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Roda Dos Livros

«O Quinto filho», de Dores Lessing - Opinião

Efeitocris, 02.01.26

Um clássico lido na recta final de 2025 e um pequeno texto para brindar a bons livros para 2026.

Boas leituras  paz, serenidade e fé é o que vos desejo para este novo ano.

"O Quinto Filho" é um romance aclamado de Doris Lessing que funciona como uma fábula sombria sobre a maternidade e a desintegração da vida familiar idealizada. A narrativa segue Harriet e David Lovatt, que, apesar do radicais e loucos anos 60/70, constroem - intencionalmente - uma vida familiar tradicional e conservadora, afastada das mudanças sociais da época. Apelidados por muitos de loucos ou desajustados, as suas escolhas foram sendo acompanhadas por todos e até suportadas pela família, em especial pela casa ídilica que escolheram e onde durante anos e anos existiram grande ajuntamentos familiar, que mesmo fora de época eram frequentados por um rol de gente.

Com os filhos a nasceram um atrás do outro, a casa gigante e os eventos familiares, criaram uma «bolha familiar», um refúgio idílico e uma «família-bunker», como descrito, um sistema de apoio para a «sobrevivência de valores que tinham como certos». Contudo, esta paz era frágil e ilusória.

Mas eles não sabiam!

A harmonia é irrevogavelmente quebrada com a quinta gravidez de Harriet, que é fisica e psicologicamente violenta. Esta «gravidez tormentosa» funciona como o «pronúncio de um fim pouco sorridente». A «bolha» da família perfeita pesa sobre a mãe, que entra num estado de «apneia» constante e numa luta contra todo o tipo de dores. A paz era mesmo frágil e a ilusão de um futuro sem tormentos estava à vista. Ao contrário do esperado, a família acorre a ela em tensão, visível num suposto apoio, constantemente contraditório e conturbado que foi ainda mais notório aquando dos primeiros meses de vida de Ben.

Agora eles sabiam que tudo estava ameaçado, mas não conseguiam aceitar

Assim que nasce, Ben é diferente. Inegavelmente diferente: fisicamente grande, bruto desde o berço, invulgarmente forte e incapaz de se integrar. Um mostrengo (a palavra é da Nobel!). A «natureza atávica, quase neandertal» de Ben representa o lado «primitivo» e as motivações destrutivas que levam a melhor sobre a civilização e a educação. A harmonia passou a viver encerrada, tal como Ben.

À medida que Ben cresce, transforma a «bolha harmoniosa e segura» numa «bolha de isolamento e violência». Essencialmente para Harriet, pois o marido e os outros filhos afastam-se, a família visita-os menos e Harriet luta «a sós» contra um «filho tirano». A sua aparente «frieza» não é uma falha moral, mas uma «resposta de sobrevivência» ao caos e à solidão a que é sujeita. Ao encarceramento.

E o encarceramento é duplo. Mãe e filho vivem isolados numa dinâmica que se revelará doentia e que trará desfechos que poderão atormentar o leitor, no entanto, pela forma como está escrito, a narrativa é uma exploração crua dos limites da compaixão e da responsabilidade parental, onde o sonho choca com a realidade e se transforma num pesadelo interminável, uma realidade que mesmo quando é posta em porta alheia, afecta-os na mesma. (Como não?)

Porém, tudo é narrado com essa frieza e afastamento, que julgo propositado e essa talvez seja a mestria de Lessing. Conseguir-nos de espectadores, esmiuçando a nossa curiosidade, mas sem nos ligar afectivamente às personagens. 

A comparação com «Temos de falar sobre Kevin» é inevitável e dá vontade de o ir reler, do qual recordo a constante tensão e aperto na gargante perante a sociopatia gritante e a violência que parece inata. Saliento que neste «O Quinto filho», essas sensações não são tão intensas, mas o lado enigmático e frio da escrita são o que cativa.

