Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Roda Dos Livros

"dizem que sebastião" de João Rebocho Pais - Opinião

Roda Dos Livros, 24.11.14

Nada zarolho este romance peculiar de João Rebocho Pais!

Homem que, tudo tendo, nada tem, Que vida e gentes suas quase ignora, Perde-se do caminho a quem quer bem,Cavalgando num galope que o devora;E quando vê o passado que lá vemMorto descobre o sentir de tanta horaE, olhando incréu o vazio assim nascidoChora triste o seu mundo desaparecido. 

É talvez a passagem deste livro que mais sentido faz na história de vida de Sebastião."dizem que sebastião" é um enredo em formato de remédio. É um livro terapêutico por assim dizer.Se o enredo funcionar bem, tornar-se-á naqueles comprimidos de pequenas doses, mas aos quais se fica agarrado a vida toda. Talvez seja essa a cura de Sebastião, ficar agarrado à Literatura e aos autores portugueses o resto dos seus dias. E quem sabe a Margarida...

Largado num jantar sem sobremesa, é Margarida que dispara, sem saber, o golpe mais forte e inesperado no coração deste homem de negócios que, após um susto, parte em descoberta dos grandes clássicos da Literatura Portuguesa. Fora de portas, entre livros e bancos de jardim, tendo por companhia frias pedras com marcas intemporais, Sebastião descobre toda uma outra forma de organizar o teu tempo. De uma forma mais boémia e descontraída, sente a mensagem metafórica que a vida lhe está a transmitir. Aceita até uma certa nudez para encarar o dia a dia e conquistar (de vez!) a vida!!!

"(...)De tudo o que foi, que é,E na erma vida só vêO raio da vaga esp'rança"

Para além de um guia para uma visita a estátuas célebres em Lisboa, este livro de Rebocho Pais é também um hino à Literatura Portuguesa. Apesar de uma história de amor, julgo que o amor maior é mesmo à palavra, à língua, ao testemunho escrito que fica e passa pelo tempo.Há também neste livro uma curiosa forma de jogar com os nomes dos personagens, como se o surgimento dessas pessoas, com determinados nomes, fosse só por si um contributo para a sua cura, como o Dr. Boavida ou o livreiro Simplício...

É hilariante a forma como começa esta aventura literária. É francamente de gargalhar nas primeiras páginas e sempre que Sebastião analisa e critica a sociedade que o envolve. Que nos envolve, já que Sebastião é uma excelente metáfora para muitos.O desaire amoroso e até de carácter pessoal resolvido através das letras é genuíno, mas parece-me um pouco ingénua a forma como o personagem segue com a sua história de vida. Parece simples demais.

De salientar a forma intrincada, cuidada e quase camaleónica com que o autor escreve, o que dá outro brilho ao livro, é como se o texto fosse acompanhando toda a mudança do personagem.

João Rebocho Pais - Feira do Livro de Lisboa 2014
João Rebocho Pais é um dos autores do Colectivo Nau, que já referi e destaquei no Efeito dos Livros. Vejam mais do grupo aqui: http://colectivonau.blogspot.pt/

“O intrínseco de Manolo” de João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 23.08.14

O Intrínseco de Manolo

Um dado livro pode conter inúmeras leituras. Estas, provavelmente, serão tantas quanto os seus leitores e o que se segue é, apenas e só, mais um olhar sobre o romance de estreia de João Rebocho Pais. Numa primeira abordagem, o que sobressai em “O intrínseco de Manolo” é o seu extrínseco, ou seja, o seu carácter de sátira social arguta, impiedosa e muito bem humorada, por vezes até desbragada, e sem contemporizações de qualquer espécie. E assim se vê enredado o leitor numa narrativa muito bem construída, dotada de um ritmo incrível e capaz de captar rápida e irremediavelmente a sua atenção. Contudo, o meu aspecto favorito de “O intrínseco de Manolo” é precisamente o que considerei ser o intrínseco do livro, a sua essência: a jornada de autodescoberta do protagonista, desencadeada pela sua proximidade com uma azinheira. Através das suas raízes as árvores estão firmemente ligadas à terra, ao aspecto mais palpável e físico da existência. Por outro lado, os ramos e as folhas erguem-se e “tocam” o céu, o território por excelência dos sonhos e da imaginação. Assim, ao estabelecer uma ligação especial com a azinheira, Manolo abre as portas para o seu crescimento interior, para a concretização das suas aspirações mais íntimas, sem nunca deixar de permanecer enraizado no afecto e no respeito pelas suas origens. Isso permite-lhe também ser capaz de distinguir o acessório do essencial bem como ser fiel à sua natureza de homem simples e de coração grande e generoso. Assim, foi através do reconhecimento do sua verdadeira essência que Manolo pôde encontrar, finalmente, o seu lugar no Mundo.Acompanhar o quotidiano de Manolo e dos seus conterrâneos foi muito divertido, por vezes algo desconcertante ou até perturbador mas sempre bastante interessante e amiúde ternurento. Além disso, senti-me como se estivesse algures, talvez debaixo de uma azinheira, a ouvir um exímio contador de histórias narrar as vidas dos habitantes de Cousa Vã. E isso é sempre muito bom!

