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Roda Dos Livros

"Sono", de Haruki Murakami, Opinião

Roda Dos Livros, 20.12.14

"Há dezassete dias que não durmo.(...)Encontro-me no interior da minha própria sombra."

Assim nos diz, a mulher, a protagonista deste período insólito, uma fase que ultrapassa, que já não é insónia, é algo mais, já que a insónia ela conhece bem e isto é outra coisa. Algo diferente, algo transcendente. Talvez até inovador, caso lhe permita, a ela e a nós olhar a vida com outros olhos, talvez os do delírio, da provação, da alucinação.

Como julgam que ficariam ao fim de 17 dias de privação de sono? O vosso corpo sem descanso, a vossa cabeça sempre em permanente estado de alerta... que impacto teria isso no quotidiano, na rotina familiar?!?Em que zona sombria e tenebrosa se iriam encontrar? Já pensaram nisso?

São essas e outras questões que vão ficando em aberto ao longo deste conto, não tão breve como seria de esperar ou até como tantos outros contos. Murakami tem o dom de, mesmo tendo uma escrita simples, concreta e muito realista, nos fazer desesperar por um desfecho. Tem o dom de nos fazer perder nos delírios desta narração "sem sono", chegando até, pelo menos a mim, aliás a nós, já que este conto foi lido a dois, e a ambos deu "sono". Sim. Curiosamente este conto deu-nos Sono!O que abre outra questão: haverão livros receitados propositadamente para nos dar sono? ´´E uma questão curiosa, ou não?

Os motivos que provocam tal insónia alargada são incógnitos e deixam-nos a adivinhar.As consequências, talvez se possam considerar também incógnitas, pois por vezes achamos que a protagonista está em delírio, em divagação e a questão que fica no ar é: "isto aconteceu mesmo!?"E a mesma pergunta repete-se aquando do desfecho e da conclusão que se retira do conto.

Julgo que a conclusão que podemos retirar, terá, em muito, a ver como a forma como encaramos a nossa própria relação com o "sono", com a rotina, com o quotidiano e até a nossa vida familiar. Já que, desde o início, a exploração do enredo começa pela vida, rotineira e "meio sem sal" que a protagonista leva, o que nos faz pensar, se a ausência de problemas por resolver não criará uma certa inércia, uma certa vontade de complicar o que é fácil e corre bem. Não sei se me faço entender!?É que depois de descrita a vida, rotineira, da protagonista, esta entra numa espiral muito mais dinâmica e até entusiasta quando "vive", quase se fosse noutra realidade, nas horas em que não tendo sono, faz um alargado leque de actividades que de outra forma faria.Ou seja, será que Murakami nos quer dizer que quando tudo no nosso corpo já se habituou a algo que não nos satisfaz (mesmo que a gente não admita!), responde com privação e desconforto, obrigando-nos a mudar!? Como que tendo um mecanismo próprio de auto regulação?

Confesso que a leitura não foi a mais prazerosa, mas o desfecho ou suposto final deixa-nos a pensar. E sabendo da duplicidade de interpretações que os escritos de Murakami têm, já era de esperar que nos levasse a pensar. E deixou, é um facto! Se o choque final e até algum enfado no decorrer da leitura, podem causar desconforto, o balanço final é inevitável e o comentário com juízos de valor e suposições é igualmente obrigatório e creio que é essa a magia daquilo que este aclamado japonês escreve.

*

Este conto foi lido na colectânea "O Elefante Evapora-se", de 2010, mas no final do ano passado foi lançado individualmente com ilustrações de Kat Menschik. Talvez com ilustrações seja mais fácil entrar neste cenário nocturno e tenebroso. Não que as palavras e a intensidade de Murakami não o façam bem, mas quem sabe pudéssemos retirar ainda outras conclusões. Ambas as edições são da Casa das Letras, Leya.

Oiçam sobre o livro, aqui, no Livro do Dia TSF, em Dezembro de 2013.