“Always home, always homesick” ou o encontro de Dezembro

Efeitocris, 17.12.25

O título do livro de Hannah Kent foi o mote perfeito para esta reunião de leitores em jeito de celebração de mais um ano que chega ao fim e em que estivemos juntos. E do quanto a Roda dos Livros é uma casa sempre aberta e pronta a receber os seus; estejam eles mais ou menos presentes mês após mês. Ano após ano.

A Roda pode ser como dizia David Trueba: “o lar é o único aberto toda a noite.” Assim parecem as nossas reuniões onde podemos sempre reencontra alguém com quem estivemos no mês passado ou alguém que não víamos há seis meses ou até um ano (ou dois ou mesmo três ;) porque a Roda é isso, é voltarmos a qualquer momento e sentirmo-nos sempre bem-recebidos, sem nunca deixarmos de sentir aquela saudade inquieta de outros anos, outras memórias, outras histórias. Tantos encontros, tantos livros, sempre os livros.

Que volte sempre quem tem estado mais longe, afastado ou atarefado. Que vão voltando nuns meses e noutros, para que a casa nunca fique vazia, para que a luz nunca se apague.

Desta vez, fomos dez pessoas à Roda dos livros, das chávenas e dos chocolates, cadernos e risos, gargalhadas e vontades, tudo reunido para fechar um ano de leituras partilhadas. Desta vez sem trocas ou sem prendas, mas com sorrisos e boas sugestões de leitura.

*

A chegada foi tudo menos silenciosa. Houve algazarra, risos cruzados, cadeiras a arrastar, mesas para arrumar e aquela confusão boa que só acontece quando o entusiasmo é palavra de ordem. Entre pôr a conversa em dia e esperar por todos, a certa altura, alguém falou em sermos um sério. “Sénior?” E a gargalhada colectiva rebentou…

“grupo sénior” e bastou uma sílaba trocada e logo o encontro a descambar numa piadola colectiva entre tantas que pautaram a tarde e que preenchem um compêndio de sacanices numa ode ao linguajar triumphal (e mais não se pode escrever porque mete anões, domadores de golfinhos e palavrões)

Porque quanto mais séniores ficamos

mais sérios estamos!

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E na seriedade que nos caracteriza deixamos-vos as seguintes sugestões:

Da parte da Vera - «A cinco palmos dos olhos» num regresso sempre saudoso às obras de Carlos Campaniço, embora a sua sugestão tenha de ser «Canção do Profeta» pelo espelho para os tempos conturbados por toda a Europa. E depois, algures no meio da conversa, lembrou-se de «Como animais» de Violaine Bérôt que recomendou a todas, cruzando referências com a Isa a propósito de «Quando as aves voam para Sul».

Já a Elisa andou renitente, mas lá se rendeu a «Alchemised» mas por todos os motivos e mais alguns a sua sugestão é para o incontornável «Tóquio vive longe da terra» fazendo-nos recordar o quão é bom regressar a Ricardo Adolfo e às suas narrativas tão peculiares.

A Delgado referiu o filme «Nuremberg» e entre conversas cruzadas chegámos ao livros «Entrevistas de Nuremberga», ainda assim a sua sugestão recaí na dureza do relato que se experimenta em «Huris» de Kamel Daoud.

A Isa regressou a Isabel Allende, mas espalhou inúmeras outras sugestões, porque regressou a Delphine de Vigan, e cruzou leituras, porque uns livros chamam outros e recomenda «Lampedusa, ir e não chegar», sem esquecer «Lágrimas de sal» de Pietro Bartolo. Mas as suas sugestões não parara por aqui e ainda tomámos nota para um livro-piscina: «O último Natal em Paris» e «Últimos ritos» para regressar à Islândia e a Hannah Kent, à qual roubamos o título para este encontro.

No meio das sugestões (e das interrupções, como é normal!) sugerimos uns aos outros séries e documentários, como foi o caso de "True Love", "Howards End" e "Puros conhecidos", boas escolhas todas elas disponíveis na Rtp play.

A Célia não apreciou "nem todas as baleias voam" de Afonso Cruz que gerou alguma polémica, já que outros adoraram. A Ana Borges aproveitou logo para acrescentar que o autor será finalmente cabeça de cartaz de um dos festivais mais aclamados sobre viagens e literatura, já que é um autor querido da Roda e que outrora nos brindou com a sua companhia numa tarde entre livros e muitas muitas sugestões nos idos de 2014.

