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Roda Dos Livros

Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 23.03.19

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Um livreiro cego, que vai coleccionando amantes que lhe lêem em voz alta. Um escritor de sucesso que precisa de ajuda para escrever o derradeiro livro da sua vida.

O regresso ao passado leva-nos, pela mão do livreiro, do escritor e da editora,  à história de três amigos, Yankel, Eryk e Shionka. "Preciso de um preâmbulo de pureza, tem de haver crianças. Uma coisa tão virginal como um conto de fadas (...) As últimas páginas vão ser obscenas (...) A inocência é crucial. Sem ela nenhum leitor aceita o absurdo do desfecho".

A história dos três amigos vai confundir-se com a história de uma cidade, um circulo perfeito, dividida entre judeus e cristãos, num equilibrio periclitante.

No manicómio da rua Mazur, coexistiam os loucos (Depois havia Kasia, a irmãzinha de Florian, tirada da rua poucos dias depois dele. Era uma catraia, a mais nova do hospício, e nunca se conformara por ali estar: aquilo era para loucos e o seu mal estava nos olhos, não na cabeça. No lugar de pessoas, via animais, e então? (...) No círculo perfeito, só os cães eram cães e as crianças crianças.) e, durante a ocupação russa, os presos. E mais tarde... bem, para o saberem têm que ler o livro.

Numa estrutura muito semelhante ao do Sarah Gross, o autor volta a fazer-nos saltar entre dois tempos da mesma história, permitindo-nos respirar antes de mergulhar naquele obsceno desfecho.

A capacidade para o mal é algo exclusivo do ser humano e é dessa capacidade que trata este livro. A forma como somos capazes de nos distanciar dos outros, de os desumanizar a tal ponto que não existir qualquer empatia, qualquer identificação, que nos impeça de matar, de torturar, de destruir.

Mas este livro também fala de amor. Do que somos capazes de fazer por amor. E de confiança. E de amizade.

Há livros que lemos e esquecemos rapidamente. Há livros que levamos algum tempo a esquecer. E depois há livros que nos magoam de tal forma que deixam uma marca permanente.

Já o Perguntem a Sarah Gross me tinha magoado q.b e é um livro que recomendo sem reservas. Este Os loucos da Rua Mazur vai deixar, desconfio, marcas permanentes. Vou esquecer os nomes das personagens, vou esquecer parte do enredo mas nunca vou esquecer o horror, a tristeza, a revolta que este livro provocou.

Percebo perfeitamente todos quantos preferem o Sarah Gross a este Os loucos da Rua Mazur. Pessoalmente, prefiro este.

Os Loucos da Rua Mazur - João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 10.12.17

O Holocausto não é de todo um dos meus temas favoritos, mas quando soube do lançamento de "Os Loucos da Rua Mazur" não pude deixar de estar presente, e com isso, a leitura tornou-se premente. A curiosidade levou a melhor, a que não foi alheio o sucesso anterior. E o prémio Leya. Um fim de semana de frio bastou, mas não foi uma leitura rápida e tranquila. O talento de João Pinto Coelho torna-a visceral.
 
A história começa pela inocência, com os cogumelos. Três crianças, três amigos, antes do início da Segunda Guerra Mundial numa qualquer comunidade da Polónia onde judeus e católicos coabitavam. Um lugar sem nome, referido como shetl, palco da tragédia, como outras. Universal. Sessenta anos depois, o livreiro cego aceita encontrar as imagens que faltam ao amargo amigo de infância para concluir o último livro. Shionka é a misteriosa e relevante personagem do trio.
 
A narrativa em dois tempos vai de antes, durante e depois da guerra, seguindo o rasto das personagens, sem nunca se enlear, até Paris. O fantasma, esse não chega ao fim. Louco. Como outros o foram. O ódio e o ciúme que enlouquecem. Temível, numa sentida leitura que faz vacilar. Escrito assim, dá que pensar e demais recear. Parabéns" 
 
Sinopse:
Quando as cinzas assentaram, ficaram apenas um judeu, um cristão e um livro por escrever.Paris, 2001. Yankel - um livreiro cego que pede às amantes que lhe leiam na cama - recebe a visita de Eryk, seu amigo de infância. Não se veem desde um terrível incidente, durante a ocupação alemã, na pequena cidade onde cresceram - e em cuja floresta correram desenfreados para ver quem primeiro chegava ao coração de Shionka. Eryk - hoje um escritor famoso - está doente e não quer morrer sem escrever o livro que o há de redimir. Para isso, porém, precisa da memória do amigo judeu, que sempre viu muito para além da sua cegueira.
Ao longo de meses, a luz ficará acesa na Livraria Thibault. Enquanto Yankel e Eryk mergulham no passado sob o olhar meticuloso de Vivienne - a editora que não diz tudo o que sabe -, virá ao de cima a história de uma cidade que esteve sempre no fio da navalha; uma cidade de cristãos e judeus, de sãos e de loucos, ocupada por soviéticos e alemães, onde um dia a barbárie correu à solta pelas ruas e nada voltou a ser como era.