A peregrinação do rapaz sem cor, de Haruki Murakami - Opinião

Roda Dos Livros, 04.12.14

A minha relação com os livros de Haruki Murakami não tem seguido uma linha recta e ininterrupta, antes pelo contrário. As leituras e a interpretação que faço dos seus livros, personagens e enredos, levaram-me a querer conhecê-lo melhor, especialmente quando tomei conhecimento de que era corredor de ultra maratonas. Na época pensei: como é que alguém tão disciplinado e persistente se revela um autor entregue a tanta divagação e peripécias fantasiadas e oníricas!? A dúvida persistiu e isso fez-me intercalar muitos dos seus livros com outros e, até certa parte, (quase!) desistir de lê-lo. Isto porque os contos de Murakami deixam-me sempre na dúvida... por isso, parei e não o tenho lido quase nada.Curiosamente foi com "Sono" que despertei novamente para Murakami. Talvez por esse conto me ter deixado num limbo de tédio inquietante. Fiquei mentalmente fatigada por tanta ideia repetida, mas igualmente disposta a escrutiná-lo até à exaustão e ligá-lo a considerações sobre mim mesma.Por isso, assim que surgiram as primeiras impressões sobre este novo "A Peregrinação do rapaz sem cor", senti-me tentada a ficar sob o efeito... a deixar-me ficar murakamizada.E fiquei! A vontade de prosseguir ou retomar leituras de Murakami voltou, não talvez aos seus enredos mais fantasiados e oníricos, mas aqueles que esmiúçam e propagam no território da introspecção, elevando-nos o pensamento, sobre nós e os outros.

Os detalhes da escrita redundante e até difusa estão lá e alguns desvarios e persistência na melancolia e uma certa depressão também, porém há uma aura mais romântica, ainda assim fria e distante, que envolvem o personagem, tornando-o menos bipolar que outras personagens de Murakami.Tsukuro Tasaki sofreu com o abandono por parte dos amigos, uma solidão exacerbada e violenta, auto-infligida e mantida, como se o próprio Tasaki decidisse, no isolamento, a punição pelos seus pecados. Pormenor interessante foi deixar-se ficar, anos e anos, sem saber o porquê desse isolamento. O que levanta uma questão curiosa: ficaríamos nós tantos anos nessa inquietude?Há um permanente desassossego nas personagens de Murakami e talvez, através da reduzida celeridade imposta pelas descrições do autor, nos vamos alimentando dos cenários mentais criados para a inquietude do personagem, levando o leitor a simpatizar com ele e em certa parte, compreendê-lo, aceitá-lo e seguir com ele esta jornada menos colorida.
"O coração humano é como um pássaro nocturno. Espera por qualquer coisa em silêncio
e, (...) levanta voo e vai direito a ela." (pp.258)
Ardilosamente, Murakami constrói Tsukuru Tasaki, um fazedor de coisas, aparentemente sem cor, no entanto, há uma certa transparência reparadora nas atitudes de Tsukuro, conseguindo apaziguar e envolver quem com ele se cruza.Claro que a forma inebriante e encantatória do sonho se mistura na interpretação da realidade e isso faz-nos ter algumas reservas sobre o personagem. Ainda assim, a forma pragmática e até inocente de reservar os problemas para mais tarde... nas gavetinhas da mente... dão uma ideia muito interessante da forma como talvez o autor deseja que o leitor veja o personagem.Existe sempre uma infantilidade genuína que o acompanha, mesmo assim é uma ternura moderada que facilmente abandona o livro quando Murakami instruí o leitor sobre estações, música clássica, ou detalhes culturais ou tradicionais do Japão... o que também é hábito nos livros do autor. Neste levou-me até um cenário que apreciei bastante. E levou-me a compreender que os romances de Murakami estão pejados de tumbleweeds, alimentando a nostalgia e a melancolia que nos fazem por vezes regressar a certas estações da vida.Com a sonoridade de "Le mal du pays" e as tumbleweeds de fundo, Murakami encaminha-nos na peregrinação sensorial, musical e tanto mais da vida de Tsukuro Tasaki. No reencontro com Haida, Sara, Shiro, Kuro, Ao e Aka, Tsukuro pára e avança e encontra as várias estações da sua vida.
"As nossas vidas são uma partitura complexa (...) interpretá-la correctamente revela-se uma tarefa árdua e, mesmo que se consiga fazê-lo e produzir os sons correctos, não significa forçosamente que as pessoas captem e compreendam o sentido implícito." (pp.335)
*
"- É muito simples. Se não houvesse estações, os comboios não paravam."

