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Roda Dos Livros

«A Malnascida» de Beatrice Salvioni - Opinião

Roda Dos Livros, 08.10.24

O livro «A Malnascida» de Beatrice Salvioni relata “uma daquelas histórias passadas de boca em boca entre as mães que descansam à sombra, tagarelando ao ritmo do abanar dos leques. Uma daquelas histórias que se alimentam de palavras emprestadas, sussurradas às escondidas.”

Pronunciar o nome de Maddalena, A Malnascida era pior que revistar os escrínios alheios. Pronunciar o seu nome era chamar a má sorte. A pequena era pior que feitiço ou mau olhado, olhá-la era pedir para sentir o hálito quente da morte. Nas suas brincadeiras junto ao rio, entre rapazes, trazia o diabo no corpo, entranhado na sujidade que a caracterizava, mas isso não era motivo para Francesca a repudiar, antes pelo contrário. Nem que fosse por desafio à mãe e vontade de pertencer a algo mais que laçarotes e rendas imaculadas de ir à igreja.

“Esbarrar uns nos outros e dar murros, esfregar os joelhos no fundo limoso e sentir a lama negra que se enfiava entre os dedos e se colava os cabelos fez de mim um ser de carne. Era feita de pele e sangue, nódoas negras e ossos. E ângulos e gritos. Estava viva. Com os Malnascidos, podia dizer pela primeira vez “Estou aqui», sentindo todo o peso dessa afirmação.”

Se a base deste romance é o crescimento de cada uma delas e desta amizade, o pano de fundo é uma Itália à beira da guerra com a Etiópia e Mussolini e ecoar em todas as rádios. Os homens a partilhem para a guerra e as mães destas duas meninas com preocupações muito opostas, personificando mais do que as classes sociais que representam, elas revelam os papéis da mulher nas suas mais variadas interpretações quando educam, seja por dedicação e proximidade, seja por alheamento e opressão.

A Itália está cheia de fendas e as famílias também. Cheias de arestas e cicatrizes. Embora a agenda política do fascismo e a das manifestações anti-italianidade sejam importantes neste romance, eu preferi a familiaridade das casas, da frutaria, a praça e o rio ou o cheiro dos guisados e do lodo… É esse lado, quase de intimidade a cada cena que mais me cativou neste livro.

“- Não devias tê-la feito descer connosco ao Lambro. Não devias. (…)

- Eu Não queria - justificou-se. - Foi ele, eu não queria.

- Vão magoar-se. Talvez caiam e os ossos vos saiam pelos joelhos. Ou talvez os ratos do rio vos comam os dedos dos pés. Ou saltem o portão e os picos de ferro vos entrem na barriga.

Avançou para Matteo. Ele recuava.

- É só uma mulherzita? (…)

- És um miúdo invejoso - disse Madalena, continuando a aproximar-se.

Ele desviou-se. Foi então que lançou um grito. Um grito agudíssimo, horripilante. Caiu, enroscou-se, com as mãos à volta de uma perna e revirando-se no meio da terra com os gansos a grasnarem alto à roda dele. Tinha um prego espetado na planta do pé, o Sangue salpicava tudo.”

É um relato rico e bem estruturado, que não esquece ninguém. Homens, mulheres e crianças; o país e a família, a igreja e a educação estão estereotipados, mas amplamente representados e isso conquista desde cedo o leitor, pois nunca conseguimos ficar indiferentes. E ainda que focado nas mulheres, os rapazes desempenham um papel crucial, são as interações com eles que moldam a dinâmica social do grupo.

É um livro feito de gestos, gritos, toques desajeitados, mas carinhosos; discussões, conselhos, maternidade e matrimónio, poder e opressão, desobediência e coragem, violência e amizade. É um grito pela aceitação e a fragilidade feita força, mas eu nunca fui capaz de deixar de o comparar à famosa tetralogia de Elena Ferrante, mesmo não tendo ficado fã nem avançado além do segundo livro.

