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Roda Dos Livros

A Gorda - Isabela Figueiredo

Roda Dos Livros, 04.12.17

agordaAdvertência: Todas as personagens, geografias e situações descritas nesta narrativa são mera ficção e pura realidade. Assim se inicia A Gorda, deixando desde logo o leitor avisado para as possíveis intersecções entre os eventos narrados neste livro e a experiência pessoal de Isabela Figueiredo, que se estreia com este livro na ficção. Narrado na primeira pessoa ao longo de vários capítulos cujo ponto de partida é uma divisão da casa, a autora dá-nos a conhecer Maria Luísa, nascida em Moçambique e enviada pelos pais para Portugal em 1975, ao longo da sua infância, adolescência e maioridade, numa narrativa que alterna constantemente entre período temporais da vida da narradora.

Maria Luísa é uma miúda inteligente, dedicada e voluntariosa, que vive condicionada pelo seu aspeto físico. O seu excesso de peso não influencia só quem é fisicamente; acaba por também definir que ela é, e a pessoa em que se vai tornar. Maria Luísa mostra-nos, enquanto relata os episódios que marcaram a sua vida, a constante vontade de se libertar das amarras impostas pela sua aparência e o conformismo com a mesma, numa viagem marcada pelas constantes visões opostas sobre os aspetos fundamentais da sua vida. Tão depressa quer livrar-se da presença e influência dos pais como reconhece que os ama e que nunca quer despedir-se deles; a sua relação complicada com David passa constantemente de algo sem o qual não pode viver para algo que a consume e do qual se quer livrar; o próprio peso define-a e é parte dela, mas Maria Luísa sabe, lá no fundo, que a sua vida seria completamente diferente sem ele.

É um livro que fala, claro, do impacto que tem a aparência na vida de uma pessoa. Mas é muito mais do que isso: não fala só sobre a forma como a sociedade (não) aceita as pessoas que fogem do “normal” a nível físico; acrescenta uma muito relevante perspetiva de como essas pessoas se aceitam a si próprias. Maria Luísa é um poço de contradições e a sua forma de encarar a vida, os seus dilemas e frustrações perturbam o leitor porque, lá no fundo, todos temos um pouco de Maria Luísa. Isabela Figueiredo conseguiu, quanto a mim, construir uma personagem que marca o leitor porque o fere, quando desbragadamente pôe por palavras aquilo que muitas vezes sentimos mas não queremos admitir.

No final de contas, achei A Gorda um livro poderoso. Muito bem escrito, perturba e mexe com o leitor. Deixa uma marca quando a última página é virada. Ainda que não o considere perfeito devido a alguma repetição de ideias, foi um livro que gostei muito de ler e que me deixou a certeza de que vou querer ler futuras publicações desta autora portuguesa.

Ainda penso como gorda. Serei sempre uma gorda. Sei que o mundo das pessoas normais não é para mim. Continuo a ter o defeito, mas não se vê tanto; tornou-se menos grave.

«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.11.17

"Era África, inflamante, sensual e livre. Sentia-se crescer por debaixo dos pés. tremia. Um coração inchado. Era vermelha. Cheirava a terra molhada, a terra mexida, a terra queimada, e cheirava sempre."
"Nesse momento houve um vácuo de tempo em que não fomos pessoas, não tivemos culpas nem prazeres; nada humano - só nós; senti ao longe o odor da sua carne transpirada, ácida e doce, que era a minha, dos seus ombros e rosto, um abraço que não pudemos desapertar nunca; e ainda não, e em lugar nenhum, nunca, porque não era apenas um abraço, mas uma aliança invisível, muda, que mantínhamos, à qual fui fiel mesmo quando o traí."
«Caderno de MEMÓRIAS COLONIAIS» de Isabela Figueiredo é uma declaração de amor a Moçambique e ao pai. Um paixão e uma admiração quase secretas e caladas. Uma declaração de memórias conturbadas e pesadas, mas escritas de uma forma que fluí no leitor e só apetece agarrar e ler sem parar. O mesmo aconteceu aquando da leitura de «A Gorda» e tenho vontade de dizer que este livro supera o outro, não fosse a estrutura de casa que o outro tem. Este pode ainda ganhar pelos segredos que se revelam e o lado ainda mais cru e desempoeirado.
Isabela transporta o leitor para onde ela quer e é isso que se torna inesquecível na sua escrita, no seu relato íntimo e sem pudores. Lourenço Marques, o colonialismo e o racismo, as abruptas diferenças, o trabalho e a imagem; as rendas das suas roupas, os cães famintos e os restos que componham as vidas dos pretos; os pretos só por si, renegados para último plano; a metrópole e as políticas que estavam lá longe, tão longe como o horizonte; o 25 de Abril e a inversão da história, a violência e o peso de uma catana; o calor e a terra queimada... tudo isto e muito mais. Tudo cabe na escrita deste Caderno.
"«Os negros mataram, à catanada, o marido e os filhos da Conceição, no Infulene; lembra-te disto, desmembraram-no todo, estava espalhado no milheiral... foi o teu pai que lhe encontrou os bocados...!»"
(...)
Na metrópole não conheciam a catana. Seria necessário descrever as características e potencialidades dessa arma. Só depois contar,
Largas como as do talho, a maior parte, mas longas, com lâminas largas, ligeiramente curvadas (...) A catana podia transformar qualquer corpo vivo numa massa aleatória e informe de órgãos. Em segundos. Era um instrumento de morte e poder como nenhum outro. (...)"
No Caderno cabe também e não podia faltar a morte, o desterro, o desenraizamento, a solidão, a pobreza, a recriminação e a culpa e tantos outros sentimentos que vão sendo expressados ao longe de pouco mais de duzentas páginas.
"Um desterrado é também uma estátua de culpa. E a culpa, a culpa, a culpa que deixamos crescer e enrolar-se por dentro de nós como uma trepadeira incolor, ata-nos ao silêncio, à solidão, ao insolúvel desterro."
Nesta trepadeira de memórias que se apoderam desta escrita ficou só a faltar uma epígrafe sonora como «A Gorda» tem.