"A peregrinação do rapaz sem cor" de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 12.10.14

 

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A beleza delicada da borboleta presente na capa deste romance reflecte, com elegância e perfeição, o seu conteúdo. É comovente o percurso de Tsukuru Tazaki, construtor de estações de comboios, o rapaz desprovido de cor, cuja vida sofre um enorme abalo ao ver-se votado ao ostracismo pelos seus melhores amigos. Incapaz de compreender as razões desta situação, uma vez que as mesmas lhe são escondidas, Tsukuru vive numa espécie de limbo emocional, sentindo-se vazio por dentro e impossibilitado de estabelecer relações interpessoais profundas. Determinado a descobrir os motivos do comportamento dos seus amigos dos tempos da adolescência, empreende então uma viagem para conversar pessoalmente com cada um deles, a fim de esclarecer o enigma do passado. Ao longo deste seu percurso e, ao mesmo tempo que vai descobrindo, a pouco e pouco, a verdade sobre o comportamento dos antigos amigos, Tsukuru reencontra a sua capacidade plena de sentir, preenchendo assim o vazio que o habitava. Esta “Peregrinação do rapaz sem cor” é relativamente parca em elementos fantásticos/surreais comparativamente a outras obras do autor como, por exemplo, “Kafka à beira-mar”, “1Q84” e “Crónica do pássaro de corda”, parecendo, à primeira vista, mais simples e menos brilhante do que estes outros livros. No entanto, ao terminar a leitura, apercebi-me que, na sua aparente simplicidade, esta história contém em si, não apenas uma enorme riqueza emocional, como também vários convites à reflexão sobre o modo como vivemos actualmente e como nos relacionamos uns com os outros. Nesta era das tecnologias de informação, criadas para facilitar a aproximação e a comunicação entre as pessoas, parece que, estranhamente, nunca estivemos tão longe uns dos outros, tão sós dentro de nós mesmos. Talvez estejamos apenas em presença de novas variações acerca da vivência deste velho paradoxo chamado ser humano.

Gostei muito e recomendo.

Excertos:

“Sobrara apenas uma espécie de resignação mansa. Um sentimento neutro, desprovido de cor, como a calmaria que vem depois da tormenta. Tinha a impressão de estar sentado numa grande casa, velha e abandonada, enquanto o enorme e vetusto relógio de família assinalava pesadamente as horas. De boca fechada, sem desviar os olhos, limitava-se a observar o andamento dos ponteiros. Com os sentimentos protegidos por finas membranas no vazio do seu coração, foi envelhecendo, hora após hora.”

“Vivemos numa época dominada pela apatia generalizada e, ao mesmo tempo, estamos rodeados de uma quantidade absurda de informação sobre os outros. Basta alguém querer para conseguir o que se propõe. No entanto, pouco ou nada sabemos, efetivamente, acerca das pessoas.”

“- Seminário criativo de negócios?- A designação é recente, mas, no fundo, oferecem cursos de personal coaching – afirmou Sara. – Por outras palavras, um curso rápido de desenvolvimento pessoal com lavagem ao cérebro incluída, destinada a formar os típicos guerreiros empresariais. Em vez da Sagrada Escritura, utilizam um manual, e em vez da Iluminação e do Paraíso recebem a promessa de promoção e de salários mais elevados. Trata-se de uma nova crença numa era marcada pelo pragmatismo. Não tem nenhum elemento transcendental próprio das religiões, e é tudo muito concreto, contabilizado ao pormenor. Tudo muito transparente e fácil de aprender. E olha que não poucos os que encontram encorajamento positivo nestes cursos! Basicamente implantam no cérebro das pessoas um sistema de pensamento oportunista.”

“Nesse instante, Tsukuru soube. No mais profundo do seu ser, compreendeu por fim. O que une o coração das pessoas não é apenas a harmonia. Os corações humanos unem-se através dos desgostos sofridos. Ferida com ferida. Dor com dor. Fragilidade com fragilidade. Não existe silêncio sem um grito de dor, não existe perdão sem derramamento de sangue, não existe aceitação sem a passagem pelo inevitável sentimento de perda. É aqui que se encontram as raízes verdadeira harmonia.”

