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Roda Dos Livros

VICTORIA, Knut Hamsun - Opinião

Roda Dos Livros, 22.12.14

Como eu senti (e questionei!) "Victoria" :A impossibilidade de amor no romance platónico e imensurável de Johannes por Victoria. E sim, digo dele, porque para mim era amor só com um sentido. Não correspondido. Um amor gozado, um amor menosprezado.As dúvidas de Victoria, a indecisão, a divisão social, o desprezo, mas ao mesmo tempo o alimentar da amizade, da presença, da amizade... atitudes nem correctas e possível para ele de suportar.Essencialmente, este curto romance de Hamsun é a história de um não romance, de um desamor, de um desencontro. Da fatalidade do destino reservar uma condição social em lados opostos para estes dois jovens.

Neste primeiro contacto com a escrita do Nobel norueguês do que mais sinto falta são detalhes, são construções mais densas, personagens mais fortes. Talvez erre e interprete erradamente e esteja tudo lá, nas poucas palavras, nas descrições breves, nos diálogos quase telegráficos.Os desaparecimentos constantes, sejam de Johannes, para se refugiar na escrita ou os dela, para, ora aparecer ou desaparecer da vida dele e a pouca explicação sobre o fenómeno da educação de Johannes e de como surge escritor... não há referências à sua educação...O amor e a escrita como processo de introspecção, de cura, de delírio, a dor de parto de um livro “nove meses de trabalho (pp.56)”... tudo isso me parece brilhante, mas realmente muito deixado à capacidade de ler nas entrelinhas, ler o que não lá está.

Por exemplo, a personagem do professor é um prenúncio do seu destino!? Até certa parte é Johannes que temos ali? E o delírio total, (páginas 113-115) – o relato do monge Vendt e o homem que se desfigura.

Porém, o que lá está é bom. Sem dúvida. É bem escrito. E mesmo que o livro não tivesse mais nada, valeria apenas por esta passagem, a qual não me inibi de transcrever na integra.

O que é o amor? (pp.31)“Mas o que era o amor? Um vento que sussurra entre as rosas? Não, uma fosforescência amarelada no sangue. O amor era uma música de um fervor infernal, que pode fazer dançar o coração dos velhos. Era como a margarida que se abre totalmente com o aproximar da noite, era como uma anémona que se fecha ao mais ténue sopro e morre quando é tocada.O amor era isso.Podia destruir um homem, reerguê-lo para o destruir de novo. Podia amar-me a mim hoje, a ti amanhã e a ele à noite, de tal modo era inconstante. Mas também podia permanecer solidamente intacto, como um selo lacre inviolável e podia arder inextinguível-mente até à hora da morte, porque era eterno. O que era então o amor?Oh! O amor é uma noite de verão com estrelas no céu e fragrâncias na terra. Mas porque encoraja o jovem a fazer desvios e porque leva o velho a erguer-se na ponta dos pés no seu quarto solitário? Ah! Porque o amor transforma o coração do homem num jardim de cogumelos, um opulento e vistoso jardim, onde cresce o cogumelo misterioso e audaz.Não é o amor que incita o monge a entrar de noite nas cercas dos jardins para espiar às janelas as belas adormecidas? Não é ele que enlouquece a monja e faz perder a razão à princesa? Não é ele que faz com que o rei ande com a cabeça rente ao chão, com os cabelos a varrer o pó, ao mesmo tempo que murmura palavras impudicas, ri e põe a língua de fora?O amor era isso.Não, não, era uma coisa muito diferente, uma coisa única. Veio à terra numa noite de Primavera, quando um jovem viu dois olhos… dois olhos. Olhou fixamente e viu.Beijou uma boca e houve um encontro de duas luzes no seu coração, um sol que brilhou dentro de uma estrela. Caiu num abraço e não viu nem sentiu mais nada no mundo.O amor é a primeira palavra de Deus, o primeiro pensamento que atravessou o seu espírito. Quando ordenou «Que se faça luz!», foi o amor. Tudo o que criara era muito bom e estava contente por tê-lo feito. E o amor foi a origem do mundo e o dominador do mundo, mas todos os seus caminhos estão semeados de flores e de sangue, de flores e de sangue.”

É um amor que sacode o corpo, mas não acode à alma, um coração que se sente incompleto. É a desistência face à fraca tentativa dela.E nessa conclusão ora idílica ou (quase) nefasta que o livro é brilhante. De resto, tudo o resto está lá para fundamentar esse binómio que é o amor.

São episódios de delírio que não se distinguem da realidade. Escasseia nas poucas referências temporais. Surgem relatos que parecem ideias/cenários para o livro ou para um futuro dele e de Victoria, como se fossem chegar a velhos, juntos...

A escrita de Hamsun relata alterações pelas estações do ano que são breves mas brilhantes, que revelam uma capacidade extraordinária de dizer muito em poucas palavras, é uma capacidade de síntese que abarca um cenário enorme, natural e que engole os personagens.Uma ligação maior à natureza.“Existe uma espécie de amor que é muito inebriante.” E talvez o mais inebriante seja mesmo a Natureza.

