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Roda Dos Livros

Morreste-me - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 28.06.16

6816890Não há palavras que sejam suficientes para expressar a dor de perder um pai. É uma coisa tão visceral e devastadora, que se torna num daqueles momentos em que o antes e o depois se vêm separados por um limite inultrapassável. Há pessoas que sentem conforto no partilhar dessa dor, que conseguem facilmente rever-se nas palavras que outrem profere acerca da sua própria experiência, porque as ajuda a sentir que não estão sozinhas e que alguém as compreende; outras há que, por mais que procurem, sempre acharão que a dor é semelhante mas nunca igual, que o que sentem tem origem na sua individualidade e no sentimento único perante quem sempre teve aquele nome simples. P-A-I.

Acredito sinceramente que a maioria das pessoas que leu Morreste-me, de José Luís Peixoto, se terá sentido comovida pelas palavras do escritor-poeta. Seja porque, de facto, elas são comoventes e repletas do sentimento avassalador da perda, seja porque a sensibilidade de ter passado por algo semelhante faz reviver o trauma que se viveu. O passar do tempo atenua esse reviver e traz, muitas vezes, o sentimento de “culpa” pela dor se ir desvanecendo. Eu queria que este livro a trouxesse de volta. Queria chorar, queria sentir. Mas infelizmente não aconteceu. Não por falha do autor, mas porque pertenço ao segundo tipo de pessoas que referi. Considero cada dor uma dor única, irrepetível, e foi por isso que, ao ler este livro, me senti uma intrusa. Talvez não tenho pegado neste livro com o espírito certo, certamente difícil de alcançar dada a minha sensibilidade pessoal.

Foi, ainda assim, um livro que gostei de ler. Fez-me pensar e feriu-me, mesmo que o ferimento não tenha chegado ao coração. E quando as experiências não nos deixam indiferentes, vale sempre a pena. Obrigada, Márcia, pelo empréstimo.

Em Teu Ventre - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 15.01.16

emteuventreFui a uma das apresentações deste livro antes de o ler. Tive receio de ter ficado a saber demais, ou de partir para a leitura influenciada pelas dicas do autor, perdendo margem de descoberta. Sinceramente, acho que fiquei a ganhar. A apresentação foi muito clara, José Luís Peixoto partilhou algumas das suas intenções na escrita deste livro, assim como alguns detalhes da estrutura que receio que me pudessem escapar. Já tinha o livro. Já tinha (muita) vontade de o ler. As palavras do autor fizeram-me abrir a primeira página.

Partilho alguns momentos desta apresentação. Ao som de Moonspell - The Last of Us (Extinct, 2015). Fotografias de Gil Cardoso.

https://www.youtube.com/watch?v=9nJvJ-Pd9-k

A escrita de José Luís Peixoto encanta-me sempre, se calhar encanta-me cada vez mais. Revejo-me numa espécie de honestidade nas suas palavras, como se não tivesse medo de se dar, de se mostrar, sempre um pouco mais em cada livro.

Não que fiquemos a saber se ele acredita ou não nas Aparições de Fátima depois de ler Em Teu Ventre. Mas este livro também não é sobre as Aparições. É sobre as Mães, segundo o próprio. Eu não sei se é só sobre as Mães. Há uma frase que não me largou durante toda a leitura do livro. Passava as páginas e pensava recorrentemente “é só uma criança”. Refiro-me a Lúcia, a personagem real que vive nestas páginas como uma possibilidade do que pode ter sido. Convenceu-me de que pode mesmo ter sido assim, e tenho para mim que isso já diz muito a favor do livro.

A narrativa é perfeita. Não me vou alongar neste ponto pois vou acabar a tecer os mesmos elogios de sempre. Perfeita mas não linear. Na verdade é interrompida várias vezes. Há uma espécie de voz de consciência que se vai atravessando no caminho, uma voz zangada, por vezes desiludida. Eu reconheci aquelas frases de mãe desiludida que nos ficam na cabeça anos a fio, e depois, vindas do nada, atravessam-se na nossa mente e recordam-nos os erros e as dores de cabeça que lhes demos. É uma coisa recorrente e real porque não controlamos este tipo de pensamentos, e a forma como surge no texto, no momento certo, é um tiro certeiro que nos faz sentir coisas esquecidas, parar para pensar e, muitas vezes, sair do livro e recordar. Uma ideia que funciona muito bem.