"Pequenos Delírios Domésticos" (contos) de Ana Margarida de Carvalho :: Opinião

Roda Dos Livros, 31.01.19

Este livro é um como álbum, composto por várias músicas, começando por esta "Pequenos Delírios Domésticos" de Sérgio Godinho, e se pararmos na estrofe:"Vou até bater ao fundodepois venho respirar, o arque me coube nesta vidavolto ao ponto de partida(...)"É talvez o melhor resumo para quase todos os contos que li.Desses pego em três deles e escrevo:Entrei num táxi numa qualquer avenida, esbarrei o olhar numa estranha perspectiva.Era uma nuca conhecida. Sem confiança no percurso, dei voltas e voltas, estremunhei e sonhei, lá fui misturada em delírios-desvarios, numa aventura centrifuga.Acordei à terceira buzinadela, havia chegado.Impaciente. Ele impaciente, ralhando qualquer coisa que não decifrei.A porta rústica escancarada, como uma cabeça aberta, uma entrada para o sótão das memórias.Os contos de Ana Margarida de Carvalho são preciosos!Fazem o leitor divergir da realidade e entrar em momentâneo delírio. O pequeno delírio de querer fazer parte daqueles contos. O lado fabuloso de um bom conto é fazer crer nas possibilidades ilimitadas de o alterar, dar-lhe continuidade, mexer e remexer-lhe nas personagens, inventar-lhes passados, dar-lhes futuros de uma linha ou ligá-los a um outro personagem vinte páginas mais à frente.Ler contos é divagar em como lhes acrescentar um ponto, pois a mim, um conto parece sempre uma peça inacabada ou com rachaduras, pequenos veio por onde podemos acrescentar uma linha.

«O coração é um caçador solitário» de Carson McCullers :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.12.18