Uma leitura cheia de arestas. Uma vontade de continuar a ler Hamsun, mas um certo tédio pelo lado banal e previsível destes amores tão fatais.Fica já no final, outra aresta - A carta final de Victoria é um lamento, é um pedido de perdão por tê-lo praticamente desprezado constantemente? É a amargura de reconhecer que morreu sozinha e sem se realizar amorosamente, mas ao mesmo tempo agradece-lhe o amor que ele sempre lhe teve?!?

Outra dúvida: O pai de Victoria suicida-se depois do futuro genro morrer no (estranho) acidente de caça?!?... Enfim, talvez o amor, assim descrito e posto de forma tão conturbada, mas simultaneamente tão simples, não seja para ser questionado, seja apenas para ser sentido.

"Mistérios" de Knut Hamsun

Roda Dos Livros, 16.03.14

Mistérios_capa

O título deste notável romance exprime na perfeição a sua essência: mistérios. Chegar  ao fim desta leitura foi quase como retornar ao seu início; tive a sensação de ter completado um percurso circular uma vez que os mistérios evocados pelo autor permaneceram, em larga medida, incólumes, intocáveis, quase tão indecifráveis no fim do livro quanto no seu começo.  A escrita brilhante de Hansum intriga, seduz, maravilha, fascina e, acima de tudo,  confunde o leitor. Tomando emprestadas as palavras de Afonso Cruz em “Para onde vão os guarda-chuvas”, este é um livro que nos "despenteia os pensamentos" e o espírito e nos traz um protagonista único e inesquecível: Johan Nagel. O carácter misterioso deste personagem perdura ao longo da história; é uma figura opaca e indecifrável que continuamente se contradiz, um agitador e um provocador mas também uma presa dos seus próprios anseios e desejos. As suas atitudes e comportamentos parecem não ter outro fim que não o de expôr os segredos mais adormecidos  dos habitantes de uma pequena cidade. Correndo o risco de estar a escrever algo incorrecto em termos de ciência da Psicologia, para mim, Nagel evoca o arquétipo jungiano do “Trickster”, uma força incontrolável que emerge das sombras do inconsciente colectivo com a missão de agitar e tornar revoltas as águas daquela sociedade; de trazer à luz do dia as contradições, a hipocrisia e as manipulações que a permeiam , semeando o caos e ao mesmo tempo progredindo em direcção à autodestruição. Vejo Nagel como um espelho da natureza contraditória e inquieta do ser humano, uma encarnação extraordinariamente bem construída da nossa essência paradoxal. Acabei a leitura de “Mistérios” com mais perguntas do que quando a iniciei mas tal não me incomodou de modo algum. Pelo contrário, talvez fosse essa a intenção do autor: “despentear-nos”os pensamentos e a alma, provocar-nos e fazer-nos olhar para dentro, para os nossos abismos mais profundos para podermos conhecer e, talvez entender tanto a força quanto a fragilidade que nos são inerentes.

Não foi nada fácil selecionar alguns excertos para aqui deixar; este é um livro repleto de passagens belíssimas e/ou extraordinárias que muito me agradou.

Excertos:

“Estava num estranho e eufórico estado de espírito; cada nervo seu vibrava; surgia música através do seu sangue; era parte da natureza, do sol, das montanhas; era omnisciente; falavam com ele as árvores, a Terra, o musgo. A sua alma entrou em crescendo, como um órgão com todas as teclas arrancadas. Nunca esqueceria como esta música celestial parecia pulsar no seu sangue.”

“ O que é que as pessoas sabem realmente sobre a vida? Inserimo-nos na linha, seguimos o padrão estabelecido pelos nossos mentores. Tudo se baseia em assunções, e até o tempo, o espaço, o movimento e a matéria não passam de suposições. O mundo não tem nenhum novo conhecimento a fornecer, aceitando simplesmente o que lá está.”

“A leste e a oeste, em casa e no estrangeiro, achava que as pessoas eram sempre as mesmas; a mesma vulgaridade, a mesma hipocrisia, desde o pedinte que colocava ligaduras numa mão perfeita sob o céu azul e cheio de ozono. E ele, Nagel, era melhor do que os ouros? Não era melhor, mas aquele era o fim.”

