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Roda Dos Livros

Crónica de uma reunião imaginária

Ou o encontro de Novembro

Efeitocris, 25.11.25

O trio aproximou-se da biblioteca depois de um almoço preguiçoso ao sol. A Dona Aveia atrasou-as tanto quanto pode… parece que estava a adivinhar que esta reunião de Novembro não aconteceria. Entre olfatar aqui e ali, abanava o rabito, conquistando sorrisos e demorando a Isa e a Cris.

— Estou convencida de que a esplanada devia ser património imaterial do nosso clube. — sugeriu uma delas, entrando na biblioteca.
— Será que já está alguém à nossa espera? — a pergunta era do mais retórica que pode haver, sabiam que não deveriam vir muitas rodistas, mas o segurança que lhes abriu a porta disse logo que «Não! Eram as primeiras”»

A sala estava vazia e fria e rapidamente se acomodaram ao sol. A Dona Aveia aproveitou para se estender e preparar a sesta. Facilmente se põe a ressonar como se o mundo inteiro fosse um sofá confortável.

Sentaram-se, ainda embaladas na conversa que vinha da rua, mas começando a depositar livros na mesa.

— Então? – disse a Isa, tirando da bolsa Daytripper —vens com artilharia pesada, ao ver os livros da Cris: Kilomba, DiAngelo e Paglia… estás a preparar alguma tese ou quê?

Riram-se. Ambas sabiam que são livros destes, temáticos e suculentos, que dão sempre para ampliar as conversas e apimentar os tópicos extra.


— Acredita, depois destas três leituras, sinto-me com mais dúvidas ainda, mas como já tinha começado, no mês passado, com as leituras do wokismo de Mcworth e do feminismo pela Wittig, achei muito bom para desarranjar ainda mais as ideias. Mas olha, gostei… e não gostei. Foi assim uma confusão, um misto de emoções e ideias.
— Mas também é bom quando os livros nos dão isso, certo?

— Tem dias. — e riram.

— Mas o que gostei mesmo e quero dar destaque é o da Paglia. Consegue formar imagens brutais com meia dúzia de palavras… «Provocações» é um autêntico roteiro de músicas, imagens e momentos ao longo de mais de vinte anos. Muito bom.

A Isa mexeu nas novelas gráficas e soube logo que a Cris estaria a pensar que Daytripper teria algo a ver com cães, já são amigas a esse ponto para saberem ler alguns trejeitos sem que venham com uma palavra agarrada.

— Olha que o Daytripper, de Fábio Moon, também mexe um pouquinho com a gente, com estas formas alternativas de viver e reviver de Brás de Oliva Domingos. 

A Cris fez um aceno de quem compreende demasiado bem aquele sentimento. E acrescentou:
— E cruza bem com Joyce, de certeza.

— Sim! E foi uma porta para descodificar a obra de Joyce. Mas a minha sugestão é mesmo Lampedusa: Ir e Não Chegar.
— É duro?

— Tive momentos que fui respirar ao terraço.

E ficaram em silêncio, mas foram logo interrompidas pelo ressonar com convicção da Dona Aveia. E deram por elas a olhar aos relógios e a perceberem que não vinha mais ninguém. O clube hoje pertencia-lhes😉 e partilharam uma foto com a Patrícia. 

— Sabes, acho que não vem mesmo mais ninguém. — disse a Isa, ajeitando os cabelos quentes do sol.

— Acho que somos mesmo só nós.

Lá fora, o sol estava apetecível. E num olhar compreenderam-se. Por hoje estava feito. 
A Dona Aveia abriu um olho, ergueu a cabeça e olhou para a porta como quem desafia um: Vamos passear?

— Vamos! – e já arrumavam o espaço.

— Bora! – confirmou a Cris, gerando um salto imediato na Dona Aveia.

*

E a reunião, tal como sempre, começou antes de começar. Nas conversas, nas trocas de mensagens, nas partilhas de livros entre qualquer outra conversa real ou virtual…ou mesmo sem quórum para reunir oficialmente. Porque a Roda é isto, uma conversa interminável há já mais de uma década. Mas é sempre melhor com os Encontros mensais. Portanto, que venha Dezembro e que venha mais gente. Que a Roda faz falta a todos. Sem excepção!

Sugestões

- PROVOCAÇÕES de Camile Paglia

- LAMPEDUDA, ir e não chegar de Ana França 

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Encontro de Outubro/2025

Célia, 02.11.25

O sábado chuvoso que encontrámos no passado dia 25 não foi suficiente para nos afastar de mais uma tarde de conversas em torno dos livros. Aliás, há mesmo quem ache que o tempo chuvoso e frio (ainda não muito) é o mais propício a estas sempre animadas tertúlias.

