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Roda Dos Livros

«O Bom Inverno» de João Tordo :: Opinião

Roda Dos Livros, 19.07.18

Frustrado, cínico e hipocondríaco, o narrador: um escritor entregue à melancolia e a um certo ócio, está descrente do poder da literatura. Céptico com o poder dos livros e das suas histórias e, igualmente pessimista com o que a realidade tem para lhe oferecer.

"Se antes eu era um pessimista, depois de comprar a bengala passei a ser um cínico. Um homem novo com uma bengala podia dar-se ao luxo de desprezar o mundo e, assim sendo, eu tencionava aproveitar a oportunidade para ajustar contas com a realidade."

Apoiado na bengala que recentemente adquirida, o narrador escritor larga o conforto anestesiante do seu apartamento e segue em direcção a um enigma oferecido por Vincenzo e um grupo de jovens escritores com quem se encontra numa palestra internacional.

Com alguma cobardia e sem grande determinação, o destino é a idílica Itália, com o objectivo de conhecer uma prometedora sumidade do cinema e das artes em geral, Don Metzger e usufruir de uma temporada de Verão na sua casa com a promessa de algumas peripécias e acontecimentos inesperados.

"Sabaudia é um lugar estranho, que cai algures entre o cinema realista italiano aprovado por Vittorio Mussolini, filho do grande ditador, e o melhor surrealismo de Fellini. Difícil de explicar. A cidade foi mandada construir por Mussolini em cima de uma vasta extensão de pântanos drenados (...) «Um lugar bizarro»"

E num lugar bizarro espera-se que aconteçam coisas igualmente bizarras. Vicenzo esperava-o e silenciosamente o escritor desesperançado também, nem que fosse alguma curiosidade que Nina despertava nele para um ajuste de contas com a realidade. Juntos rapidamente se vêem enredados num crime, uma morte seguida de outra, como num jogo viciado ou envolvido nos meandros da máfia.

"Cauteloso era um eufemismo para aquilo que eu me tornara; na verdade, eu desistira, permitindo que a indiferença vencesse.

Ajustar contas com a realidade escusando-me de existir, e um homem que se escusa voluntariamente a existir sucumbiu ao apelo da fraqueza, ou da cobardia, ou da ausência..."

Um homem que se escusa voluntariamente a existir, mas que mesmo assim seguiu aquele grupo, embora esteja coxo, deprimido, cansado, não é um homem que abandona tudo por completo. É sim um cínico, um escritor camuflado na lentidão da bengala, na soberba de captar os melhores detalhes para um enredo refinado e primoroso como os balões de ar quente que dão pano de fundo a esta narrativa, juntamente com a voluptuosidade de um bom inverno e o misticismo da floresta.

"O Verão instalou-se na sua grandeza e também na sua miséria. A noção de que pouco havia a fazer naquele momento infundiu nas almas uma entranha apatia e, ao mesmo tempo, de uma urgência em regressar ao quotidiano (...) e partilhavam-no com quem quer que se encontrasse por ali (...) e os seus silêncios eram longos, melancólicos e pesados."

*

Desde «A biografia involuntária dos amantes» que um livro do Tordo não me prendia tanto ao enredo e ao narrador. Há como que uma salvação pessoal apegada à salvação dos outros, sempre voluntariamente disfarçada, um pouco cobarde, um tanto cínica, numa procura constante pelas miudezas que dão sentido à vida.

O Luto de Elias Gro de João Tordo

Roda Dos Livros, 30.01.16

Não foi o primeiro livro de João Tordo que li. Sei que gostei dos outros mas não consigo comparar essas leituras e a sua escrita com este livro. Tão pouco importa, não é? Gosto da sua forma de escrever e tive prazer neste Luto de Elias...

Quem nos conta esta história não é Elias, um homem de fé, o pastor de uma pequena ilha com poucos habitantes. É o narrador, ao qual nunca chegamos a saber o nome, que nos fala na primeira pessoa e nos conta a sua história. Chegado à ilha procura a paz e indiferença que a solidão pode trazer, certo de que nada mais o espera, senão a morte, depois de ter perdido quem mais amava.

Este processo de luto, este abandono interior, essa vontade de nada fazer que o assola, arrasta-o para situações extremas. Junto com este relato, o narrador fala-nos de Elias, da sua filha Cecília, de Alma e de outros habitantes dessa ilha que o acolheu. Ficamos presos a esse declínio que assistimos, sem nada poder fazer, e partilhamos dos seus momentos de dor e de um certo desleixo também.