Ao mesmo tempo, e talvez para equilibrar esta voz da mãe “malvada”, há uma voz divina que surge em frases perfeitas. É a primeira voz deste livro. É, possivelmente, a voz que as Mães querem ser. Mas depois há aquele pormenor de as Mães serem humanas, e é difícil conciliar a perfeição com essa característica plena de falhas.

Talvez me esteja a deter demasiado tempo na forma, deixando de lado o conteúdo, mas o conteúdo é uma história conhecida enriquecida com palavras que a fazem uma versão credível. A forma foi o que mais me fez pensar. O que mais me agradou. O que mais me encantou. É a forma que permite que o leitor participe neste livro. Se identifique. Pense.

Adorei! Recomendo muito!

“(Todas as pessoas têm direito a descanso, menos as mães. Para cada tarefa, profissão ou encargo há direito a uma folga, menos para as mães. Se alguma mãe demonstrar a mínima fadiga de ser mãe, haverá logo uma besta, ignorante de limpar baba e de parir, que se oferecerá para a pôr em causa. Não é mãe, não sabe ser mãe, não foi feita para ser mãe, dirá. Mas, se todas as pessoas têm direito a descanso, será que as mães não são pessoas? A culpa é nossa. Sim, a culpa é das mães. Deixámos que fossem os filhos a definir-nos.)” Pág. 27;

“(Talvez porque escreves livros, pareces convencido de que toda a gente precisa de saber ler. Não creias, há ignorâncias muito piores. Eu sei que é triste sermos obrigados a ficar do lado de fora, sem autorização, como se quisessem fazer-nos ver que não temos a valia dos outros. Conheço bem essa ofensa, acredita. Mas repara em tantas vidas que prosperaram sem uma letra, repara também em quantos sabem ler e nunca chegam a passar de imbecis.)” Pág. 83;

Sinopse

“«Mãe, atravessas a vida e a morte como a verdade atravessa o tempo, como os nomes atravessam aquilo que nomeiam.» Numa perspetiva inteiramente nova, Em Teu Ventre apresenta o retrato de um dos episódios mais marcantes do século XX português: as aparições de Nossa Senhora a três crianças, entre maio e outubro de 1917. Através de uma narrativa que cruza a rigorosa dimensão histórica com a riqueza de personagens surpreendentes, esta é também uma reflexão acerca de Portugal e de alguns dos seus traços mais subtis e profundos. A partir das mães presentes nesta história, a questão da maternidade é apresentada em múltiplas dimensões, nomeadamente na constatação da importância única que estas ocupam na vida dos filhos. O sereno prodígio destas páginas, atravessado por inúmeros instantes de assombro e de milagre, confere a Em Teu Ventre um lugar que permanecerá na memória dos leitores por muito tempo.”

Quetzal, 2015

A Mãe Que Chovia - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 01.01.16

amaequechoviaEste é um dos livros do meu Natal. O único que li na mesma noite em que o recebi. Depois disso já o li mais duas vezes. E não me canso. E ainda me surpreendo a cada nova leitura.

O melhor dos livros para crianças, e o principal motivo porque me perco por eles, é a rapidez com que se lêem, dizendo tanto apenas em algumas frases. Apesar disso, raramente são lineares ou simples, há sempre qualquer coisa de escondido, um significado oculto ou dúbio que me deixa feliz por o descobrir, ou achar que o descobri.

Este conceito associado à beleza da escrita do José Luís Peixoto, que tem o dom de me fazer apaixonar por tudo o que escreve, faz com que, de cada vez que abro este livro, não consiga evitar ler (novamente) até ao fim. E termino sempre maravilhada com a simplicidade das ideias e das palavras que, conjugadas, têm uma força incrível. E assim teria de ser para escrever sobre uma Mãe tão especial como esta. Como são todas as Mães.