Desta vez, a chuva não foi só lá fora porque a casa estava cheia, incluindo um novo leitor canino, desta vez a fofa Trufa, que distribuiu lambidelas e simpatia. 

Fui eu a abrir as hostilidades, destacando "Fome", de Roxane Gay, e "Prisioneiros da Geografia", de Tim Marshall. Ultimamente, ando mais virada para as leituras de não ficção e estes dois foram os que mais me marcaram de entre os últimos lidos. "Fome" é um relato cru e visceral sobre o trauma e a obesidade, provando que Roxane Gay é excelente seja a escrever ficção ou não ficção. "Prisioneiros da Geografia" é um livro que permanece atual, mesmo após 10 anos decorridos sobre a sua publicação original e considerando que a geopolítica é uma questão em permanente alteração.

A Sónia foi a cliente que se seguiu, e recomendou-nos "Inyenzi ou as Baratas", de Shcolastique Mukasonga, um livro que trouxe uma visão impactante sobre o massacre do Ruanda nos anos 1990. Outra leitura referida, infelizmente não com um impacto tão forte, foi o clássico "A Morte de Ivan Ilitch".

De seguida, "A Coroa" de Sigrid Undset não deslumbrou a Renata mas serviu para que as rodistas presentes percebessem a diferença entre as palavras percursor, precursor e percussor, provando que podemos sempre ver o copo meio cheio! "Por Dentro do Chega" foi também um livro bastante falado nesta Roda, tendo as leitoras presentes sugerido que fosse consumido em doses homeopáticas. A Renata recomendou-nos "Gaza está em toda a parte", de Alexandra Lucas Coelho, um livro de crónicas acompanhadas de fotos que a autora coligiu após viagens recentes ao local.

A Vera deixou-nos imensas recomendações, com particular destaque para "Dei-te os olhos e viste as trevas", de Irene Solá (que título fantástico!) e "A chuva que lança areia do Saara", de Ana Margarida de Carvalho. Também a Cristina Delgado, que faz magia e consegue ler pelo menos sete livros ao mesmo tempo , nos deixou imensas sugestões, com destaque para "Eu Tituba, Bruxa... Negra de Salem", de Maryse Condé, uma ficção histórica sobre esta personagem real.

A Fernanda partilhou connosco a sua paixão por Elizabeth Strout, cuja obra ainda continua a descobrir, tendo-nos recomendado "Amy e Isabelle" e "Abide With Me". Tem também andado a descobrir a obra da Nobel coreana Han Kang, com "A Vegetariana", "Atos Humanos" e "Lições de Grego". Não esquecer os textos de Eduardo Galeano em "O Caçador de Histórias", um livro difícil de catalogar em que se alternam contos, crónicas, memórias, poesia e micro-ficção.

A Márcia estava a terminar e a gostar muito de "O que podemos saber", o livro mais recente de Ian McEwan, uma espécie de distopia com um pendor mais literário e filosófico, que promete fazer-nos refletir sobre o que andamos a fazer ao nosso mundo atualmente e no legado que deixaremos a gerações futuras. Claro que todas adorámos também ouvir a Márcia falar sobre os livros que começou e não terminou .

A Ana Borges recomendou-nos em especial "O Cérebro Ideológico", de Leor Zmigrod, um livro de não ficção que promete explicar com fundamento científico porque é que somos mais ou menos propensos a aderir a determinados dogmas.

Para finalizar, as recomendações das nossas Sofias: a Sofia Antunes falou-nos de "The Inheritance of Loss" (A Herança do Vazio), de Kiran Desai, um livro que venceu o Booker Prize em 2006 e que aborda os efeitos do colonialismo e do pós-colonialismo na Índia; a Sofia Castro deixou-nos com a recomendação de "Imperatriz" de Pearl S. Buck, uma biografia ficcionalizada da última imperatriz chinesa, Cixi.

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Em novembro há mais!

Setembro e uma mão cheia de leitores

Efeitocris, 10.10.25

Numa tarde quente ainda a cheirar a verão (felizmente!), a Roda parecia encolhida. Éramos cinco e mal enchíamos uma mesa. Mas cinco é uma mão cheia ou mancheia e tal como as mãos que nos guiam nos gestos mais simples ou nos sustentam nos mais complexos, foram esses cinco leitores os suficientes para abraçar tantos temas e sentimentos como livros que abarcaram o mundo inteiro. Claro que foram - e são sempre 😄 – mais os livros que os dedos das mãos.

Isso é certo e maravilhoso nos nossos encontros mensais.

Então vamos lá saber mais sobre essa mão cheia de livros. 