 

 

“Crónica do pássaro de corda” de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 28.09.14

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“Crónica do Pássaro de Corda” foi a minha quarta incursão pela obra de Haruki Murakami e, tal como em “Kafka à beira-mar”, ao terminar a leitura, fui invadida por um certo vazio de palavras, uma espécie de silêncio mental quebrado apenas por uma insignificante exclamação: Uau! Como é que este autor consegue criar romances tão inusitada e maravilhosamente intricados, tão perplexamente fantásticos e intrigantes? A riqueza narrativa deste livro presta-se, sem dúvida alguma, a uma miríade de interpretações de vários níveis: simbólico, antropológico, psicológico, etc. Quanto a mim, direi apenas que adorei os “nós nas ideias” que esta leitura gerou em mim. Alguns foram sendo progressivamente desatados à medida que a história se aproximava do seu final, outros permaneceram teimosamente firmes, mas tal não me incomodou de modo algum. O protagonista deste romance, ao contrário do que é dito na sinopse, é tudo menos “normal”. Desde logo porque resolveu despedir-se do emprego e anda vagamente à procura de outra ocupação, sem saber bem o que fazer. Numa sociedade que valoriza imensamente o trabalho e que dá primazia ao colectivo em detrimento do individual, não me parece que este seja um comportamento habitual. Além disso, Toru Okada mergulha de cabeça, sem pensar duas vezes, num alucinante percurso de exploração dos limites da realidade e da sua mente/consciência, enveredando por uma espécie de viagem quase xamânica, com o objectivo de reencontrar a mulher que ama. Através de um poço, símbolo tanto de mistérios e segredos como de fonte de conhecimento e portal de entrada para uma outra realidade, Toru tenta desesperadamente chegar a Kumiko. Pelo caminho cruza-se com um conjunto de personagens, quase todas verdadeiramente incomuns e extraordinárias, algumas das quais o auxiliarão a atingir o seu intuito. Entretecidas neste percurso tortuoso encontram-se várias outras questões muito pertinentes e persistentes ao longo de todos os tempos como a corrupção na política, a perda de valores éticos e de consciência social bem como o significado último da nossa existência e mortalidade. Além disso, evocam-se também memórias dolorosas da ocupação japonesa da Manchúria e do militarismo japonês da primeira metade do século XX.Acabei a leitura deste livro com algumas interrogações e uma única certeza; este é um autor que me deslumbra e cuja obra continuarei a explorar. Excertos:

“O ser humano é um verdadeiro poço de mistérios, pensei, bastam dez minutos de olhos fechados para contemplar aquela espantosa paleta de cinzentos.”

“Aos olhos da opinião pública, a coerência era um valor perfeitamente dispensável. O que as pessoas querem é assistir no pequeno écran a uma luta entre intelectuais que se digladiam; quanto mais vermelho o sangue que correr diante dos seus olhos, tanto melhor. Querem lá saber se a mesma pessoa diz uma coisa na segunda-feira e o contrário dois ou três dias depois...”

“ As leis, em última análise, existem para regular todos os fenómenos que se produzem sobre a face da Terra. O mundo no qual a luz é luz e a sombra é a sombra. Um mundo onde o yin é o yin e o yang é o yang. Um mundo onde “eu sou eu /Ele é ele/É Outono e anoitece”. O teu lugar não é aqui. Tu pertences a um mundo intermediário, um pouco mais acima ou um pouco mais abaixo do que o nosso. (...) Não se trata de ser melhor ou pior. A ideia, aqui, é de não resistir à corrente. Vem-se à tona quando se deve vir à tona e mergulha-se quando se deve mergulhar. Quando tiveres que subir, procura a torre mais alta e trepa por ela até ao topo. Quando tiveres de descer, procura o poço mais fundo e desce até ao fim. Quando não houver corrente, o melhor é não fazer nada. Se resistires à corrente, fica tudo seco. E se ficar tudo seco à tua volta, o mundo vê-se envolto em trevas.”Eu sou ele/Ele é eu/É Primavera e anoitece”. Que é como quem diz, quando renuncio a mim, existo.”

“Eu não sou mais do que um simples caminho por onde passa o homem que eu sou.”

“A verdade é que um ser humano não consegue viver sem o seu verdadeiro eu. É como a terra que pisamos. Sem um terreno firme, não podemos construir nada em cima.”

Em busca do Carneiro Selvagem, de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 26.09.14

carneiro selvagem

Wild Sheep Chaseou Wild Geese Chase ou em bom Português “ à caça de Gambozinos” (esse mítico animal que para mim terá sempre rabo de saca-rabo e orelhas de zorrinha).