E ficamos a saber que muitas pessoas à nossa volta fazem o seu luto também. Às vezes é mais pessado que o nosso, ou pelo menos tão igualmente intenso. Foi uma das coisas que o narrador ficou a saber também.

O final é intenso, arrebatador. João Tordo encontrou a medida certa de o terminar! Gostei muito deste final que achei perfeito!

Estrelas: 4*+

Sinopse

Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais.

A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.

O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.

O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.

O Luto de Elias Gro - João Tordo

Roda Dos Livros, 24.01.16

OlutodeEliasGroO Luto de Elias Gro é o terceiro livro que leio do João Tordo, contudo é o primeiro que me consegue verdadeiramente maravilhar. Não me vou alongar. Não vale a pena, pois não será suficiente. Das frases perfeitas, às palavras escolhidas com engenho, passando pela habilidade das descrições completas e muito belas, que me falaram repletas de emoção, e que eu fui recebendo com prazer e espanto, na calma de cada página lida (e por vezes relida), assimilando o estranho sentido da dor de um homem que conta tudo menos o seu nome.

Passagens sublimes sobre a solidão, sobre a necessidade de estar só, no silêncio, para ouvir o que tem de ser ouvido, no mais profundo de si.

Eu comecei este livro três vezes. Por ter um início tão belo, eu quis repetir o entusiasmo da descoberta, senti que seria muito especial e guardei-o o tempo que pude. Pegava-lhe de vez em quando e sorria com o sofrimento da procrastinação, com o adiamento, com o desejo, com a certeza (que tinha sem saber porquê) que o leria ininterruptamente pelas páginas que o tempo e a vida me deixassem. E foi assim mesmo que o li, com a entrega que este livro merece.

Termino este texto sentindo-me pequena. Sentindo que não produzi uma opinião válida, que não menciono lugares ou personagens, o como ou o porquê. E eu sou mesmo muito pequena ao pé deste livro. Mas no fim fiquei muito mais completa, porque senti um enriquecimento brutal como leitora depois de virar a última página.

“Mas eu entendo-o. A incómoda presença dos outros nas nossas vidas. Às vezes é uma chatice ter de os aturar. Não vale a pena negar, há dias em que acordamos para estarmos longe das pessoas.” (Pág. 68);

“Se os homens se definissem pelas suas profissões, não precisaríamos de nomes. Seríamos o engenheiro número trezentos e quinze e o padeiro seis milhões e meio. Basta que saibam que, dos vinte e dois aos quarenta anos, construí, na cidade, uma carreira de algum prestígio numa determinada profissão e que, a partir dos quarenta, abandonei a cidade e a carreira e fui viver para uma ilha ao largo de uma península, extensão de um continente que não era o meu.” (Pág. 78);

“Escrever mantém-me sóbrio e ajuda-me a preservar a confiança neste caminho de que vos falei. Um homem é refém dos seus segredos até os pronunciar em voz alta; depois, devolvendo-os a Deus numa oração ou numa litania dos aflitos, eles rapidamente se revelam como aquilo que verdadeiramente são: criaturas invertebradas e informes que se escondem atrás do Medo.” (Pág. 151);

“Prossegui pelo litoral enquanto a luz descobria a bainha do céu. Constatei que, embora no centro do meu peito existisse um buraco imenso, aquela liberdade dava-me prazer. Não tinha lugar aonde ir nem ninguém a quem prestar contas; não tinha casa nem família. A melancolia deixara de me incomodar, éramos velhos amigos e, a partir de certa altura, já nada se consertava. Pedalei durante algumas horas pela ilha. Ora a ritmo de uma marcha, ora esforçado numa ladeira; por vezes encontrava a tranquilidade de um terreno plano e deixava a bicicleta fazer o seu trabalho, aproveitando o embalo. Passei pelo farol, mas não me detive; era um lugar ensombrado, habitado pelos restos de uma civilização proscrita.” (Pág. 230);

Sinopse

“Numa pequena ilha perdida no Atlântico, um homem procura a solidão e o esquecimento, mas acaba por encontrar muito mais. A ilha alberga criaturas singulares: um padre sonhador, de nome Elias Gro; uma menina de onze anos perita em anatomia; Alma, uma senhora com um coração maior do que a ilha; Norbert, um velho louco que tem por hábito vaguear na noite; e o fantasma de um escritor, cuja casa foi engolida pelo mar.O narrador, lacerado pelo passado, luta com os seus demónios no local que escolheu para se isolar: um farol abandonado, à mercê dos caprichos da natureza - e dos outros habitantes da ilha. Com o vagar com que mudam as estações, o homem vai, passo a passo, emergindo do seu esconderijo, fazendo o seu luto, e descobrindo, numa travessia de alegria e dor, a medida certa do amor.O luto de Elias Gro é o romance mais atmosférico e intimista de João Tordo, um mergulho na alma humana, no que ela tem de mais obscuro e luminoso.”

