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Roda Dos Livros

«A terra que pisamos» de Jesús Carrasco :: Opinião

Roda Dos Livros, 08.06.17

Jesús Carrasco volta com mais dor e mais vazio, provando que a humilhação e o medo têm o poder de amputar e anestesiar quem é subjugado e cujo a vida é fruto dessa aridez que é a submissão imposta e ameaçadora. Assim é o cenário aqui construído, numa terra que cravou marcas profundas em quem a cedeu, mas não menos em nela fez vida, pisando o sangue e os ossos daqueles que vitimaram e mataram.
"O sono é um imperativo necessário mas frágil. (...) Molhar-se, claro, mas nunca se sentir envolvido por essa outra substância que purifica a pele e a pressiona. (...) O sonho como combustível para a consciência. Para poder voltar a transitar pelo inferno, nem que seja aos tropeções. O inferno é estar acordado e o verdadeiro descanso, nessas condições, só pode ser procurado pela morte. Ter os olhos abertos já não significa dor (...) Estar acordado significa não ser capaz de interpretar o que acontece à sua volta."
Uma presença inesperada desperta de um certo torpor uma mulher que, isolada, habita uma casa e uma terra, ganha pela violência exercida pelo marido e a força militar a que pertencia, durante um período de anexações de novas terras ao maior império existente. Esta presença, estranha e silenciosa, altera-lhe os contornos do pensamento e da consciência, exigindo uma aceitação que a condena e a faz sofrer, expiando os seus pecados enquanto expia aquele homem que se acanha e se contorce como quem se pretende fundir na terra, na Natureza, que mesmo bruta e exigente nunca humilha, como os homens se humilham uns aos outros.
"Pela primeira vez penso que o seu alheamento não é mais do que o resultado do sofrimento pelo qual passou. (...) Aceita o sofrimento como se a sua origem fosse espontânea, como se fizesse parte do que está à sua volta. Mas não foi assim, pois não há na natureza nada que per se seja humilhante. O que este homem carrega nos ombros foi-lhe infligido por outros."
Com este livro, Carrasco venceu o Prémio de Literatura da União Europeia 2016, já tendo sido bastante aclamado pela crítica com o seu romance anterior «Intempérie». Considero este superior, pois mantêm todo o esmagamento provocado pela humilhação, o desconhecido e a crueza da natureza, tal como no outro, mas acrescenta um detalhe muito interessante, a desigualdade feminina e o poder de uma mulher visto como desafio aos homens que a rodeiam. Essa voz feminina que aqui encontramos traz, a meu ver, outra força ao texto.
"Ele pode suportar a ideia de ser interpelado por outro homem (...) Mas eu sou uma mulher e estou a desafiá-lo. (...) Fica muito bem que sejamos nós a fazer refer~encia aos soldados como «filhos da pátria» ou «nossos rapazes», dando a entender que qualquer jovem que luta pelo império também é nosso filho."
(...)
"Teria preferido travar esta batalha na nossa sala. Ali ter-me-ia apoiado na visão dos livros. Cada lombada emite uma luz que compreendo claramente. (...) Ter-me-ia deixado aconselhar por Séneca. Ele ter-me-ia apaziguado. Ali, com os nossos licores, sob as madeiras talhadas do teto, teria dominado este homem irritante."

"Intempérie" de Jesús Carrasco . Opinião

Roda Dos Livros, 21.12.14

O livro de estreia de Jesús Carrasco está considerado como um dos melhores de 2013. Aliás arrecadou já vários prémios e a narrativa cuidada e polida de Carrasco tem sido acolhida e acarinhada pela critica.

Com um enredo cru e despojado, Carrasco cria uma intensidade na sua narrativa que seja a ser sufocante. A cadência das acções, dos diálogos, dos acontecimentos parece-nos sempre lenta, sempre reduzida, sempre diminuta e portanto, sufocante, intrigante, castigadora.Talvez todo o cuidado com as palavras, que aparentam ter sido, milimetricamente escolhidas e consideradas, trazem peso à escrita e também à acção. É nesse polimento da linguagem que o leitor se pode perder e vaguear entre a natureza e a pureza de um cenário ancestral, rural e duro, mas nunca tão duro como a acção descrita.

Há todo um entendimento camuflado entre os dois personagens, num silêncio comprometedor, dificultando assim a aceitação por parte do leitor desta estranha relação. Pelo menos foi esse o sentimento que eu experimentei. O sentimento de estranheza. Tão depressa queria que toda aquela dor e ausência de afecto passasse, como queria que a descrição evoluí-se e perceber se alguma vez chegariam a unir-se e a aceitar-se mutuamente.

Se até agora a opinião parece estranha, a obra não menos o é! Aliás, é isso que quero transparecer. É verdade que se narram outros tempos, outra ditadura, outras limitações e condicionalismos, mas parece-me a mim que o enredo levanta alguns véus, mas deixa várias pontas soltas - serão para o leitor especular e decidir por ele?Para quem não leu a sinopse, um rapaz, cujo o nome não sabemos, foge de casa. Vítima de maus tratos e talvez abusos, foge e pretende não mais voltar. Que o encontrem é o seu maior medo. Na fuga, na fome, na sede, no abandono, na aspereza e na aridez de um país vitimizado, este menino encontra um pastor. Um pastor porto de abrigo, dono de um silêncio profundo, de algumas cabras e conhecedor das lides do campo.Numa amizade estranha, descrita por episódios duros e de sobrevivência, pastor e rapaz fogem ambos daquilo que os atormenta.

Confesso que senti necessidade de ir ler mais sobre o livro e o autor. Se por um lado, o que mais me cativou foi a sua escrita, foi também ela que por momentos me cansou e me fez esquecer aonde poderia o autor querer chegar ou levar-me.

"Passou a noite acocorado junto ao velho imóvel. Corria uma brisa tíbia  enfeitada com o rumor de algumas cabras nervosas. Ao homem ardia-lhe a testa e gemia em sonhos a sua dor como um salmo ininterrupto e acromático." (pp. 103)

Há no livro toda uma luta, todo um sofrimento intrínseco à luta pela sobrevivência. No meio de tanta miséria, o autor brinda o leitor com uma escrita que pretende seduzir."Tento não escrever um solilóquio em que me sinto um artista. Não me interessa que as pessoas façam um esforço e entendam se quiserem. Quero que se sintam seduzidos." Diz o autor na entrevista ao Público.

No meio de tamanha intempérie esperamos a chegada da bonança!