Sinopse:

Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.

"Dizem que Sebastião" de João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 15.08.14

Dizem que Sebastião

Caro Sebastião,

Faça lá o favor de desculpar esta minha impertinência, mas ao acabar a leitura das suas deambulações por Lisboa, pareceu-me bem falar consigo directamente sobre as impressões suscitadas pela sua história. Devo dizer que apreciei bastante o seu percurso, a sua súbita mas inteligente mudança de direcção. Abdicar do seu papel como estratega implacável e arauto diligente dos famigerados mercados financeiros para se tornar o “Desejado” de si mesmo, redescobrindo a cidade e a sua História assim como a rica herança literária dos portugueses, afigura-se-me uma decisão sábia, porventura a melhor e mais importante que já fez. Gostei imenso da forma como no seu périplo, de carácter duplo, através do qual desbravou tanto os acidentes geográficos do seu interior, quanto os espaços que sempre o rodearam mas que anteriormente não via, usou a literatura como instrumento de navegação. Essa bússola do imaginário foi uma ferramenta fulcral para que o Sebastião reencontrasse a sua própria humanidade bem como os seus desígnios mais verdadeiros e profundos que estavam aí, ao lado, à espera de serem cumpridos. Bravo, Sebastião!

E, tendo em conta, que esta conversa não deverá estender-se muito mais, sob pena de se tornar uma grandessíssima maçada, termino dizendo apenas que também gostei do tom fluente e desempoeirado, sem maneirismos excessivos e isento de pretensiosismos irritantes, com que nos é contado este seu caminho rumo a si mesmo e a uma vida mais plena.

Adeus Sebastião! Talvez nos encontremos, por acaso, um dia qualquer, por aí, talvez junto a um dos seus novos amigos...

Excertos:

“ Tinham sido tempos irrepetíveis, reconhecia, agora que o mundo complicado dos adultos dava aos dias apenas repetições em tons de cinzento e uma velocidade que esquecia as horas, esmagava os minutos e dilacerava os segundos. Paradoxalmente, estes tempos modernos colhiam seguidores em barda, e a verdade era que, por uma razão ou outra, ele próprio se deixara ir, permitindo uma morte lenta das ideias e certezas de outrora, num transparente mas eficaz processo de carneirização que lhe regera os dias de uma carreira profissional bem-sucedida.

“E o que se passou foi que as letras antes adormecidas voltaram a ser palavras, voltaram a gritar coisas sentidas, trouxeram de novo, em sua magia e arrumação, os caminhos que poetas e outros abençoados ofereceram em testamento universal, requerendo apenas aos herdeiros que soubessem dele guardar pedaço.Cruzaram-se então no ar sonetos, estrofes, versos e rimas. Apoderaram-se do momento histórias, relatos e crónicas. Ouviram-se os gritos de soldados agachados em trincheiras e soltaram-se as angustias, esperanças, dúvidas e certezas de homens e mulheres que não se escondiam. Cheirava a África, inundava-se o espaço de um avermelhado sem igual, corriam agora soltos os escravos, de novo se escutaram os batuques que em festa celebravam os seus heróis libertadores. As ideias rodopiavam numa orgia de saber, as palavras entrelaçavam-se, a pena corria solta, proseava-se a liberdade de pensamento numa rima sem grilhetas.”

water-lily-pond-with-japanese-bridge

 

 

O intrínseco de manolo – João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 13.08.14

O Intrínseco de ManoloCada um de nós chama à leitura o seu proprio intrínseco. A sua vivência, as suas memórias e a sua forma de olhar o mundo. Todos o sabemos.

Várias foram as opiniões que escutei e li sobre este livro, diferentes visões sobre o mesmo. E, pese embora me reveja em alguns dos aspectos nelas referidos, também a minha leitura é diferente.

"O intrínseco de manolo" é, para mim, um livro sobre a perda e a vida, a força que Manolo encontra dentro de si para sobreviver ao mundo de aparências que o rodeia, à dureza da morte, tornando-se num hino à vida. Vida feita de passado e memórias que sustêm o presente, sem as quais o hoje e o amanhã não fazem sentido.

Uma história sobre a resposta à mesquinhez alheia, ao lodo onde outros se afundam, sobre nobreza de carácter e a estranheza que causa. Uma lição sobre a relativização da opinião dos outros e a sua real importância, à qual poderia aplicar uma das minhas frases preferidas – a ignorância é a mãe de todos os males.

Mas também, uma história que, centrando-se na raia alentejana, inesperadamente, nos faz olhar Lisboa, a sua beleza, a sua história e as suas gentes, como olhos novos, sacudindo-nos e despertando o nosso olhar e atenção para a cidade que nos envolve e que já não vemos.