«O coração é um caçador solitário» de Carson McCuller é um livro carregado de solidão!
Ao longo de mais de trezentas páginas acompanhamos a tristeza e a solidão de John Singer, mudo mas ouvinte e confessor de um leque vasto de outras personagens, entre elas: Antonapoulos, o grego, também ele mudo; Mick, uma rapariga em debate com a chegada da idade adulta; Jake, bêbado e reaccionário laboral; o doutor Coupland, um médico negro ou Biff Brannon proprietário do New York Café.
"(...) alguns homens optam por se distanciarem dos seus sentimentos, e assim evitam ser consumidos pelos mesmos. Projectam-nos noutro ser humano ou mesmo numa ideia ou num conceito."
"O restaurante ainda não estava cheio. Àquela hora, os homens que haviam passado a noite a pé cruzavam-se com aqueles que tinham acabado de acordar (...). Não se ouvia barulho, nem as pessoas a conversar, pois toda a gente estava sentada sozinha. A desconfiança mútua entre os homens (...) conferia a todos a sensação de alienação."
É entre projecções e desconfianças que vamos conhecemos as histórias tristes destes personagens, todos eles sós, taciturnos e fechados sobre seus dramas, que normalmente são os dramas comuns e intemporais, mas a extensão de dada a cada drama e a densidade que McCuller confere a cada personagem é feita com descrições breves mas extraordinárias; capazes de viciar o leitor naquele enredo, onde cada personagem parece entrar numa competição pela vida mais miserável.
"O proprietário leu o bilhete e lançou um olhar atento e cheio de tacto a Singer. Era um homem de estatura mediana, com uma barba escura e espessa que a parte inferior do seu rosto parecia de feita de ferro. (...) Todas as noites, o mudo passeava sozinho pelas ruas da cidade (...). Gradualmente, a sua agitação foi dando lugar ao cansaço (...). O seu rosto revelava a paz taciturna típica das pessoas profundamente tristes ou profundamente sábias."
No entanto, noutras breves descrições McCuller eleva a importância de pequenos gestos que salvam o quotidiano desses mesmos personagens tristes. Não os priva do sofrimento, mas fá-los acreditar, a eles e a nós leitores, na possibilidade de redenção pela amizade, mesmo que por breves momentos. Exemplos disse são as descrições dos carroceis ou das noites em que Mick procura escutar a música que sai das outras casas. E o melhor é que McCuller cria estes cenários em uma, duas frases breves.
"Essas noites eram secretas e eram o período mais importante do Verão inteiro. Na escuridão, Mick caminhava sozinha como se fosse a única habitante da cidade. (...) Quando ia até às zonas mais abastadas da cidade, todas as casas tinham rádio. As janelas estavam abertas e ela escutava a música na perfeição. (...) escondia-se na escuridão à escuta."
Distinguir entre pessoas tristes e sábias ou revoltadas e sábias e se são pequenas ou não as conquistas diárias de cada um (quando as há) torna-se irrelevante quando compreendemos o que preocupa cada um e vemos problemas sociais de hoje: exploração laboral, racismo, desigualdade de género e a solidão que é uma doença tão potente quanto as outras, mas muito mais difícil de identificar, e aí o livro é ainda melhor e dá às personagens as várias máscaras que a solidão pode ter: revolta, insegurança, melancolia, luto ou até a homossexualidade.
"(...) o mudo era o seu único amigo. Passavam imenso tempo juntos, sentados no quarto silencioso a beber as cervejas. Ele falava e as palavras reflectiam as manhãs escuras passadas na rua ou sozinho no seu quarto. As palavras ganhavam forma e eram proferidas com alívio."
Já tendo referido tanto do que este livro aborda ainda falta referir a alienação própria e inerente a cada personagem, o peso da deficiência ou a violência contra os negros e a fé na palavra de Deus como única salvação. Mesmo assim tudo isto é pouco. Há mais, muito mais, camuflado nas palavras depositadas uma amizade silenciosa com o surdo-mudo Singer.
"Ela falava e ele não compreendia. (...) Era como se a sua cabeça fosse a proa de um navio e os sons fossem a água que batia contra o mesmo, para depois seguirem em frente. Ele sentia necessidade de voltar atrás, à procura das palavras que já haviam sido proferidas."
Mesmo que neste livro tudo seja dramático, escuro, sofrido, miserável e cheio de arrependimentos, a mestria com que Carson McCuller o descreve, cura qualquer ressentimento deixado no leitor pelo destino dado às personagens. É um retrato duro, mas poderoso, da condição humana.