A Célia recordou ainda efeitos e sensações da releitura de "Ensaio sobre a cegueira" e puff estalou novamente a conversa e converseta porque afinal de contas Saramago é Saramago.

Como também é incontornável Pamuk e a Borges não podia deixar de ter e trazer como sugestão a mais recente edição em torno os moleskine do autor. Que lá nos fizeram voltar ao pensamento de que estamos seniores e as letrinhas pequenas já são tramadas da ler. 

A Sónia Maia acarinhou também a leitura e o regresso à tão típica riralidade presente na escrita de Carlos Capaniço, mas sugeriu a grande Lídia Jorge com o ser sempieterno "A Costa dos murmúrios". Teve ainda a acrescentar que a biografia dos meandros do Chega a cansou e não conseguiu ler tudo para saber todos os podres 😉

Nem todas as obras geram consenso, mas existem outras que nos fazem logo sorrir, é o caso dos livros de Álvaro Laborinho Lúcio com o seu "As sombras de uma azinheira” sugerido pela Patrícia, com a Sónia a concordar. E a Cristiana a sugerir “O Homem Que Escrevia Azulejos”.

Outro que reúne consenso, seja na estranheza seja no não esquecer detalhes do livro é a sugestão “O Quinto filho” lido e sugerido pela Cristiana (eu!) Do mês passado até agora andei entretida com os ensaios da compilação “Provocações” de Camille Paglia, autora que descobri ao ler a “Teoria King Kong”; dos ensaios saliento o brilhante – e felizmente extenso – texto sobre David Bowie.

E a reunião não poderia chegar ao fim sem ouvirmos a nossa querida Ana Marques com sugestões tão hilariantes como sérias, passando pelo testemunho “Últimas chances” de Natalia Timerman, uma auto-ficção sobre o luto de uma filha após a morte do pai e para desanuviar leu também “Boas meninas se afogam em silêncio” de Andressa Tabaczinski, mas a animação total recaiu com a referência “A toupeira que queria saber quem lhe fizera aquilo na cabeça”, tendo todas ficado curiosas com a animação que vai ser a Ana ler tal livro à miudagem.

E sem mais demoras a nossa pilha de sugestões. Pró ano há mais e celebram-se 13 anos de encontros e pilhas e pilhas de livros. 

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Crónica de uma reunião imaginária

Ou o encontro de Novembro

Efeitocris, 25.11.25

O trio aproximou-se da biblioteca depois de um almoço preguiçoso ao sol. A Dona Aveia atrasou-as tanto quanto pode… parece que estava a adivinhar que esta reunião de Novembro não aconteceria. Entre olfatar aqui e ali, abanava o rabito, conquistando sorrisos e demorando a Isa e a Cris.

— Estou convencida de que a esplanada devia ser património imaterial do nosso clube. — sugeriu uma delas, entrando na biblioteca.
— Será que já está alguém à nossa espera? — a pergunta era do mais retórica que pode haver, sabiam que não deveriam vir muitas rodistas, mas o segurança que lhes abriu a porta disse logo que «Não! Eram as primeiras”»

A sala estava vazia e fria e rapidamente se acomodaram ao sol. A Dona Aveia aproveitou para se estender e preparar a sesta. Facilmente se põe a ressonar como se o mundo inteiro fosse um sofá confortável.

Sentaram-se, ainda embaladas na conversa que vinha da rua, mas começando a depositar livros na mesa.

— Então? – disse a Isa, tirando da bolsa Daytripper —vens com artilharia pesada, ao ver os livros da Cris: Kilomba, DiAngelo e Paglia… estás a preparar alguma tese ou quê?

Riram-se. Ambas sabiam que são livros destes, temáticos e suculentos, que dão sempre para ampliar as conversas e apimentar os tópicos extra.