O polegar, símbolo de aprovação, ergueu-se para todos, é claro, mas talvez o like maior vá para «Leitura Fácil» de Cristina Morales por ser uma narrativa sui generis, carregada de vozes peculiares e talvez possamos até dizer que tem um impacto militante e tantos são os seus temas que não há dedos suficientes para apontar todas as questões que o livro levanta com brutalidade e “bastardismo”.

Esticando o indicador, deixamos que aponte para «Racismo Woke» de John McWhorter, cheio de interpelações ao leitor e alertas. Um livro indicador de polémicas e pedidos de atenção — para o uso das palavras, para as camadas do ativismo identitário e para os lugares de luta anti-racista e todas as polémicas envolvendo o tema.

Entre o polegar e o indicador, formou-se o gesto 👌. E ali encaixou-se «Uma mulher desnecessária» e outro não lhe poderia tomar o lugar. A obra de Rabih Alameddine obriga a unir esses dois dedos num sinal de excelência, que nos levou a pensar no quanto é envelhecer invisível. É uma narrativa de resistência através da leitura e dos livros, uma lição sobre cooperação e vizinhança e sobreviver nas franjas da sociedade.

Com ligação directa ao coração ou no anelar podemos colocar vários dos livros falados durante o encontro. «O caminho do sal»; «Portugal hoje, o medo de existir»; «Lucy» ou ainda «As crianças adormecidas». Os sentimentos e seus desdobramentos, raízes, traumas e liberdade, tudo ecoa e encaminha para a memória colectiva e a afectividade. Por isso, no dedo das alianças, compromissos e promessas escondem-se vozes contida, intensidades e superações, mas também gritos de denúncia e manifestos.

Restando ainda o mindinho, pequeno e essencial para o equilíbrio, traz-nos detalhe e minucia, por isso «Líbano – uma biografia», «Um país sem amor» e «The story of a heart» que, à primeira vista, são livros discretos, mas completam histórias com História, sustentando temas densos sem alarde ou exageros.

Mas onde encaixar «Reencontros» de Fred Uhlman ou os já repetentes «Lobos» de Tânia Ganho e «O relatório Brodeck» de Philippe Claudel? Livros que escorregam entre os dedos, inquietos e que resistem ao encaixe. Falam de medo, exploram fábulas, denunciam a violência, engrandecem a resistência e exploram realidades que arrepiam. São narrativas que cabem na palma da mão, mas com facilidade esmiúçam o mundo à sua volta.

Então, sem mais demoras e deste encontro com anatomia simbólica, eis a pilha de recomendações.

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Foram 5 dedos 5 leitores e um gesto essencial: abrir a mão e estender o que se leu ao outro. E mesmo que sejamos poucos, quando há escuta, há um mundo a descobrir.

Para ver quem é que anda à Roda * Encontro de Agosto

Efeitocris, 28.08.25

Se me dissessem que em Agosto íamos reunir com casa cheia, um clima ameno e a calma doce da Dona Aveia a guiar a reunião, eu não acreditaria. E porquê?

Ora… porque as reuniões de Verão tendem a ter poucos rodistas e a Dona Aveia anda numa de participação esporádica e muito selectiva, só quando mesmo lhe apetece. Já para não falar das temperaturas de canícula que afastam outros participantes.

E além do mais, a reunião de Agosto chegou antecipada, mas felizmente teve como brinde uma leve brisa que aconchegou uma ou outra sesta, porque afinal o membro canino tem alguma idade e as tardes estivais pedem sempre uma power nap. E afinal, aos chefes tudo é permitido! Certo?

Claro que sim!

Aquele riso patudo derrete-nos os corações. Firmou-se no centro da Roda como quem diz: “A reunião começou, pessoal. Quem fala primeiro? Patrícia, és já tu.”

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E assim foi. E a Patrícia falou.

E falou de dramas familiares, sagas que estendem a gerações e aventuras fantásticas em Rio Perdido e mais uma vez Blackwater foi alvo das nossas atenções. Mas antes que a conversa se perdesse, a Don Aveia deu uma rosnadela  diplomática e apontou as orelhas… “Não vamos já começar a desordem, pois não meninas?”

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O que nos faltava mesmo era uma patada destas. Gentil mas determinada. Um convite à ordem pouco regrada que pauta cada Roda.

E mesmo que Blackwater tenha laivos de novela mexicana, não deixamos que os mariachi entrassem e seguimos com uma reunião tranquila e ouvimos a Patrícia nos contar que “Também há rios no céu” e que os livros de Elif Shafak merecem muito ser lidos e aqui a escriba segredou à sua patuda que nunca leu um livro da Shafak… Se calhar devias, disse a Dona Aveia em tom de sugestão, mas para quem a conhece sabe que queria dizer: “Não digas isso a ninguém e vai já corrigir essa lacuna. E no regresso traz biscoitos.”