 

Fome de Knut Hamsun -Opinião

Roda Dos Livros, 09.01.14
Foi-me emprestado este livro. Opiniões já tinha lido e ouvido, muitas e boas. Todas. Até li em romances referências a esta obra e a este autor, Nobel da literatura em 1920. Que dizer de forma a expressar o que esta leitura avassaladora produziu em mim?Começar por contar-vos a história não posso. Primeiro porque nunca o faço, depois porque me perguntei durante esta leitura, vezes sem conta, qual a história que estava por detrás deste livro... Quando o meu filho mais novo me perguntou o que estava a ler (intrigado com o título) e perante a minha resposta me questionou: "Só isso?", soube verdadeiramente que seria muito dificil para mim traduzir o que acabara de ler!Mas adiante. Basicamente o livro conta-nos um pouco de alguns momentos por que passa um jovem escritor quando se vê, desesperado, em busca de algum trabalho que lhe lhe possa colmatar a fome, o frio que está a sentir, cada dia que surge. Só? perguntam vocês...E é aí que entra a escrita de Hamsun. Potente mas nada complicada. Introspectiva e explosiva. Reduzido ao que há de mais simples, um edredon e pouco mais, o personagem varia estados de lucidez e loucura, de soberba e orgulho com a profunda humilhação de quem nada tem a perder. E a fome, sempre presente, sempre avassaladora. E sempre presente, também, uma procura de se encontrar, uma tentativa de "agir correctamente" intercalada com momentos loucos (alguns hilariantes, não fora a fome algo de muito grave).Momentos houve que me apeteceu chamar-lhe nomes, gritar-lhe para não ser estúpido. Ao personagem, não ao autor, claro! A este chamo-lhe génio. Uma obra escrita em 1890. Poderia ter sido ontem.Nota: Só li no final o prefácio de Paul Auster. Começei a ler mas deixei para o fim. Fiz bem!Estrelas: 6*SinopseA acção de «Fome», um romance marcante e considerado um clássico da literatura mundial, decorre nos finais do século xix. O narrador, um jovem escritor, um homem solitário, deambula pelas ruas de Kristiania (actual Oslo) numa miséria extrema, enregelado pelo frio e tolhido pela fome. Essa miséria em que vive, provoca-lhe momentos de delírio e violentas variações de humor. Mas cedo nos apercebemos de que a "fome" desse sonhador não é apenas física. Há a procura de uma identidade e de um reconhecimento dentro das suas próprias alucinações.

Fome - Knut Hamsun

Roda Dos Livros, 12.11.13

Fome

Escreve Paul Auster, no prefácio a este livro, que o protagonista "procura o que é mais difícil em si mesmo, cortejando a dor e a adversidade da mesma maneira que outros homens procuram o prazer. Não passa fome porque tenha de o fazer mas por uma estranha compulsão interior, como que para empreender uma greve de fome contra si próprio" (pág. 10). Ora eu, na minha insignificância de leitora anónima, não consigo rever-me nesta interpretação. E, assim, vou cometer a suprema audácia: discordar de Paul Auster.

Na verdade, a meu ver, o que torna esta obra tão impressionante é a ausência total de filtros naquilo que é narrado. O protagonista passa fome e vai relatando essa experiência em todas as suas vertentes. E não se fica pela habitual descrição do "buraco no estômago" nem pelas alucinações mais ou menos cómicas ao estilo de Charlie Chaplin. Retrata as dores físicas em pormenor, mas também as alterações súbitas de humor, os delírios, os comportamentos inexplicáveis até para si próprio, a perda de referências, a diminuição das capacidades intelectuais, a degradação gradual da personalidade. A fome, como aqui é apresentada, não chega a matar, porque é ocasionalmente aplacada com algumas migalhas; mas essas migalhas não chegam para restabelecer o corpo nem o espírito, não passando, pois, de meros expedientes que não fazem mais do que prolongar o suplício. E, uma vez esgotadas as ditas migalhas, a fome regressa em força, fustigando sem piedade um organismo cada vez mais debilitado e corroendo-o ainda um pouco mais do que da última vez.

É verdade que haveria soluções disponíveis para evitar a fome. Aliás, no final do livro o protagonista encontra uma, empregando-se num barco prestes a levantar ferro. Mas, a meu ver, o facto de não ter optado por uma dessas soluções mais cedo não significa que deseje continuar a passar fome, nem que essa fome seja uma provação que voluntariamente impõe a si mesmo. Significa apenas que a fome lhe toldou o raciocínio, ocupando-lhe a mente com divagações e obsessões febris sem deixar espaço para o mais comum discernimento. Por isso são tão tocantes os pontuais lampejos de normalidade do personagem, como a sua preocupação em não cometer qualquer acto menos louvável em termos morais, a sua compaixão por desconhecidos necessitados e até a sua alegria perante um dia de sol e uma paisagem bonita.

Esta é a história de alguém que passou pelo inferno. Escrita por um autor que conhece bem esse inferno, já que Knut Hamsun também passou fome. Não podia, pois, deixar de ser esmagadora. E é-o mais ainda porque transmite na perfeição o isolamento dos destituídos. Não é só no topo que se encontra a solidão. Ela também está no fundo do poço.

Cavalo de Ferro, 2010

Filhos da Época - Knut Hamsun (Editorial Minerva)

Roda Dos Livros, 17.09.13

Filhos da Época - Knut HamsunKnut Hamsun é comummente designado como o criador do romance moderno tendo influenciado inúmeros escritores que se lhe seguiram ao longo do século XX um pouco por todo o mundo.