“A mim, que sou teu filho, teu filho, deste-me toda a vida que tenho e dás-me sempre o teu amor mais brilhante. Mesmo quando estou onde não podes estar, mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem o tamanho da certeza que nos une. Eu tenho a certeza de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe, choves essa palavra dentro de mim.” (Pág. 59).

Sinopse

“O protagonista do primeiro livro infantil de José Luís Peixoto é filho da chuva. Com uma mãe tão original, tão necessária a todos, tem de aprender a partilhar com o mundo aquilo que lhe é mais importante: o amor materno. Através de uma ternura invulgar, de poesia e de uma simplicidade desarmante, este livro homenageia e exalta uma das forças mais poderosas da natureza: o amor incondicional das mães.”

Quetzal, 2012

Morreste-me - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 01.05.15

morreste-meSessenta páginas que se lêem rapidamente, mas que provocam efeitos colaterais profundos. Descrever a caminhada final do pai doente, o sofrimento da família, e os seus próprios sentimentos é algo que eu estranho, por ser tão íntimo, mas ao mesmo tempo admiro, porque há-de requerer uma qualquer espécie de coragem contar a toda a gente o privado sofrimento da morte.

Não é ficção. Aconteceu. Foi o primeiro livro de José Luís Peixoto e, mesmo contando que tenha tido uns aperfeiçoamentos pelo caminho (a edição que li é de 2009), é revelador do talento admirável de colocar em palavras sentimentos que nem sempre sabemos pensar, falar, ouvir e, inevitavelmente, escrever. Quem sabe, escrever para ele seja o mais fácil, e por isso o tenha feito, não só como homenagem, mas como necessidade.

É sempre uma carga de nervos escrever sobre quem escreve tão bem. Porque nunca chega. Nunca presta. Nunca saberei exprimir como, em certas páginas, me senti a morrer um pouco, com descrições tão breves, mas pungentes, do que é acompanhar alguém que morre todos uns dias mais um bocado, que sofre num hospital, fazendo a família sangrar por dentro. Mas, ao mesmo tempo, surge a recordação do pai vivo e a felicidade da infância, contrapondo, de forma dura, a ausência numa casa que fica vazia.

Um livro intenso, por vezes violento, que se lê com um prazer imenso, como só se podem ler todos os livros excepcionalmente escritos.

“Comigo, a casa estava mais vazia. O frio entrava e, dentro de mim, solidificava. As várias sombras da sombra de mim, imóveis, passeavam-se de corpo para corpo, porque todos eles, todos meus, eram igualmente negros e frios. E abri a janela. Muito longe do luto do meu sentir, do meu ser, ser mesmo, o sol-pôr a estender-se na aurora breve solene da nossa casa fechada, pai. E pensei não poderiam os homens morrer como morrem os dias? Assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural natural, o silêncio esperado, finalmente justo, finalmente digno.” (Pág. 19)

“Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras.” (Pág. 20)

Sinopse

“Morreste-me, texto que deu a conhecer o jovem escritor José Luís Peixoto, é uma obra intensa, avassaladora e comovente: é o relato da morte do pai, o relato do luto, e ao mesmo tempo uma homenagem, uma memória redentora.”

Quetzal, 2009

Dentro do Segredo - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 21.03.15

9789897220609Um livro que é um duplo prazer - descobrir um país-mistério, escondido, reservado e totalmente distinto do que conhecemos e acreditamos e ler palavras genialmente escolhidas pelo José Luís Peixoto.

Se à partida os livros de viagem não me cativavam, este "Dentro do Segredo" sussurrou-me histórias aparentemente banais que me despertaram a vontade de ler mais outros passeios e aventuras do autor por este mundo fora.