O inventário podia continuar, mas sorte de um patrão sonolento é que em breve baixa a guarda e deixa a malta em auto-gestão, só assim podemos discutir e afirmar que «O inventário de sonhos» da Chimamanda fica um pouco a dever ao entusiasmo de outrora das suas narrativas africanas e que vamos metendo uns livros pelo meio desta leitura, que é como quem diz que nos sentimos culpadas de o deixar de parte.

A Dona Aveia diminuiu a sua atenção, entrou em modo Pausa e bocejou no colo de recomendações mais serenas… especialmente para ela que não fala russo e quando ouviu a Célia e a Renata discutirem se Tolstoi ou Dostoievski, deu um ar de sua graça com a cauda e fez um arrear estratégico — sinal de que era hora de deixar fluir a conversa sem moderação.

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E lá fomos nós, partilhando sugestões, umas tão desvairadas como um resumo de novela juvenil, outras profundas como se publicássemos um tratado filosófico caseiro.

Entre gargalhadas e lampejos de sabedoria, houve quem trouxesse leituras de autores que brincam com estilos, quem comentasse dramas mais sombrios, e quem citasse frases inspiradoras só para adensar o grau de profundidade literária — tudo isso enquanto a Aveia dormiam, ora na sua varanda privada ora na cama fofa e fazia círculos suaves ao nosso redor, passeando-se entre nós como quem garante que é visto, sentido e nunca esquecido… como o fazem certos livros e alguns deles tiveram palco nesta reunião, quem é como quem diz: “James”; “Orbital”, “Boulder”, “Túmulo de Areia”, “As malditas”, “melhor não contar”, “O bom mal”, “Triste Tigre”, “O Paradoxo do Cérebro” ou “As crianças adormecidas”

E se todos estes títulos não bastassem, há ainda a apologia de “Mudar de ideias” agora peneirada no crivo de Julian Barnes, entre mais títulos repetidos e tantos outros de policiais sangrentos e uns quantos títulos de livros-piscina que os roditas tanto gostam. Upa, upa, especialmente no verão para ler à sombra e á beira-mar.

Chegou o momento da pilha de sugestões, desta vez digna de fazer sombra a qualquer outra erguida este ano. Com direito a segura e-coisos cristalinos que quase quase não se fazem notar, esquecendo que estes dispositivos que se auto-intitulam de livros não são sequer capazes de se erguer sozinhos, nespecialmente nestas temperaturas. E sem mais demoras ou referindo quem sugeriu o quê e qual (e entretanto acordamos a patuda), fica a nossa bonita pilha de sugestões para lerem até ao Natal que deve ser quando voltamos duas mãos cheias de gente a animar as tardes da nossa Aveia.

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Encontro de Julho

Patrícia, 14.08.25

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Juro-vos que podemos mapear os dias mais quentes do ano através dos encontros da Roda dos Livros mas nós somos resistentes ao calor e à preguiça dos dias quentes. E somo-lo porque estas tardes são uma forma de ser um bocadinho mais feliz. E quando somos poucos podemos falar todos de muitos livros, dos que gostámos mais e até daqueles de que não gostámos tanto.

Os livros fazem-nos felizes. Mesmo aqueles que nos fazem perder a fé na humanidade como A revolta do Homem Branco, de Susanne Kaiser, um dos livros que a Cristiana nos trouxe. E para balançar sugeriu-nos também o A morte de uma livreira, de Alice Slater; Desgraça, de J. M. Coetzee e Boulder, de Eva Baltasar e Como amar uma filha, de Hila Bloom.

A Sónia falou-nos das suas impressões sobre o Lobos, de Tânia Ganho; Intermezzo de Sally Rooney e Mrs March de Virginia Feito.

A Célia sugeriu-nos O Covil de Pompeia, de Elodie Harper e Alguém falou sobre nós, de Irene Vallejo mas também falou de Todas As Árvore morrem de pé, de Luísa Sobral, O peso da Culpa, de Hjorth e Rosenfeldt, Eu que não conheci os homens, de Jacqueline Harpman e das Aventuras de Tom Sawer e Huckleberry Finn, livros de Mark Twain.

A Ana CB levou-nos de viagem com o Regresso à Patagónia, de Paul Theroux e Bruce Chatwin. E a esta sugestão juntou outra, O Mar da Tranquilidade de Emily St. John Mandel, de quem também leu o Hotel de Vidro; Pequenas Grandes Mentiras de Liane Moriarti; de Volta a Casa, de Jeanine Cummins e Monstros, de Claire Dederer.