Murakami mesmo quando não é muito bom (como me pareceu neste livro de que não gostei tanto como de 1Q84) é fantástico e uma vez mais guia-nos para o meio de uma história onde muito pouco do que parece é. Desta vez não há duas luas no céu mas há um carneiro muito especial de quem todos parecem andar à procura. Depois de uma primeira estranheza não nos é possível ignorar que o carneiro está mais que presente em todo o lado. Assim de repente é um dos signos do zodíaco, está presente na religião (o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, S. João que é representado com o cordeiro), na mitologia Egípcia (O deus Amón), na Grega (hermes) e em várias culturas espalhadas por esse mundo for a (China, Índia, África, Europa), etc, etc.

 Por isso, como sempre, esta busca de que nos fala o livro, está sujeita a múltiplas interpretações. O que sabemos é que o protagonista (de quem nunca sabemos o nome) é um homem desiludido com a sua vida pessoal e emocional, mediocremente vencedor na sua profissão e sem objectivos de vida, sem objectivos ou projetos de futuro.

Este homem vê-se subitamente obrigado a sair da sua zona de conforto, a encarar as dúvidas  existenciais que tem, a fechar de vez algumas portas do passado e a encontrar-se. Com ele conhecemos (uns melhor do que outros) personagens fascinantes. Há uma modelo de orelhas, um homem, outrora de sucesso, conhecido como professor carneiro que vive fechado num quarto, há um motorista que tem linha direta para deus e que gosta de gatos e há um homem conhecido por Rato  (e outros, que este livro tem imensos personagens).

 Uma vez mais foram as descrições que me obrigaram a gostar deste livro. Murakami consegue, estranhamente, fazer-me gostar de ler sobre nada –nunca soube tanto acerca do pastoreio de carneiros como agora - ou sobre tudo. Porque a verdade é que este livro pode ser lido literalmente (e aí, convenhamos, não é grande coisa) ou metaforicamente e aí a mestria de Murakami está patente.

 E apesar de não ser o melhor livro de Murakami (está longe do 1Q84) é, sem dúvida de Murakami. Está cá tudo: as descrições, o fantástico, o surreal (ok, não há homenzinhos a sair da boca de ninguém, nem duas luas no céu mas....), a comida (acho que na prática a maioria das receitas deste fulano devem ser péssimas mas ali, nas páginas do livro, até aipo com maionese -1Q84- ou sandes de pão caseiro duro como pedra parece delicioso), as referencias musicais ou literárias (eu não conheço a maioria mas as notas da tradutora ajudam imenso).

 Apesar de não ter amado este livro Murakami continua a ser um dos meus escritores favoritos, um daqueles de quem quero ler todas as obras.

“1Q84” de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 13.07.14

 

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Os livros são mágicos. Parte desta magia reside na multiplicidade de experiências, sensações, emoções e reflexões que um dado livro é capaz de desencadear em quem o lê. Nem todos lemos o mesmo livro da mesma maneira. Nem sempre o mesmo livro toca os seus múltiplos leitores da mesma maneira. Nem todos nos deixamos encantar pelos mesmos universos literários e ainda bem. A enorme diversidade de gostos e preferências dos leitores torna o mundo dos livros bem mais rico e interessante ao criar espaço para o acolhimento dos mais variados géneros de histórias imaginadas por incontáveis autores. Para quê estas deambulações iniciais? Apenas para dizer que esta trilogia de Murakami me arrebatou e encantou ao ponto de tornar difícil parar a sua leitura porque, enfim, a vida não é só ler e a rotina diária sobrepõe-se implacavelmente à satisfação imediata dos impulsos de uma leitora. “1Q84” reúne duas características que raramente falham em proporcionar-me momentos de prazer literário excelentes e inesquecíveis: a intrusão de elementos fantásticos, insólitos e surreais na realidade do nosso mundo e a reflexão sobre a grande questão que persegue desde sempre o ser humano, ou seja, a busca pela compreensão da nossa própria natureza e daquela que nos rodeia.

Como disse a Patrícia Cavaco no seu artigo sobre esta trilogia, esta é uma história de amor com um enquadramento diferente do habitual. Mas é também, na minha opinião, um percurso de crescimento como seres humanos que os protagonistas têm de cumprir antes de se poderem encontrar; uma espécie de processo de individuação ao jeito de Carl Gustav Jung que, aliás, é citado por um dos personagens. Em “O Homem e os seus símbolos” Jung define individuação como um processo lento e imperceptível de crescimento psicológico que conduz ao desenvolvimento de uma personalidade mais ampla e amadurecida. Diz ainda que este processo é involuntário e natural e que não pode ser levado a cabo por um esforço ou uma vontade conscientes. Assim, Tengo e Aomame precisam de conhecer-se e entender-se a si próprios, de perceber quem realmente são para poderem reencontrar-se. Ao longo dos seus caminhos, eles aperceber-se-ão também da vacuidade inerente a uma vida desprovida do verdadeiro e incondicional amor.

