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Roda Dos Livros

«A vegetariana» de Han Kang :: Opinião

Roda Dos Livros, 22.01.17

avegetariana

Han Kang, vencedora do Man Booker Internacional Prize traz-nos em «A Vegetariana» uma enredo familiar perturbante e simultaneamente onírico.

"Dormir em lapsos de cinco minutos. Mal deslizo para lá da consciência atordoada, lá está ele de volta - o sonho. Já nem posso chamar-lhe isso.  Olhos de animais a reluzirem com um ar selvagem, a presença de sangue, uma caveira desenterrada, aqueles olhos de novo. Uma sensação que me vem da boca do estômago. Acordo a tremer, as minhas mãos, preciso de ver as minhas mãos."

Partindo de um sonho conhecemos Yeong-hye e a paranóia que lhe assombra os dias e a opção de se tornar vegetariana. Vítima às mãos do marido e de uma família tradicional o peso da sua decisão extravasa o aceitável e rapidamente a sua liberdade de escolha é posta em causa e o equilíbrio familiar é ameaçado. No entanto, não será bem isto que desestabiliza o leitor ou dá ênfase à narrativa, mas antes o mistério envolto no sonho e a bizarra luta de se manter vegetariana.

Já estando a acção suculenta o suficiente, a passagem para o segundo capítulo adensa o lado misterioso e ainda mais transcendente, não tanto pelo lado artístico ou a performance em si, mas antes pela forma como se gera a atracção de um homem por uma mulher. Neste acto, e pela voz do cunhado de Yeong-hye assistimos a uma outra fixação, também ela de origem meio surreal e até infantil, se bem que com contornos sensuais.

"(...) foi nesse preciso momento que ele foi atingido, como se de um raio se tratasse, pela imagem de uma flor azul nas nádegas de uma mulher, com as pétalas a abrirem-se. Na sua mente, o facto de a cunhada ainda ter uma mancha mongólica operou uma associação inexplicável com a imagem de homens e mulheres a fazerem sexo, e os seus corpos nus cobertos de flores pintadas."

Nas palavras de Han Kang vamos sentido que a história espelha um elevado questionamento da normalidade ou do que será moralmente aceite e bem interpretado, porém, as diversas camadas que se vão somando aos acontecimentos revelam, a meu ver, uma enorme solidão e uma resiliente vontade de liberdade, mesmo que essa os condene a uma solidão ainda maior, também ela por camadas. Talvez possamos ainda dizer que toda a dissociação provocada por desejos menos usuais causarão, só por si, isolamento e desapego e logo mais solidão. Este é um livro pejado de gente só. Um enredo carregado de duras batalhas que estas três pessoas carregam a fim de tentarem ser mais livres, mesmo que isso não os liberte dessa solidão esmagadora, enloquecedora e opressora.

"Os vidros estão cobertos de vapor e, por isso, tira um lenço da mala e abre um círculo perfeito. Vê os pingos da chuva a fustigarem a janela, com a cadência constante em que só as pessoas habituadas à solidão reparam."

Convêm alertar também para o facto e Kang ser capaz de cenários bastante bem descritos e recheados, mesmo que para tal só use uma a duas pequenas frases.

Kang é perita também em especular sobre a alma humana e a extensão do perdão e talvez seja essa a forma como termina o segundo capítulo, abra e feche o terceiro. E com essa extensão do perdão, da compaixão e do amor ao próximo nos deixe a pensar nos motivos pelos quais, gradualmente, ficamos mais sós e nos perdemos de nós por dar aos outros.

"Normalmente, desiste de dormir por volta das três da manhã. (...) Por fim,vai para o quarto dele e ouve alguns discos que ele por lá deixou (...) ou então aninha-se na banheira, vestida, e até consegue achar que afinal talvez a atitude dele não fosse assim tão incompreensível. Se calhar, só não tinha energia para se despir (....) Ficou surpreendida ao constatar que, por muito estranho que pudesse parecer, aquele espaço estreito e côncavo era o sítio mais acolhedor que havia no seu apartamento..."

Em suma, «A Vegetariana» é um excelente exercício de atravessar fronteiras entre a realidade, a loucura e o desejo enorme de liberdade, mesmo que vivida em momentos surreais, donos de rasgos de sensualidade, alguma imoralidade e até algum toque de terror. E nunca sem esquecer o peso da solidão.

