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Roda Dos Livros

Síndrome de Antuérpia - João Felgar

Roda Dos Livros, 19.06.16

sindromedeantuerpia Gosto cada vez mais de ler romances de autores portugueses. E se antes isso me surpreendia, atualmente não acontece porque espero ler algo francamente bom e com a nossa marca. Personagens com facetas que identifico, em contextos que reconheço e em circunstancias que compreendo. 

A escrita e a capacidade de expressar ideias lúcidas e bem articuladas numa trama que desvendei no inicio, mas que ainda assim me deixou cativa com a caracterização gradual de todas as personagens sem enfado ou decepção, e a confirmação do desfecho que a mestria do autor não desiludiu. Não é uma historia feliz mas é uma historia possível e impõe alguma reflexão. Os juízos de valor e as regras de conduta desta pequena comunidade fascinaram-me.

"Há seres que não se procuram nem fazem falta, mas que não se dispensam depois de os termos. São amuletos que não dão sorte, mas não se jogam fora para não darem azar. E´ por isso que as aldeias devem ter sempre, pelo menos um tolo, para que a tolerância possa ser aprendida e exercida sem se pedir grandes concessões aos valores. Um ganho para a tranquilidade de consciência, que se alcança sem perdas morais a lamentar."                              (pag. 236)  

Sinopse:

No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. 
No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome. 
Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. 
Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

Síndrome de Antuérpia - João Felgar

Roda Dos Livros, 16.06.16

sindromedeantuerpiaFoi com bastante expectativa que iniciei a leitura de Síndrome de Antuérpia. Depois da surpresa de descobrir Terra de Milagres, no ano passado, tornou-se inevitável esperar, no mínimo, melhor.

Com este novo livro João Felgar continua a surpreender. A fórmula é idêntica em alguns pontos, na medida em que a leitura é rápida e de certa forma compulsiva. A escrita é, pois, fluída, agarrando o leitor.

A mim comoveu bastante a história deste livro, talvez mais do que a anterior. Apesar de não ser tão misteriosa, pois não me foi difícil deslindar a trama, é uma narrativa bastante densa e não raras vezes dura. O universo feminino continua a ser um foco de interesse, penso que Cassilda Alfarro é uma personagem extraordinária e muito bem construída, mas obviamente que a maior curiosidade e interesse cai sobre Célio, o rapaz que desapareceu da aldeia e passados vinte anos regressa com o corpo da mulher que sempre teve dentro de si.

Voltamos ao ambiente rural, o meio é pequeno e todos se conhecem. Amores, intrigas e lutas familiares. O passado sempre ao virar da esquina, como uma sombra ou um fantasma. Os Alfarro de um lado, família poderosa da terra, e o resto do povo do outro, quase como mero espectador de um dia-a-dia governado por quem pode mexer os cordelinhos. Interessante reflexão sobre a vida em comunidade e sobre quem controla o quê. Sobre o medo das coisas que não se controlam e que, inevitavelmente, o futuro leva à frente, sem piedade.

Quando Célio, agora conhecido como Castiça, a tola da aldeia, aparece morto na pedreira, há muito mais além do que aparenta haver. E o que fazer quando o que não podia ter acontecido é já um acto consumado? Poderá quem manda criar a verdade? Será sempre uma mentira para quem sabe o que realmente o que aconteceu.

Síndrome de Antuérpia não é uma lição sobre a tolerância, e penso que não pretende ser. É muitas outras coisas.

É uma viagem ao coração de uma família doente que já nem luta pelas aparências, por não ser preciso, pois cada um dos seus elementos é de uma transparência que não escapa aos anos de “convívio” entre a população. E mesmo não valendo a pena lutar contra a verdade, e o óbvio ser flagrante, continua a alimentar-se a imagem que Cassilda, agora a matriarca, decide que é a correcta.

É também, por exemplo, uma descrição sem paninhos quentes do caminho que Célio percorreu para ser por fora a mulher que sentia por dentro, numa época em que não havia qualquer acompanhamento médico, e só o moveu a vontade de ser feliz e de se aceitar quando se olhava ao espelho. As loucuras a que sujeitou o corpo, sem medo de experimentar, e as terríveis consequências foram uma tortura para si e também para quem lê as descrições do autor. Mas serão certamente uma ínfima parte das dores de tantos Célios. E é isso que na verdade custa – os pensamentos com que o leitor luta depois da leitura. Mas esta luta, quando permanece depois de fechada a última página, é o melhor prémio que um livro pode oferecer.

Síndrome de Antuérpia permanece. Dificilmente se esquece. Leiam-no!