E, ainda, uma história sobre os livros e o seu encantamento e a forma como vivemos através deles e como eles nos ensinam a viver.

Gostei deste livro onde a beleza e sonoridade das palavras consegue suplantar a forma desabrida com que algumas descrições e situações são narradas. Não totalmente do meu agrado, porém, é o papel interventivo, activo, do narrador e a forma como se imiscui na história. Um narrador que nos interrompe e interpela, chamando-nos, até, enquanto leitores, guiando a nossa leitura.

Um livro de um autor a acompanhar, cujo Sebastião lerei em breve, inserido numa nova corrente de escrita portuguesa que tem sido muito bom descobrir. Escrita lusa com futuro!

 

Excertos

“Ali sentada, ao cimo da Avenida da Liberdade, entregue à brisa que atenuava o cair da noite, Maria percorria sem descanso as almas e vidas que adivinhava no rosto de todos os que subiam e desciam a avenida. Sempre tivera qualquer coisa que a ajudara a entender o intrínseco do mundo das coisas e das coisas do mundo, fossem gente ou animais, fossem do género terreno ou divino. (...)” (p.54)

“(...) Do pouco ou nada que se conversava por ali, a coisa funcionava mais em monólogos trocados sem lógica ou razão, o mistério sobre a viagem de Manolo trazia preocupada aquela gente, agastava-se em dobro, tão pouco tempo era decorrido desde a partida da sua mulher. Não que alguma vez lhe tivessem tribuído particular importância, não que se esquecessem de o brindar com eternas certezas e teorias acerca da sua honra, e no entanto a verdade era que as suas ausências recentes começavam a ganhar contornos de assunto da terra, pois não se lhe punha a vista em cima, e coisa assim tinha de ser sabida e falada. Além de que, por muito que escondessem, todos a ele sabiam recorrer em momentos de maiores complicações. (...)Isto para falar dos mais chegados, dos mais fingidos, que não deixavam passar dia na tasca ou na rua, em casa ou no jardim, sem comentar o destino de Manolo, traçando-lhe invariavelmente um triste fim.” (p.155/156)

“E compreendeu Manolo de vez as histórias mágicas e de fantasia que aprendera nos livros de crianças, onde as cercas eram puladas e as corridas não tinham fim, entendeu porque aprendera a nadar, porque para sempre se lembraria das mãos do avô, decifrou os sermões do seu pai que o puxavam para dentro da estrada da vida. Lembrou todas as mulheres que eram suas e que não deixara no passado, que dormiam dentro de si. Lhe ajeitavam o sorriso e aparavam as lágrimas.E sorriu com vontade pela primeira vez em tanto tempo, deixou entrar o ar por todas as portas, gritou de alívio e felicidade.” (p.163)

 

Sinopse

«Na aldeia alentejana de Cousa Vã – vizinha da espanhola Ciudad del Sol – o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas – e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras – e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias, Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia – pois é – remetente espanhol...No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos – onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história – e da de Cousa Vã.Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.»

 

Teorema, 2012

Dizem que Sebastião - João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 12.08.14

Dizem que Sebastião"... Sebastião aprendeu a voar."  Não foram os pombos que o disseram. É a última sentença do último capítulo deste livro, e não deixa de ser uma boa síntese desta história.

Não é habitual, mas comprei este livro porque a sinopse convenceu-me de que era o tipo de leitura que procurava para aquele momento. As primeiras páginas, agarraram-me à história do Sebastião, um gestor dedicado e empenhado no sucesso e lucro da empresa, como tanto outros que por aí conheço, mas que vivem na solidão e no vazio fora do horário de expediente. Margarida, uma desejável e inteligente mulher, perturba o Sebastião o suficiente para ele sair da sua zona de conforto e ousar um convite, que não poderia ser mais desastroso dada a sua ignorância literária e incapacidade para descobrir assuntos de interesse em comum. Nada como uma mulher para redimensionar o mundo de um homem. Mas não é somente ela, porque vai contar com a colaboração do doutor Boavida, quando sujeito aos seus cuidados após umas palpitações que bem poderiam ser de paixão assolapada mas são um amoque cardíaco e Simplício, o afável e naturalmente simpático livreiro que o orienta na sua redescoberta dos autores clássicos, homenageados e até esquecidos nessa Lisboa, que tantas vezes percorremos apressadamente.

Depois de um interregno irregular na leitura, deparei-me com diálogos telepáticos, que mais não eram do que monólogos do Sebastião com escritores que, anteriormente não fizeram parte da sua vida, mas que nesta nova fase procurou conhecer e incluir, quando percepciona e se insere livremente no ambiente que o rodeia.

Em suma, escrita espirituosa que tanto me apraz, numa narrativa enriquecedora e divertida. Um realce sobre o quanto nos distanciamos do que realmente gostamos e engrandece a nossa vida.