Se por um lado os seus primeiros romances que datam ainda da última década do século XIX são romances que enfatizam a natureza psicológica dos seus personagens, não descurando, é certo, de todo o ambiente em que se movem, seja mais citadino ou rural. O elemento dramático ou mesmo trágico é igualmente um dos elementos fundamentais em obras como Fome (1890), Mistérios (1892), Pan (1894) e Victoria (1898), obras publicadas no período indicado. As difíceis relações entre os personagens que conduzem a amores impossíveis de concretizar ou mesmo amores imaginários é outra das fortes componentes exploradas nas obras supramencionadas.

No entanto, a partir de 1910, Knut Hamsun dá um novo rumo às suas obras no que respeita às questões centrais. Assim, não colocando de lado a exploração psicológica dos personagens, o autor passa a ser um acérrimo defensor do conservadorismo rural tendo como objetivo dar a conhecer à Noruega e aos Noruegueses do seu tempo que a modernidade do país não deverá esquecer a terra como fonte de riqueza colocando igualmente o homem em harmonia com a natureza. Deste modo, Knut Hamsun acredita que a progressiva industrialização do país poderá conduzir o país à dependência do capital e da banca em oposição à crescente importância da terra, elemento central das obras do autor que foram influenciadas pelo novo realismo norueguês que retrata o dia-a-dia da Noruega rural empregando frequentemente o dialeto local, a ironia não esquecendo também o humor.

É neste contexto que Knut Hamsun publica Filhos da Terra, em 1913, apresentando-nos o tenente Willatz Holmsen, o terceiro de uma geração de grandes proprietários de Segelfoss, uma grande propriedade costeira, no eixo da região de Bergen e Trondheim, tendo também muitos animais, ribeiras, mata de onde se retira a madeira mediante as necessidades ao longo das estações do ano.

Segelfoss apresenta-se, pois, como uma grande propriedade muito ao estilo das descrições dos poemas homéricos em que, neste caso em particular, o tenente Willatz Holmsen é o senhor que garante a ordem e a harmonia desse universo fechado de quem as várias famílias de trabalhadores dependem para sobreviver sendo a terra e os animais o seu sustento.

Segelfoss é neste sentido um mundo económico e social fechado sobre si mesmo tendo poucas ou nenhumas relações com o exterior, mesmo no que respeita ao resto do país.

Mas tudo está prestes a mudar com o regresso de um filho da terra que viveu durante muitos anos no México. Decidido a estabelecer-se definitivamente em Segelfoss, Holmengraa, apelidado muitas vezes por “Rei Tobias”, negoceia a compra faseada de várias parcelas de Segelfoss que passará a utilizar para a construção da sua residência, cais, loja, abate da mata, para além de tantos outros projectos que se vão aflorando à sua mente à medida que os anos vão passando.

É assim que Filhos da Terra coloca em confronto dois mundos, duas realidades e duas formas de pensar completamente distintas tendo como seus promotores o tenente Willatz Holmsen, homem profundamente conservador em oposição Tobias Holmengraa, homem viajado e conhecedor daquilo a que se pode designar por progresso.

O progresso foi de tal forma notável em Segelfoss ao ponto de a própria paisagem ter sofrido alterações em detrimento da atividade humana, colocando, dessa forma, aquela localidade em articulação com algumas das principais rotas marítimas nacionais e internacionais, atraindo igualmente muitos trabalhadores à região acabando por se estabelecerem atendendo à melhoria significativa das condições de vida. Não deixa de ser interessante como a população rapidamente se adapta à nova realidade passando a ter mais dinheiro disponível, adquirindo outro tipo de bens de consumo que anteriormente não era possível, não esquecendo que a própria alimentação sofreu grandes melhorias sendo mais abundante e mais variada.

Se por um lado o tenente Willatz Holmsen sempre se mostrou renitente com a venda das sucessivas parcelas entre outros recursos, por outro lado, a sua venda constituía um encaixe de liquidez que permitia fazer face às suas muitas despesas necessárias à manutenção de Segelfoss e dívidas para com o banco, herança deixada do seu falecido pai.

Do ponto de vista psicológico, o tenente Willatz Holmsen é um homem profundamente humano que procura basear a sua vida no dia-a-dia nos textos dos filósofos humanistas, tornando-se, ele próprio filósofo como forma de ultrapassar as suas dificuldades e problemas, lidando também com lisura e compreensão com todos aqueles que vivem em Segelfoss e que dele dependem para a sua sobrevivência. Incapaz de recusar qualquer pedido que seja, sendo esta uma das suas máximas, o tenente Willatz Holmsen tentou sempre, na medida do possível, satisfazer as necessidades dos habitantes da propriedade.

Extremamente cordial e correto com o seu filho, preocupou-se desde sempre com a educação do mesmo, enviando-o para Inglaterra para estudar, porém, passados alguns anos, o jovem é enviado para Berlim para aprender música em virtude de se tratar da sua verdadeira vocação, situação igualmente compreendida e aceite pelo tenente.