— Acredita, depois destas três leituras, sinto-me com mais dúvidas ainda, mas como já tinha começado, no mês passado, com as leituras do wokismo de Mcworth e do feminismo pela Wittig, achei muito bom para desarranjar ainda mais as ideias. Mas olha, gostei… e não gostei. Foi assim uma confusão, um misto de emoções e ideias.
— Mas também é bom quando os livros nos dão isso, certo?

— Tem dias. — e riram.

— Mas o que gostei mesmo e quero dar destaque é o da Paglia. Consegue formar imagens brutais com meia dúzia de palavras… «Provocações» é um autêntico roteiro de músicas, imagens e momentos ao longo de mais de vinte anos. Muito bom.

A Isa mexeu nas novelas gráficas e soube logo que a Cris estaria a pensar que Daytripper teria algo a ver com cães, já são amigas a esse ponto para saberem ler alguns trejeitos sem que venham com uma palavra agarrada.

— Olha que o Daytripper, de Fábio Moon, também mexe um pouquinho com a gente, com estas formas alternativas de viver e reviver de Brás de Oliva Domingos. 

A Cris fez um aceno de quem compreende demasiado bem aquele sentimento. E acrescentou:
— E cruza bem com Joyce, de certeza.

— Sim! E foi uma porta para descodificar a obra de Joyce. Mas a minha sugestão é mesmo Lampedusa: Ir e Não Chegar.
— É duro?

— Tive momentos que fui respirar ao terraço.

E ficaram em silêncio, mas foram logo interrompidas pelo ressonar com convicção da Dona Aveia. E deram por elas a olhar aos relógios e a perceberem que não vinha mais ninguém. O clube hoje pertencia-lhes😉 e partilharam uma foto com a Patrícia. 

— Sabes, acho que não vem mesmo mais ninguém. — disse a Isa, ajeitando os cabelos quentes do sol.

— Acho que somos mesmo só nós.

Lá fora, o sol estava apetecível. E num olhar compreenderam-se. Por hoje estava feito. 
A Dona Aveia abriu um olho, ergueu a cabeça e olhou para a porta como quem desafia um: Vamos passear?

— Vamos! – e já arrumavam o espaço.

— Bora! – confirmou a Cris, gerando um salto imediato na Dona Aveia.

*

E a reunião, tal como sempre, começou antes de começar. Nas conversas, nas trocas de mensagens, nas partilhas de livros entre qualquer outra conversa real ou virtual…ou mesmo sem quórum para reunir oficialmente. Porque a Roda é isto, uma conversa interminável há já mais de uma década. Mas é sempre melhor com os Encontros mensais. Portanto, que venha Dezembro e que venha mais gente. Que a Roda faz falta a todos. Sem excepção!

Sugestões

- PROVOCAÇÕES de Camile Paglia

- LAMPEDUDA, ir e não chegar de Ana França 

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Setembro e uma mão cheia de leitores

Efeitocris, 10.10.25

Numa tarde quente ainda a cheirar a verão (felizmente!), a Roda parecia encolhida. Éramos cinco e mal enchíamos uma mesa. Mas cinco é uma mão cheia ou mancheia e tal como as mãos que nos guiam nos gestos mais simples ou nos sustentam nos mais complexos, foram esses cinco leitores os suficientes para abraçar tantos temas e sentimentos como livros que abarcaram o mundo inteiro. Claro que foram - e são sempre 😄 – mais os livros que os dedos das mãos.

Isso é certo e maravilhoso nos nossos encontros mensais.

Então vamos lá saber mais sobre essa mão cheia de livros. 

O polegar, símbolo de aprovação, ergueu-se para todos, é claro, mas talvez o like maior vá para «Leitura Fácil» de Cristina Morales por ser uma narrativa sui generis, carregada de vozes peculiares e talvez possamos até dizer que tem um impacto militante e tantos são os seus temas que não há dedos suficientes para apontar todas as questões que o livro levanta com brutalidade e “bastardismo”.