«A história de uma serva» de Margaret Atwood :: Opinião

Roda Dos Livros, 13.12.18

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"Nada muda de um momento para o outro; numa banheira cuja a água aquecesse gradualmente morreríamos cozidos sem dar por isso. Havia histórias nos jornais, claro, cadáveres em valas ou nas matas, mortas à cacetada ou mutiladas, vítimas de violências, como de costumava dizer, mas eram histórias acerca de outras mulheres, e os homens que faziam coisas dessas eram outros homens. (...) Que horror, dizíamos nós, e eram, mas eram horríveis sem serem credíveis. Eram muito melodramáticas, tinham uma dimensão que não era a dimensão das nossas vidas."A banheira é a sociedade e quem está a cozinhar lá dentro somos todos nós, se bem que achamos que são sempre os outros. Os outros a quem acontecessem coisas que não são assim tão a realidade e o espelho da sociedade que está à nossa volta. Uma realidade para a qual não queremos olhar e assumir o nosso papel. Um papel de cidadão activo, consciente e se necessário reivindicativo, capaz de se mobilizar."Se o que estou a contar é uma história, então tenho controlo sobre o final. Haverá então um final, ao que se seguirá a vida a sério. (...) Contar, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, em todo o caso, escrever é proibido. Mas se é uma história, mesmo na minha cabeça, devo contá-la a alguém. Uma pessoa não conta uma história apenas a si própria. Há sempre mais alguém. (...) Juntar um nome, junta-te ao mundo dos factos, que é mais arriscado..."É dessa banheira que June olha e narra a sua recente realidade: a de Serva em Gileade. Ela está lá para servir sexualmente ao seu Comandante e procriar. Parir é a sua missão. O seu valor é o de ser fértil, à semelhança da serva Bila na Bíblia, oferecida no lugar da esposa estéril. E assim ficamos a conhecer Servas e Esposas, para além das Martas e da Tia Lídia, tudo mulheres, mas todas elas com papeis diferentes e extremamente obrigatórios."Aquilo que decorre neste quarto, debaixo do dossel prateado de Serena Joy, não é excitante. Não tem nada que ver com paixão, amor ou romance, nem nenhuma das outras ideias que dantes nos faziam vibrar. (...) A excitação e o orgasmo já não são considerados necessários; seriam meramente um sentimento de frivolidade, (...).A narrativa distópica de Atwood critica ferozmente uma sociedade que segue totalitarismos e o fanatismo religioso, condenando as mulheres à ignorância e à obediência cega, seja às leis divinas ou ao próprio marido. Caso disso é a Cerimónia mensal, um acto de violação mascarado de condor divino ou o próprio ritual do parto onde Esposa e Serva estão, como bichos de circo, num autêntico espectáculo, sem resguardar ou proteger desejos, direitos ou intimidade da mulher.Os disparates e barbaridades seguem-se uns atrás dos outros, aumentando a carga emocional e critica de todo o texto, devidamente fragmentado para que o leitor possa perceber o antes, assustadoramente semelhante à nossa actualidade e o presente, a sociedade espartilhada, abusadora e violenta de Gileade. Também assusta pela forma como hoje alguns países se estão novamente a aproximar da religião como palavra de ordem e de partidos à direita que querem resguardar o papel da mulher, cingindo-a à família e aos filhos. Mais alarmante é em certa parte deixar no ar a suspeita islâmica como desculpa para um Governo suspender a Constituição e o povo ficar, pacientemente, a assistir na tv e à espera de novas ordens."O tempo não ficou parado. Correu por cima , fez-me desaparecer, como se eu não passasse de uma mulher de areia, deixada demasiado perto da água por uma criança descuidada. Fui apagada por ela. Não passo agora de uma sombra (...)"As Servas são realmente sombras. E aceitar como lhes pedem, apenas o desígnio da procriação, juntamente com toda a violência a que estão sujeitas e o constante clima de ameaça e observação, atira-as num desespero suicida, seja ele pelo próprio acto em si ou pelas tentativas de revolta, castigadas com duras pesadas: uma mão cortada, menos um olho ou até a excisão feminina."Estou deitada na cama, ainda a tremer. Se molharmos o rebordo de um copo e passarmos o dedo por ele, produz um som. É assim que me sinto: esse som do vidro. Sinto-me como a palavra estilhaçar."Estilhaçadar é um bom sinónimo para a narrativa de Atwood que assume contornos diabólicos que parecem ser um alerta para as transformações que ocorrem debaixo dos nossos olhos. Pede-nos que passemos da indignação à acção e que não fiquemos apenas a ver acontecer e a julgar que não nos chega a nós.

