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Roda Dos Livros

«Departamento de Especulações» de Jenny Offill :: Opinião

Roda Dos Livros, 27.11.18

"O que disse Ovídio: Se alguma vez fores apanhado, por muito bem que escondas, / Mesmo que seja numa noite clara, jura e rejura que é mentira. / Não te mostres demasiado servil, nem mais atencioso do que é devido, / pois com isso apenas lograrias afiançar a tua culpa. / Esgota-te se for necessário e demonstra na cama dela / que não poderias ser tão bom se acabasses de vir da cama de outra."

"Departamento de Especulações", de Jenny Offill, (Relógio de Água, 2015) é um livro arrebatador. E ao mesmo tempo uma chapada em diversos tons e de difíceis contornos. Ou seja, nem sempre percebemos se as palavras nos apanham em cheio, como os cinco dedos de uma mão ou se é apenas, um indicador esticado que nos cutuca o nariz, em jeito de empurrão mais subtil.
O que é certo é que Offill não escreve sobre nada de novo: um homem, uma mulher, casam e fazem bebés, um dia o homem cansa-se ou sabe-se lá o quê, traia a mulher e a ela, tipicamente como é esperado, dispara em especulações, emoções, divagações e (talvez) separações.
Simples básico banal.
Nada mais errado! E é isso que faz do departamento de Jenny um departamento sem igual nesta empresa compartimentada que é a vida a dois.
"A vida é igual a estrutura mais actividade."
"Os budistas dizem que há 121 estados de consciência. Desses, só três envolvem angústia ou sofrimento. A maior parte de nós passa o tempo a circular entre esses três estados."
Se a estrutura está em risco e a actividade é torturante, minada pelos círculos de angústia e de sofrimento, daí só poderia resultar uma narração conturbada, híbrida e fragmentária, de onde sobressai uma mulher que procura entender, sentir e se abrir ao que a vida tem, agora, para lhe oferecer.
"A invenção do barca representa também a invenção do naufrágio"
"Até ao século XVII, era geralmente admitido que os ímanes possuíam alma. De que outro modo podia um objecto atrair e repeli?"
Com quantos sinónimos e de quantos antónimos se faz uma relação?
Atracção/traição. Amor/paixão. Cumplicidade/solidão. Desejo/ sexo. Intimidade/repulsa.
Há de tudo no inventário de Jenny Offill. Mas de tudo mesmo, abrindo assim o leque de pessoas que pode atingir. E atinge de certeza.
"O que disse Simone Weil: A atenção sem objecto é uma forma de oração superior."
"Uma experiência mental, proposta pelos estóicos. Se estás farto de tudo o que tens, imagina que o perdeste."
É difícil definir, é extremamente complexo de explicar, pois não é só de sentimentos, de desgosto ou desapego, da maternidade ou da complexidade da vida a dois, todo o livro é digno de ler e reler, de pensar nos diversos caminhos que nos aponta... até na profissão a narradora nos surpreende, ela aceita ser ghostwriter de um "quase astronauta" russo.
"Minha Vera, Tua Mãe Já Sabe Usar Naftalina. É a mnemónica que lhe deram para recordar a ordem dos planetas."
Com uma separação digna de quem habita outro planeta, a esposa vai narrando e, ora se afasta, ora se aproxima, como se tivesse ao seu dispor um zoom que procura calibrar.
Ela quer compreender, ela quer aceitar. Especula ensinamentos, palavras alheias, compara-se aos outros e olha para si, para ele, para o "nos". Há até quem diga que este livro é uma ode ao casamento.
 

Leituras no feminino, uma Roda Extra

Roda Dos Livros, 30.10.18

RL-MC-mulheres

No passado sábado reunimos para falar de escrita no feminino, de autoras e dos temas recorrentes. Não apurámos ao certo se: traição, adultério, amor, solidão e especulação dominam os enredos, mas uma coisa é certa, a conversa esteve animada!A reunião decorreu na Mercearia Criativa, à qual, leitores, vos aconselho uma visita para degustações variadas.Das nossas incursões gastronómicas, a Roda recomenda:
  • scones de batata doce barrados com gordices (aka doces caseiros de frutas da época);
  • chá de tomilho e limão
  • chocolate quente, ao género, faça você mesmo
  • bolos à fatia
  • e uma vasta carta de vinhos
Têm todos os motivos para lá irem, pois a Mercearia tem imensa oferta.RL-MC-mulheres2.jpgFalando propriamente da sessão em si, mesmo sendo poucas, a participação foi variada. Houve quem trouxesse livros que representaram "as mulheres da minha vida", duas das nossas rodistas escolheram assim: Alicia Vieira, Pear S. Buck, Sophia de Mello Breyner Andresen, Daphne du Maurier, Ana Teresa Pereira, Rebecca Solnit ou Margaret Atwood, entre outras que se repetiram durante a conversa.Outra sugestão interessante foi apontar Gillian Flynn na construção de heroínas que fogem ao modelo de policiais escritos por outras mulheres, e inevitavelmente se tocou no nome de Agatha Christie. O policial pode por vezes parecer um género menor, mas não aqui entre as nossas leituras.A conversa viajou a largos passos e atravessou continentes, nomes como Hiromi Kawakami, para nos dar a típica atmosfera nipónica contemporânea, por contraste com a cultura e o papel da mulher no Ocidente, como tão bem descreve Meg Wolitzer nos seus romances, onde a expectativa, a solidão e a traição estão sempre presentes. E logo se voltou a falar de Pearl S. Buck, com inúmeros livros que atravessam a história da China e por sinal a história da mulher nesse mesmo registo cultural.De solidão e de períodos conturbados, sejam eles individuais sejam colectivos da história de um país, esticámo-nos no assunto, tentando perceber que aura tão pessimista continua a pairar na escrita de autores nacionais e daí lá voltámos à aura tão própria da escrita de Sophia. Ou até de Ana Teresa Pereira e do quanto os livros de uma autora nos podem, e levam, aos livros de outra ou de outras.O conflito e a guerra, a devastação e a miséria humana foi outro dos temas abordados e nomes como Dubravka Ugresic, Chimamanda Ngozi Adichie ou até a mais recentemente publicada em Portugal, Ayobámi Adébáyò, foram alvo da nossa atenção. A literatura mais a Leste ou para os confins de África tem sido recorrente em várias outras reuniões. A História cruza-se com enredos familiares ou desaires amorosos e isso preenche os gostos de muitos do nossos rodistas, juntando ficção, política e História, ou melhor dizendo, entretenimento e aprendizagem.A conversa deu ainda mais voltas, tal como as voltas que a escrita dá para abranger tudo o que o feminismo abrange, mas aqui ficam as principais e a habitual lista de sugestões:Ana Borges: "Em parte incerta" de Gillian FlynnCris Rodrigues: "Departamento de especulações" de Jenny OffillFernanda Palmeira: Poesia reunida de SophiaIsabel Castelo Branco: "E se nos encontrarmos de novo", de Ana Teresa PereiraRenata Carvalho: "O Museu da Rendição Incondicional" de Dubravka UgresicVera Sopa: "A Persuasão Feminina" de Meg Wolitzer