E eu trouxe para a discussão o Cadente, de Mário Rufino (autor que já nos fez, por várias vezes, companhia neste grupo de leitores) e Catarina e A beleza de Matar Fascistas de Tiago Rodrigues.

Boas férias e boas leituras

Encontro de Junho

Patrícia, 11.07.25

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Apenas o amor aos livros e a certeza de que estes encontros são uma espécie de terapia faz com que cinco alminhas enfrentem a canícula para se reunir numa biblioteca e falar de livros e leituras. As férias diminuem a participação mas a Roda dos Livros voltou a reunir em Junho para partilhar livros e leituras, entre gargalhadas e outros assuntos, mais pessoais ou actuais, ou não fosse este grupo também um grupo de amigos. Mas vamos aos livros que é para isso que aqui estamos.

A Renata , que na última roda já tinha começado a ler o Transgressões, de Louise Kennedy (e eu, que confio demasiado na memória e não devia porque...bem, a idade é um estado de espírito e eu há muito que digo que, assim sendo, estou nos oitentas) desta vez sugeriu-o mesmo! 

A Tânia Ganho é uma das escritoras (e tradutoras) mais queridas aqui na roda e os seus livros são sempre lidos e sugeridos por muitas de nós. Ainda não nos esquecemos do Apneia e é com um aperto no coração que falamos dele.  Há livros assim, que nos deixam uma impressão duradoura. Desta vez é o seu mais recente livro, Lobos, que eu (Patrícia) e a Renata lemos e deixamos como sugestão.

A Sónia C. entre os muitos livros que leu destaca o Maus Hábitos, de  Alana Portero mas falou-nos também de livros que geram divisão (e é por isso que o mundo não tomba) no nosso grupo seja pelo tema como no Um amor, de Sara Mesa, ou pelo título, como o Catarina e a beleza de matar fascistas, de Tiago Rodrigues. 

Já todos comprámos livros pelo título mas será que já deixámos de o fazer pelo mesmo motivo? Um título provocador atrai ou afasta leitores?

A Sofia é uma admiradora confessa dos livros do booker prize e a pessoa que conheço que mais livros destas listas leu. (vencedores, short ou long list). Desta vez uma das suas sugestão foi o The Fisherman, de Chigozie Obioma, na shortlist de 2015 e a outra foi Os meus amigos, de Hisham Matar, que (injustamente, na opinão de alguns) não passou à short list de 2024. Falou-nos também de Lingo, de Gaston Dorren, um livro sobre as várias línguas europeias. 

E por falar em livros destacados do booker prize, a Sónia M. pôs na pilha das sugestões o James, de Percival Everett, que esteve na shortlist de 2024 mas também nos falou do De Volta A Casa, de Jeanine Cummins e de alguns livros de Liane Moriarty, como o O segredo do meu marido e o Pequenas grandes mentiras.

Já eu, juntamente com o Lobos, também trouxe o maravilhoso Frankie e o Casamento de Carson McCullers.

 

Encontro de Maio

Patrícia, 16.06.25

Ainda no rescaldo das eleições (de que não quisemos falar) todas precisávamos de uma tarde a falar de livros. Talvez não tenha sido a mais animada das reuniões, mas foi boa, é sempre boa, aquela tarde de Maio a falar de livros e leituras. Livros que lemos, que não lemos e que pretendemos ler.  E a pilha dos melhores vai ganhando forma à medida que a tarde passa.

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As novelas gráficas continuam a ser uma constante nas nossas reuniões, desta vez o sexto volume do Árabe do Futuro, de Riad Sattouf (Ana MS) e o O relatório de Brodeck, de Manu Larcenet, a partir do romance homónimo de  Philippe Claudel (Cristiana) foram os destacados.

Um livro que tem sido uma constante na Roda é o (permitam-me) maravilhoso O caderno Proibido, de Alba de Céspedes, que este mês foi lido pela Cristiana e pela Cristina.

Também lido por muitas e várias vezes destacado estão o The Heart’s Invisible Furies, de John Boyne (Sofia), o Transgressões, de Louise Kennedy (Renata e Sofia) e o Atos Humanos, de Han Kang (Isa)

Os momentos mais divertidos são sempre aqueles em que alguém destaca um livro e outro alguém revira os olhos e diz que não tem paciência para os livros de desse autor – e é um clássico com o Amor Towles. Desta vez o destaque vai para o Uma mesa para dois (Ana CB) e para o terceiro volume da série Blackwater, A casa (Patrícia).

Sem lugar na foto mas com uma menção honrosa, está o Inventário de sonhos, da Chimamanda Ngozie Adichie (Ana CB), que deu logo o mote para falarmos do evento da Flad e da presença desta autora em Portugal.