Sobre o conteúdo global, é algo que já se espera devido às informações que chegam, sumárias, sobre a Coreia do Norte. Todavia, os pormenores e as situações vividas e relatadas nos quinze dias desta viagem conseguem ilustrar com detalhes únicos alguns contextos actuais. O autor apresenta locais e traça o perfil de um povo aparentemente humilde, ordeiro, sereno e devoto aos seus líderes. Esta devoção é descrita de um modo tão intenso que se torna chocante por quase perder o individual em detrimento do todo, da massa obediente. O mais perturbador penso que seja a falta de individualidade de cada personagem norte-coreana que cruza a narrativa. Ou pelo menos, é a imagem com que se fica do que é possível apresentar, o que desejam mostrar ao resto do mundo.

... Bem, concluindo, leiam o livro!!! É mesmo muito bom!!!

"Quase me sinto capaz de jurar que houve silêncio absoluto no momento em que entrei em Pyongyang (...) Em silêncio, silêncio as crianças com uniforme de pioneiros, calças ou saias azuis, camisa branca, lenço vermelho atado sobre o colarinho, a correrem. Homens, fardados ou não, a olharem para algum assunto, a pensarem em algum assunto. Mulheres atarefadas, a carregarem sacos (...) E o silêncio dos prédios das fachadas geométricas e cores tristes. Azul-cinzento, verde-cinzento, castanho-cinzento. E grandes letreiros de betão com frases altas, letras brancas sobre fundo vermelho, a dizerem algo com muita força (...) E a ausência de qualquer publicidade (...) Apenas as ruas limpas, a limpeza absoluta. Silêncio."

"Sem sorrir, com ar sério, a Menina Kim disse que estava bom tempo porque se aproximava o aniversário do grande líder. As nuvens eram manchas ténues e raras. O céu tinha infinto, e essas poucas nuvens, sobre ele, eram como o reflexo de folhas novas a flutuarem num lago, davam forma ao azul. O sol, brando, tinha a medida certa de brilho para receber as vozes das crianças que passavam a brincar. O grande líder sabia fazer um bonito dia de Primavera."

"Na Livraria de Línguas Estrangeiras, a grande maioria dos livros à venda eram as obras completas de Kim Il-sung e de Kim Jong-il traduzidas em várias línguas ou obras sobre eles também em várias línguas."

"O Museu das Atrocidades Americanas tinha dezasseis salas. Começámos por aquela em que se explicava como a Coreia do Norte tinha sido provocada pelos americanos. A partir daí, a guia do museu começou a descrever-nos histórias de horror."

"Era raro encontrar bolachas à venda que estivessem dentro do prazo de validade. Entre os pacotes que vi, o recorde pertencia a um prazo que tinha sido ultrapassado havia cinco anos, quase seis. Ainda assim, o mais comum era o prazo ter cerca de um ano, mais ou menos mês."

"A entrada da cooperativa estava rodeada por muros brancos (...) Todas aquelas casas tinham sido construídas havia cinco anos. Oitenta e dois metros quadrados cada uma. Aquela era habitada por quatro pessoas, os pais e dois filhos, um rapaz e uma rapariga. Os momentos mais significativos das suas vidas estavam reunidos num quadro coberto de fotografias e afixado numa parede. Os pais a casarem-se, os filhos ainda crianças, a crescerem, os pais em pose de trabalho e, por fim, o filho no exército e a família à sua volta, com orgulho nítido. Apesar destes detalhes tão pessoais, a casa não parecia habitada (...) Os pais dormiam no quarto, cuja única decoração eram três calendários de parede, um com Kim Il-sung, outro com Kim Jong-il, outro com Kim Jong-suk, a mãe de Kim Jong-il. Na sala, claro, havia uma parede inteira apenas com dois retratos dos líderes. Essa era, aliás, uma marca conhecida de todas as casas norte-coreanas: todas tinham uma parede com retratos dos líderes, que não deveria ter qualquer outra espécie de decoração."