Sinopse:

Uma viagem pela cidade de Lisboa na companhia de grandes escritores…

Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing – e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem.

Dizem que Sebastião - João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 02.08.14

 

Dizem que Sebastião

Dizem que este livro encoraja a leitura dos clássicos. Que é uma ode à leitura. Que apresenta a aventura literária como uma jornada de autodescoberta. Tudo isso já foi dito e repetido e, sendo tudo verdade, parece-me uma visão tristemente redutora.

Sim, Sebastião redescobre o prazer da leitura que tinha abandonado em prol de uma vida dedicada ao lucro. Sim, existe um livreiro, de seu nome Simplício, que o guia através da obra dos autores clássicos da literatura portuguesa. E sim, esse percurso vai ser, para Sebastião, de crescimento e transformação interior. Mas, para mim, o ingrediente que torna esta história única é outro: é a abordagem dos grandes autores portugueses, não exclusivamente através da obra que deixaram, mas mostrando-os na sua individualidade de seres humanos, com as suas experiências pessoais de perda, solidão, desencanto, incompreensão e desvario. Apercebemo-nos aqui de que esses grandes vultos foram, antes de mais, pessoas como quaisquer outras, que não nasceram perfeitas nem tiveram vidas perfeitas. Que, pelo contrário, sofreram e transviaram-se, erraram e arrependeram-se, persistiram e com tudo isso se fortaleceram. E somos levados à conclusão inevitável que, a meu ver, é a grande riqueza deste livro: afinal as grandes obras que conhecemos desde sempre como manifestações de génio não se deveram apenas a uma chama de inspiração que, de forma quase divina, tenha descido sobre certos eleitos, impregnando-os miraculosamente do talento para escreverem tais portentos. Não, o génio não lhes nasceu nas penas por geração espontânea. Tal como todos nós, esses seres excepcionais deveram aquilo que foram, não só à sua natureza intrínseca, mas também a todas as vivências por que passaram, à forma como a vida os marcou e os transformou. E, se essa evolução pessoal influenciou aquelas que todos reconhecemos como obras-primas, então estaremos certamente a perder muito ao encararmos essas obras da forma que o nosso sistema educativo nos ensina a encará-las: como obras meramente literárias, de excepção, claro, mas sem outras vertentes dignas de estudo que não as referências literárias e políticas que nelas se reflectem. Seria infinitamente mais enriquecedor vê-las à luz das idiossincrasias particulares dos seus autores, das vicissitudes do seu percurso e da sua interiorização das mesmas. Porque, tal como Sebastião, temos muito a aprender com eles, não só como autores, mas também como seres humanos.

Dizem ainda que este livro é muito diferente do primeiro livro do autor, O Intrínseco de Manolo. E, até certo ponto, é verdade. A história é diferente, o cenário é diferente, o tom é diferente. Mas as marcas do autor estão lá: existem trechos satíricos recheados da mesma ironia ao mesmo tempo fina e desbragada, mas sempre elegante e requintada, embora em menor número do que em Manolo; existem passagens de uma mordaz crítica social, tanto a nível dos vícios da sociedade em si mesma como de tiques pessoais presentes onde quer que haja pessoas; e, acima de tudo, somos novamente brindados com uma escrita ímpar, aprimorada sem artificialidade, fluente mas tão deliciosa que nos mantém enfeitiçados até à última página. É este o prazer primordial da leitura: o simples deleite de saborear parágrafos tão bem escritos que são, por si só, uma guloseima intelectual.

 

Excertos:

 

"A antiga aluna, agora uma das poucas colegas na empresa cujo brilho na carreira pedia meças ao dele, surpreendeu-se com os contornos do convite. Calculou o somatório de sensações que, do outro lado da linha, despoletavam dentro de Sebastião, que por vezes desejara também conhecer um pouco melhor, mostrando-lhe algumas equações que se resolviam sem incógnitas. Desde os tempos em que o escutava nas aulas que se aventurava por fantasias que a divertiam, imaginando-o a leccionar apenas de tanga, ou mesmo de material à solta, no seu formato pequeno e amolecido, umas vezes, na sua versão rija e levantada, outras. Levava o devaneio ainda mais longe, vendo-se em sua casa com o ex-professor, dando-lhe lições de estratégia acerca de como explorar o vasto campo do seu peito, de forma a atingir a etapa seguinte, a descoberta e consequente aproveitamento de outro canal, onde ele poderia dar azo à ocupação e expansão da sua arma estratégica, até à capitulação e aos gemidos finais. Sorriu ao relembrar certas memórias, enrolou um pouco o diálogo, atirou umas pequenas achas para a fogueira que consumia o amigo e achou então que estava na hora de aceitar o convite. Jantariam pois, Sebastião e Margarida, dali a duas horas." (págs. 12-13).