Atrevo-me a dizer que Mania (Renata e Patrícia) ainda vai ser objecto de outras discussões na roda – e não é certo que se mantenha na pilha dos destaques mas para já foi unânime o interesse.

Os livros são como as cerejas – um puxa o outro e a sugestão da Sofia para Inyenzi ou as Baratas, de Scholastique Mukasonga fez com que a Cristiana se lembrasse do Tempo das Catanas, de Jean Hatzfeld, uma vez que ambos abordam o genocídio do Ruanda.

E na senda dos livros difíceis de ler (mas bastantes importantes) está o A trilogia da Cidade de K., de Agota Kristof (Cristina).

Junho irá trazer-nos mais livros (aquando da publicação desde post está a realizar-se a feira do livro de Lisboa e neste grupo de leitores isso significa mais livros para as pilhas lá de casa) e mais uma tarde de partilha de livros.

E vocês, o que leram este mês e querem sugerir?

Boas leituras

A primeira pilha de livros da casa nova

Patrícia, 03.04.25

Mudança de casa, vizinhança nova. Apresentemo-nos, portanto. Somos muitos, nem sei bem quantos, porque para além dos residentes habituais temos aqueles que às vezes dão um ar de sua graça e regressam a casa. Somos um grupo de leitores que reúne mensalmente, à volta de uma mesa cheia de gordices, para partilhar leituras e muitas gargalhadas, especialmente quando as opiniões sobre determinado livro são diametralmente opostas, coisa que acontece regularmente. 

Criámos o blog da Roda há muitos anos, documentámos encontros, reuniões mais ou menos especiais e partilhámos as opiniões sobre os livros que vamos lendo. Nos últimos tempos tem sido mais difícil manter o blog actualizado e, por isso, achámos que mudar para o Sapo era uma boa ideia. A mudança não foi fácil mas contámos com a ajuda da malta do SAPO Blogs a quem agradecemos (sem vocês não estaríamos aqui). 

Março não nos trouxe apenas a nova casa do blog como novidade. De não somenos importância foram as pétalas crocantes de caramelo salgado que a Ana Marques da Silva nos trouxe. Ficámos (demasiado) fãs.

Quanto a livros, há uma bela pilha de sugestões a comprovar que se lê de tudo por aqui.

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A Fernanda, enquanto as agulhas da malha marcavam o compasso, sugeriu a leitura de Vermelho delicado, de Teresa Veiga e As palavras do Corpo de Maria Teresa Horta.

A Isa, que "não leu nada este mês" sacou da lista e entre outros destacou o Bear Town, de Frederik Backman.

A Célia ficou impressionada com o As vozes de Chernobyl, de Svetlana Alexievich mas sugeriu também uma saga familiar, o Olá Linda, de Ann Nepolitano.

A Sofia  depois de nos ter indicado o A mulher do meio, de Ivone Mendes como o melhor do mês e de nos ter falado de outras boas leituras perguntou-nos "querem que agora vos fale daqueles de que não gostei?" (e é sempre dos momentos mais divertidos, um dia fazemos uma pilha dos livros de que não gostamos). 

A Sónia C.trouxe-nos Uma história de violência, de Édouard Louis e Boulder, de Eva Baltasar.

A Cristina sugeriu o Para Acabar de Vez com Eddy Bellegueule, de Édouard Louis, Tese sobre uma domesticação, de Camila Sosa Villada e Vamos Fazer Melhor! de Gidon Lev

A Cristiana diz que há livros de leitura obrigatória e trouxe-nos dois desses: Triste Tigre, de Neige Sinno e As malditas, de Camila Sosa Villada. Mas pôs também na pilha o Hotel Irís de Yoko Ogawa. 

É tão difícil é escolher os melhores dos melhores que, às páginas tantas, vai tudo para a pilha. 

A Ana MS passou o mês a ler novelas gráficas e destacou o Regresso ao Éden, de Paco Roca

A Sónia M. sugeriu-nos o "Nem todas as árvores morrem de pé" da Luísa Sobral

E eu, Patrícia, sugeri o O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout, livro que, para não variar, não reúne consenso neste grupo.

Foram umas horas de boas sugestões literárias e boa conversa com a lista de "Livros que quero ler" de cada uma de nós a aumentar e com "emprestas-me esse?". Afinal, somo A Roda dos Livros e o nosso lema é "Livros em movimento".

Boas leituras

Encontro de Outubro

Roda Dos Livros, 28.10.24

E tão bom que ele foi.