«A Gorda» de Isabela Figueiredo :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.11.17

Um livro que começa com uma epígrafe sonora repleta de músicas que oiço de anos para cá e que sempre são capazes de me arrancar memórias, sorrisos, lágrimas, sentimentos e até alguns arrepios, é desde logo muito bom sinal. Escolhi não ouvir todas logo no começo, aliás, a leitura foi tão ávida que só voltei a olhar às mesmas agora que fechei o livro e vejo que fazem todo o sentido face ao relato que aqui é narrado.

"O monstro da fome é um grande amigo quando está saciado.

Sinto-me consolada. Se não, vai-me espetando no estômago o seu refrão, para que não me esqueça. Não esqueço. Acalma-te, fome, eis as tuas oferendas! Pão com marmelada. Pão com manteiga. Pão com chouriço. Teria preferido sentir fome nos pulmões para saciá-los com grandes golfadas de ar. Ou no coração, para correr e acelerar a pulsação. Calhou-me o monstro multicéfalo da fome no interior do estômago, ligado ao cérebro.

É como se tivesse cogumelos a crescer no interior escuro e húmido do meu corpo."

«A Gorda» é um livro que coloca em nós um feitiço, nos faz rir e dançar, mas também é capaz de provocar dor e solidão. Leva-nos até outros tempos, os da infância e da adolescência, voltam as memórias de rebeldia vivida ao som de Nirvana, juntamente com a descoberta de Joplin ou The Doors, até uma fase já mais madura, onde essas e outras canções nos apelam a imagens que até parecem já não nos pertencer. E atrás de uma imagem, outra e mais outra, que a vida se vai compondo e ganhando os seus cheiros, as suas músicas, imagens, pessoas e coisas, pequenos e grandes nadas que de anos a anos se fecham em caixas e se pensam arrumar, longe da vista, nesta ou naquela divisão da casa, mas a casa acaba por nos habitar e nos fazer recordar. E de canto em canto, vamos revivendo anos e anos de memórias, na casa de família, já depois do retorno a Portugal.

É isso, «A Gorda» é um livro de memórias, escrito ao ritmo dos dias de hoje, percorrendo os cantos à casa, como quem se percorre a si mesmo. Sendo imperdoável e mutilador com o passado, o presente e até o amanhã. Isabela Figueiredo traçou um diário de bordo de mais de trinta anos de memórias e administra no leitor uma generosa dose da história de Maria Luísa.

"Mas que vitória? A minha vida oscilava entre os momentos de pragmática e dura realidade e os de evasão em estado puro, graças à capacidade de fantasiar com que Deus me dotou para que me aguentasse viva. Uma bênção concedida! Recorresse eu a ela nos bons ou nos maus momentos, sempre que dela necessitasse. E o resto: os cães, os gatos, os ouriços, as flores, o mar, a literatura, a arte e o pensamento... Poderia ter-me concedido também a graça do sono. Isso é que teria sido divino! A insónia persegue-me ao longo das inúmeras vidas que já vivi nesta."

O drama, o humor, as recordações e a vida vivida como gorda, mostram bem as mágoas e as ironias pelas quais Maria Luísa passou. É fácil partilhar da sua sátira e aceitá-la, e chegamos a torcer para que as coisas lhe corram de outra forma. A certa altura todos somos a história dos outros e os outros estão dentro de nós, da nossa casa, partilhando e vivendo como iguais.

"O sexo era uma brincadeira, mas a sério, sumarenta e líquida como descascar uma laranja e comê-la, sem palavras próprias nem regras. (...) Não podia ser possível nem verdade que os nossos pais se entregassem a um gosto tão bom depois de nos ensinarem a encará-lo como vergonha.

Não somos capazes de ver os pais como pessoas iguais a nós, como penso que eles não são capazes de nos ver como pessoas que também já foram, antes de se terem tornado aqueles que conhecemos. Somos continuações e prolongamentos uns dos outros, que se escondem e se temem."