Com um casamento problemático face à sua passividade, o tenente gere sempre à distância as decisões e as vontades da sua esposa alemã Adelheid que é apresentada como uma mulher culta, inteligente, responsável pela educação do filho e deveras emancipada.

Considerado como louco e ridículo, à medida que a história vai decorrendo, o leitor vai ganhando especial consideração e afeto pelo tenente Willatz Holmsen que tudo faz para manter a harmonia de Segelfoss, sendo, pois, um personagem da literatura que dificilmente esqueceremos pela sua bondade, otimismo (mesmo nos piores momentos), compreensão, tolerância, entre tantos outros aspetos que fazem do seu caráter um mais nobres seres humanos caso não estivéssemos a falar de literatura, mas que ainda assim servem de modelo para a nossa relação com os outros ao longo da vida.

Fica a certeza de mais uma obra literária memorável que, aparentemente inocente, apresenta-se repleta de significado e com um enorme sentido universal. Para os admiradores das obras deste escritor norueguês, certamente não vai deixar de querer ler Filhos da Época.

Filhos da Época assume-se neste contexto como o romance preparatório para a publicação do magistral Pão e Amor, em 1917, que valeu a Knut Hamsun a atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1920.

hamsunExcertos:

“Tais acontecimentos constituíram um progresso e uma bênção para toda a região e as suas redondezas. Todo o centeio que se convertia em farinha tornava quase impossível encontrar vestígio de fome ou de penúria naqueles sítios; à falta de outro meio, podia-se ir ter com o «Rei» Tobias e comprar a crédito, mas entretanto, era fácil arranjar trabalho em casa dele e estar ao seu serviço. Era uma coisa nunca vista! Como a vida se desanuviava! Os jornaleiros podiam mascar tabaco à vontade e os camponeses que tinham cavalos faziam carretos para as obras e ganhavam para pagar os impostos e comprar toda a espécie de coisas. O progresso e as bênçãos não tinham fim! O próprio senhor Holmengraa parecia prosperar também e florescer; o ar dos pinheiros e uma actividade a seu gosto haviam-lhe restabelecido a saúde, e, no que dizia respeito a ganhos materiais, não podia correr perigo algum, eh, eh! Nenhum perigo iminente decerto o ameaçava. Ou, então, como era? Os negociantes de perto e de longe não mandavam a Segelfoss os seus barcos, de oito e dez remos, buscar carregamentos de farinha? E o negócio não progredira a ponto de ser preciso instalar um escritório e casas de habitação para o chefe dos armazéns, lá em baixo, no cais? Em Segelfoss havia agora uma estação de correio. Segelfoss tornara-se estação para os navios-correios da costa, para os navios das carreiras Vadsö-Hamburgo, que vinham de três em três semanas, do norte e do sul, e traziam a correspondência e descarregaram mercadorias, carregando, à ida, farinha para todo o Norte. O chefe de cais tinha na verdade muito que fazer: o correio e a expedição, a contabilidade e toda a correspondência, além de dirigir o pessoal e fiscalizar os pesos e as medidas. Não tardou muito que lhe não dessem um empregado para o ajudar, de tal maneira a actividade crescia rapidamente. O próprio «Per da loja» tinha agora um grande negócio e recebia caixas e tonéis por cada navio; depois do dia de Ano Novo devia ter uma licença para vender vinho e então viriam ainda mais caixas e barris para ele; quem era capaz de dizer onde aquilo pararia?

(…)

Segelfoss e seus arredores estavam irreconhecíveis desde o tempo em que reinava o tenente; nada soçobrara, propriamente falando, mas tudo mudara de aspeto e de caráter, e tudo continuava a mudar, coisas e pessoas.” (pp. 136-137, 182)

“Mas uma pequena festa de bodas como aquela não podia alegrar os convidados por muito tempo, o humor geral era e continuava sombrio. Ninguém podia, verdadeiramente, compreender o que se passava; o moinho rodava noite e dia, como dantes, os navios-correios, que primeiro só passavam de quinze em quinze dias, agora vinham todas as semanas; Baardsen, na estação de telégrafo, mais o seu ajudante, o pequeno Godofredo, expediam telegramas a respeito do arenque, do bacalhau, da compra e venda, e as mercadorias e a actividade… Por conseguinte havia bastante vida em Segelfoss; mas o humor era sombrio. (pp. 269-270)

“Chegou um dia uma carta de Willatz, em que o filho dizia estar em apuros… Oh! Fora um acaso: numa sala de leilões, estava lá uma senhora a chorar, encostada a um piano de preço – o seu ganha-pão. Que havia de fazer Willatz? Oferecer-lhe o piano; era um caso de honra e uma boa ação. «Meu querido pai, é uma quantia, uma avultada quantia… Talvez o não devesse ter feito? Foi por acaso, nós tínhamos ido ao leilão, vários músicos, iam vender-se instrumentos empenhados. E a senhora chorava, devia ser professora, e nós outros, músicos, ficámos a vê-la. Então fiz o que já te disse, pensei em ti, e fi-lo; numa palavra, o dinheiro deve ser entregue no prazo de um mês. Que devia eu fazer, neste caso, meu querido pai?»