Bom mesmo! Tão bom que ninguém deu pelo tempo passar e nem precisou se distrair com fotografias 😉 E foi tão verdade que a hora de reunir a pilha apanhou-nos de surpresa e é mesmo a única foto de mais encontro à Roda dos Livros. E é pena, senão iam ver as nossas bonitas canecas, os chás, as bolachas e todas essas gulodices que marcam - definitivamente - a entrada no Outono. 🍂🍁 😉

Portanto, decididos os sabores do chás e os lugares de cada uma (há sempre umas mais encaloradas e uma certa brisa para quem gosta do ruído lá fora) e recebida uma convidada, a Sónia, foi tempo de começar a partilhar. Partilhar as não-recomendações, entenda-se. É que os «não gosto» e os "acabados na força da raiva" (Obrigada, Elisa! Adorei a expressão) andam a ganhar terreno. É que isto de insistir e dar hipóteses para ver se a história vira ou "terminei só para poder falar mal" tem ganho adeptas e podíamos até compor um baralho ou fazer um jogo de dardos. E que risota ia ser!

Sendo assim, saltando a pilha inexistente - mas já estivemos mais longe de fazer uma pilha também para as não-recomendações (sem nomear e depois vocês que adivinhem) - vamos à pilha que interessa, embora saibamos que isto das recomendações tem muito que se lhe diga, pois na Roda vamos rápido do amor ao ódio. Se há uma que diz que adorou é bem capaz de existirem logo duas a abanar a cabeça e a atropelarem-se entre factos e argumentos para reclamar: "como é que és capaz?"

Verdade, verdadinha, nós gostamos mesmo é de uma discussão mais acesa e de falar de livros, todos os livros e todos os temas que vão dar aos livros e que dos livros saem, por isso, aqui fica a pilha de sugestões deste mês.

 

A convidada, a Sónia, trouxe «O da Joana» de Valério Romão, um autor que há muito que não estava em destaque, mas é bem capaz de voltar a estar com esta redescoberta da série «Paternidades falhadas». Recomendou também "As Malditas" (que a Vera também aprovou).

A Elisa regressou e com ela veio «Caderno de memórias coloniais» e uma das suas favoritas, Irene Némirovsky, desta vez com «O vinho da solidão».

A Vera esteve de recomendadora de serviço (quem manda faltar) e encheu-nos o colo de sugestões, são elas: "Caviar com sardinhas", "Salvo o meu coração tudo está bem", "A Forasteira" e ainda "A guardiã" (mas menos recomendada). Dos autores de cá do nosso cantinho, salientou o mais recente trabalho de David Machado e Possidónio Cachapa. Ainda assim, a sua sugestão recaiu em "O livro das despedidas" de Velbor Colic, um nome até agora desconhecido.

A Delgado trouxe duas sugestões de peso, embora por razões totalmente díspares, um pela crueza da escrita e a brutalidade do tema, "A zona interdita" de Mary Borden e o outro por ser de uma autora acarinhada na Roda, a caríssima Du Murier que com "O outro eu" arrebatou completamente a atenção da Delgado que se atrasou nos últimos dias por estar agarrada aquela dupla identidade. ;)

Em transcendências também andou a Renata com a escrita de Yaa Gyasi e até estabeleceu algumas comparações entre o livro e os tempos actuais com a leitura de algumas passagens.

Com outras passagens andou entretida a Isa revendo partes de um futuro possível nas palavras de Kjersti Annesdatter Skomsvold com o seu "Quanto Mais Depressa Ando, Mais Pequena Sou", ainda assim escolheu «A cor do hibisco» de Chimamanda Ngozi Adichie que reúne o consenso das Rodistas.

A Cristiana (eu!) acabei - como bem disse a Elisa - "na força da raiva" «As Herdeiras» de Aixia de La Cruz e recomendo a leitura só para debatermos umas ideias sobre um par de coisas, porque a sugestão mesmo é o novo livro d'A Biblioterapeuta «Ler para viver» que ainda deu lugar a algum debate ou não fosse a farmácia literária de cada um ser melhor que a do vizinho 😉

E como tem de existir sempre um e-coiso, coube à Patrícia recomendar «As três mortes de Lucas Andrade», livro que anda a dar que falar nas últimas rodas. Também na força da raiva a Patrícia terminou «O outro vale» e não há muito mais a dizer.

E sabem que mais, o final do ano está quase aí à porta e não tarda temos a sala inundada de bolos!

 

10 miúdas e dois cães

Roda Dos Livros, 07.10.24

O tempo é relativo e foi numa tarde de Outubro que se deu o encontro de... Setembro. A verdade é que o formalismo não é uma característica nossa o que, aliás, se vê nos posts que não publicamos neste blog, pelo que fazer um encontro de Setembro em Outubro é absolutamente aceitável. O que nos falta em formalismo e perseverança na escrita de posts, sobra-nos na vontade de ler e o tempo reservado para os encontros mensais parece sempre pouco para o entusiasmo com que partilhamos leituras. Claro que os primeiros minutos do encontro são sempre reservados à nobre arte do "pôr a conversa em dia", fundamental num grupo que já se conhece há muito. Para além dos livros, também nos une o amor pelos animais e a Dona Aveia e o Nero são mais que membros honorários deste grupo, são membros de pleno direito, tenho a certeza que, à sua maneira, são tão amantes de literatura como qualquer uma de nós.