«Salvação» de Ana Cristina Silva - Opinião

Roda Dos Livros, 07.12.18

"Não grito menos, talvez grite mais baixinho, não choro menos, mas talvez as minhas lágrimas se tenham tornado menos silenciosas. Pela aritmética passaram seis meses desde a morte de Sofia, pelas minhas contas não passou nem um dia.""Salvação" é um livro de recolhimento na morte e de superação pela escrita. Ou do processo de criação de personagens com as quais se reconstrói um sentido para a perda, o luto, mas também o perdão."Eu e David Negro recolhemo-nos na morte da mulher amada e tornámo-nos um só. Esta absorção de um no outro explica que tenha conseguido escrever um capítulo num único mês como se a minha personagem tivesse pegado na minha mão e redigisse por mim as frases."Colonizado pela dor, o narrador deste livro dedica-se a preencher os seus dias com a escrita de um romance, um novo livro imposto pelo mulher que acabou de falecer, um pedido feito estratégia para que ele supere o luto.Dividido em pouco mais de doze meses, acompanhamos os capítulos de "O Livro", escrito também sobre o luto e a perda de uma filha, onde o protagonista David Negro expõe as suas mágoas, memórias e reflexões. Ao mesmo tempo, em capítulos que são as fases de luto do narrador, vamos sabendo mais da sua vida com Sofia e do seu dia-a-dia lutando pela superação."Desde que a minha mulher morreu o meu luto tornou-se num dilúvio que não deixa espaço para mais nada. A dor não é um local iluminado (...) Mas neste momento, sinto que a jornada de David Negro se transforma num dever que vai para além do pedido de Sofia, ainda que esse percurso não esteja, nem nunca possa estar, separador dela. Até porque é minha intenção apontar o dedo ao deus a que ela tanto rezou e aprisioná-lo numa rede de acusações."No longo corredor que é o luto e no qual não é possível passar a correr, o narrador embrenha-se numa complexa rede de memórias, no sofrimento e na culpa, sem esquecer acusações e dúvidas, onde Deus tem um papel decisivo, mas a História e o seu curso também. A forma como "O Livro" percorre séculos, o rumo dos eventos chega até aos actuais e as inquietações ancestrais são equiparadas às de hoje: as crises de fé e de valores e as consequências no ser humano. E assim, desta forma, Ana Cristina Silva cava ainda mais fundo o fosso do abandono e da culpa, retratando muito bem o lado emotivo dessa pressão psicológica."Continuo a falar com a minha mulher, mas lentamente a morte de Sofia vai deixando de ser a medida de todas as coisas. (...) Se a dor tivesse assas e batesse, diria que o seu movimento se foi tornando mais suave (...) Porém, o sofrimento do luto não voa, apenas pulsa por dentro (...) tanto assim que só vivo para me afundar na memória dos tempos felizes."Se retirássemos os capítulos que dizem respeito à escrita de "O Livro", a maneira como a autora relata a perda e a dor é de tal forma emotiva e insistente que traz o leitor para o sofrimento do narrador, tornando a leitura quase aflitiva. E quero com isto dizer que é extraordinária essa capacidade, pois não acho que caia na repetição, mas sim aumentando a densidade psicológica do personagem."(...) Em cada intervenção, ele alcança um novo patamar de profundidade, frases empolgadas, quase poéticas - como se existisse uma estética da morte (...)"Também seguindo uma estética da morte, associada à própria estética de fé e crença, "O Livro" transforma-se num romance histórico que denuncia e relembra o fanatismo religioso do século XVII e o liga aos eventos violentos actuais para os quais o próprio escritor se sensibiliza quando o luto lhe permita se ligar novamente à realidade que o rodeia: a morte no espectro do fanatismo jihadista."Há um momento em que tenho o mais absurdo dos pensamentos: talvez estivesse a ver repetidamente o mesmo grupo de pessoas a sofrer o mesmo atentado (...) Como se aquelas pessoas não tivessem individualidade, como se se tivessem convertido num borrão desfocado de um ecrã, como se a morte se tivesse tornado uma banalidade."

«Todos os Dias são Meus» de Ana Saragoça :: Opinião

Roda Dos Livros, 28.11.18

"Sempre li muito. Não me lembro de mim em pequena sem um livro por perto - o que deve querer dizer que a minha vida consciente só começou quando descobri a leitura. Os livros afastavam-me do que me rodeava, das colegas que faziam troça de mim, da realidade melhor-que-a-de-muita-gente-mais-ainda-assim-bastante-desoladora da minha infância.

Ao longo dos anos fui-me recolhendo mais e mais nos livros. Recebi todos os rótulos possíveis: empinada, marrona, bicho-do-mato, (...) acabaram todos por me deixar em paz, arrumando-me na prateleira das caixas-d'óculos vagamente apalermadas. O resultado foi uma grande liberdade interior, que é a minha riqueza maior até hoje."