A Vegetariana - Han Kang

Roda Dos Livros, 08.01.17

avegetarianaPensei em não escrever sobre este livro, que é um conjunto de três histórias. Ou melhor, uma história em três versões, a três vozes. E, apesar de ter gostado muito de o ler, pensei em não me manifestar por recear não ser capaz de desenvolver ideias coerentes sobre esta leitura, por ser difícil de expôr, talvez até de compreender.

A Vegetariana vai muito para além da história de uma mulher que não quer comer carne, ou que deseja transformar-se numa árvore. É talvez a história dessa mulher e do seu desejo de ser dona das suas vontades. De querer controlar o próprio corpo, quando mais nada controla na sua vida.

Tem de obedecer ao pai e ao marido, de se vestir como os outros desejam, de ser a esposa para que foi preparada. Tem de viver para as vontades dos outros e de acordo com as expectativas que criaram para ela. É uma prisão onde, apesar de não estar só, nada controla. Deseja a morte como fuga, mas não lhe é permitido morrer. A estranheza de não comer é encarada como loucura e ninguém lhe sente o sofrimento nos silêncios.

Para quem lê o sufoco é constante. Os gritos de socorro da mulher que se quer transformar em árvore para abandonar a sua própria vida são perturbadores. Ouvimos do lado de cá das páginas o que a família ignora. E é revoltante. É clara a angústia de quem é dado como louco, e a forma como acaba por ceder à loucura. Por ser o único caminho.

A Vegetariana questiona costumes e padrões de forma tormentosa, levando ao limite o conceito de normalidade e dissecando a dor de não ser aceite. É um grito (silencioso) de revolta.

Gostei bastante, mas estou certa que não agradará a todos os leitores. Os mais exigentes não o devem deixar escapar.

Sinopse

“Uma combinação fascinante de beleza e horror.Ela era absolutamente normal. Não era bonita, mas também não era feia. Fazia as coisas sem entusiasmo de maior, mas também nunca reclamava. Deixava o marido viver a sua vida sem sobressaltos, como ele sempre gostara. Até ao dia em que teve um sonho terrível e decidiu tornar-se vegetariana. E esse seu ato de renúncia à carne - que, a princípio, ninguém aceitou ou compreendeu - acabou por desencadear reações extremadas da parte da sua família. Tão extremadas que mudaram radicalmente a vida a vários dos seus membros - o marido, o cunhado, a irmã e, claro, ela própria, que acabou internada numa instituição para doentes mentais. A violência do sonho aliada à violência do real só tornou as coisas piores; e então, além de querer ser vegetariana, ela quis ser puramente vegetal e transformar-se numa árvore. Talvez uma árvore sofra menos do que um ser humano.”

D. Quixote, 2016

“Human Acts” de Han Kang

Roda Dos Livros, 17.10.16

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Depois de ter lido “A Vegetariana” fiquei com uma curiosidade imensa sobre a obra de Han Kang. A forma como a autora conseguiu exprimir emoções fortíssimas através de uma escrita depurada, paradoxalmente crua e delicada, impressionou-me muitíssimo e gerou ganas de voltar a lê-la. E assim cheguei a “Human Acts”, ainda não publicado em Portugal. Embora não seja habitual, creio que se impõe agora um parêntesis sobre o facto histórico que constitui o fulcro deste romance. Após o final da Guerra da Coreia em 1953 e até 1987, a Coreia do Sul foi dominada por um regime ditatorial em que os direitos humanos foram, como é habitual nestas situações, ignorados e violados. Estava-se em plena Guerra Fria e a península coreana era dos principais palcos da luta pela supremacia mundial em que se envolveram os Estados Unidos da América e a União Soviética. Por isso há quem diga que na génese do chamado Levantamento ou Massacre de Gwangju terá havido influência da vizinha Coreia do Norte, ontem como hoje, um dos regimes mais brutais e repressivos do nosso planeta. Talvez tenha havido; não sei se foi assim pois não sou historiadora nem especialista em assuntos asiáticos. Tanto quanto pude apurar através de uma pesquisa breve, após o assassinato do general Park Chung-hee, que tinha chegado ao poder em 1961 através de um golpe de estado, no final de 1979, surgiram em vários pontos do país movimentos pró-democracia, envolvendo sobretudo estudantes universitários e sindicatos ligados a trabalhadores fabris. Contudo, depois da ascensão ao poder do General Chun Doo-hwan, a Lei Marcial foi imposta em todo o país e o regime tornou-se ainda mais repressivo. Em 18 de Maio de 1980, na sequência de um protesto de estudantes contra o fecho da Universidade de Jeonnam, gerou-se um movimento de contestação, inicialmente totalmente pacífico, envolvendo também estudantes de níveis de ensino não superior bem como trabalhadores das fábricas, activistas pró-democracia e outros cidadãos de Gwangju. Chun reage a esta situação enviando tropas do exército e pára-quedistas para dispersar as manifestações. Os militares carregaram sobre as pessoas, usando cassetetes, baionetas e disparando indiscriminadamente, tendo havido também “snipers” nos telhados para atingir pessoas que tentavam fugir. O número exacto de vítimas é desconhecido pois muitos corpos foram levados pelos militares e queimados ou enterrados em valas comuns em locais desconhecidos. Em resposta, os cidadãos da cidade invadiram esquadras da polícia e arsenais, obtendo assim as armas com que fizeram frente ao exército, o qual se retirou para a periferia da cidade a 21 de Maio. Durante alguns dias houve uma calma relativa mas na madrugada de 27 de Maio, os militares entraram na cidade com tanques e helicópteros, lançando assim uma ofensiva que esmagou o movimento e colocou Gwangju definitivamente sob seu controlo. Na sequência destes acontecimentos milhares de pessoas foram presas e barbaramente torturadas pelo regime de Chun. Hoje muitos consideram que a tragédia de Gwangju foi o início do caminho rumo à democratização da Coreia do Sul, a qual veio a tornar-se realidade em 1987.

