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Roda Dos Livros

Leituras no feminino, uma Roda Extra

Roda Dos Livros, 30.10.18

RL-MC-mulheres

No passado sábado reunimos para falar de escrita no feminino, de autoras e dos temas recorrentes. Não apurámos ao certo se: traição, adultério, amor, solidão e especulação dominam os enredos, mas uma coisa é certa, a conversa esteve animada!A reunião decorreu na Mercearia Criativa, à qual, leitores, vos aconselho uma visita para degustações variadas.Das nossas incursões gastronómicas, a Roda recomenda:
  • scones de batata doce barrados com gordices (aka doces caseiros de frutas da época);
  • chá de tomilho e limão
  • chocolate quente, ao género, faça você mesmo
  • bolos à fatia
  • e uma vasta carta de vinhos
Têm todos os motivos para lá irem, pois a Mercearia tem imensa oferta.RL-MC-mulheres2.jpgFalando propriamente da sessão em si, mesmo sendo poucas, a participação foi variada. Houve quem trouxesse livros que representaram "as mulheres da minha vida", duas das nossas rodistas escolheram assim: Alicia Vieira, Pear S. Buck, Sophia de Mello Breyner Andresen, Daphne du Maurier, Ana Teresa Pereira, Rebecca Solnit ou Margaret Atwood, entre outras que se repetiram durante a conversa.Outra sugestão interessante foi apontar Gillian Flynn na construção de heroínas que fogem ao modelo de policiais escritos por outras mulheres, e inevitavelmente se tocou no nome de Agatha Christie. O policial pode por vezes parecer um género menor, mas não aqui entre as nossas leituras.A conversa viajou a largos passos e atravessou continentes, nomes como Hiromi Kawakami, para nos dar a típica atmosfera nipónica contemporânea, por contraste com a cultura e o papel da mulher no Ocidente, como tão bem descreve Meg Wolitzer nos seus romances, onde a expectativa, a solidão e a traição estão sempre presentes. E logo se voltou a falar de Pearl S. Buck, com inúmeros livros que atravessam a história da China e por sinal a história da mulher nesse mesmo registo cultural.De solidão e de períodos conturbados, sejam eles individuais sejam colectivos da história de um país, esticámo-nos no assunto, tentando perceber que aura tão pessimista continua a pairar na escrita de autores nacionais e daí lá voltámos à aura tão própria da escrita de Sophia. Ou até de Ana Teresa Pereira e do quanto os livros de uma autora nos podem, e levam, aos livros de outra ou de outras.O conflito e a guerra, a devastação e a miséria humana foi outro dos temas abordados e nomes como Dubravka Ugresic, Chimamanda Ngozi Adichie ou até a mais recentemente publicada em Portugal, Ayobámi Adébáyò, foram alvo da nossa atenção. A literatura mais a Leste ou para os confins de África tem sido recorrente em várias outras reuniões. A História cruza-se com enredos familiares ou desaires amorosos e isso preenche os gostos de muitos do nossos rodistas, juntando ficção, política e História, ou melhor dizendo, entretenimento e aprendizagem.A conversa deu ainda mais voltas, tal como as voltas que a escrita dá para abranger tudo o que o feminismo abrange, mas aqui ficam as principais e a habitual lista de sugestões:Ana Borges: "Em parte incerta" de Gillian FlynnCris Rodrigues: "Departamento de especulações" de Jenny OffillFernanda Palmeira: Poesia reunida de SophiaIsabel Castelo Branco: "E se nos encontrarmos de novo", de Ana Teresa PereiraRenata Carvalho: "O Museu da Rendição Incondicional" de Dubravka UgresicVera Sopa: "A Persuasão Feminina" de Meg Wolitzer

«MANAZURU» de Hiromi Kawakami - Opinião

Roda Dos Livros, 04.10.18

"O meu marido desapareceu sem deixar rasto. Até hoje, não voltei a vê-lo."
O romance «Manazuru» podia assim encher-se com luto e o abandono, causado pela incerteza do desaparecimento de Rei. Mas não. Apesar de narrar um desaparecimento com mais de uma década, Kawakami, coloca Kei, a esposa, no centro desta narrativa, preenchendo-a de emoções e sensações, descritas em pequenos gestos do quotidiano. No entanto, o livro é igualmente um labirinto de duvidas, que substitui o ritmo ansioso e ofegante da incerteza por uma delicadeza estranha e cativante, que parece própria da cultura nipónica.
"A resposta não se fez esperar. Sim, estou ressentida! Sim, sinto rancor. (...) é qualquer coisa no mais fundo de mim própria, é todo o meu ser, o núcleo do meu corpo que tem ressentimento por esse marido que desapareceu sem dizer fosse o que fosse. (...) Qualquer coisa de que Seiji não se pode apoderar. Teria de ser Rei a fazê-lo. (...) Só o homem que ele era se podia apoderar.
É o que explica, sem dúvida, que a minha mãe não gostasse dele. (...) Ter-nos-emos reaproximado desde que voltámos a viver juntas? Três mulheres debaixo do mesmo tecto, três seres de carne. Aqui estão os seus corpos, como pequenas esferas que se se misturam. As três mulheres não têm o mesmo eixo, não têm o mesmo centro, não são superfícies lisas, estão aqui, cada uma delas, com a sua espessura própria."
«Manazuru» é um livro complexo que explora a geometria própria de cada corpo e do que lhe faz falta nas diferentes relações de proximidade. A relação mulher-homem, que ultrapassa a dimensão do casamento, primeiro com o aparecimento de uma criança, carne da sua carne, e depois, mais tarde, fruto da necessidade e do desejo, um corpo que pertence a outro alguém, um amante. E no meio disto tudo, o retomar a uma proximidade mais ancestral, o voltar ao corpo da mãe.
"Quando nos vemos separados de um ser que nos acompanhou por muito tempo, só o efémero resta. Passar-se-ia, sem dúvida, a mesma coisa com Seiji. Fi-lo entrar no meu quarto. - Porque o meu corpo não te deseja! - expliquei-lhe e ele riu. - Mas eu, eu tenho uma certa vontade de estar contigo. (...)                                                                                    Amo-o, tudo é frágil, e eis-nos separados. O amor não implica necessariamente a união."
Kei analisa o que gera proximidade, se amor, desejo, necessidade, afecto, toque, solidão, dependência, lugar, eixo, distância, medo, obrigação... E analisa-o face a quem lhe é próximo, a mãe, como lugar e casa para onde volta; a filha, Momo, que lhe sugou energia e afecto e a fez renegar às suas vontades de mulher esposa; ao marido que a possuía de forma desigual; ao amante, que na sua estranheza silenciosa, a aceitou e lhe devolveu um certo sentimento de pertença e ainda uma presença misteriosa que a acompanha para todo o lado. Essa coisa que se sobrepõe e se impôs a Kei, tal como as memórias e o vazio.
"Tudo se tornou vazio. Murmuro de mim para mim, a sós comigo. E todavia, havia qualquer coisa que se preparava já para preencher o vazio. Do mesmo modo que a água em que se dissolve o ágar-ágar não é realmente translúcida, porque, apesar de lavadas as algas das suas impurezas, as duas substâncias têm densidades diferentes e é necessário algum tempo para que uma e outra se misturem (...)"