Esta é a voz da "razão", rotula-se a si mesma e apresenta-se através das páginas de um livro resgatado ao lixo. A solidão impera e a estranheza também.

A voz do professor, agora reformado, nostálgico e desamparado completa essa solidão e o abandona à rememoração e imaginação.

O rebuliço do prédio, não menos só, pertence a dois miúdos inquietos, mas só, sem outra companhia para brincadeiras a não ser um elevador acompanhado do vómito diário do cão nervoso da porteira.

A porteira, regateira, é um autêntico jornal de caserna, enche a sua solidão com o sobe e desce com que nos dá a conhecer a vida dos vizinhos. A vida que ela acha que eles têm. E é aí que tudo se torna mais digno de investigação. Conhecer a solidão de uns pelo espelho da solidão de outros e resolver o enigma do cadáver no elevador.

"Naquela noite chamei o elevador e ele veio. Ignorei o deslize da pobre máquina e desci as escadas. A luz do patamar estava acesa, a porta fechada. Sentei-me no último degrau, alimentando uma vaga esperança de que ela se tivesse enganado, mas lá no fundo sabia que acabara tudo.

Tudo o quê? Não me pergunte. O meu luto começou naquele dia, e enterrei-a no dia em que a mataram. Sei que foi assassinada, sei que é uma vítima, sei que ninguém merece morrer assim, mas que quer? Foi como se ela me tivesse fechada a porta na cara mais uma última vez."

Um enredo mirabolante que espalha personagens e vidas que se assumem como tentáculos, sugam o leitor e viciam-no até atingir a última página. Isto sem esquecer as gargalhadas, a inteligência e uma análises incisiva às coisinhas tipicamente portuguesas.

«O corpo dela e outras partes» de Carmen Maria Machado :: Opinião

Roda Dos Livros, 26.11.18

As distinções e ovações quase falam sozinhas sobre a qualidade reconhecida à escrita de Carmen Maria Machado, mas a questão que se principal é:
O que é viver no corpo de uma mulher?
Talvez seja preciso pesquisar muito e lutar por entender a body literacy que encerra cada corpo feminino. 
Carmen Maria Machado explora cada conto com imprevisibilidade e experimentalismo, tal como se percorresse um corpo com ânsia de o conhecer em todos os seus recantos. É assim que eu leio os seus contos. A voz do corpo, a voz por vezes escondida ou recatada. É também o dar voz às mulheres, pelo seu corpo, pelos seus desejos, pelos seus anseios e preocupações e pelas suas metades, feminina ou masculinas. Carmen Maria Machado assume-se metade diva, metade bruxa. Eu diria antes: metade besta, metade bestial. E é isso mesmo: ser mulher, é ser capaz de numa hora ser uma mulher bestial, e na seguinte uma besta. 
Talvez seja preciso ter uma metade mais ligada à fantasia para se gostar destes contos. Talvez! Tudo dependerá muito de cada uma e da realidade de cada quotidiano. E também pelo entendimento que se faz do corpo com que se vive; se o aceitamos ou não.  Assumir o corpo é  talvez a forma mais rápida de entender o lado selvagem que cada uma tem em si, é aceitar que o humor, as necessidades, as vontades, os sentimentos, as paixões, as falhas... oscilam. E oscilar faz-nos questionar. É aceitar, abraçar cada oscilação como uma força.Pela objectiva, cada vez mais afinada, da crítica cultural-feminista o livro de Machado é um livro político, muito centrado nos temas de hoje, um livro que mistura a realidade com a fantasia, alertando para as caixas e caixinhas que determinam o território feminino, condicionado à masculinidade de uma linguagem espalhada pelo mundo fora. Os críticos têm dificuldade em catalogá-la, chegando até ao rótulo de erótico e pornográfico.  Nos oito contos, para além de um experimentalismo constante (a meu ver!), destacamos a forma de narrar que cruza, por palavras da autora, meta-ficção, não-realismo, fantasia, horror e ficção-científica. Tudo unido por uma imaginação recheada de folclore, muito dele proveniente das origens cubanas de Machado. No entanto, o que interessa é o resultado. Todos são contos surreais, abordando constantemente o desejo como um motor poderoso e pequenos padrões, nas personagens, que se repetem e se aproximam à realidade, tão própria, de cada mulher. 