A Gorda - Isabela Figueiredo

Roda Dos Livros, 14.01.17

agordaEste é um daqueles livros de que se gosta desde a primeira frase. Eu gostei bastante e li rapidamente. Há urgência nesta leitura, não que seja compulsiva, pois a partir de certa altura a história não oferece nada de novo, mas há uma necessidade constante de virar a página e acompanhar a escrita fluída e bonita de Isabela Figueiredo.

A vida de Maria Luísa está neste livro, compactada nas divisões de uma casa. Uma organização diferente (eu nunca tinha visto) em que cada capítulo vai nascendo dentro de um novo espaço. Se por um lado há sempre um pormenor ligado à sala, ao quarto, ou à cozinha, por outro o local funciona como o fio condutor que leva a uma parte da história da sua vida. Pode ser uma conversa ou uma cena de amor, algo que a liga à divisão, à casa e, claro, a ela própria.

A Gorda é sobre Maria Luísa, que é gorda. Contudo, não é um livro sobre ser gorda ou magra, sobre ser gozada na escola devido ao aspecto físico, ou sobre o namorado que tem vergonha de estar com ela em locais públicos. Ou melhor, é sobre todas essas coisas e muitas mais, sobre os anos que passam e deixam marcas, sobre as opções de vida e o caminho percorrido. É sobre as metas de uma mulher com ganas de vencer, determinada e trabalhadora, aventureira e humana. Uma mulher que se cansa, desanima e, por vezes, deixa cair os braços. Como todos nós.

Maria Luísa deixou de ser gorda. Não é spoiler, sabe-se logo no primeiro parágrafo. Mas não deixou nunca de ser ela própria. E essa é uma aprendizagem que nem todos conseguem seguir. E é muito bom saber tudo isso num livro como este, que se lê com facilidade e prazer, que faz pensar, porque é tão fácil identificarmo-nos com Maria Luísa e com as reviravoltas comuns às vidas da maioria das pessoas. E como ela, voltamos a casa, ao espaço familiar, conhecido, que habitamos e também deixamos que nos habite. Todos os dias.

Gostei de quase tudo. Só houve uma coisinha que aqui a picuinhas achou que estava a mais, que é a repetição da descrição de alguns acontecimentos. Entendi que serviram para fazer uma ligação à história quando se muda de divisão, mas eu dispensava algumas das repetições.

É um excelente livro. Recomendo com a certeza de que agradará à maioria dos leitores.

Sinopse

“Maria Luísa, a heroína deste romance, é uma bela rapariga, inteligente, boa aluna, voluntariosa e com uma forte personalidade. Mas é gorda. E isto, esta característica física, incomoda-a de tal modo que coloca tudo o resto em causa. Na adolescência sofre, e aguenta em silêncio, as piadas e os insultos dos colegas, fica esquecida, ao lado da mais feia das suas colegas, no baile dos finalistas do colégio. Mas não desiste, não se verga, e vai em frente, gorda, à procura de uma vida que valha a pena viver.”

Caminho, 2016

A Gorda, de Isabela Figueiredo

Roda Dos Livros, 13.12.16

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Não sei se em "A gorda" Isabela Figueiredo exorciza os seus demónios mas não tenho dúvidas de que, ao ler este livro, cada leitor o faz.

Acredito que todos, com maior ou menos intensidade, do lado da vitima ou do lado do agressor, já vivemos situações de preconceito. Seja por uma característica física, uma situação familiar ou apenas por sermos de alguma forma diferentes, todos nós já fomos vencidos pelo preconceito. A maioria de nós terá, espero eu, ultrapassado esse tempo mais ou menos ileso mas a alguns esse preconceito deixou marcas permanentes, moldou personalidades e condicionou futuros.

A Maria Luísa viveu toda a sua vida com preconceito. Às tantas o seu próprio corpo traiu-a e deixou de lhe pertencer, deixou de a representar. Mas ninguém foge do seu corpo. Ninguém consegue evitar ver-se através dos olhos dos outros, através das palavras dos outros. Não imagino o que é chegar ao ponto de optar por se mutilar para finalmente se transformar naquilo que se sabe ser (não se preocupem, está na primeira página, não é nenhum spoiler).

Este livro é feito de emoções. A escrita crua e angustiante da Isabela Figueiredo faz-nos olhar para a Maria Luísa de dentro. Faz-nos embarcar na viagem de auto-conhecimento enviesado que a própria personagem faz ao longo da vida.

Este livro é marcado pelas relações. Pelas relações de amor-ódio que marcam todos aqueles de quem somos próximos, pelas relações dos que entram e saem da nossa vida sem que percebamos bem porquê. Pelas relações que nos moldam e nos levam à felicidade da pertença ou ao abismo da solidão. Pelas relações de amor, com os outros, mas sobretudo connosco. Pelas relações que nos constroem e pelas que nos destroem.

Li este livro de uma forma muito pessoal, tornei-o meu e isso para mim é o maior elogio que lhe posso fazer.