Sinopse

“No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.”

Clube do Autor, 2016

Síndrome de Antuérpia de João Felgar

Roda Dos Livros, 22.05.16

Se há coisas que admiro num escritor é a forma como consegue escrever dois livros muito diferentes mas, mesmo assim, tão admiravelmente belos. Confesso que esperava impaciente este livro de João Felgar mal soube que o autor estava prestes a terminá-lo. Gostei muito de Terra dos Milagres e estava muito curiosa com esta segunda obra. Propus-me lê-la sem fazer comparações porque temia que, depois um primeiro livro com a qualidade de Terra dos Milagres, fosse difícil criar uma segunda obra com tanta mestria. Em parte, a culpa disso é do leitor pois as altas expectativas que muitas vezes tem, fazem com que pegue na segunda obra esperando dela o céu...

Mas a sua escrita está lá. Reconhece-se bem, sem dúvida. A forma inteligente como conta a história e como a desenvolve, os personagens caracterizados psicologicamente até à exaustão mas sem cansar, a descrição dos espaços, dos lugares, dos costumes e tiques de toda uma aldeia, tudo está lá. O enredo desenvolve-se devagar. É preciso contar, explicar ao pormenor como toda uma aldeia (ou quase) se une para guardar um segredo. Um crime. E é nesse decorrer devagar em que é descrita a história que se saboreia pormenores tão delicados, frases belíssimas e carregadas de sentido. Não esperem um ritmo tão intenso e rápido como o do primeiro livro, como eu o fiz, confesso. Degustem com calma as palavras do autor e garanto-vos que quando o final chegar ficarão a pensar nele. Sem correr o risco de vos contar nada, faço-vos as mesmas perguntas que tive de fazer para perceber esse final: Quem costumava enviar bilhetinhos a Antuérpia? Como o fazia? Então...

Embora tivesse prometido não comparar as duas obras, não consegui. O humor subtil, que adorei em Terra dos Milagres, não o encontrei aqui tantas vezes mas nem por isso este livro lhe fica atrás. Parece-me que é-se conquistado mais rapidamente pela primeira obra mas, esta segunda, prima pela mestria com que o autor consegue descrever a facilidade com que o horror consegue espalhar-se a toda uma aldeia, cúmplice e inocente ao mesmo tempo.

O nome das personagens merece um destaque especial: muito imaginativos, sui generis q.b., parece que encaixam perfeitamente em cada personagem, que lhes pertencem por direito. E, sobretudo, não precisamos de elaborar um "mapa" para não os trocarmos.

Embora me pareça que não será do gosto de um público tão abrangente e vasto como o de Terra de Milagres, este livro encheu-me as medidas. Deliciem-se. Provem-no devagar, como merece!

Estrelas: 5*+

Sinopse

No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

Neste novo romance, João Felgar regressa ao universo mágico das pequenas aldeias, tão elogiado pelos leitores de Terra de Milagres, e às histórias que só nelas ganham força e misticismo.

 

Terra de Milagres - João Felgar

Roda Dos Livros, 01.02.15

terrademilagresAmplamente comentado nas sessões da Roda dos Livros, e mesmo tendo sido revelados detalhes cruciais da trama, quis averiguar se “Terra de Milagres” seria merecedor de tão rasgados elogios por parte das minhas amigas Rodistas.

Quando assim é facilmente uma leitura nos desaponta, por, inevitavelmente, elevar demasiado as expectativas. Para minha grande surpresa o livro é, de facto, qualquer coisa de diferente, intenso e envolvente, que obriga a uma leitura constante sem desvios de atenção para outros livros, coisa que faço amiúde.

Uma primeira obra que apresenta um autor com estilo próprio. Uma escrita interessante, corrida e fluida que, não sendo excepcional, cumpre o principal propósito da obra, que é, a meu ver, contar uma história. E foi para saber mais, para descobrir segredos que me foram dados às peças que prossegui a leitura. A acção não é linear, os constantes saltos temporais são indiferentes à tortura do leitor, sedento de saber e, acima de tudo perceber o que aconteceu em determinada(s) altura(s) para justificar o sucedido noutra(s).

Uma estrutura perigosa, que poderia resultar num livro confuso, mas que por ser bem pensada e estar bem construída, cria um ambiente de constante suspense, adensa o interesse e acelera a leitura até ao final. Durante esta corrida a minha imaginação criou os mais diversos cenários, joguei hipóteses como quem joga cartas na mesa e gostei do exercício criativo que esta história, já de si original, me permitiu viver.