«MANAZURU» de Hiromi Kawakami - Opinião

Roda Dos Livros, 04.10.18

"O meu marido desapareceu sem deixar rasto. Até hoje, não voltei a vê-lo."
O romance «Manazuru» podia assim encher-se com luto e o abandono, causado pela incerteza do desaparecimento de Rei. Mas não. Apesar de narrar um desaparecimento com mais de uma década, Kawakami, coloca Kei, a esposa, no centro desta narrativa, preenchendo-a de emoções e sensações, descritas em pequenos gestos do quotidiano. No entanto, o livro é igualmente um labirinto de duvidas, que substitui o ritmo ansioso e ofegante da incerteza por uma delicadeza estranha e cativante, que parece própria da cultura nipónica.
"A resposta não se fez esperar. Sim, estou ressentida! Sim, sinto rancor. (...) é qualquer coisa no mais fundo de mim própria, é todo o meu ser, o núcleo do meu corpo que tem ressentimento por esse marido que desapareceu sem dizer fosse o que fosse. (...) Qualquer coisa de que Seiji não se pode apoderar. Teria de ser Rei a fazê-lo. (...) Só o homem que ele era se podia apoderar.
É o que explica, sem dúvida, que a minha mãe não gostasse dele. (...) Ter-nos-emos reaproximado desde que voltámos a viver juntas? Três mulheres debaixo do mesmo tecto, três seres de carne. Aqui estão os seus corpos, como pequenas esferas que se se misturam. As três mulheres não têm o mesmo eixo, não têm o mesmo centro, não são superfícies lisas, estão aqui, cada uma delas, com a sua espessura própria."
«Manazuru» é um livro complexo que explora a geometria própria de cada corpo e do que lhe faz falta nas diferentes relações de proximidade. A relação mulher-homem, que ultrapassa a dimensão do casamento, primeiro com o aparecimento de uma criança, carne da sua carne, e depois, mais tarde, fruto da necessidade e do desejo, um corpo que pertence a outro alguém, um amante. E no meio disto tudo, o retomar a uma proximidade mais ancestral, o voltar ao corpo da mãe.
"Quando nos vemos separados de um ser que nos acompanhou por muito tempo, só o efémero resta. Passar-se-ia, sem dúvida, a mesma coisa com Seiji. Fi-lo entrar no meu quarto. - Porque o meu corpo não te deseja! - expliquei-lhe e ele riu. - Mas eu, eu tenho uma certa vontade de estar contigo. (...)                                                                                    Amo-o, tudo é frágil, e eis-nos separados. O amor não implica necessariamente a união."
Kei analisa o que gera proximidade, se amor, desejo, necessidade, afecto, toque, solidão, dependência, lugar, eixo, distância, medo, obrigação... E analisa-o face a quem lhe é próximo, a mãe, como lugar e casa para onde volta; a filha, Momo, que lhe sugou energia e afecto e a fez renegar às suas vontades de mulher esposa; ao marido que a possuía de forma desigual; ao amante, que na sua estranheza silenciosa, a aceitou e lhe devolveu um certo sentimento de pertença e ainda uma presença misteriosa que a acompanha para todo o lado. Essa coisa que se sobrepõe e se impôs a Kei, tal como as memórias e o vazio.
"Tudo se tornou vazio. Murmuro de mim para mim, a sós comigo. E todavia, havia qualquer coisa que se preparava já para preencher o vazio. Do mesmo modo que a água em que se dissolve o ágar-ágar não é realmente translúcida, porque, apesar de lavadas as algas das suas impurezas, as duas substâncias têm densidades diferentes e é necessário algum tempo para que uma e outra se misturem (...)"