Os primeiros livros que a Sofia nos trouxe foram o Eve, How the female body drove 200 million years of human evolution, de Cat Bohannon e o Matrescence, da Lucy James, que marcaram o ritmo de uma roda onde a mulher foi um tema transversal, com o Útero, da Leah Hazard, o Os rostos, de Tove Ditlevsen (sugestão da Cristiana), Histórias de Mulheres casadas, de Cristina Campos, as Serviçais, de Kathryn Stockett (trazidos pela Isa) ou o A mulher-casa de Tânia Ganho (Patrícia) que voltou a estar numa pilha de sugestões.

Quando alguém diz que leu o livro do mês, do ano, quiçá da vida toda a gente arrebita a orelha. Desta vez coube ao maravilhoso Os miseráveis, de Victor Hugo a distinção e toda a gente concordou com a Célia, que também nos falou de outros livros, como o Atos humanos, de Han Kang ( o que nos levou a uma discussão sobre tradução e revisão), O meu pai voava, de Tânia Ganho (ou como por vezes encontramos os nossos sentimentos escritos por outras mãos) e o O caderno de memórias coloniais, da Isabela Figueiredo. E aproveitou para sugerir a todos o Apologia do Ócio, de Robert Louis Stevenson.

A Márcia trouxe-nos YOGA, de Emmanuel Carrère, uma oportunidade para reflectir sobre saúde mental, a crise dos refugiados ou, por exemplo, suícidio. Ainda leu Friends, Lovers, and the Big terrible Thing, a Biografia De Matthew Perry, que tem sido lida e elogiada por várias pessoas deste grupo.

A Sónia elegeu o A Educação dos Gafanhotos, de David Machado, como sugestão mas trouxe também os livros de Rui Cardoso Martins, E se eu gostasse muito de morrer e As melhoras da Morte que, à boa maneira deste grupo, deslizaram pela mesa para rodar para outra leitora que os quer ler nos próximos tempos.

A Renata anda em releituras de uma das grandes séries de Fantasia dos últimos tempos (afinal o próximo volume do Stormlight Archives sairá no original ainda este ano) mas teve tempo para se deliciar com o Planície, de Jhumpa Lahiri, livro que há muito estava na sua lista de desejos e falar um pouco de O Messias de Duna, de Frank Herbert, a sua leitura actual. Tenho para mim que despertou curiosidades.

A Ana CB dedicou-se às séries policiais este mês com o Ponto Zero e Cortina de Fumo, da dupla Jørn Lier Horst e Thomas Enger e A Consequência, de Yrsa Sigurdardóttire, o livro que está na pilha para representar a série DNA, a sugestão desta leitura. Mas nas leituras da Ana, ainda constam O Vício dos livros de Afonso Cruz e A Guardiã de Yael Van Der Wouden.

As sagas familiares também estiveram em destaque neste sábado com o Do not say we have nothing, de Madeleine Thien (Sofia) e O Pacto da Água, de Abraham Verghese (Patrícia).

Por aqui não partilhamos só livros mas amigos e foi por isso que a Raquel nos fez companhia nesta tarde. A sua primeira sugestão na Roda dos livros foi o Os vencedores, de Fredrik Backman. Na verdade ela quis mesmo sugerir toda a série que culmina neste livro.

A Isa, enquanto nos falava das suas leituras que incluem os A rede Púrpura e Nina de Carmen Mola, Um Animal Selvagem de Joel Dicker e A livraria da Colina, de Alba Donati é a autora da frase do dia. Sobre um livro que não consigo nomear disse, com muita graça, ser "genial ou idiota". Quem nunca se deparou com um livro desses só pode andar a ler pouco, ali, naquela mesa toda a gente se identificou.

Cruzámos livros com livros (A mal Nascida, de Batrice Salviori (Cris) com o Amiga Genial, de Elena Ferrante) e livros com filmes (Os rostos com Camille Claudel, interpretado pela Binoche). Fizemos apostas para o nobel que está quase a ser anunciado e algumas de nós concordámos que a grande probabilidade é ser nomeado alguém de quem nunca ouvimos falar. E que gostávamos que um/a escritor/a de fantasia ou novela gráfica ganhasse mas que isso não vai acontecer.

Boas leituras, voltamos daqui a pouco.