 

"Passaram então um bom bocado entretendo-se com o modo como o deus dispunha das gentes, dando-lhes a mesma natureza humana, fosse no longínquo século XV ou no actual e veloz século XXI: em ambos havia, de um modo ou de outro, reis justos e injustos ou presidentes activos e inertes, nobres e camponeses ou colunáveis e malta das hortas, clérigos, senhores feudais, empresários gananciosos, senhores da guerra, compradores de submarinos, ciganos, paraísos fiscais, boémios, putas, juízes que inconstitucionalizavam, culpados e fracos, mentirosos, cobardes e heróis, proscritos e prescritos, protegidos e outras coisas mais. Tirando as evidências no avanço da ciência, passando ao lado da electricidade, dos antibióticos e de outras descobertas da irrequieta mente humana, ambos admitiram que, no fundo, na essência, não era grande a distância que os separava, embora naquele momento uns bons metros de altura impedissem um abraço que a inesperada amizade quiçá sugeriria." (pág. 160).

 

2014, Teorema

 

dizem que sebastião, de João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 25.07.14

Dizem que Sebastião

Esta é a história do “princípio do fim de um homem sem graça nenhuma”. Dizem que Sebastião, homem de números e de sucessos empresariais (o sonho de tanta gente) é afinal um inapto para as coisas boas da vida. Mas um jantar desastroso e um susto vão pôr Sebastião perante uma encruzilhada e o caminho escolhido por este nosso herói é… interessante. Perante algumas dúvidas existenciais Sebastião procura ajuda. E quem melhor para o ajudar que aqueles que “da lei da morte se vão libertando”?

 Ao longo destas páginas encontramos uma série impressionante de personagens que  se unem em torno de Sebastião e com palavras o aconselha. Assim, é entre conversas com Fernando, Luís, João ou António (e outros tantos), sempre com a sábia liderança de Simplício, que o nosso protagonista muda de vida.

Um livro que vai deliciar leitores, que me deliciou a mim e que me arrancou, amiúde, gargalhadas. Um livro sobre livros (fórmula perigosa quando não bem conseguida, mas infalível quando o é – e aqui, é). Não vou falar mais sobre esta história porque a magia deste livro é lê-lo e isso vos aconselho a fazer.

É o primeiro livro do João Rebocho Pais que leio. Atrevo-me a dizer que não será o último, porque fiquei fã da sua forma de escrever, simples, cuidada e despretensiosa.

É um dos escritores do Cole©tivo Nau e tem também o livro “o intrínseco de manolo”

* e não ponho aqui a sipnose que me parece demasiado reveladora... Eu, como comprei o livro por impulso e em ebook, não a li e a surpresa foi óptima.

...

Roda Dos Livros, 21.07.14

O Intrínseco de ManoloO que me surpreende? Ler dois livros seguidos do mesmo autor e ficar feliz por serem diferentes. Que em livros que considero de poucas páginas (menos de 200) se consiga dizer tanto.

A verdade é que li primeiro o Sebastião porque achei que este Manolo seria um bocado… parolo (coitado). Ouvi umas coisas aqui e outras ali e assumi que seria um livro cómico, talvez com um pé (ou dois) na brejeirice. Pois isto dos livros é um bocado como as pessoas, ou não fossem estas a escrevê-los. Enfim, sinto-me enganada. Enganada como quando conheço uma daquelas pessoas completamente desinteressantes que o tempo revela especiais. Um engano bom.

O que dizer de um livro com tantas personagens mas que a principal é uma árvore?

Com tantas descrições de situações inverosímeis, pitorescas, recambolescas e que não sei que mais lhes possa chamar, mas com uma utilização primorosa da linguagem, que transforma cenários decadentes, deprimentes e até nojentos, com um texto versátil e completo, nascido de uma conjugação de palavras que me deixou várias vezes de queixo caído. Isto é saber escrever.

É um orgulho ver a beleza e a dimensão da língua portuguesa, que até quando se escreve sobre porcaria (para não dizer merda), permite um encaixe perfeito. Fica a ressalva de que só resulta quando se tem talento.

E assim somos apresentados aos habitantes de Cousa Vã. Pessoas de muitas habilidades em diversos campos, algumas com um domínio tão intenso das artes do amor, que me parece terem proporcionado a João Rebocho Pais a criação de um novo estilo. Pelo menos eu ainda não conhecia, não sei que lhe possa chamar ou se alguém já o definiu, mas talvez algo do tipo “erótico alentejano”.

E então, quando estamos perante tantos cenários dignos de pasmo pela originalidade da escrita, que nos dão para rir pelos motivos já apresentados, o cómico vai assumindo uma seriedade emotiva, de alguma forma até ternurenta, por todas as coisas realmente importantes que só chegam ultrapassada a aparência.

Manolo, o parolo, que conversa com uma azinheira, olha para dentro, para o que realmente importa. Leva consigo a dor do caminho da descoberta das coisas que contam.

A ler.