Perguntem a Sarah Gross - João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 20.11.17

Perguntem a Sarah GrossNa maioria das ocasiões, vou alinhavando ideias ao longo da leitura e depois, quando chega a altura de escrever a minha opinião, trato de juntar as peças e tentar montar o puzzle. Mas, por vezes, acabo um livro e não faço ideia do que vou escrever sobre ele. Estou desde ontem, quando terminei Perguntem a Sarah Gross, a tentar perceber como explicar o que este livro me trouxe, o que me acrescentou enquanto leitora. E mesmo agora, quando começo a conseguir juntar umas palavras a seguir às outras, não estou certa que o vá conseguir.

Antes de mais, queria dizer que já tinha este livro por ler há mais de dois anos. Comprei-o por ler boas recomendações, e continuei a tê-las ao longo deste tempo. No ano passado, fui ter com o autor à Feira do Livro de Lisboa e pedi-lhe um autógrafo. Mas tenho para mim que há livros que nos vão escapando entre as mãos porque a elas querem voltar no momento certo. Este livro escolheu-me agora, e agora foi o momento certo.

Acho que posso afirmar com alguma segurança que não é muito comum um escritor português escrever ficção sobre / decorrida no Holocausto. João Pinto Coelho escolheu essa via – arriscada, quanto a mim – com a segurança de quem desbrava o seu caminho rumo à (quiçá) inalcançável compreensão do que se passou naqueles anos terríveis, no aproximar da metade do século XX. O livro não é sobre o Holocausto, note-se, mas as suas garras não mais o largam assim que dá um ar da sua graça.

Aprendi bastante com este livro. A nível histórico, porque não sabia muito sobre a realidade das comunidades judaicas polacas no período que antecedeu a 2.ª Guerra Mundial. É notória a pesquisa intensa que precedeu este livro, a tal ponto que quase se tornou desnecessário apontá-lo nos agradecimentos finais. Mas a minha aprendizagem não se limitou a questões históricas. Houve um acontecimento neste livro que me fez doer o coração, que me rasgou por dentro, e que me fez crescer enquanto mulher e mãe, porque me fez sentir agradecida por cada momento de felicidade que vivo. Acho que será difícil alguma vez conseguirmos imaginar uma parte infinitesimal do sofrimento por que as vítimas do Holocausto passaram, mas este livro faz-nos chegar lá perto.

Dito tudo isto, só posso mesmo recomendar: vão descobrir quem foi a Sarah Gross e a vida incrível que viveu. Escreve-se bem em português, e que bom é perceber isso.

Perguntem a Sarah Gross, de João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 22.08.15

Perguntem a Sarah Gross
A Márcia já me tinha avisado. Ainda assim não estava preparada para gostar tanto de um livro.
E quem não leu, vá ler. Não leia mais aqui. Não há spoilers mas aproveite a leitura sem saber nada, sem criar expectativas. Desconfio que isso não vai ser possível por muito mais tempo.
“Perguntem a Sarah Gross” que, como diz a editora Maria Do Rosário Pedreira no seu Horas Extraordinárias, é um dos mais internacionais livros publicados em Portugal. Generalizo a frase da editora porque concordo. Desejo a este livro o maior dos sucessos, Nacional e Internacional.
Comecemos pela parte que me fez hesitar quando decidi ler este livro e que é, na minha opinião, a parte menos surpreendente do livro. O Holocausto não é novidade e há quem já se recuse a ler mais sobre o assunto. Eu confesso que nem sempre me apetece fazê-lo. Ler sobre o holocausto é acrescentar cicatrizes à alma, é horrorizar-me outra e outra vez, é perder mais um bocadinho de fé e de esperança na humanidade. E às vezes não me apetece. E sim, neste livro há capítulos que nos fazem ficar com coração pequenino. E sim, é importante para a história. Acima de tudo essa parte está bem contada, não nos poupa a nada e ainda assim consegue fazer-nos sentir que estamos a ler tudo pela primeira vez… com tudo o que de bom e mau isso tem.
Mas não foi essa parte que me agarrou. Fiquei presa a esta história nas primeiras páginas. Fiquei rendida a todas as vozes e a todos os tempos. Fui-me deixando enredar na história e, desta vez, fui totalmente surpreendida. Não tive tempo para reflectir durante a leitura do livro. Li compulsivamente, o que não deixa de ser injusto porque a ânsia de conhecer o segredo de Kimberly e a história de Sarah não me deixou analisar pessoas e situações.
Isto porque este livro é muito mais do que apenas (mais) uma história do Holocausto. Tão, mas tão mais.