Alto! – disse o tenente, para si mesmo e para a carta – nem mais uma palavra! O dinheiro? Claro que sim.

Dito isto, foi procurar o senhor Holmengraa. Pelo caminho, observou que se sentia profundamente emocionado; seu filho honrava-o, estava entusiasmado com a sua conduta, os olhos marejavam-se-lhe de enternecimento. O seu Willatz… Oh, era bem um rebento da sua raça, um Willatz Holmsen, como o fora o pai do tenente, o seu grande e nobre pai! Numa palavra… Estou a vê-lo…” (pp. 270-271)

"Victoria" de Knut Hamsun

Roda Dos Livros, 27.07.13

7

É sempre bom quando um livro, apesar de veementemente recomendado, se revela uma excelente surpresa. A base da história desta obra é velha como o mundo: um rapaz pobre, uma rapariga rica, um amor impossível. Contudo, nada em “Victoria” nos remete para os mais estafados lugares comuns dos romances de amor. A escrita de Hamsun é soberba, contendo muitas passagens de rara beleza que apreciei imenso, mas o que me encantou foi a capacidade do autor para transmitir ao leitor emoções fortes de uma forma muito contida, quase como que sussurrada, mas extremamente eficaz. A frieza das personagens é apenas aparente; sob semblantes quase sempre impassíveis escondem-se verdadeiros turbilhões emocionais que moldam toda a narrativa. Percebe-se também uma grande ligação à natureza, ao esplendor rigoroso da natureza nórdica, veiculada sobretudo por Johann. O próprio amor é-nos apresentado em sintonia perfeita com a Natureza, como sendo inerente à existência, ainda que não correspondido ou impossível de ser vivido em toda a sua plenitude.

Infelizmente estas minhas frases soltas são incapazes de reflectir a beleza e  o encanto contidos neste pequeno romance. É melhor ler “Victoria” e deixar-se também enlevar pela escrita brilhante de Knut Hamsun.

“ Mas o que era o amor? Um vento que sussurra entre as rosas? Não, uma fosforescência amarelada no sangue. O amor era uma música de um fervor infernal que pode fazer dançar o coração dos velhos. Era como a margarida que se abre totalmente com o aproximar da noite, era como uma anémona que se fecha ao mais ténue sopro e morre quando é tocada.

O amor era isso.

Podia destruir um homem, reerguê-lo para o destruir de novo. Podia amar-me a mim hoje, a ti amanhã e a ele à noite, de tal modo era inconstante. Mas também podia permanecer solidamente intacto, como um selo de lacre inviolável e podia arder inextinguível até à hora da morte porque era eterno. O que era então o amor?”

“Joahannes pousa a caneta e encosta-se na cadeira. Está bem, ponto final. Aqui está o livro, todas estas folhas escritas, fruto de nove meses de trabalho. Percorre-o uma sensação de cálida satisfação. Finalmente a sua obra está terminada. E enquanto olha para a janela, através da qual o dia começa a despontar, os seus pensamentos continuam a fervilhar: a sua alma continua a trabalhar. Está cheio de emoção, o seu cérebro é como um jardim intacto e selvagem, de onde exalam os vapores da terra.”

Na Ilha Blåmandsøy - Knut Hamsun (Prémio Nobel de Literatura 1920)

Roda Dos Livros, 08.05.13
Knut Hamsun - Na Ilha Blåmandsøy

É sabido que quem lê a intemporal Fome (1890) de Knut Hamsun fica para sempre agarrado à escrita deste escritor norueguês necessitando de mais e mais obras como de pão para a boca ou de ar para respirar.

Sem que nada o previsse, ao fazer uma pesquisa numa biblioteca municipal descobri que em 1998 aquando da realização do grande evento Expo'98, foi publicada a coleção "98 Mares" com pequenas obras nacionais e internacionais sendo que uma delas é o conto Na Ilha Blåmandsøy de Knut Hamsun que integra o livro de contos "Stridende Liv" publicado em 1905.

À semelhança dos seus romances, Knut Hamsun escreve sobre a paisagem e o modo como a mesma molda os homens e as mulheres assim como a relação entre eles utilizando para o efeito uma linguagem tão atual como se o texto tivesse sido escrito há pouco tempo ainda que estejamos a falar de um texto com mais de um século.

Nas pequenas ilhas os poucos habitantes procuram conciliar as várias facetas do clima com aquilo que se pode retirar de cada pedaço de terra. A vida dura das ilhas  provocada pela insularidade, assim como pela necessidade de sobreviver à natureza quase implacável, torna cada pedaço de terra num microcosmos social e económico que dependendo do número de habitantes poderá ter "igreja e autoridade" e à medida que os anos iam passando os sinais do progresso também se fazia sentir com a introdução do "correio e telégrafo".