É quase absurdo dizer que este é um romance belíssimo porque o seu foco é uma tragédia imensa cujos ecos ainda hoje se fazem sentir na sociedade sul-coreana. Não obstante, este é um livro de uma beleza e de uma força impressionantes. Dividido em sete capítulos diferentes, a narrativa é-nos apresentada por sete personagens diferentes: um rapaz de 15 anos à procura de um amigo desaparecido, um fantasma de um rapaz assassinado, uma editora encarregue de levar os manuscritos para visto prévio da censura, um preso político, uma antiga trabalhadora fabril também presa política, a mãe de um rapaz assassinado e o(a) escritor(a). Han Kang não tem contemplações, escreve de forma absolutamente clara, sem eufemismos nem apaziguamentos de linguagem e no entanto, frequentemente poética. Retrata muito claramente violência extrema que esteve em causa, a matança indiscriminada de civis desarmados e o sofrimento atroz dos sobreviventes, a braços com sentimentos de culpa e stress pós-traumático, bem como das famílias a quem foi negada a possibilidade de realizar os rituais fúnebres aos seus mortos, muitos dos quais permanecem ainda hoje “desaparecidos”. E emociona profundamente. Creio ser impossível ficar indiferente a este livro. É um testemunho poderoso e inquietante que me deixou com estas perguntas na cabeça: O que são os “actos humanos”? A violência fria e atroz dos agressores? Ou a coragem, a resistência e a força dos cidadãos de Gwangju? Se calhar ambos; pena é que a História do Homo sapiens sapiens (nome presunçoso e mentiroso) continue a ser um rol de sangue derramado com alguns laivos de compaixão e esperança, aqui e ali.

Sinopse:

Gwangju, South Korea, 1980. In the wake of a viciously suppressed student uprising, a boy searches for his friend's corpse, a consciousness searches for its abandoned body, and a brutalised country searches for a voice. In a sequence of interconnected chapters the victims and the bereaved encounter censorship, denial, forgiveness and the echoing agony of the original trauma. Human Acts is a universal book, utterly modern and profoundly timeless. Already a controversial bestseller and award-winning book in Korea, it confirms Han Kang as a writer of immense importance.

 

"A Vegetariana" de Han Kang

Roda Dos Livros, 18.09.16

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“As profundezas do mar estão livres de todo o mal, são apenas vida e morte, enquanto haveria certamente uma necessidade de se benzerem as linhas, não apenas uma, mas pelo menos dez mil vezes, se tivéssemos de as enviar para as profundezas da alma humana.”