“Terra de Milagres” é um livro feminino, sobre a natureza da mulher, sobre as suas diversas facetas e sobre o seu poder. Mulheres determinadas em atingir os seus objectivos, mulheres observadoras, mulheres simples, mulheres complicadas, mulheres sábias, mulheres sensuais, mulheres que dominam os homens mesmo quando lhes são submissas, mulheres malvadas e conspirativas. Várias personagens mulheres, cada uma representando um perfil de feminilidade que compõe, na verdade, características mais ou menos presentes em todas as mulheres. Um livro visionário sobre o universo feminino, por vezes extremista, por vezes doce, sempre verosímil apesar de alguma ficção milagreira. Sobre o poder, as formas subtis e óbvias de o exercer, desde o terror à mentira, o grande poder do medo e do isolamento.

Um livro que faz pensar. Sendo sobre mulheres é curiosamente escrito por um homem, decerto muito bem informado e sem dúvida um observador atento do universo feminino, um ouvinte das suas conversas, um espião de pensamentos, um homem inteligente que descobriu um filão de material ilimitado para escrever um livro excelente. Caro João Felgar, é continuar.

A estragar a coisa, o que é uma pena, há um erro de revisão grave e irritante. A partir de certa altura uma das personagens muda de nome. Constante passa a Clemente a partir da página 178. Temos também a Elvirinha que na página 221 se transforma em Esmeraldinha. E depois há o “coro cabeludo”, que não seria tão grave se não estivesse já arreliada com o Constante /Clemente.

Tudo se pode remediar e rectificar numa próxima edição, que espero que exista, pois é mais do que merecida. Recomendo.

“E observou a condição humana a partir da sua sala de costura, conheceu os princípios e as leis que regiam a convivência entre homens e mulheres, ao ponto de concluir que o futuro de cada um nada tinha de incerto, que o amor mais não era do que uma fina máscara com que se cobrem os instintos, e que as sociedades se moviam à custa do medo: “Quem souber controlar o seu e conseguir manter o dos outros num estado latente, adquire o poder no seu estado mais puro.” (…) “Entre as mulheres era assim: até a gentileza trazia por trás uma ferroada, a amizade é o mais volátil dos sentimentos, sendo capaz de revelar as surpresas mais desagradáveis; pelo sim pelo não, mantêm-se as necessárias distâncias de segurança.” (Pág. 60).

Sinopse

“Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos.A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.”

Clube do Autor, 2014

Terra de Milagres - João Felgar

Roda Dos Livros, 08.11.14

terra de milagresUma boa amiga recomendou e emprestou-me este livro. Mesmo para quem muito lê, livros há que se destacam. Este é, sem dúvida, assim. Uma excelente prenda de Natal, podem crer! (Não, não conheço o autor.) Um livro para ler e reler e olhar para dentro de nós.

Para além da inegável qualidade da escrita ao contar com segurança e sem hesitações uma história tão absurdamente portuguesa com a fé e o fanatismo no comando das operações naquela pequena comunidade isolada do mundo por uma ponte que ruiu, temos uma galeria de personagens com sentir e sensibilidade feminina, admiráveis e impressionantes. Força, coragem e determinação, mas também medo, dor e solidão. Segredos, medo e ambição de Adelaide, que toma as rédeas e a quase todos verga. Comandante de um pequeno exército que treinou com o intuito de a proteger, e ocultar um tenebroso segredo, que a sua cega e desmedida ambição e vaidade não queria revelado.

Os acontecimentos precedem-na e Júlia, Leta Mirita, Gualter e Agripina vão descobrir o enigma de um bebé que nasceu na colónia dos leprosos.

Leitura voraz e pasma que não se esquece. Tanto para discutir e sublinhar nas palavras sábias de Júlia. Luzia de Siracusa, uma não personagem no cerne da trama.

Tenho um reparo a fazer, que não diminui o meu apreço por esta obra que aplaudo, mas que não posso deixar de referir. Uma gralha com um nome de um dos gémeos que se repete inclusive na mesma página, onde surge como Constante e Clemente.

E mais não conto, obrigatório ler. Obrigado Cristina Delgado.

Sinopse: 

Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.
Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos. A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.
Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.

Terra de Milagres de João Felgar

Roda Dos Livros, 17.09.14

Mal acabei de ler este livro tive a exacta noção que por mais que eu escrevesse não conseguiria descrever completamente o quanto eu gostei dele! Aliás, gostar é pouco! Confesso que fui apanhada de surpresa! Não esperava apaixonar-me tão rapidamente pela história nem pela escrita do autor.

