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Roda Dos Livros

«Butcher's Crossing» de John Williams :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.12.15

"A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."

500_9789722058421_Butchers CrossingÉ nas palavras de Ralph Emerson que melhor se resume o que encontramos no enredo que John Willians cria e que torna a Natureza, a paisagem, os animais e o Oeste nas personagens mais vívidas e impactantes deste romance.

«Butcher's Crossing» revela uma América profunda, numa busca pela vastidão do Oeste, já ameaçado pelo avanço da sociedade moderna que começava a impor barreiras à própria Natureza. Um jovem de Harvard, cansado da sua vida académica e urbana, pretende enfrentar as provações e descobrir por si, as experiências que só uma expedição nas montanhas lhe poderá dar e na procura por um mentor, chega até Butcher's Crossing para ter a experiência de uma vida.

Apesar de todo o encantamento que as descrições minuciosas nos causam, há todo um relato de solidão, vazio e dureza que quase causam dor e desconforto no leitor. O frio é inquietante ao ponto de o sentirmos. A passagem das estações do ano demarcam muito bem a passagem do tempo. Longo e infinito, numa demanda diária, numa luta desigual. É apenas o vazio que preenche o tempo que passa entre aqueles homens que apenas partilham um espaço exíguo quando existe toda a vastidão de um vale ou de uma montanha, mesmo ali à mão, mas a barreira imposta pelos rigores da natureza são esmagadores e fazem alterações profundas no Eu que ainda estava por descobrir em Will Andrews.

A invulgar carnificina que mancha a brancura que invade grande parte deste livro, acompanhará o leitor até ao final, a mim acompanhou-me. Na sinopse lemos que o que nos deslumbrará será a natureza humana, no entanto, a Natureza propriamente dita, no seu estado mais puro e violento eleva cada personagem, cada homem a um limite que altera o curso de cada uma daquelas vidas de forma visceral. No entanto, para mim, é a Natureza a verdadeira personagem deste livro. É com ela que nos deslumbramos.

A leitura deste livro surge após uma leitura compulsiva e viciante que obtive com «Stoner» e compará-los é difícil, mas foi impossível não o fazer. A perícia da escrita de Williams mantêm-se, aliás, apura-se, bem mais que em Stoner, mas Stoner tem todo um ambiente literário que o coloca num outro patamar perante as minhas escolhas. Ainda assim, o preciosismo que John Williams coloca nos detalhes das longas descrições que faz dos dias em que os homens aguardam pela caçada ou lutam contra a intempérie poderiam tornar-se enfadonhos ou desmotivantes, mas não, são esses momentos descritivos que abrilhantam o enredo e envolvem o leitor, tornando também este um grande livro. Outra comparação que senti necessidade de fazer foi com «O Deserto dos Tártaros» de Buzzati, mas julgo que é mesmo a escrita de Williams que me leva a isso. Apesar de todo o detalhe quase obsessivo com que Williams carrega os seus livros, há todo aquele deserto interior que povoa as vidas das suas personagens e isso liga-me sempre ao relato inóspito da vida de Giovanni Drogo.

STONER de John Williams - Opinião

Roda Dos Livros, 01.12.14

Começarei por um detalhe, um a que cada vez dou mais importância, por cada vez desconfiar mais ;) a capa!A multiplicidade de capas que encontramos para esta obra de John Williams, revelam um cuidado extremo, quem as seleccionou, reuniu nelas a singularidade, a autenticidade, a persistência e a tenacidade que o próprio autor deu à sua personagem. William Stoner é um exemplo de resiliência, a sua força é profunda e talvez seja por aí que nos agarramos e nos deixamos levar, até que nos confrontamos com o fim e prestamos-lhe um certo culto.

Apesar de logo ao início toda a história apontar para Stoner como um homem que morreu sem deixar grande marca ou sem ser recordado com grande nitidez, julgo que ele causa exactamente o oposto no leitor. Ao lê-lo recordei algumas ideias e imagens que me assaltaram aquando da leitura de "O Deserto dos Tártaros" de Dino Buzzati. Há também aqui um certo deserto, talvez não tão permanente, mas a mesma falta de apego, de relações interpessoais, de objectivos subvertidos... mas por outro lado, há como que o encarar da vida como uma peregrinação singular, sem atalhos para voltar atrás, sem lugar a arrependimentos (que existirão, é certo!). Há um olhar a vida juntamente com os seus obstáculos, aqueles que podemos contornar e deixar pendentes e aquelas que nos surpreendem e que queremos mesmo galgar, ignorando a dificuldade, esperançosos apenas do que haverá do lado de lá.

