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Roda Dos Livros

Montedor de J. Rentes de Carvalho

Roda Dos Livros, 28.09.14

Uma amiga minha prefere ler os livros de cada autor pela ordem em que foram escritos. Atē agora, isso não tem sido relevante para mim. Confesso que cheguei a achar uma obcessão de quem é leitor compulsivo... Mais uma a juntar a tantas outras que, quem sofre deste "mal", conhece muito bem!

Porém, sendo "Montedor" o primeiro livro de Rentes de Carvalho, faz todo o sentido lê-lo antes dos outros. Foi isto que senti depois de acabar este livro. Já tinha lido "Mentiras e Diamantes" e gostei muito da sua escrita deliciosa. O enredo prende completamente o leitor. Para ler a seguir tenho "Os lindos braços de Júlia da Farmácia", de quem li comentários muito bons.

Confesso que, talvez por distracção minha, este livro não me prendeu tanto como o que li anteriormente. O personagem principal, embora caracterizado de forma soberba, irritou-me um pouco com todo o seu descontentamento, quase desprendimento, perante a vida! Buscando um futuro e, no entanto, sem futuro algum!

Escrito em 1968, adivinha-se na escrita desta obra-estreia de Rentes de Carvalho uma inquietação que leva o ser humano a querer ir mais longe! A comprová-lo estão os muitos livros publicados em Portugal e que pretendo ler num futuro próximo.

Estrelas: 4*

Sinopse

Ao longo das gerações, são sem conta as famílias portuguesas em que há alguém como o triste protagonista de Montedor: rapaz sem futuro, com um passado apenas de sonhos, arrastando-se num presente que é uma verdadeira morte lenta.

Mau grado a simplicidade das personagens e das cenas, há no romance uma tensão permanente, e pode-se com verdade dizer que quase cada página encerra um momento dramático ou antecipa uma tragédia, a qual, talvez porque raro chega a acontecer, cria um desespero cinzento, retratando bem, e cruamente, os medos e o sofrimento da sociedade portuguesa, passada e presente.

Publicado pela primeira vez em 1968, Montedor é o romance de estreia de J. Rentes de Carvalho, sobre o qual escreveu José Saramago: «O autor dá-nos o quase esquecido prazer de uma linguagem em que a simplicidade vai de par com a riqueza (...), uma linguagem que decide sugerir e propor, em vez de explicar e impor.»

 

Com os Holandeses - J. Rentes de Carvalho

Roda Dos Livros, 29.06.14

holandesesMais um livro excelente, que recomendo sem qualquer reserva. A escrita de J. Rentes de Carvalho é maravilhosa, li este livro num constante estado de encantamento pela forma como as palavras são conjugadas de forma perfeita, e os estados de alma chegam até ao leitor através de uma escrita sentida, mas objectiva e nada piegas.

Uma espécie de ensaio que é também uma história de vida. Um género de autobiografia de vasto interesse sociológico. Assim é, escrito na década de setenta e plenamente actual, de uma lucidez e acutilância esmagadoras.

Eu adoro Rentes de Carvalho. Não apenas pela sua escrita mas também pela pessoa que não conheço mas com quem simpatizo. Não sei bem porquê dado que só lhe falei duas vezes, e em ocasiões circunstanciais, guardo a imagem de um ser humano especial. E quando se aprecia assim alguém gosta-se de tudo o que esse alguém faz, neste caso, escreve. Daí a minha opinião poder ser tendenciosa e estar completamente deturpada por esta admiração, coisa que não me incomoda nada mas aviso já que certamente só falarei bem de todos os livros que ler deste senhor.

“Com os Holandeses” é uma descrição bastante completa de um país e dos seus habitantes. Escrito por um observador estrangeiro, um português que deixa o seu país e vai viver para Amesterdam, Holanda. É uma análise exaustiva da sociedade holandesa em vertentes tão pertinentes como família, religião, culinária, cidadania, sexo, educação, arte, vida profissional, e tudo o que leva um homem observador dissertar sobre o meio envolvente, sobre a sua própria experiência de vida, sobre o que é diferente, sobre o que o impressiona, causa espanto. Uma reflexão sobre as diferenças, feita com a justiça de quem não se vê como superior ou inferior, mas com a frontalidade e o discernimento de quem aceita (e também rejeita) o que é distinto.

Genial. Um livro de Rentes de Carvalho sobre ele próprio, a sua experiência, a sua capacidade de análise, as suas dificuldades com toda a espécie de barreiras que as diferenças culturais levantam a quem deixou para trás um país tido como atrasado perante a supremacia de um povo que se acha melhor e mais civilizado. Muito interessante.

