por vezes são apenas eufemismos, ambiguidades, desculpas educadas — tudo com o objetivo um pouco mais nobre de preservar a harmonia social.

Nas histórias de As Mentiras Que os Mulheres Contam aparecem, por exemplo, a senhora que se tenta enganar a si mesma fazendo uma plástica atrás da outra e a moça que mente na idade — para mais! — apenas para ouvir que ainda está nova. Há dramas, comédias, tragicomédias — e até histórias que terminam em tragédia. Mas tudo permeado pelo humor irresistível de Verissimo.

 

D. Quixote, 2016

Comédias para se Ler na Escola – Luís Fernando Veríssimo

Roda Dos Livros, 21.08.14

Não conheço leitor que não tenha os seus pequenos “ódios de estimação” e os seus “amores de perdição” reflectidos em pelo menos um, ou vários autores. Luís Fernando Veríssimo está, sem sombra de dúvida, entre os meus amores de perdição.

Desde que li um primeiro livro de Luís Fernando Veríssimo que mantenho sob radar as suas obras em cada livraria onde entro. Autor brasileiro não muito divulgado, diria até, algo proscrito, é difícil encontrar os seus livros, embora mantenha ou tenha mantido colaborações com jornais portugueses como o Expresso e o Público.

“Comédias para se Ler na Escola”, a minha mais recente aquisição, corresponde ao género literário mais utilizado pelo autor, um livro de crónicas gostosas.

Centrado em questões de linguagem e de crescimento, este livro, traz-nos verdadeiras micro delícias que, não raras vezes, é uma pena que sejam apenas crónicas pois mereceriam desenvolvimento e ficamos com pena que tenham terminado.

Com Luís Fernando Veríssimo temos que estar prontos para uma boa gargalhada, um sorriso rasgado perante a ironia e a crítica constante de que são alvo os mais diversos visados, incluindo ele próprio, verdadeiro sinal de inteligência. E pensar... pois é isso que o autor nos desafia a fazer sob a capa da ligeireza, e sempre, mas sempre, com uma riqueza gramatical e de vocabulário que o eleva e distingue. Não há lugar a comparações com o pai, e isso é algo que Luís Fernando gere de forma excepcional.

Um livro que se lê de um fôlego e que nos deixa bem dispostos. Mais do que um livro, um autor que recomendo e que nos traz assuntos sérios de uma forma bem disposta.

Excertos

“Sexa

- Pai...- Humm?- Como é o feminino de sexo?- O quê- O feminino de sexo.- Não tem.- Sexo não tem feminino- Não.- Só tem sexo masculino?- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.- E como é o feminino de sexo?- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.- Mas tu mesmo me disse que tem sexo masculino e femino.- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra «sexo» é masculina. O sexo masculino, o sexo feminino- Não devia ser «a sexa»?(...)- A palavra é masculina.- Não. «A palavra» é feminino. Se fosse masculina seria «o pal...»- Chega! Vai brincar, vai.O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:- Temos que ficar de olho nesse guri...- Por quê?- Ele só pensa em gramática.” (p. 41)

“O Jargão

Sou fascinado pela linguagem náutica, embora minha experiência no mar se resuma a algumas passagens em transatlânticos, onde a única linguagem técnica que você precisa saber é «a que horas servem o bufê?». Nunca pisei num veleiro e se pisasse seria para dar vexame na primeira onda. Eu enjôo em escada rolante. Mas, na minha imaginação, sou um marinheiro de todos os calados. Senhor de ventos e de velas e, principalmente, dos especialíssimos nomes da equipagem.Me imagino no leme do meu grande veleiro, dando ordens à tripulação:- Recolher a traquineta!- Largar a vela bimbão, não podemos perder esse Vizeu.(...)- Quebrar o lume da alcatra e baixar a falcatrua.- Cuidado com a sanfona de Abelardo!(...)Sempre imaginei que poderia escrever uma coluna de economia usando um jargão falso assim, com pseudônimo. Não sei quanto tempo duraria até au ser descoberto e desmascarado, mas acho que não seria pouco. Não estou dizendo que quem escreve sobre economia não sabe o que está escrevendo, ou se aproveita da ignorância generalizada oara enganar. Estou dizendo que a análise econômica é uma arte tão imprecisa que, mesmo desconfiando do embuste, a maioria hesitaria antes de denunciá-lo. (...)” (p.55)

“Fobias(...)Não sei como se chamaria o medo de não ter o que ler. Existem as conhecidas claustrofobia (...), agorafobia (...), collorfobia (medo do que ele vai nos aprontar agora) (...), mas o pânico de estar, por exemplo, num quarto de hotel, com insônia, sem nada para ler não sei que nome tem. É uma das minhas maiores neuroses. O vício que lhe dá origem é a gutembergomania, uma dependência patológica na palavra impressa. Na falta dela, qualquer palavra serve. Já saí de cama de hotel no meio da noite e entrei no banheiro para ver se as torneiras tinham «Frio» e «Quente» escritos por extenso, para saciar a minha sede de letras (...)” (p.88)

Sinopse

«Comédias para se ler na escola é um livro de textos curtos, fáceis e divertidos, escritos numa linguagem clara e coloquial. Capaz de falar sobre qualquer assunto e sob qualquer pretexto, o autor revela as suas obsessões, mergulha em lembranças solitárias de infâncias e adolescências e aborga questões sociais e éticas, sempre de uma maneira renovada. A originalidade e o humor de Luís Fernando Veríssimo funcionam como um antídoto para quem ainda não descobriu o prazer de ler e um deleite para os leitores viciados.»

Dom Quixote, 2003