Perguntem a Sarah Gross - João Pinto Coelho

Roda Dos Livros, 30.05.15

Perguntem a Sarah GrossSão quase cinco da manhã e pouso o livro. Faltam cerca de quarenta páginas para o final mas tenho de parar, guardo o que falta para amanhã, para daqui a umas quatro horas.

Sinto-me perturbada e nervosa. Emocionalmente desfeita. Quero terminar a leitura, preciso de terminar. A partir de uma certa altura torna-se impossível pousar o livro. E então aproveito. Aproveito esta sensação rara, mas muito desejada, de me deixar cair, a pique, para dentro de uma história que, por tão habilmente me mexer com as emoções, me encanta.

Procuro, em cada livro que começo, o que encontrei em “Perguntem a Sarah Gross”. A excelência é rara e, por isso, quando a encontro, ou quando sou por ela apanhada de surpresa, deixo-me levar. Esqueço-me de mim e vivo a entrega. Magoo-me e gosto do sofrimento. Abandono tudo e mantenho-me acordada para sentir o efeito de avançar mais uma página.

Este é o retorno que, quem ama os livros, procura. Saber que no meio da busca, entre livros que deixo a meio, os que já esqueci, e os que irei ler, aparece algo assim, capaz de me deixar sedenta de o terminar e ao mesmo tempo dar a mim própria mais uma dose de angústia guardando quarenta páginas, enganando-me, fazendo-o durar, só mais um pouco.

Não sou uma pessoa muito emocional. Se calhar por isso procuro, por vezes, nos livros, cenários que me levem um pouco mais longe, ao limite do sentir. Gosto que os livros me abalem, me deitem ao chão e me passem por cima. E é o esperado de um livro, mais um, sobre os horrores da II Guerra. Penso que o tema não ajuda a que os leitores procurem este livro. Porquê ler um livro de um novo autor, portanto desconhecido, sobre um assunto que já enche bibliotecas? Porque é que eu própria comprei este livro? Porque é que me tentou, me chamou e escolheu? Não sei, mas soube que, naquele dia, não podia voltar para casa sem ele.

Não tenho um livro favorito. Não sei qual é o livro da minha vida. Digo sempre que é o próximo. É uma busca exaustiva porque eu assim a mantenho, estou, inevitavelmente e sempre, à procura. Neste livro encontrei uma história bem contada, surpreendente, que se encaixa em factos históricos, deixando-se enriquecer pelas descrições de João Pinto Coelho. Não é o livro da minha vida porque não quero que a minha viagem acabe aqui, mas é certamente dos mais marcantes que li. Inesquecível e profundo. Um sobrevivente ao mundo descartável, imediato e acelerado em que vivemos. Eu, pelo menos, gostava muito que assim fosse. Não vos conto nada sobre a história porque merecem viver esta surpresa como eu a vivi.

Recomendo sem qualquer reserva.

Sinopse

“Em 1968, Kimberly Parker, uma jovem professora de Literatura, atravessa os Estados Unidos para ir ensinar no colégio mais elitista da Nova Inglaterra, dirigido por uma mulher carismática e misteriosa chamada Sarah Gross. Foge de um segredo terrível e procura em St. Oswald’s a paz possível com a companhia da exuberante Miranda, o encanto e a sensibilidade de Clement e sobretudo a cumplicidade de Sarah. Mas a verdade persegue Kimberly até ali e, no dia em que toma a decisão que a poderia salvar, uma tragédia abala inesperadamente a instituição centenária, abrindo as portas a um passado avassalador. Nos corredores da universidade ou no apertado gueto de Cracóvia; à sombra dos choupos de Birkenau ou pelas ruas de Auschwitz quando ainda era uma cidade feliz, Kimberly mergulha numa história brutal de dor e sobrevivência para a qual ninguém a preparou.Rigoroso, imaginativo e profundamente cinematográfico, com diálogos magistrais e personagens inesquecíveis, Perguntem a Sarah Gross é um romance trepidante que nos dá a conhecer a cidade que se tornou o mais famoso campo de extermínio da História. A obra foi finalista do prémio LeYa em 2014.”

D. Quixote, 2015