Jón Kalman Stefánsson in “Paraíso e Inferno”

 

Dividida em três partes, a história trágica de Yeong-hye, a vegetariana, vai-se desvendando pouco a pouco, subtilmente, apesar da clareza directa e brutal da escrita de Han Kang. Raras vezes se encontram passagens onde a protagonista exprime os seus pensamentos e emoções; quase tudo é-nos contado através dos olhos de terceiros, como se fosse um documentário, sobre algum acontecimento longínquo ou alguma pessoa já falecida, integralmente constituído por testemunhos daqueles que estiveram de algum modo envolvidos sem estarem no fulcro da narrativa. Neste caso essas pessoas são o marido, o cunhado e a irmã de Yeong-hye e, através dos seus relatos, vai sendo construindo uma espécie de puzzle incompleto de fragmentos do percurso desta. Isto porque os narradores concentram-se essencialmente nas consequências da decisão da protagonista para si próprios, embora se note um certo gradiente nas atitudes: o marido mostra-se totalmente incapaz de qualquer empatia ou compreensão enquanto que o cunhado, dominado pela sua obsessão egoísta camuflada de interesse artístico, tenta perceber o que se está a passar com ela, e a irmã, atormentada pela culpa associada a acontecimentos da infância e adolescência, faz tudo o que pode para a salvar, expressando assim o seu amor por Yeong-hye. Esta permanece quase sem voz ao longo do romance, como se fosse esse o preço a pagar por se ter atrevido a romper a “normalidade” ao recusar comer alimentos de origem animal.

Este é um livro-cebola, feito de camadas e propenso a leituras diversas, suscitando reflexões sobre a violência inerente à vida nas sociedades humanas, sobre a inevitabilidade ou não da sua existência e, claro, sobre a forma como são vistos os que se atrevem a desafiar os padrões de comportamento instituídos. Mas também toca as fronteiras entre consciente e subconsciente e entre sanidade e loucura; entre os perigos de trazer à consciência as pulsões que habitam as profundezas da mente humana e a vontade para as dominar ou para se deixar dominar por elas. Tal como a casca da cebola guarda o segredo dos seus sucos capazes de causar lágrimas, à superfície tudo parecia estar bem, “normal” no quotidiano de Yeong-hye até ao momento do sonho tenebroso que a impele a rejeitar a violência e a leva ao ponto de desejar, literalmente, converter-se numa árvore. Paradoxalmente, o pacifismo subjacente a esta decisão desencadeia reacções violentas tanto do marido como do pai as quais terão consequências dramáticas, gerando assim um sofrimento intenso, as “lágrimas da cebola”, na protagonista. Esta é levada a atravessar o limiar da sanidade pois, ao escolher viver sem exercer qualquer tipo de violência, acaba por atentar contra a sua própria integridade física, rejeitando claramente uma sociedade onde não lhe é permitido viver de acordo com as suas opções. Deste modo, acaba por tornar-se num algoz de si própria.

Na prosa de Han Kang não há eufemismos nem qualquer tipo de contemporizações com excessos de linguagem que possam desviar a atenção do leitor daquilo que ela pretende contar. Contudo, apesar disto, consegue inquietar e emocionar quem lê, ao ponto de ser difícil parar de ler por mais dura que seja a narrativa.

Para terminar, nem só de violência é feito este livro; também há notas de ternura, nomeadamente entre In-hye e o filho e entre as duas irmãs, relembrando que nem tudo são trevas na profundidade do ser humano. Além disso, apesar da componente doentiamente obsessiva do interesse do cunhado por Yeong-hye, o erotismo da relação entre ambos é delicado e interessante, com a sua ligação directa às flores em cuja beleza nos fixamos, esquecendo que elas são, em essência, os órgãos sexuais das plantas.

Excertos:

“Como era possível que fosse tão egoísta? Fixei os seus olhos baixos, a sua expressão calma de autodomínio. Só a ideia de que ela podia ter este lado egoísta, de alguém que fazia o que lhe apetecia, era já inconcebível. Quem diria ela podia ser tão insensata?”

“O frio daquele inverno que estava a chegar ao fim teimava em manter-se, e a minha mulher parecia congelada, ali parada no parque de estacionamento com um casaco leve de primavera. Não tinha dito uma única palavra durante todo o caminho, mas convenci-me de que isso não queria dizer que houvesse qualquer problema. Não há mal nenhum em uma mulher estar calada; aliás, não é isso mesmo que tradicionalmente se espera delas – que sejam sóbrias e recatadas?”

“Agora só posso confiar nos meus seios. Gosto deles, não podem matar nada. Mão, pé, língua, olhar – tudo armas, sei que nada está a salvo delas. Mas os meus seios, não. Com os meus seios redondos está tudo bem. Por enquanto. Então, porque será que continuam a encolher? Já nem sequer são redondos. Porquê? Por que motivo estarei a mudar tanto? Porque está todo o meu corpo a ficar aguçado – será que vou rasgar?”

“A sua voz não tinha peso; as suas palavras pareciam penas. (...) Era o tom calmo de alguém que não pertencia a lado nenhum, uma pessoa que passara para uma terra de ninguém entre estados de alma.”