Galveias, de José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 15.12.14

galveias

Sou mais filha dos meus pais, neta da minha avó do que sou eu própria. Pelo menos lá, na aldeia onde nasci. E por isso e porque em cada personagem deste Galveias reconheci os meus, os do passado e os do presente, adorei este livro. Porque o José Luís Peixoto, que nem que queira escreve mal, escreveu tão bem a minha aldeia, cada aldeia deste Portugal, tão igual e tão diferente.

Talvez por me ter sentido em casa, em Galveias, li este livro (quase sempre) com um sorriso. Não é um livro sempre feliz, tem imensos episódios (já vos tinha dito que este livro é mais composto de episódios do que de uma história completa e linear?) divertidos. Nunca terei a certeza de quais são os reais e quais os que moram na imaginação do escritor mas tenho as minhas suspeitas. Afinal há muito por onde escolher: há os irmãos que se zangam uma vida inteira, a professora que é do norte e se farta de dizer palavrões, o Catarino embeiçado pela puta, a puta que também é padeira, o guarda da cortiça, a menina que vai estudar para fora, o dono daquilo tudo, a igreja, o padre que é acima de tudo bêbado, as velhas, as novas, a cadela e a Rosa.... Ai a Rosa, nem me atrevo a falar da Rosa (mas o que eu ri, senhores, o que eu ri). E tudo, tudo, com o "divino" cheiro do enxofre. Pelo menos até que chega o bebé que veio transformar tudo.
Ainda por cima tive o privilégio de ouvir o escritor a falar deste e doutros livros e rendi-me. Depois de não ter gostado por aí além do "cemitério de pianos", de ter gostado bastante do "Livro", fiquei cheia de vontade de ler mais de José Luís Peixoto.

Morreste-me de José Luís Peixoto - Opinião - Livro e Peça de Teatro

Roda Dos Livros, 03.01.14

MORRESTE-ME, José Luís Peixoto ... o livro!MORRESTE-ME, Sandra Barata Belo ... a peça!

Talvez seja curioso, mas desde o dia em que me disseram vamos ver a peça que está no Teatro do Bairro? Que eu disse, vamos! Não sabia ao que ia, mas... Os anúncios à peça prometiam e a divulgação era enorme. Mas mais ainda por se tratar de uma adaptação ao livro "Morreste-me" de José Luís Peixoto. Não que eu o tivesse lido, mas já tinha ouvido falar do mesmo e como, há muitos anos vi uma adaptação de "Antídoto" e adorei, não havia nenhum motivo para não apreciar esta.

Para quem quiser ler ...Para quem quiser ouvir...

Eu tive em mãos para leituras, esta edição, da Temas e Debates (4ª edição, capa vermelho escuro), que tive a sorte de encontrar na Biblioteca Municipal de Alverca ;)

"Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo."
Não começa assim, mas podia começar!
Quem perde sabe que as pessoas que amamos ficam, ficam em tudo, ficam nas coisas em que tocaram, naquelas que construíram para nós, ficam nos locais por onde passámos juntos, as pessoas que amamos continuam a viver lado a lado com a gente, senão todos os dias, pelo menos grande parte, tal como uma parte nossa que morre com elas, talvez a parte que lhes pertencia, a que eles, aqueles que nos amavam, ajudaram a construir.
"Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei
ouvir. A tua voz calada para sempre."
 