Começa assim: "A fertilidade das mulheres é um caminho de sangue e dor. - disse Júlia, com uma fileira de alfinetes na boca.- Enquanto os rapazes jogam futebol e andam aos nínhos, estamos nós tolhidas com as dores da história sem sabermos bem para que serve aquilo. A perda da virgindade é a paga com as dores de uma punição, de preferência no dia mais bonito da nossa vida! E, por fim, a maternidade, em que damos uivos de lobas, com dores de se ver lume. Tudo isto sempre com sangue pelo meio."

Não costumo colocar aqui exertos dos livros que leio porque, para ser sincera, sou um pouco preguiçosa, mas não consegui deixar transcrever este primeiro pagrágrafo de Júlia, de tal forma ele me cativou à primeira! Júlia é uma das personagens principais deste livro e uma das mais bem conseguidas. Costureira sem estudos, que devora as Selecções do Readers Digest, para daí assimilar e decorar vários ensinamentos, é uma mulher sábia nos conselhos que transmite às suas filhas e a todas as aprendizas do ofício que lhe passam pelas mãos. Sem escolha nem poder de decisão, num Portugal de há nem tantos anos assim, Júlia viu-se a braços com um casamento com o cunhado, depois da morte da sua irmã, e com uma sobrinha de poucos meses. Aprendeu a tirar o melhor partido que a vida lhe deu mas... A vida dela foi um rol de surpresas tanto como as páginas desta obra! Tornei-me instantaneamente "amiga" de Júlia, tal as gargalhadas interiores que dei com ela e por causa dela.

Para além desta personagem muito sui generis, cheia de uma ironia que adorei, existem outras que foram tão bem aprofundadas como Júlia, a saber: Leta e Laidinha, suas filhas; Luzia, sua neta e futura santinha da aldeia; Agripina, dona de uma pensão e dada a intimidades frequentes e passageiras com os seus hóspedes; Gualter, com a sua figura delicada, carácter extravagante e ...e tantos outras que povoaram este meu fim de semana e o encheram de surpresas, suspense, risos mas também murros no estômago. Sim, porque a meio do livro, quando pensava que tudo fluiria calmamente, há uma reviravolta que me virou por completo por dentro e que vem dar um novo rumo à história. Para não desvendar o mistério, porque não é isso o pretendido, digo só que há "luas-de-mel" diferentes das sonhadas!

Caracterizando espectacularmente o ambiente de uma pequena aldeia perdida e fechada em si mesmo quer em termos de mentalidades quer geograficamente, João Felgar espantou-me com a sua escrita cuidada, irrepreensível mas ao mesmo tempo fácil de ler, irónica q.b. Escolhida a dedo mas fluída. Um retrato muito bem conseguido de uma época não tão longe assim e uma crítica implícita ao tema que o título deixa transparecer, os milagres. Com saltos no tempo que servem para melhor nos situarmos e caracterizar as personagens, sem que com eles nos percamos ou diminuamos o interesse pela história tão peculiar.

Acredito ter lido o meu romance de 2014. Nota máxima. Espero que não tarde muito a conhecer uma nova obra deste autor. Quantos livros estarão na gaveta do escritor? Sim, porque não acredito que haja alguém que, logo numa primeira vez, consiga sentar-se na secretária e escrever algo assim... Este é um livro que recomendo a todos: aos que gostam de romances mais leves e divertidos mas também aos que exigem um pouco mais. Creio que todos ficarão muito satisfeitos e agradados. Como eu. Espero sinceramente que este livro não passe despercebido!

Estrelas: 6*

Sinopse

 

Júlia é costureira numa aldeia do interior português. Na mesma terra, vivem as suas filhas Leta Mirita e Adelaide. A primeira vive um casamento infeliz, depois de se ter entregado a um homem que lhe prometeu «uma vida bonita». Quanto a Adelaide, só ela sabe o que se passa entre as paredes do quarto que partilha com Antero, seu marido.

Numa noite de temporal o rio invade a aldeia, destrói a ponte que a liga ao resto do mundo, e leva consigo os seis filhos varões de Adelaide. Quando as águas do rio se acalmam, Luzia de Siracusa, filha de Adelaide, vive os seus primeiros arrebatamentos místicos.

A fama de santa e milagreira corre veloz, e dá origem a um culto popular que atrai à aldeia multidões de peregrinos e devotos, indiferentes à hostilidade que o fenómeno inspira às autoridades eclesiásticas.

Ódios e cumplicidades entrelaçam-se com os comportamentos e hábitos do nosso tempo e da nossa terra. Uma terra onde por trás de um segredo se esconde sempre outro, e onde nem os milagres são o que parecem.