“Cavalheiros sérios, fiéis das igrejas, temerosos de Deus, metidos em fatos que ressudavam decência, alegres de poderem explodir assim, impunemente, mas sabendo que se o meu falar era atarantado eu os compreendia na perfeição, que os marcava e à noite – uma fuga? Uma defesa? – me sentava a descrevê-los, anotando os gestos, as palavras, os nomes.” (Pág. 27);

“E a rua é impecável, o telefone automático, o radar pilota os navios, os computadores administram. Quem vem à procura de aventura e romance e os espera a cada esquina bem se ilude. Dará de cara com treze milhões (1971) de indivíduos cujo temperamento não se coaduna às fantasias, às perdas de tempo, aos descuidos, menos ainda à indolência, fanáticos do planeamento, da previsão e do arrumo.“ (Pág. 40);

“Contudo, é raro o dia que me não dou conta de que o holandês, sem ter conseguido criar o paraíso, mesmo assim tem aqui uma extremamente confortável, bem organizada, bem administrada e acolhedora terra, onde o viver pode ter encantos, onde além dos encantos se goza ainda um superior e imprescindível bem: a liberdade.”

“Quando ao ter de escolher preferi ficar, a minha impressão foi de que a Holanda oferecia indiscutivelmente garantias cívicas e políticas que eu sabia, por amarga experiência, serem problemáticas noutros países, mesmo naqueles que juram ter amamentado a liberdade democrática quando ela ainda era de peito” (Pág. 75);

Sinopse

"Sobre o clima, os costumes, as manhas, a bruteza, os vícios, a má comida... A lista começou com Júlio César, alongou-se no decorrer dos séculos, tem casos extremos como o do mal-agradecido Voltaire que, em vez de dar graças pelo refúgio oferecido, sintetizou venenosamente os Países Baixos em "Canards, canaux et canailles". Jesuíta e diplomata, António Vieira disse pior, mas diplomaticamente. De facto são muitos os críticos mordazes de um país em que outros só vêem campos de tulipas, moinhos a rodar serenamente, montes de queijo, diques, água, abundância de belas raparigas loiras e desempenadas. Assim, o optimista Ramalho Ortigão escreveu a suave aguarela que, para muitas gerações, funcionou como relato exemplar de um país exemplar. O meu caso difere."

Quetzal, 2009

«La Coca» José Rentes de Carvalho - Opinião

Roda Dos Livros, 10.12.13

"Entusiasmado, não me dei então conta de que em parte me iludia. (...) Julgando ir ao encontro das excitações do presente foi o passado que se impôs, as lembranças de ontem pesando mais que as vivências do momento, a moldura substituindo-se ao quadro.»

E ainda bem que foi o passado que se impôs!Este livro de Rentes de Carvalho remonta a um retorno do autor às suas origens, ao norte de Portugal, na esperança, a meu ver, vã, mas nunca oca, de relatar o contrabando no nosso país, com as implicações sócio políticas que isso arrasta. No entanto, o brilhantismo que usa ao caracterizar os seus personagens, conferem-lhe um certo romantismo que, a certa altura, nos faz esquecer a verdadeira acção.Aliás, qual é a verdadeira acção e rumo desta narrativa?

Esta questão assombrou-me por toda a leitura, já que os momentos de um quase diário, um revisitar de memórias, novamente romanceadas com os locais ou os seus intervenientes, foram para mim momentos altos da narrativa e esta dava passos de gigante e ganhava dimensões memoráveis.

"O presente que me fascinava e eu quisera vis testemunhar, existia como que descolado no tempo, sem as nostalgias de ontem que eu lhe emprestara, nem a simplicidade dos meus sonhos de amanhã."

É o registo sincero e nostálgico que confere força às memórias que nos fazem sentir uma enorme proximidade entre a década de 90 e a actualidade, na forma aparentemente inócua, mas pragmática com que expõe algumas críticas sociais e políticas.

Apesar de curto, é um livro que acompanha o ritmo acelerado de quem retorna, mesmo que por tempo limitado, à terra mãe e a quer brindar com visitas aqui e ali, mas devido à temática da droga expõe ainda outro ritmo, mais cambaleante, mas inesperado, que com o entrelaçar das memórias do autor, nos transportam a épocas diferentes, obrigando-nos a abrandar o passo e quem sabe passear com o autor pelas ruas da memórias e as conversas entre amigos.

Entre amigos, se assim se pode dizer, memorizei dois episódios divinais, o das observações do Diego Romano e o seu Hotel Roma (negócio pra inglês ver) criticando a estrangeirada e apelidando-os de pelintras e alcunhando-os de porcos. Ou outras amizades como o Manolo da Espanhola ou o Feio, com quem se mantinha o adágio de "amigos, amigos, negócios à parte", tal como a farsa popular e o fechar dos olhos ao sustento dado pelo contrabando.