Mas o conto Na Ilha Blåmandsøy conta-nos também das difíceis e complexas relações que se estabelecem entre os habitantes das pequenas ilhas que neste caso especificamente se centram no trio amoroso que ligava a jovem Fredrikke aos rapazes Simon e Marcelius que ocupavam estatuto social pelas profissões que desempenhavam, professor e construtor de barcos, respetivamente. Fredrikke nunca é muito clara ou mesmo honesta com Marcelius acalentando neste algumas/muitas esperanças no sentido de que o trio sofresse um volte-face.

Como em todas as pequenas ilhas, tudo o que se sente e tudo o que acontece tem um impacto diferente na forma como as pessoas encaram a realidade e se uma pequena alegria poderá traduzir-se no alcançar da plena felicidade, um triste acontecimento ou uma insatisfação poderá desencadear ódios, desejo de vingança e culminar numa tragédia.

Knut Hamsum em Na Ilha Blåmandsøy explora como as relações humanas poderão ser um reflexo da própria natureza envolvente, da mesma forma que nos mostra que o ser humano pode ser escravo dos seus sentimentos e desejos mais obscuros tornando-se na criatura mais solitária de uma pequena ilha, tornando-se também ele uma ilha perdida na imensidão do oceano. Definitivamente mais um grande conto a não perder deste escritor norueguês que é considerado um dos maiores autores da literatura mundial contemporânea tendo sido galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1920.

Excertos:

22 Knut Hamsun

“De entre as aldeias piscatórias da orla costeira, muitas são ilhas e há uma pequena, chamada Blåmandsøy, que não chega a ter cem pessoas. Porém, a ilha vizinha é bastante maior, podendo perfeitamente ali haver trezentas ou quatrocentas e nela existe igreja e autoridade. Chama-se Kirkeøya. Depois da minha infância, Kirkeøya passou também a ter correio e telégrafo.

Onde quer que os ilhéus se reunissem, era sempre melhor ser-se da ilha grande. Sim, mesmo os continentais não eram muito considerados pelas gentes de Kirkeøya, embora fossem oriundos do continente.

Todo o oceano Atlântico batia na ilha Blåmandsøy, tão longe no mar alto estava situada. Era toda escarpada e impossível de escalar em três vertentes. Apenas a sul, na direção do sol do meio-dia, Deus e as pessoas tinham feito uma vereda transitável montanha acima. Existe aí uma escada com duzentos degraus. Após cada tempestade no mar, madeiros, tábuas e destroços flutuam em direção à ilha, e é com estes escombros que os carpinteiros navais constroem as suas embarcações. Transportam as tábuas ao longo dos duzentos degraus, carpinteiram os barcos junto às suas cabanas e esperam pelo inverno, quando a montanha na vertente norte se torna azul e brilhante pelo gelo, fazendo então descer os barcos por amarras e talhas, glaciar de vidro abaixo, lançando-os à água. Durante a minha infância, eu próprio vi como o faziam: dois homens permaneciam no topo da montanha dando folga às amarras e um homem ficava sentado no barco, afastando-o de onde este se poderia prender. E conseguiam-no, com coragem, cuidado e gritos serenos ao longo de todo o trajeto. Quando o barco por fim chegava ao mar, o homem gritava para cima, para os outros dois: «Esperem um pouco, agora está firme. Basta! Mais não dizia sobre esta grande façanha, a de o barco felizmente ter chegado lá abaixo.”

In Na Ilha Blåmandsøy de Knut Hamsun, pp. 7-9

Pão e Amor - Knut Hamsun (Guimarães Editores)

Roda Dos Livros, 30.03.13
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Pão e Amor (Markens Grøde, 1917) também conhecido por Os Frutos da Terra foi a primeira obra de Knut Hamsun publicada em Portugal em 1942 tendo sido a obra com que o escritor norueguês ganhou o Prémio Nobel de Literatura em 1920.Pão e Amor é de tal forma significativa no percurso do escritor na medida em que a terra é apresentada como a principal fonte de riqueza do homem conduzindo à sua realização e felicidade.É perfeitamente visível nesta obra a clara oposição do escritor ao mundo industrializado do ocidente na transição do século XIX para o século XX tendo em conta que o desenvolvimento de um país não pode de todo assentar nas máquinas e no dinheiro não tornando o homem necessariamente mais feliz. O homem é apresentado como um dos elementos da natureza e é nela que deverá conhecer a verdadeira felicidade. Knut Hamsun não descura o papel das cidades comparativamente com o mundo rural na medida em que a cultura da cidade não deixa o homem indiferente à música, ao teatro, à ópera, e até a linguagem e o requinte das pessoas.É notório ao longo da obra que todos aqueles que passam pela cidade tornaram-se pessoas diferentes, menos rudes, mais civilizadas e com vontade de conhecer o resto do país e o mundo, porém, a felicidade só é verdadeiramente encontrada quando os vários personagens regressam ao mundo rural vivendo em comunhão com a natureza.Relativamente ao quadro de pensamento, Pão e Amor abarca duas gerações de pessoas e não deixa de ser interessante as diferentes formas de aplicação da justiça perante casos idênticos, nomeadamente o infanticídio, uma prática comum e aceite em determinados aspetos, o que é curioso que para uma obra publicada inicialmente em 1917, mantém-se não só bastante atual, como simultaneamente na vanguarda de novas ideias quando as comparamos com o nosso atual quadro de valores.Para quem já leu outras obras de Knut Hamsun recentemente publicadas em português, não vai querer certamente perder a oportunidade de ler Pão e Amor que desde 1942 está a aguardar uma nova edição. Diria mesmo, o mundo ocidental está carente por Pão e Amor mais do que nunca, sendo esta uma obra em que o escritor nos está a falar ao ouvido como que profetizando o futuro da nossa civilização.Se a Fome do mesmo escritor ocupa um lugar especial nas estantes lá de casa, esperem até ler Pão e Amor!