“Não era passado um semestre de matrimónio e a secura a que Tonho a votava, fosse em coisas de cama, de mesa ou de sofá, trazia-lhe a certeza de ser outro o caminho a tomar e muitos outros os parceiros, assim quisesse dar vazão ao que lhe pedia uma alma selvagem, um corpo de bom alimento e uma vagina carnívora – e aqui testemunha o narrador que esse é o termo e assim mesmo terá de ser chamada, uma vagina de fazer corar o mais ávido aventureiro, o mais intrépido conquistador. Tina – Albertina Cruz por casório – não se lembrava de um dia sequer em que a sua feminilidade não se tivesse revelado num estuporado tesão e vontade de luxúria. Anos e anos de repressão paterna, materna, fraterna e o mais que fosse, numa adolescência em que, por imperativo das aparências negara alimento à desembestada que lhe habitava entre pernas, acabaram no triste desastre que era aquele transtorno de homem e marido, aquele empecilho, aquele verdadeiro hino ao vazio de prazer que constituía o seu lar.” (Pág. 66);

“Desde o regresso de Lisboa e suas fulminantes sensações, trazidas em esquinas e esquinas de histórias e pessoas, de retumbantes memórias em forma de estátuas e monumentos de fachadas imponentes, desde esse momento que a vontade de semear algo de seu, algo que visitasse as almas dos seus antepassados com a boa-nova de que tudo valera a pena, crescia no íntimo de Manolo, o mesmo Manolo que à sombra da azinheira teimava em conhecer a sabedoria da árvore, o sentido da vida, dali partindo em busca do que lhe era intrínseco.” (Pág. 122);

“Manolo seguia a sua vida, indiferente a cochichos e ao alimento da curiosidade alheia, ia e vinha com o mesmo vagar e indiferença que aprendera a oferecer ao formigueiro de tristes inúteis que pela terra lhe faziam companhia, que o brindavam com perguntas parvas pela frente e com etiquetas pelas costas.” (Pág. 148);

Sinopse

“Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias. Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol… No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo velhos ou já desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã. Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.”

Teorema, 2014

Dizem que Sebastião - João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 13.07.14

Dizem que Sebastião“Dizem que Sebastião” é o segundo livro de João Rebocho Pais. Para mim o primeiro. O primeiro que leio do autor.

Devido meu interesse e curiosidade pelos livros, e em grande medida por ter amigos que fogem do que é massificado, tenho tido a sorte de livros como este não me passarem ao lado. Se houve um belo dia que me fartei de ler o mesmo que a maioria, tomei o gosto de, mesmo no que toca a novidades, andar de certa forma contra a corrente. O que é uma pena pois todos deviam apanhar uma corrente (ou mesmo um oceano) de livros como este.

Despretensioso e simples, o autor ganha pontos neste registo. Do género “não quero impressionar ninguém e escrevo o que me apetece” e lá me apanhou desde a primeira página. Tenho uma certa fraqueza para este estilo “não me ralo, lê-me se quiseres”, e li o livro em menos de nada, no fim tenho a sensação que o João se ralou e se preocupou em construir uma narrativa que, apesar de bastante fluída, dá que pensar naquelas coisas da vida mesmo importantes que nos dão cabo do juízo.

O tema é pouco original e por isso uma grande maioria se identificará com ele. Aquela maioria que acorda de manhã e adorava estar a fazer algo completamente diferente com a sua vida, que detesta o seu emprego e se sente completamente frustrada a nível profissional. Alguém assim por aí? Pois o Sebastião não. Ou melhor, pensava que não. Isto é, ele na verdade nem pensava muito nisso porque estava muito ocupado a trabalhar, a enriquecer e assim. Um belo dia percebeu que nem conseguia ter uma conversa fora da sua área profissional, para impressionar as senhoras por exemplo. Ou seja, um viciado em trabalho sem outros objectivos na vida, sozinho, e fechado num escritório.

Acho que o Sebastião até teve sorte pois andava tão anestesiado com o trabalho que nem pensava em tudo o que perdia. Então, e porque há coisas que têm de acontecer para certas pessoas abrirem os olhos, teve um enfarte e, por ordens médicas, foi obrigado a abrandar o ritmo. E eis que essa terrível arma chamada pensamento, que habitualmente acompanha os tempos de ócio, o ataca e teve o dom de o acordar. Sebastião desperta para a vida e este despertar leva-o ao melhor lugar do mundo: a livraria.

E então começa a viagem. A observação. O deixar de ouvir e começar a escutar. A percepção de que há mais pessoas na rua, no metro, que há cheiros e sons completamente novos. E que há livros para ler. Que tais livros são as vozes de quem os escreveu, vozes que persistem depois da morte, vozes que falam com Sebastião durante as leituras e também fora delas, nas ruas de Lisboa em diálogos com estátuas, num percurso que começa com Fernando Pessoa entre dois cafés na Brasileira, e que vai até onde Sebastião quiser, eu espero que muito depois da última página do livro.