«La Coca» é ainda um roteiro por terras do norte de Portugal e pela Galiza, descrevendo não só as sensações, as cores, os cheiros, mas também as atitudes das gentes de tais povoações. Ensinando ainda a olhar com os olhos da nostalgia para que as visões do presente não se exaltem com as mudanças do progresso... por vezes nefasto.

"Terra de gente mexida, em constante alerta, passa-se na rua e todos os olhos nos escrutinam. Sem malícia, mas com uma ponta de desconfiança, atitude típica gerada por séculos de contrabando... (...)por entre hortas descobrem-se uns horrores modernos... Com o tempo aprendi a fechar os olhos para o que mudou."

Na obra, o autor refere-se a Dom Ramón e é nessas que eu revejo a escrita de Rentes de Carvalho:

"No meu íntimo o poder de raciocínio parecia anestesiado, enquanto a minha fantasia e a minha sensibilidade se amoldavam dóceis às palavras daqueles homem, que à postura de verdadeiro líder aliava um dom excepcional de contar."

*

Uma edição da Quetzal, mais aqui: http://quetzal.blogs.sapo.pt/tag/j.+rentes+de+carvalhoO autor em entrevista, mais aqui: http://www.ionline.pt/artigos/jose-rentes-carvalho-miudo-minto-diabo-ninguem-deve-acreditar-mim

José Rentes de Carvalho ganhou recentemente O Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo livro "Mazagran", veja mais aqui no Diário de Notícias.

Mentiras e Diamantes de J. Rentes de Carvalho

Roda Dos Livros, 28.04.13

Edição/reimpressão:2013

Páginas:316

 

Editor:Quetzal

ISBN:9789897220951

 

Estive já com vários livros deste escritor mas nunca os cheguei a levar para casa... Não me perguntem porquê! Talvez porque desconhecesse por completo o que perdia: uma escrita absolutamente apaixonante, um enredo de uma imaginação fora do vulgar.

Os pequenos episódios, de uma história que vamos construindo devagar, mudam com frequência de narrador e de cenários, levando-nos a um conhecimento profundo do carácter e segredos dos personagens, sem perdermos a história principal.

O que parece uma história simples, localizada maioritariamente em espaço algarvio, transforma-se em algo onde o mistério é uma constante, o maior companheiro destas páginas!

E quando vamos embalados na história, eis que o fim chega! Não é um final pacífico, que nos transmita sossego. Voltei atrás, reli a última folha tentando descortinar no meio das palavras do autor algo que me permitisse largar o livro tranquilamente! A dúvida instalou-se: mas afinal a que fim os destinou o autor? Um final inquietante, eu diria, que teimamos em deixar de lado.



Estrelas: 5*

Sinopse

Jorge Ferreira, conhecido como "o conde", recebe na sua quinta uma jovem e muito bela inquilina inglesa, que pretende passar uma temporada no interior algarvio a escrever um livro.
Rondando os cinquenta, o anfitrião é um homem educado, atraente e rico, mas extremamente reservado (partilha a imensa casa senhorial, no meio de uma paisagem de cortar a respiração, com apenas duas governantas velhas, uma cozinheira e um feitor): não se lhe conhecem amigos, amantes ou outro tipo de laços. Talvez porque o seu passado esconde um acto de ignomínia, uma tremenda infâmia, que o vitima até hoje e que pretende erradicar da memória.
Sarah Langton é impulsiva e aventureira, viciada em liberdade e em correr riscos - o que não consegue coadunar com a reclusão e a disciplina que a escrita exige. Filha de um italiano riquíssimo, também não são os problemas monetários que a atraem para o perigoso mundo do tráfico de diamantes… mas sim a perspetiva de produzir matéria-prima ficcional de primeira, mesmo que a não passe ao papel, e a de que a aura de segredo e mistério mantenha à distância curiosos indesejados.
Tudo parece concorrer para que estas duas pessoas se aproximem lentamente e que comecem a processar o que as atormenta (a Jorge, o episódio do passado; a Sarah a dificuldade extrema em escrever alguma coisa pertinente)… Mas a súbita visita de Biafra - vistoso fato de linho branco, cravo na botoeira, panamá na mão -, para praticar uma pequena chantagem, precipita uma cascata de revelações, desenlaces, mortes, desaparecimentos entre a Libéria, Marrocos, Algarve, Londres e Amsterdão.
Mentiras & Diamantes, o mais recente e inédito romance de J. Rentes de Carvalho, é um thriller habilmente construído e uma narrativa implacável, violenta e sexy. E um maravilhosamente obscuro objeto de suspense.