Uma leitura maravilhosamente marcante que recomendo sem reservas. Aqui ficam alguns excertos e uma canção do fantástico George Harrison que me parece traduzir um pouco do espírito destes livros:

“Eu também aprecio os livros de História. Ensinam-nos que, basicamente, somos iguais hoje ao que fomos outrora. Pode haver diferenças insignificantes em termos de vestuário e de estilo de vida, mas não há grande diferença no que pensamos e fazemos.”

“Não passo de uma máquina. (...) Uma máquina que engole o tempo novo por uma extremidade e expele o tempo velho pela outra.”

“A maioria das pessoas não anda à procura de verdades que se possam demonstrar. A verdade, em muitos casos, e como tu disseste, provoca um grande sofrimento. E quase ninguém quer sofrer. O que os homens precisam é uma história bonita que lhes faça sentir que a sua existência tem, pelo menos, algum sentido.”

“Mas quem poderá salvar toda a Humanidade? , pensava Tengo. Porque a verdade é que, mesmo reunindo todos os deuses do mundo num lugar, isso não levaria à supressão das armas nucleares nem à erradicação do terrorismo. Da mesma forma que não foram capazes de acabar com a seca em África nem de ressuscitar John Lennon. Bem pelo contrário, o mais certo era os diversos deuses porem fim às suas amizades e desatarem a lutar, envolvendo-se em disputas violentas. E então o mundo tornar-se-ia possivelmente um lugar muito mais caótico. “

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=8eEQ4J6Lnrs?rel=0&w=560&h=315]

 

Sputnik, Meu Amor - Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 08.07.14

 

Finalmente decSputnikidi-me a mergulhar na obra de Murakami. Depois de todos os adjectivos com que já ouvira qualificá-lo - surreal, delirante, assombroso, surpreendente - esperava uma reacção extrema da minha parte. Esperava adorar ou detestar. Não esperava, certamente, aquilo que aconteceu: chegar ao fim do livro com a sensação de que me limitei a arranhar a superfície de um universo vasto e complexo, e de não estar ainda minimamente capacitada para falar sobre ele.

Como é por demais sabido, Murakami aborda a existência de mundos paralelos. O que, dito assim, pode sugerir um tipo de obra virado para espiritismos, anjos da guarda e outras pepineiras que tais. Pois não é nada disso. E também não há civilizações estranhas digladiando-se em busca de anéis e percorrendo terras inóspitas eriçadas de rochas pontiagudas. Longe, muito longe disso. Os mundos paralelos que aqui encontramos são os que cada um de nós encerra no seu íntimo. Sim, o tema aqui não é outro senão a multifacetada natureza humana. O conflito, tantas vezes violento, que se trava dentro de cada alma. O sofrimento por ele causado. As máscaras (de impassibilidade, de normalidade, seja lá isso o que for) usadas para o esconder. A solidão de quem luta consigo mesmo. A intangibilidade dos outros, encerrados nas suas próprias lutas. A utopia da intimidade.

Os mundos paralelos de Murakami não são disparatados, nem irreais, porque estão alicerçados no mundo visível. Contactam a todo o momento com o banal quotidiano a que parece resumir-se a vida. Umas vezes explicam-no, outras vezes complicam-no. De quando em quando, deixam-se vislumbrar, deixando os pobres mortais aterrados e maravilhados ao pressentirem o seu poder avassalador. Estendem pontes, sendo a mais óbvia através dos sonhos (sonhar é a "única coisa que vale a pena", nas palavras do narrador), o que não significa que não existam outras, como a intuição, por exemplo, ou a inocência da infância.

Não vou falar da linha narrativa deste livro, porque julgo que é o que nele menos importa. A riqueza desta leitura está no que é sugerido e na reflexão que essas sugestões podem provocar. Murakami dá-nos as pistas e deixa-nos fazer o caminho sozinhos. Também o leitor está sozinho, tal como o resto da humanidade. E não conte com o autor para o ajudar nas suas descobertas. Porque todos nós somos "solitários pedaços de metal que se encontram de repente nas trevas do espaço, cruzam-se no seu caminho e depois separam-se para sempre. sem trocarem uma palavra, sem fazerem uma promessa." (pág. 200).