Orienta-te!
E orientou-se muito bem! Sandra Barata Belo teve uma excelente interpretação. Todo o seu corpo falava, todos os seus gestos nos arrepiavam... os movimentos que quebravam o apelo ao sentimento, encaixotando-o... catalogando-o! ... e, ao mesmo tempo um desespero disfarçado de garra, um destino onde as sombras, a solidão e as memórias vagueavam junto a quem perdeu e precisa de continuar.
"E pensei não poderiam os homens morrer como morrem os dias? assim, com pássaros a cantar sem sobressaltos e a claridade líquida vítrea em tudo e o fresco suave fresco, a brisa leve a tremer as folhas pequenas das árvores, o mundo inerte ou a mover-se calmo e o silêncio a crescer natural ..."
Curiosa comparação!
Não poderíamos todos nós morrer como morrem os dias!? Aliás, não morreremos todos um pouco ao final de cada dia!? Ou será o sono uma passagem? Ou será a vida, mais tranquila, mais simples... que acompanha o fim de casa dia, essa vida já mais fria, já mais em tons lusco fusco, já mais húmida e com cheiro a terra molhada, a vida que passa de fininho e a gente nem a vê!?
Será a vida um hino à morte!? À morte aos pedaços, à morte lenta e pequena de cada dia!?
Curiosamente, todos os últimos livros que tenho lido retratam a morte, retratam o valor da vida, a importância de estar vivo, mas também a de estar morto e o impacto a morte nos que cá ficam vivos.
A complexidade e o enredo de sentimentos e sensações que a morte e a vida depois de lidar com morte englobam é excelentemente bem representada  tanto pelo texto de José Luís Peixoto, como por todo o composto que foi a interpretação, os cenários, a música, o figurino... mas mais ainda, a fotografia, a luz e as sensações, sabores, cheiros e temperaturas que a peça conseguiu atingir.
O jogo se sensações criado, conseguiu mexer ainda mais fundo, conseguiu entranhar ainda mais a terra debaixo das unhas, a humidade e o frio da campa, ou o peso e a opacidade de empacotar os dias e os sentimentos...
E poderia continuar aqui a subir o pano, mas acredito que valha mais a pena ir lá e ver, cheirar, sentir e, se for caso disso, chorar!
Mas agora vá, arrume-se e orienta-se:
"Vou. Avanço, avanço e regresso. E cada quilómetro, um mês, e cada metro, um dia. Avanço para o que fomos. (...) onde cada quilómetro em frente é um mês que recuo."

Dentro do Segredo - José Luís Peixoto

Roda Dos Livros, 01.05.13

dentrodosegredo“Dentro do Segredo” não será certamente o livro mais sério sobre a Coreia do Norte. A estranheza dos acontecimentos, relatados pelo espírito crítico do autor, várias vezes me fizeram sorrir. Para logo a seguir meditar sobre a tristeza de tantas mentiras; um povo que acredita, ou tem de acreditar, naquilo que de imediato consideramos falso.

Há situações que chegariam a ser hilariantes se não fossem verdade. Locais tão estranhos e improváveis como os seus nomes sugerem, como o Museu da Amizade Internacional, ou uma total devoção ao Grande Líder que obriga a vénias por tudo e por nada, e uma das minhas favoritas, comemorar o aniversário do Grande Líder depois de morto, considerando que viverá para sempre.

Não encontrei neste livro o brilhantismo literário de José Luís Peixoto, mas a verdade é que esta descrição objetiva manteve-me focada no tema e fez-me analisar constantemente as particularidades deste país. Não há distrações para uma envolvência literária superior, o autor mostra a sua polivalência numa narração que não desvia as atenções do seu propósito.

Um livro de viagens muito bem conseguido para quem aprecia o género, o que é o meu caso.

Sinopse

“Desde o interior da ditadura mais repressiva do mundo, desde um país coberto por absoluto isolamento, Dentro do Segredo. Em abril de 2012, José Luís Peixoto foi um espectador privilegiado nas exuberantes comemorações do centenário do nascimento de Kim Il-sung, em Pyongyang, na Coreia do Norte. Também nessa ocasião, participou na viagem mais extensa e longa que o governo norte-coreano autorizou nos últimos anos, tendo passado por todos os pontos simbólicos do país e do regime, mas também por algumas cidades e lugares que não recebiam visitantes estrangeiros há mais de sessenta anos.A surpreendente estreia de José Luís Peixoto na literatura de viagens leva-nos através de um olhar inédito e fascinante ao quotidiano da sociedade mais fechada do mundo. Repleto de episódios memoráveis, num tom pessoal que chega a transcender o próprio género, Dentro do Segredo é um relato sobre o outro que, ao mesmo tempo, inevitavelmente, revela muito sobre nós próprios.”

Quetzal, 2012