Não sei se sou bem sucedida com a metáfora que escolhi, mas interpretar a mensagem nas entrelinhas de Stoner, foi para mim tão pessoal quanto o ensinamento que podemos retirar da mensagem de Buzzati. Para mim, ambos grandes livros, como mensagens duras que revelaram também muito do entendimento dos autores para a vida, a deles e a dos demais. Não digo que quem lê um tenha, obrigatoriamente de ler o outro, mas eu liguei-os muito.

Ultrapassando a introspecção a que o livro me levou, o autor é exímio em também nos fazer sentir um maior carinho pelos livros e pela literatura. Stoner teria nos seus livros uma maior herança do que aquela que a vida que escolheu lhe deixaria. A prisão de um casamento, o afastamento da filha, a perda de entusiasmo, a doença, a falta de amigos, tudo deixou a sua nódoa, a sua cicatriz, mas perder as suas capacidades ou lutar contra o esquecimento era uma ferida demasiado grande.

“Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.”
Todo este livro um culto à literatura. É o poder redentor da paixão pelos livros, pela educação, pelo passar da palavra, da mensagem e das transformações que operam nas pessoas. Há uma amizade e uma paixão criadas através do gosto e do prazer que se tem pelos livros. É assim (inicialmente) com a filha e com alunos, mas também com alguém muito especial que nos faz ter um olhar inovador e quase desenfreado para este personagem até então, tão espartano e até melancólico.

Neste relato muito lúcido e até despojado, vemos, a certo ponto, o desfiladeiro, o abismo, a prova derradeira que a tal peregrinação terá de atravessar e aí lembrei-me de "Um Homem Singular", do quanto torci pelo personagem... nós sabemos que não vai dar certo, que existem obstáculos que causam sofrimentos atrozes e incuráveis, mas admiramos tanto a honestidade do personagem que queremos que ele vença.

Os livros não o acompanharam toda vida, mas a maior parte dela e ainda assim houve solidão, uma solidão que alimentou fragilidades, angústias e desamor, mas também foi essa solidão que lhe abriu portas à tolerância e a uma certa ingenuidade, mascarando o lugar frio que é mundo é, permitindo-lhe a paixão e a livre vontade do pensamento.

"Stoner" de John Williams

Roda Dos Livros, 01.11.14

 

Stoner

 

À primeira vista, este parece ser apenas mais um livro perdido na torrente editorial dos nossos dias; um volume discreto, talvez até banal. No entanto, “Stoner” é um excelente exemplo do romance, de uma história sobre pessoas comuns, com vidas vulgares, sem talentos ou dons extraordinários, cujos anseios e preocupações são iguais aos de todos nós. Não me parece estranho que este livro tenha tido um percurso tão discreto quando da sua primeira publicação em 1965. Um romance de época sobre a vida de um apagado professor universitário, passado no início do século XX, não seria, talvez, uma obra muito apetecível num período caracterizado por intensas mudanças nos paradigmas sociais nos EUA , como por exemplo, os movimentos “hippie” e de luta contra a guerra do Vietname assim como pelos direitos civis da população negra. Toda esta agitação social foi acompanhada pela efervescência de um frenesim criativo, nas artes e nas ideias, que procurava desbravar novos rumos, rompendo com as normas vigentes, e onde uma obra como esta facilmente se diluiu.

A resiliência lúcida e tranquila do seu protagonista, o seu amor pela literatura e pelos livros , bem como o estilo simples, recatado, talvez até despojado, da escrita do seu autor encantaram-me e emocionaram-me profundamente. Tal como uma pequena pedra arremessada às águas serenas de um lago cujo embate produz um belo padrão de círculos concêntricos, “Stoner” consegue gerar no leitor uma intensa cascata de emoções, tornando-se assim numa leitura muito interessante e, sem dúvida alguma, marcante. Não consigo deixar de ficar fortemente impressionada por essa capacidade notável que alguns autores, entre os quais John Williams, têm em transmitir uma panóplia imensa de emoções profundas através uma escrita fluida, simples, quase ascética e, afortunadamente, isenta de lamechices e sentimentalismos fáceis e ocos.

Um livro a reter, a ler e a saborear, sobretudo para os irremediáveis amantes dos livros e da literatura.

Saibam mais sobre "Stoner" lendo as opiniões da Márcia e da Sónia.

Excertos:

“Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.”

“(...) que a pessoa que amamos no início não é a mesma que amamos no fim, e que o amor não é uma meta mas sim um processo através do qual uma pessoa tenta conhecer outra.”

“As suas vidas tinham sido gastas numa labuta sem alegria, as suas vontades domadas, as suas inteligências embotadas. Agora, estavam na terra à qual haviam dado a vida e, lentamente, ano após ano, a terra tomá-los-ia.”