Companhia das Letras, 2015

«O luto de Elias Gro» de João Tordo :: Opinião

Roda Dos Livros, 18.09.15

Em «O luto de Elias Gro», um homem procura a solidão, mas encontra em pessoas singulares todas as razões para não se refugir na frieza das paredes redondas que o abrigam, que lhe devolvem os pensamentos que ele mais quer afastar, Numa ilha isolada e que resiste a diversos sofrimentos, também outras pessoas procuram esquecer o que mais os atormenta. Mas como conseguirão todas estas pessoas conviver com o sofrimento alheio? Falando, desabafando ou simplesmente continuando e tendo, indirectamente, acções, umas mais involuntárias que outras e que salvam, salvam os outros de si mesmos e da sua profunda dor e depressão.
"(...) era isso que eu mais desejava: cancelar as palavras que, em liberdade, sussurravam às palavras seguintes, até formarem uma teia que se urdia em meu redor, cada palavra segregando, na sua esteira, o fio que a unia à palavra seguinte (...)"
Na verdade, João Tordo não silenciou as palavras, tornou-as só taciturnas, sós, guturais e meio abandonadas. Foi isso que ele fez. Cancelou a vida do narrador, de Elias, de Cecília, de Alma e de vários outros, num arquipélago esquecido no tempo. Embora as palavras pudessem ter vontade de silêncio e angústia, o lugar em si, incitava-os à comunicação, à partilha e a uma menor solidão.
João Tordo traz-nos um relato de dor, de sombras, num ambiente húmido, revolto e abandonado.
"Os meus olhos buscavam-no por toda a parte, e o mundo não mo devolvia. Cheguei a odiar todas as coisas, porque nada o continha."
 
Palavras de Santo Agostinho para tentar aquietar a inquietação e a busca incessante por algo maior, por algo que apaziguasse a ira e a dor, a ausência e a morte. Que do céu ou de outro lado, viesse a salvação ou o inferno, mas viesse algo que os salvasse.
"Uma intempérie é uma necessidade de revolta dos ventos. Uma ilha é um excesso de terra com nome."
Resultado de que excesso serão estas personagens? Ou de que excesso são feitas as mágoas e a dor que os consome? Que dores intermináveis são estas que os corrói sem clemência?
"Por alguma razão Noé construiu uma arca na forma de um barco. (...) Já nesses tempos se sabia que a água, que é vida por dentro quando a bebemos, corrói tudo por fora."
As lacerações do passado tem vindo a afundá-los, enraizando-os no medo. Bruscamente presos às memórias estas personagens sentem demasiado o passado e negligenciam o futuro, talvez o único elo com aquilo que possa ser um objectivo, uma centelha de esperança, seja reerguer a casa das águas.
"Deixou também a solidão que se instalara desde que possuía o dom da memória, a convicção invencível de que era, ele próprio, uma ilha. Não deixou de ser uma ilha; contudo, ao habitar uma, a solidão apresentou-se-lhe como o único modo de vida, desintegrando-se neste e permitindo-lhe sobreviver naquele mundo confinado por fronteiras delimitadas por um criador ausente."
Ausente, mas Deus está a 2km!!!
Talvez este seja um relato de procura pela fé e pelo caminho a percorrer, mesmo sem grandes certezas, aceitando, confiando e negociando a perda de ingenuidade sem que a solidão ou a mágoa nos corroa totalmente.
"Tal como Elias (...) procurava a fé; essa palavra que significa tudo e não significa nada, (...) que transforma os homens, mas deixa intacto o mundo."