 

Excertos

"As pessoas aproveitam todas as oportunidades para falarem de si mesmas com uma sinceridade espantosa. Dizem coisas do género: «Sou de tal maneira franco e honesto que até parece mal», ou então: «Sou demasiado vulnerável e tenho problemas no relacionamento com os outros», ou ainda: «Tenho muito jeito para compreender os sentimentos dos outros.» Contudo, houve muitas vezes em que vi pessoas que se diziam «vulneráveis» magoarem outras sem motivo aparente. Vi pessoas com um perfil «franco e honesto» usarem desculpas esfarrapadas para obterem o que desejavam a qualquer preço. Quanto àqueles que têm um jeito especial para compreender os verdadeiros sentimentos dos outros, vi-os deixarem-se enganar pela forma mais grosseira de lisonja. Tudo isto me leva a fazer a seguinte pergunta: que sabemos, na realidade, de nós mesmos?" (págs. 67 e 68).

 

"Por mais profunda e fatal que seja a perda, por mais importante que seja aquilo que a vida nos roubou - arrebatando-o das nossas mãos -, e ainda que nos tenhamos convertido em pessoas completamente diferentes, conservando apenas a mesma fina camada exterior de pele, apesar de tudo isso continuamos a viver as nossas vidas, assim, em silêncio, estendendo a mão para chegar ao fio dos dias que nos coube em sorte, para logo o deixarmos irremediavelmente para trás. Repetindo, muitas vezes, de forma particularmente hábil, o trabalho de todos os dias, deixando na nossa esteira um sentimento de um incomensurável vazio." (pág. 230).

 

Casa das Letras, 2002

“Kafka à beira-mar” de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 11.05.14

 

kafka Ao terminar a leitura deste livro, sou, subitamente invadida por um certo silêncio, por uma ausência de palavras. Como se, por um momento fugaz, o fluxo constante de pensamentos tivesse abrandado, dando lugar a uma espécie de silêncio de ideias e de palavras claramente definidas. Este romance de Murakami pode, com toda a certeza, ser analisado sob múltiplos prismas e aspectos mas não é esse o objectivo deste texto. A sensação quase mágica de silêncio levou-me a concluir que qualquer tentativa de análise seria totalmente inadequada. Assim, limitar-me-ei a dizer que gostei e muito deste livro. Gostei dos seus personagens incomuns e até mesmo insólitos; gostei do estilo escorreito mas elegante da escrita do seu autor; gostei da força inexorável da narrativa que me cativou desde o início. E, finalmente, gostei imenso da forma como a história flui entre dois mundos, talvez paralelos, talvez sobrepostos, proporcionando ao leitor um vislumbre da rica cultura japonesa, de algumas das suas crenças ancestrais profundamente enraizadas no xintoísmo. São estas, sem dúvida, que permitem encarar com tamanha naturalidade a possibilidade de contacto entre o mundo físico do quotidiano e mundo mágico, espiritual subjacente ao primeiro, e por isso mesmo, não menos real do que este. “Kafka à beira-mar” fala-nos de viagens; de uma viagem no sentido geográfico do termo mas também de um percurso interior em direcção ao cerne do ser, da sua luz e da sua sombra, do seu lugar na existência.

Este foi o meu primeiro contacto com a obra de Haruki Murakami e, garantidamente, não será o último.

Excertos:

“ Mentes limitadas, desprovidas de imaginação, intolerância, teorias desfasadas da realidade, terminologia barata, ideias dogmáticas, sistemas rígidos, essas é que são as coisas que realmente me assustam. É isso que eu mais temo e mais detesto nesta vida. Claro que a questão de saber o que está certo e o que está errado é muito importante. Todos nós cometemos erros de julgamento que podem eventualmente ser corrigidos. Desde que tenhamos coragem para reconhecer que errámos, as coisas podem compor-se. Agora, espíritos tacanhos e intolerantes, sem imaginação, são como parasitas que transformam o hospedeiro, mudam de forma, sobrevivem e vingam. São uma causa perdida, e eu não quero vê-los aqui por perto.”

“Ser burro ou ser brilhante não vem ao caso. O que importa é que saibas ver o mundo pelos teus próprios olhos.”