 

 

 

Stoner - John Williams

Roda Dos Livros, 25.10.14

Um livro quStonere andou perdido durante 50 anos e foi depois redescoberto e aclamado por leitores e autores consagrados como uma obra-prima? Curioso. Comecei a lê-lo muito pouco convencida de que fosse assim tão extraordinário. Mas... tive duas surpresas: primeiro, fiquei agarrada ao livro da primeira à última página. Depois, ao longo de toda a leitura, tive a sensação nítida, por vezes quase palpável, de que há algo nesta obra que é realmente fora de série. Algo muito invulgar, que ultrapassa largamente a experiência normal de ler um livro, mesmo um livro de qualidade; algo que se nos introduz debaixo da pele e ali fica, incómodo como um corpo estranho, acrescentando um não sei quê indefinido àquilo que éramos antes.

Não é apenas a escrita. A escrita é bela como todas as coisas simples e escorreitas e transmite a mensagem com uma clareza por vezes assustadora. Mas não é só isso. Também não é só a pungência do relato - a vida de Stoner é, na verdade, uma sucessão de oportunidades perdidas por falta de combatividade do protagonista, mas está longe de se reduzir a isso. Para mim, o que há aqui de tão profundamente perturbador é a perspectiva inesperada sobre a definição de conceitos-chave de qualquer vida humana, como o fracasso ou a felicidade.

À primeira vista, Stoner é um fraco que se deixou levar pelas circunstâncias da vida sem nunca conseguir combatê-las. Foi para a universidade por imposição dos pais e para professor por sugestão de um mestre. O seu casamento falhou porque nunca conseguiu aproximar-se da mulher nem criar com ela qualquer tipo de intimidade, amizade ou cumplicidade. Perdeu a companheira que realmente amava porque não teve a coragem de assumir a relação perante o mundo. Deixou que a mulher infernizasse a vida da filha para o ferir, porque não foi capaz de lhe fazer frente quando isso se impunha. E, como todos os fracos, encontrou um escape que o ajudou a abstrair-se de todos os seus fracassos - no seu caso, felizmente foi algo nobre como a paixão pela literatura e pelo ensino.

Acontece que, à medida que vamos lendo, algo de muito estranho vai acontecendo. A pouco e pouco, vamos interiorizando a visão de Stoner sobre a vida. Vamos absorvendo o seu olhar sobre o que o rodeia. E começamos a sentir, mais do que a compreender, a paz que a sua postura gera em todas as circunstâncias. O que não significa ausência de sofrimento. Significa apenas que tanto a alegria como a tristeza são vividas com uma tranquilidade que permite a instrospecção. E permite ainda outra coisa: manter o ruído causado pelos desgostos e agruras da vida sempre abaixo de um determinado nível, acima do qual só se permite que uma única emoção extravase - a paixão, geralmente sob a forma de paixão pela aquisição e transmissão do conhecimento. E, assim, apesar de a vida de Stoner denotar todos os sinais exteriores de um fracasso em todas as frentes, somos obrigados a reconhecer que Stoner foi, maioritariamente, feliz. Então, o fracassado será ele ou quem vive para o sucesso exterior sem nunca alcançar a felicidade?

A serenidade de Stoner é particularmente notória quando a morte se aproxima. Qual de nós não desejaria viver os seus últimos momentos com a mesma imperturbabilidade com que Stoner viveu os seus? Mas afinal... Stoner não era um fraco?

Excertos:

"Terceiro Ato, Cena quatro - disse Masters. - E, assim, a providência, ou a sociedade, ou o destino, ou seja qual for o nome que lhe quiserem dar, criou este telheiro para nós, para nos abrigarmos da tempestade. É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo; não para os estudantes, não para a busca altruísta do conhecimento, não por nenhuma das razões que vocês ouvem. Enumeramos as razões e deixamos entrar alguns dos normais, aqueles que se safariam bem no mundo, mas isso é só para disfarçar e nos protegermos. Tal como a Igreja na Idade Média, que se estava nas tintas para a laicidade ou inclusive para Deus, também nós temos as nossas pretensões para podermos sobreviver. E sobreviveremos... porque temos de o fazer." (pág. 32-33).

"Enterrou-a ao lado do pai. Terminada a cerimónia fúnebre, e depois de os poucos convidados terem partido, Stoner ficou sozinho, no vento frio de novembro, a olhar para as duas campas, uma aberta, tendo acabado de receber o seu fardo, e a outra coberta de terra e ervas penugentas. Virou as costas ao pequeno cemitério árido e sem árvores, onde jaziam outras pessoas como os seus pais, e olhou para a extensão de terra plana, na direção da quinta onde nascera, onde os pais tinham passado a vida inteira. Pensou no preço que a terra, ano após ano, exigira; e continuava como sempre fora... um pouco mais árida, um pouco mais frugal. Nada mudara. As suas vidas tinham sido gastas numa labuta sem alegria, as suas vontades domadas, as suas inteligências embotadas. Agora, estavam na terra à qual haviam dado a vida e, lentamente, ano após ano, a terra tomá-los-ia. Lentamente, a humidade e a putrefação infestariam os caixões de pinho que continham os seus corpos e, lentamente, tocariam a pele deles e, por fim, consumiriam os últimos vestígios da sua essência. E eles tornar-se-iam uma parte insignificante dessa terra obstinada à qual se tinham entregado de corpo e alma, havia muito." (pág. 100)