"Biografia Involuntária dos Amantes" - o retorno aos livro de João Tordo - Opinião

Roda Dos Livros, 24.11.14

Biografia involuntária dos amantes talvez seja um livro para não compreender. Ou melhor, não compreendemos toda esta voluntariedade que esta submersa numa vontade obscura e meio distorcida do personagem principal em sofrer as dores alheias.
O enredo tem um fio condutor um tanto alucinante. Se pelo início, colidimos com inúmeras questões de verosimilhança, mais tarde abdicamos das dúvidas e deixamo-nos viajar por Pontevedra e Santiago de Compostela e deleitamo-nos com a aproximação entre duas pessoas, que o acaso e a empatia juntou.
Se a persistente melancolia de Saldaña Paris é como que uma rota de colisão entre o passado, o presente e o futuro. ..
....
"A essa melancolia chamamos vida adulta." (pp.94)
Não deixa então de ser curioso que essa vida adulta seja então tão insípida e vaga, oca e cheia de ecos, que fazem o narrador e personagem central, se é que tem melancolia suficiente para ser central, abandonar a sua vida adulta. Parte ao desconhecido, meio ao abandono em busca de algo tão vasto, como o rasto do amor de um homem por uma mulher.
"A melancolia é impossível de combater porque, a partir do momento em que nos aventuramos no mundo, teremos sempre saudades de tudo. De tudo. Do que fizemos e do que não fizemos, de quem se cruzou no nosso caminho e de quem jamais conseguiremos encontrar. Cuidar das plantas no nosso jardim é prolongar a existência a criaturas que hão-de morrer quando nos esquecermos delas; é querer fazer com que o amor dure mais tempo para, quando nos virmos livres desta vida de uma vez por todas, partirmos de coração a transbordar de tudo o que deixamos para trás." (pp.408)
Esta leitura, parte de um estranho altruísmo. Um amor ao próximo que não é senão o amor a nós mesmos. Uma luta pela maior e mais profunda interiorização do que somos ou do que podemos ser.
O que me leva a perguntar: até que ponto, quando ajudamos o outro, não nos estamos a ajudar a nós mesmos?
Dessa divagação chego à palavra que maior enigma me traz perante o título, involuntária. É voluntário, é voluntariado! Foi nisso que eu pensei. O narrador meio incógnito, um locutor, um professor, marido, pai, o pai da Andreia é um voluntário na organização e rumo da vida alheia. É nesse acto, quase missionário - ou não surgisse Santiago de Compostela como destino - que um homem, parte em missão pela vida de outro homem.
Parece inocente, mas é quase como se na força da perseverança de um se salvasse o amor à vida de outro e no seu somatório se salvassem uma série de vidas e de amores. Como se algo mágico e místico, equilibrasse, com uma grande mão, o balanço frágil com que o mundo avança.
Será esse o gatilho? Será esse o segredo? Ou será mais uma questão estúpida e dotada de um enorme grau de hipocrisia...
 
"O mundo tinha a consistência da água e, por mais perfeita que fosse a concha que formássemos com as mãos, essa água era impossível de reter." (pp.366)
Fazia tempo que não pegava num livro do Tordo, mas este foi uma surpresa. Uma leitura incessante!
Uma edição Objectiva/Alfaguara.
Para ouvir na TSF, no Livro do Dia

Biografia involuntária dos amantes, de João Tordo

Roda Dos Livros, 07.06.14

biografiaHá o amor. E depois há algo a que muitos chamam amor, que consideram amor mas que mais não passa de loucura ou de obsessão ou simplesmente de solidão. Por vezes a ideia do amor é tão forte que a nossa própria história se transforma para dar lugar à história de uma amor inexistente, ou que existe somente dentro de nós. E convencemo-nos que sempre assim foi. E por este “desamor” somos capazes de perder tudo, a vida ou pior... perdermo-nos na nossa própria vida.

E depois há o momento. Ou os momentos. Aqueles momentos que mudam o curso de uma vida. Aqueles momentos banais, que nos apanham desprevenidos, sem defesas e que, simplesmente, nos transforma noutra pessoa.

E ainda há o sentido da vida. Aquele que nos faz acreditar num futuro. Aquele que nos faz ter orgulho em nós próprios, que nos ancora à vida.

A primeira metade deste livro não foi fácil de ler. Custou-me. A história não me prendeu, nem sei bem porquê. Talvez o tom acinzentado do livro me tivesse incomodado numa altura em que tinha tão pouca disponibilidade para ler.

Mas a verdade é que depois a li tudo num instantinho. E gostei. Mais ou menos. É que raramente se fala de coisas bonitas neste livro. Viramos páginas à procura dos porquês, sabendo que estes são feios, macabros. Afinal sabemos o final pouco tempo depois de termos começado o livro. Ou pelo menos é disso que a sinopse nos convence. Mas depois descobrimos que não.