“- Não é só a questão de Nakata ser burro. Nakata também é vazio por dentro. Só agora é que se deu conta. Nakata é como uma biblioteca sem um único livro. Antes não era assim. Dentro dele Nakata costumava ter livros. Durante muito tempo não soube isso, mas agora tudo voltou á memória. Nakata costumava ser normal, igual às outras pessoas. Mas aconteceu uma coisa que o transformou numa espécie de invólucro sem nada lá dentro.”

“Sinto um aperto no coração, parece uma coisa quente, um íman poderoso que me puxa na direcção da cidadezinha. Os meus pés são de chumbo e não se mexem. Se seguir em frente nunca mais a verei. Estou numa encruzilhada. Perdi toda e qualquer noção do tempo. (...) Estou preso entre dois vazios. Não faço ideia do que é o bem e o mal. Nem sequer já sei o que quero. Estou parado no meio de uma tempestade terrível. Não me consigo mexer e nem as pontas dos dedos à frente dos olhos vejo. Só sei que não me consigo mexer. A areia, de uma brancura que faz lembrar ossos pulverizados, envolve-me nas suas garras. E é então que a oiço – a Saeki-san- dizer-me algo. “Afinal tens de voltar atrás diz ela, num tom decidido. É isso que eu quero. Quero que estejas lá.”O feitiço quebra-se. Volto a ser eu, de corpo inteiro. O sangue quente volta a correr pelo meu corpo. O que ela me deu, as últimas gotas de sangue dela. No momento seguinte, retomo a marcha e corro atrás dos soldados. Basta uma curva e o pequeno mundo no meio das colinas desvanece-se, como uma fresta cavada entre dois sonhos.”

 

1Q84, de Haruki Murakami

Roda Dos Livros, 22.04.14

1q84Nem sei bem por onde começar. Talvez por dizer que me apaixonei pela escrita de Haruki Murakami, pela forma única como ele me contou esta história.Acho que posso dizer que estes 3 volumes (mais de 1500 páginas) nos contam uma simples história de amor.Aomame e Tengo, buscam-se depois de 20 anos de distância. Antes um simples toque, um olhar, breves momentos partilhados na infância que inspiraram uma procura incessante e quase insana um pelo outroPara além de Aomame e Tengo, conhecemos (depois de uma leve presença no segundo volume da saga) Ushikawa. Este estranho personagem tem agora direito a voz própria. Não podemos, no entanto, esquecer Fuka-Eri, o professor, o Líder de uma estranha e perigosa organização religiosa, Ayumi Nakano, Kamatsu, Tamaru e a Viúva Ogatha (e mais meia dúzia de personagens satélite).A história é surpreendentemente simples. Tengo procura Aomame que por sua vez o procura a ele. Tengo, matemático e escritor, reescreve um romance fantástico da autoria de Fuka-Eri e com isso provoca reações inesperadas. Para apimentar a história (afinal são cerca de 1500 páginas) temos também um organização religiosa capaz de tudo, homenzinhos pequenos que saem da boca de cabras ou de homens mortos, duas luas no céu, uma gravidez miraculosa, uma assassina quase perfeita, um cobrador fantasma, crisálidas de ar, um detetive com cabeça de abóbora e uma cidade dos gatos. Confusos? Eu ficava.Mas a verdade é que a grande vitória deste livro é a mistura absolutamente surreal da realidade, tal como a conhecemos, com elementos surreais, que roçam o ridículo, mas que fazem sentido no meio desta confusão toda.E as descrições? Este homem põe o Eça e o Ramalhete a um cantinho ao descrever tudo em pormenor. Muitas vezes. Incontáveis vezes. E isso não me incomodou nem um bocadinho, para dizer a verdade. Os personagens são-nos apresentados exaustivamente, vezes sem conta. Cada situação é-nos contada sob várias perspectivas. E ainda assim, e por causa disso, este livro é tão espetacular.Não posso deixar de chamar a atenção para a quantidade de vezes que se fala de comida neste livro. Cada refeição dos protagonistas é referida. E os livros que são citados são brutais. E a música que nos obriga a ir ao youtube…Ficaram muitas coisas por esclarecer? Sim, ficaram. Mas neste caso nem isso me incomodou. Sou perfeitamente capaz de imaginar uma continuação para casa uma das situações em aberto.Por um lado acho que este foi o final perfeito para este 1Q84. Por outro lado tenho alguma esperança que o rumor de que um quarto volume está a ser escrito não seja apenas um rumor e que possa, num futuro próximo, regressar a um mundo com duas (ou mais) luas no céu.