Apontamentos de leitura - III - Liane Moriarty
O começo da minha “relação” com os livros de Liane Moriarty não foi dos mais auspiciosos. Terá sido há uns três ou quatro anos, e o livro foi “Nove Perfeitos Desconhecidos”. Deixou-me tão pouco entusiasmada que sobre ele apenas escrevinhei um apontamento tão sucinto quanto desprendido: “Razoável, sem ser nada de especial. Um bocado confuso e a atirar para o guião cinematográfico”.
Mantive o meu desinteresse por esta escritora até há alguns meses meses, quando a Sónia Maia falou do “Pequenas Grandes Mentiras”, com grande entusiasmo, numa das nossas Rodas. Decidi dar uma nova oportunidade a Liane Moriarty, e ainda bem que o fiz. Achei o livro super original, com um enredo bem desenvolvido que me agarrou logo desde as primeiras páginas, e li-o quase de uma assentada. E a esse seguiram-se vários outros. Estou sinceramente fã. É verdade que usa uma técnica semelhante em todos eles – começa pelo acontecimento marcante, intrigante, e depois vai andando para trás e para a frente até que o mistério é finalmente desvendado – mas consegue encontrar um tema central diferente para cada um. Os enredos misturam relações familiares, questões sociais e personagens cheias de inquietações pessoais (por vezes algo cliché) ou “fora da caixa”, situações caricatas, e uma dose de humor q.b. Pode haver quem ache que são histórias leves, pese embora todo o conteúdo misterioso, quase “policial”, que sempre têm. Mas se olharmos para toda a panóplia de temáticas actuais que abordam, percebemos que não é bem assim. Os temas importantes podem ser eficazmente abordados sem ser preciso usar pinças e gravitas.
PEQUENAS GRANDES MENTIRAS
Pode um livro tratar de temas sérios com ironia e algum humor? Pode, e este livro é a prova. O pano de fundo é uma escola primária numa localidade australiana, à volta da qual gravitam famílias com histórias variadas. Conflitos familiares e geracionais, guerrinhas sociais, e sobretudo violência não revelada, escondida por vergonha. A narração parte de um acontecimento que se percebe ser grave e depois recua para períodos anteriores com a finalidade de nos mostrar os antecedentes do sucedido. Em cada capítulo há também apontamentos soltos – por vezes com um humor subliminar – de vários intervenientes secundários. A forma como a história é narrada prende-nos até ao fim. A escrita é fluida e muito competente, e consegue convocar imagens na nossa imaginação. Excelente.
O SEGREDO DO MEU MARIDO
Duas histórias paralelas à volta de duas mulheres, que em comum têm pouco mais do que a localidade onde estão a viver e o facto de verem a sua vida repentinamente virada do avesso, mas ambas com decisões difíceis para tomar. Como seria se um determinado acontecimento não tivesse ocorrido? Quais as consequências das nossas por vezes impulsivas acções? Até que ponto nos conhecemos? Um ambiente de cidade pequena onde as personagens principais têm de lidar com os seus sentimentos de culpa, cada uma fazendo-o à sua maneira. Crime e expiação. Fazemos as coisas pelos outros, ou isso é uma desculpa para o nosso próprio egoísmo? A autora consegue gerir com mão de mestre uma teia de personagens e acontecimentos interligados, onde o humor escapa por entre os fios da tragédia. Um final mais suave do que esperava, mas aceitável. Muito bom.
A QUALQUER MOMENTO
Uma senhora levanta-se do seu lugar, numa viagem de avião, e dirige-se a cada passageiro, dizendo-lhe a idade em que irá morrer e de que maneira. Quem é ela? O que a levou a esse estranho comportamento, de que mais tarde não se recorda? E como reagir às suas previsões? O tema da morte e do que faríamos se soubéssemos quanto tempo nos resta de vida é tratado neste livro de forma magistral. A história da Senhora da Morte (como passa a ser apelidada) é contada alternando com as de várias outras pessoas que iam naquele avião. Cada uma destas pessoas tem as suas próprias características, comuns ou menos comuns, as suas inseguranças – e através delas a autora toca em inúmeras questões da vida e da sociedade nos dias de hoje, num estilo de escrita rápido e fluente a que já nos habituou, cheio de pormenores e imaginação. Será que as nossas vidas estão predestinadas, ou existe realmente livre arbítrio? Até que ponto as nossas opções condicionam o nosso futuro? Coincidências são só coincidências? Como sobreviver à morte de um ente querido? Há neste livro (que li quase compulsivamente) um cocktail de dúvidas que todos nós nos colocamos, nem que seja só uma vez na vida. Excelente.
QUEM SAI AOS SEUS
O efeito que traumas de infância podem ter nas vidas não só das crianças e no seu futuro, mas no de todos quantos estão à sua volta e com quem elas se cruzam. A necessidade e dificuldade em corresponder às expectativas dos outros, e o que isso pode desencadear. O desaparecimento de uma mãe de família, depois de um período em que essa família se viu posta em causa, levanta questões em que os filhos nunca ousaram pensar, revelando o melhor e o pior das suas personalidades. Será que mesmo as famílias aparentemente mais felizes também podem ser disfuncionais? Será que podemos ser ao mesmo tempo boas e más pessoas? E conseguirá o amor sobrepor-se às mágoas? Como é habitual, a autora consegue abordar uma variedade de questões sociais – com espírito crítico e certeiro, e onde não falta uma chamada de atenção para o peso das obrigações que as mulheres continuam a carregar, e da incompreensão de que são alvo – num enredo cheio de mistérios, que navega (como também é hábito nas suas tramas) para trás e para a frente no tempo, até que toda a verdade seja revelada. Muito bom.