Depois de ler este tipo de livro e de deixar assentar a poeira fico sempre com a sensação de que estou a fazer um grande filme ao imaginar segundos (e terceiros sentidos), histórias atrás de histórias e que na realidade o autor não quis nada fazer jogos de palavras, quis mesmo foi contar uma história linear (bem, mais ou menos) em que um professor universitário, de quem me “foge” o nome - tenho para mim que nem sequer foi mencionado no livro ou se calhar foi, muitas vezes, e eu é que deixei passar para depois ver alguma ironia nisso mesmo – e que vai à procura de respostas pelos 4 cantos do mundo e acaba por nos contar “ a biografia involuntária” de dois amantes e de algumas personagens que os rodeiam.

De qualquer forma, e sendo extremamente egoísta, a verdade é que o importante é o que o leitor lê no livro. Tenho para mim que raramente (pelo menos se considerarmos os bons escritores) coincide com a ideia que os escritores tinham em mente mas não faz mal. É essa a beleza da literatura, fazer-nos pensar.

Não é, nem nunca será um dos meus livros de eleição, mas gostei e recomendo.

Biografia Involuntária dos Amantes - João Tordo

Roda Dos Livros, 06.06.14

biografiaNão me identifiquei com este livro, no entanto li-o com entusiasmo. É uma estranha contradição. Mais de 400 páginas de percursos de personagens caracterizados pela melancolia e por um grande desencanto com a vida, com os quais não me identifico, mas não pude deixar de me envolver pela beleza da narrativa de João Tordo.

Admito que, para mim, o conteúdo é desinteressante, ou posso não ter conseguido atingir o verdadeiro objectivo da obsessão do narrador em ir juntando peças de vidas tão desapaixonadas, tendo ele próprio uma vida tão solitária e algo problemática. Mas é difícil quando o próprio, a poucas páginas do fim, tem também dificuldade em perceber o seu próprio esforço. “Talvez eu tenha ficado viciado, talvez não fosse capaz de parar”. Pág. 378.

Ficou pouco em mim da história, dos testemunhos das personagens e da pesquisa feita numa busca cega por vários pontos do mundo. Quando, agora, tento articular tudo na minha cabeça já não consigo, certamente a minha leitura, pautada pelo desinteresse por estas vidas desorganizadas foi perdendo o fio condutor, e nesta altura fica apenas a sensação estranha e descabida de me ter entregue a uma narrativa envolvente sob uma espécie de hipnose que apenas consigo justificar com uma escrita poderosa e brilhante. Leria mais quatrocentas páginas.

 “E a vida é, por definição, uma caminhada absurda cujo final é sempre idêntico. Por que razão não nos deixou Deus em paz, ou seja, inexistentes? Neste lógica incongruente, o Criador coloca-nos neste mundo à mercê de tudo o que é terreno, suculento e carnal, desafia-nos a experimentar e, no final, tira-nos tudo aquilo que nos deu. Reféns da teologia, somos uma piada de mau gosto; reféns do acaso, somos vítimas da ínfima possibilidade. Nesta miséria a que estamos votados, sentimo-nos incompletos e assaz melancólicos. A essa melancolia chamamos vida adulta.” (Pág. 94).

Sinopse

“Numa estrada adormecida da Galiza, dois homens atropelam um javali. A visão do animal morto na estrada levará um deles — Saldaña Paris, um jovem poeta mexicano de olhos azuis inquietos — a puxar o primeiro fio do novelo da sua vida. Instigado pelas confissões desconjuntadas do poeta, o seu companheiro de viagem — um professor universitário divorciado — irá tentar descobrir o que está por trás da persistente melancolia de Saldaña Paris.A viagem de descoberta começa com a leitura de um manuscrito da autoria da ex-mulher do mexicano, Teresa, que morreu há pouco tempo e marcou a vida do poeta como um ferro em brasa. O narrador não poderia adivinhar (porque nunca podemos saber as verdadeiras consequências dos nossos actos) que a leitura desse manuscrito teria o mesmo efeito sobre a sua vida.As páginas escritas por Teresa revelam a sua adolescência no seio de uma família portuguesa contaminada pela desilusão: um pai ausente e alcoólico, um tio aventureiro e misterioso, uma mãe demasiado protectora. Mas o que ressalta com maior vivacidade daquelas páginas é o relato enternecedor do seu primeiro amor, ao mesmo tempo que começam a insinuar-se na sua vida realidades grotescas e brutais. Confrontado pela primeira vez com a suspeita dessa terrível possibilidade, Saldaña Paris mergulha numa depressão profunda. Determinado em libertar o amigo do poder corrosivo do mal, o nosso narrador compõe então, peça a peça, a biografia involuntária dos dois amantes. Uma biografia que passa pelo desvelar do passado, para que este não contamine irremediavelmente o futuro.”

Alfaguara, 2014