2014, Publicações D. Quixote

Stoner - John Williams

Roda Dos Livros, 19.10.14

StonerAssim de repente nada de especial. Se calhar um bocado chato para alguns, um livro sobre a vida académica de um tal de William Stoner, de quem nunca se ouviu falar. A publicidade e divulgação de “Stoner” deixou-me atenta, até porque há citações difíceis de ignorar: “É uma coisa ainda mais rara do que um grande romance - é o romance perfeito, tão bem contado, tão bem escrito, tão comovente que nos corta a respiração.” (New York Times)

Algo me disse que seria um livro candidato a “O Livro”. Não encontrei ainda o livro da minha vida, mas com Stoner percorri mais uns passos do caminho.

Escrito na década de sessenta e esquecido até agora, “Stoner” renasce numa época de boom editorial, em que é difícil (ou mesmo impossível) acompanhar tudo o que sai para o mercado diariamente. Acho estranho mas fico feliz. Estranhamente feliz por um livro tão simples brilhar neste caos de publicações “a martelo”. Uma escrita cuidada e bonita, sem artifícios desnecessários, que me preencheu e alimentou uma fome de algo diferente.

Uma leitura sentimental, pois quem não entender William, quem não se emocionar e identificar com as suas descobertas, terá apenas uma sucessão de palavras por companhia ao longo de duzentas a sessenta páginas. A mim disse-me muito. A forma quase acidental como um rapaz do campo vai para a Universidade e um dia descobre a Literatura, acontece de modo tão absurdo que é genial. O inesperado apanha os sonhadores de surpresa, neste caso os que sonham maioritariamente com livros.

Calado. Observador. Trabalhador rural quando jovem, as tarefas mecânicas fazem-no o mais improvável académico. Uma vida familiar vazia, o típico “agir sem pensar” e “pertencer ao rebanho”. Um casamento sem sentido alimenta a frustração e a infelicidade. Stoner não sabe reagir à vida, ela passa por ele numa sucessão de erros. Um ambiente soturno que os anos não melhoram, até agrava. Está mergulhado em solidão e tristeza. O ambiente ideal para que a pequena luz da sua vida brilhe ainda com mais força. Ler, estudar, aprender e ensinar são as suas razões para seguir em frente. É feliz no seu escritório onde pode passar todas as horas do dia isolado do que não entende e lhe provoca dor.

Um tipo esquisito a dar para o eremita. Um estudioso que precisa de se entregar ao trabalho. Um homem sem referências à procura do seu meio. Cada leitor verá Stoner de forma diferente. Eu vejo-o como um ser humano que se entrega sem reservas ao que o faz feliz. Pouco se aproveita da sua vida, o que faz com que o seu amor incondicional aos livros e a sede de saber se tornem um refúgio especial e único. À medida que o falhanço contamina a sua existência, a vocação, que uma vez descoberta nunca abandona, dita o seu percurso. O percurso que conta.

Excelente. Recomendo sem reservas.

“Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mão grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, de capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitadas, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.” Pág. 18;

“Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.” Pág. 28;

“Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria… esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho.” Pág. 104;

Sinopse

“Romance publicado em 1965, caído no esquecimento. Tal como o seu autor, John Williams - também ele um obscuro professor americano, de uma obscura universidade. Passados quase 50 anos, o mesmo amor à literatura que movia a personagem principal levou a que uma escritora, Anna Gavalda, traduzisse o livro perdido. Outras edições se seguiram, em vários países da Europa. E em 2013, quando os leitores da livraria britânica Waterstones foram chamados a eleger o melhor livro do ano, escolheram uma relíquia.Julian Barnes, Ian McEwan, Bret Easton Ellis, entre muitos outros escritores, juntaram-se ao coro e resgataram a obra, repetindo por outras palavras a síntese do jornalista Bryan Appleyard: "É o melhor romance que ninguém leu". Porque é que um romance tão emocionalmente exigente renasce das cinzas e se torna num espontâneo sucesso comercial nas mais diferentes latitudes? A resposta está no livro. Na era da híper comunicação, Stoner devolve-nos o sentido de intimidade, deixa-nos a sós com aquele homem tristonho, de vida apagada. Fechamos a porta, partilhamos com ele a devoção à literatura, revemo-nos nos seus fracassos; sabendo que todo o desapontamento e solidão são relativos - se tivermos um livro a que nos agarrar.”

D. Quixote, 2014