Excertos:

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"O homem chega, subindo em direção ao norte. Traz consigo um saco, o seu primeiro saco, cheio de comestíveis e com mais meia dúzia de utensílios dentro. É robusto e rude; tem uma barba ruiva, intonsa; há cicatrizes em seu rosto e suas mãos: testemunhos de trabalho ou de guerra. Talvez se oculte ali para fugir a castigo, ou talvez seja um filósofo que aspire à paz; eis como surgiu o primeiro ser humano no seio dessa pavorosa solidão. Vai, prossegue sempre. Ao seu redor, os pássaros e os bichos da terra. Às vezes murmura algumas palavras de si para consigo: «Oh, meu Deus!»" (p. 17)

"- A ocasião há de voltar. Por agora, forço-os a paralisarem a exploração. Aquela gente não passa de umas crianças. (...) Isto não causará dano ao país, se a mina não andar mais para a frente. Pelo contrário! Os homens aprenderão a cultivar suas terras. Padecerão, porém, os da aldeia; ganharam, aliás, dinheiro demais neste verão último. (...) Como é que a gente dali se havia de resignar a viver tão simplesmente como antes da abertura dos trabalhos da empresa? Tinham-se criado hábitos de comer pão branco, de vestir com mais apuro, de ganhar bons salários; as pessoas tinham-se tornado gastadoras. E eis que o dinheiro se lhes escapava, à maneira de um cardume de arenques que, por fim, se faz ao largo e desaparece! Que fazer, meu Deus, numa penúria assim?!" (pp. 233, 257)no-nb_sml_ 176

"Vê tu o que se dá com vocês na Sellanraa! Conservam perpetuamente diante dos olhos o espetáculo das azuladas serranias. Não se trata de quaisquer novas invenções: trata-se da montanha, que se ergue ali desde a criação do universo, profundamente enraizada no passado. Ela faz-lhes companhia; vocês vivem em comunhão com o céu e com a terra, com essa imensa natureza dotada de raízes indestrutíveis. Vocês não necessitam de utilizar espadas: caminham sem armas, cabeça ao léu, cheios de confiança no mundo que os rodeia. O homem e a natureza não travam combates entre si: estabelecem perfeito acordo. A montanha e a floresta, a planície e o pântano, o céu e as estrelas. Ah! isto não são coisas que se avaliem miseravelmente: não há craveira que as meça. Escuta-me, Sivert! Deves sentir-te satisfeito com a tua sorte. Vocês possuem tudo quanto é preciso para viver, e para atribuir uma finalidade à existência e para inspirar fé. Nascem e multiplicam-se; são necessários à face da terra. Necessários, sim! Nem toda a gente o é! Mantêm a vida, transmitem a vida de geração em geração: é este o sentido da vida eterna." (pp. 300-301)growth-soil-knut-hamsun-paperback-cover-art"- Tanto se me dá, pois, pressa, não tenho nenhuma. Ah! se tu tivesses visto a cara do engenheiro! Ele tinha trazido para aqui um exército de operários e cavalos e máquinas, tinha espalhado dinheiro às mãos cheias, tinha posto tudo de pernas para o ar; inundou a região com o seu dinheiro e, afinal de contas, sem qualquer outro resultado diverso do de ampliar o desastre. Não é o dinheiro que faz falta aqui: o que falta são homens como o teu pai, homens que saibam manejar as avarelas da charrua em vez de arriscarem a fortuna em lances de jogo de dados. Os outros, como esses da mina, não sabem acertar o seu passo com o da vida: querem ir mais depressa, correr, correr, até à catástrofe.  Pretendem penetrar na vida à maneira de cunha; e quando a cunha sente que a pressão é demasiada, ela grita: «Parem! Não posso mais». Mas é já muito tarde! A vida aperta-a e esmaga-a." (p. 302)