Aparentes sinais de demência que não são mais do que os efeitos colaterais da tomada de consciência. Um livro que merece ser lido por tudo o que já referi, e que ainda dá o bónus de nos fazer olhar de forma diferente para todos aqueles escritores que, de forma pouco inteligente, nos obrigaram a ler na escola. Falo por mim.

Leiam se fazem favor!

“…reconhecia, agora que o mundo complicado dos adultos dava aos dias apenas repetições em tons de cinzento e uma velocidade que esquecia as horas, esmagava os minutos e dilacerava os segundos. Paradoxalmente, estes tempos modernos colhiam seguidores em barda, e a verdade era que, por uma razão ou outra, ele próprio se deixava ir permitindo uma morte lenta de ideias e certezas de outrora, num transparente mas eficaz processo de carneirização que lhe regera os dias de uma carreira profissional bem-sucedida.” (Pág. 29);

“À medida que avançava, percebia ali escancarada a dimensão errónea em que gastara a sua velha vida.” (Pág. 95);

Sinopse

“Sebastião Breda, vice-presidente de uma multinacional, workaholic e quarentão abastado, percebe um belo dia que a vida lhe tem passado ao lado e decide remediar a solidão convidando uma colega para um jantar romântico. O problema é que a sua bagagem não vai além de estratégias de venda e planos de marketing - e o arraso que leva de Margarida à mesa do restaurante é humilhação bastante para que o seu coração acabe a pregar-lhe um valente susto. O médico recomenda-lhe então um ano de descanso, e Sebastião resolve aproveitá-lo a cultivar-se, fazendo, numa livraria da Baixa, um amigo que lhe dá bons conselhos e sentando-se junto às estátuas dos escritores espalhadas pelas praças e jardins de Lisboa, que, eloquentes à sua maneira, o iluminam sobre os mais diversos assuntos, entre eles, evidentemente, a questão feminina. Um ano depois, não se pode dizer que Sebastião seja o mesmo homem. Depois do muito aplaudido O Intrínseco de Manolo, João Rebocho Pais regressa à ficção com um novo romance - divertido, terno e cheio de ironia - sobre a dicotomia entre números e letras e a pobreza intrínseca de algumas pessoas que só aparentemente são bem-sucedidas. Dizem Que Sebastião é uma homenagem aos livros e ao que podemos aprender com eles até sobre nós próprios.”

Teorema, 2014

O Intrínseco de Manolo - João Rebocho Pais

Roda Dos Livros, 27.06.14

 

manolo

O que, neste livro, mais me impressionou resume-se numa frase: a escrita de João Rebocho Pais é de tal forma talentosa que se entranha no leitor por todos os poros, cativando-o a cada frase, impedindo-o de interromper a leitura e inundando-o daquele raro prazer que é desfrutar de um texto magistralmente escrito.

Aqui se demonstra, mais uma vez, que uma linguagem cuidada e trabalhada não tem de parecer artificial nem de perder a fluidez. Pelo contrário: sem deixar de ser evidente a preocupação com a forma perfeita do discurso, as frases sucedem-se num encadeamento tão natural que se torna impossível pôr-lhes um travão. Mais do que uma vez, durante a leitura, me vi confrontada com o dilema ideal de qualquer leitor: por um lado, queria parar de ler para voltar atrás e reler parágrafos que me haviam maravilhado; por outro, não conseguia encontrar um ponto onde me parecesse apropriado interromper a leitura...

Julgo que o estado de encantamento em que este livro me deixou se deveu também a outro factor: é que a prosa que tanto encanta pela forma versa ainda, em termos de conteúdo, sobre temas que todos conhecemos intimamente. Temas muito portugueses, como a maledicência dos medíocres, as vidas construídas na base da troca de favores e até os excessos pós-revolucioinários dos tempos do PREC são aqui retratados com um desassombro que nos faz sorrir.

Chamo, em especial, a atenção para o capítulo denominado "Alberto", onde se traça o perfil de um personagem que, hoje em dia, com a divulgação mediática da arte do tráfico de influências e da respectiva impunidade, não deixará de parecer familiar a qualquer português, habituados que estamos a deparar, a torto e a direito, com referências nos meios de comunicação social aos chamados "facilitadores de negócios" (uns mais reconhecidos como tal do que outros) e aos chorudos retornos proporcionados por essa actividade. Deixo aqui apenas um pequeno excerto, embora todo o capítulo seja absolutamente delicioso:

"No início eram apenas favores, pequenos favores em nome da amizade e de possíveis simpatias, semeando a eito para colheitas futuras. Desde os bancos da escola que Alberto percebera a matemática do caminho mais fácil, comprando e vendendo, em géneros ou contado, os favores feitos degraus na escadaria da ambição e da ganância. A batota embelezava-se em seus mil e um vestidos, dava sombra e guarida à pouca-vergonha de um exército de fracos, despidos de pudor ou dos mandamentos de Deus.

(...)

Foi com natural aceitação que em Cousa Vã se viu iniciar o percurso político de Alberto Sansão, defensor dos interesses vários da terra, recorrendo como poucos ao uso de misteriosas estratégias que, não raro, atingiam em pleno as ambições de todos e cada um, fossem estas públicas ou meramente particulares. Da ajudinha nas burocracias que permitiam aceder a fundos e empréstimos na banca, passando por elaborados planos de cumplicidade que viabilizavam a manutenção de secretas chácaras do pecado, onde espampanantes e laboriosas mulheres davam vazão a um infinito tesão rural, inovando com um científico, elaborado e cirúrgico aproveitamento das oportunidades, através do aconselhamento em áreas que iam das maleitas incuráveis aos azares do destino, o escritório de contactologia de Beto Sansão assentava sólidos alicerces em terreno de tão certa colheita. E, se o padre encontrava entraves na logística da procissão, se o presidente da Junta esbarrava na impotência de sua fraca influência para conseguir fundos, ajudas ou despachos, era certo que na sebenta, agora feita um composto e elaborado sistema escriturado, se encontraria a solução e a mãozinha necessária ao desenlace a contento." (págs. 84 e 85).

De notar ainda a notável habilidade do autor para criar cenas escabrosas e mesmo escatológicas sem, no entanto, fazer qualquer cedência em termos de elegância do discurso. Descrições de pormenores repelentes tornam-se divertidíssimas em vez de causarem aversão, e não porque sejam recheadas de poucos pormenores (antes pelo contrário), mas sim devido, exclusivamente, à forma como são apresentadas. Não é tarefa fácil discorrer sobre certos temas com graça e requinte, mas é uma tarefa aqui desempenhada na perfeição. De entre inúmeros trechos que poderia citar para ilustrar este ponto, deixo aqui apenas um:

"Joaquim e Júlio, que para além das iniciais no nome partilhavam uma invulgar incapacidade de utilização do cérebro em coisas de terem algum jeito, mandaram vir mais duas minis e esboçaram um sorriso de chacota; o cervejame ia já na sexta ou sétima rodada, e a deprimente visão das suas dentições, onde abundava o podre e a ausência de molares e caninos, fazia a estreia naquela manhã, abrindo caminho ao sorriso idiota do par de anormais. Tonho Cruz, por mais lucro que tivesse com aquela parelha, por pouca moral que tivesse no que toca a asseios e suas intrincadas regras, não conseguia evitar um espasmo estomacal de cada vez que era obrigado a suportar semelhante suplício nasal, como era o da proximidade com o espectáculo cavernoso daquelas bocas, juradas companhias de um hálito pútrido, fétido, pestilencial e infecto, isto para referir apenas quatro adjectivos que, embora desconhecidos no vocabulário do taberneiro, desenhavam bem o asco de tão desumana e oral coisa." (págs. 17 e 18).

Resta dizer que, sendo este um livro divertido de crítica social e humana, não se fica por aí; tem também uma vertente mais reflexiva, debruçando-se sobre os anseios e aspirações mais íntimos da alma. Se há passagens que nos fazem rir às gargalhadas, há outras que convidam à introspecção e a meditar sobre as pulsões mais espirituais do ser humano - do seu intrínseco. Num romance de menos de 200 páginas, ainda para mais um primeiro romance, é obra. Gostei muitíssimo e não vou, com toda a certeza, deixar de ler o outro livro do autor, Dizem que Sebastião. Já ouvi dizer que é melhor ainda.

 

Sinopse:

Na aldeia alentejana de Cousa Vã - vizinha da espanhola Ciudad del Sol - o nome de Manolo anda nas bocas escancaradas dos que passam as tardes na tasca a aviar minis, quiçá para que ninguém repare no que realmente se passa em suas casas - e talvez seja melhor assim. É, porém, facto indesmentível que Maria tem o hábito de desaparecer às sextas-feiras - e isso basta para que a mediocridade omnipresente faça do marido um adornado e da chacota um estranho alívio para a dureza dos dias.

Manolo refugia-se do falatório acusador à sombra de uma azinheira secular, único ser vivo com quem pode dividir agora as suas mágoas; e, embora certo da virtude da sua Maria, não ignora a missiva que o carteiro lhe deixou em casa nessa manhã e que trazia - pois é - remetente espanhol...

No jogo repetido que é o dia-a-dia dos lugares pequenos - onde ninguém ganha e quase todos perdem -, a descoberta da improvável verdade trará, mesmo assim, a Manolo a oportunidade de mostrar aos conterrâneos, de forma anónima, o seu intrínseco, seguindo os ensinamentos dos que, sendo já velhos ou desaparecidos, são parte importante da sua história - e da de Cousa Vã.

Com um trabalho notável na composição das figuras e uma recuperação inteligente da linguagem popular de um Alentejo quase mítico, João Rebocho Pais estreia-se na ficção com um romance terno, mágico e, ocasionalmente, escatológico sobre o poder da excepção sobre a regra.

 

Teorema, 2012