Esticando o indicador, deixamos que aponte para «Racismo Woke» de John McWhorter, cheio de interpelações ao leitor e alertas. Um livro indicador de polémicas e pedidos de atenção — para o uso das palavras, para as camadas do ativismo identitário e para os lugares de luta anti-racista e todas as polémicas envolvendo o tema.

Entre o polegar e o indicador, formou-se o gesto 👌. E ali encaixou-se «Uma mulher desnecessária» e outro não lhe poderia tomar o lugar. A obra de Rabih Alameddine obriga a unir esses dois dedos num sinal de excelência, que nos levou a pensar no quanto é envelhecer invisível. É uma narrativa de resistência através da leitura e dos livros, uma lição sobre cooperação e vizinhança e sobreviver nas franjas da sociedade.

Com ligação directa ao coração ou no anelar podemos colocar vários dos livros falados durante o encontro. «O caminho do sal»; «Portugal hoje, o medo de existir»; «Lucy» ou ainda «As crianças adormecidas». Os sentimentos e seus desdobramentos, raízes, traumas e liberdade, tudo ecoa e encaminha para a memória colectiva e a afectividade. Por isso, no dedo das alianças, compromissos e promessas escondem-se vozes contida, intensidades e superações, mas também gritos de denúncia e manifestos.

Restando ainda o mindinho, pequeno e essencial para o equilíbrio, traz-nos detalhe e minucia, por isso «Líbano – uma biografia», «Um país sem amor» e «The story of a heart» que, à primeira vista, são livros discretos, mas completam histórias com História, sustentando temas densos sem alarde ou exageros.

Mas onde encaixar «Reencontros» de Fred Uhlman ou os já repetentes «Lobos» de Tânia Ganho e «O relatório Brodeck» de Philippe Claudel? Livros que escorregam entre os dedos, inquietos e que resistem ao encaixe. Falam de medo, exploram fábulas, denunciam a violência, engrandecem a resistência e exploram realidades que arrepiam. São narrativas que cabem na palma da mão, mas com facilidade esmiúçam o mundo à sua volta.

Então, sem mais demoras e deste encontro com anatomia simbólica, eis a pilha de recomendações.

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Foram 5 dedos 5 leitores e um gesto essencial: abrir a mão e estender o que se leu ao outro. E mesmo que sejamos poucos, quando há escuta, há um mundo a descobrir.

Para ver quem é que anda à Roda * Encontro de Agosto

Efeitocris, 28.08.25

Se me dissessem que em Agosto íamos reunir com casa cheia, um clima ameno e a calma doce da Dona Aveia a guiar a reunião, eu não acreditaria. E porquê?

Ora… porque as reuniões de Verão tendem a ter poucos rodistas e a Dona Aveia anda numa de participação esporádica e muito selectiva, só quando mesmo lhe apetece. Já para não falar das temperaturas de canícula que afastam outros participantes.

E além do mais, a reunião de Agosto chegou antecipada, mas felizmente teve como brinde uma leve brisa que aconchegou uma ou outra sesta, porque afinal o membro canino tem alguma idade e as tardes estivais pedem sempre uma power nap. E afinal, aos chefes tudo é permitido! Certo?

Claro que sim!

Aquele riso patudo derrete-nos os corações. Firmou-se no centro da Roda como quem diz: “A reunião começou, pessoal. Quem fala primeiro? Patrícia, és já tu.”

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E assim foi. E a Patrícia falou.

E falou de dramas familiares, sagas que estendem a gerações e aventuras fantásticas em Rio Perdido e mais uma vez Blackwater foi alvo das nossas atenções. Mas antes que a conversa se perdesse, a Don Aveia deu uma rosnadela  diplomática e apontou as orelhas… “Não vamos já começar a desordem, pois não meninas?”

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O que nos faltava mesmo era uma patada destas. Gentil mas determinada. Um convite à ordem pouco regrada que pauta cada Roda.

E mesmo que Blackwater tenha laivos de novela mexicana, não deixamos que os mariachi entrassem e seguimos com uma reunião tranquila e ouvimos a Patrícia nos contar que “Também há rios no céu” e que os livros de Elif Shafak merecem muito ser lidos e aqui a escriba segredou à sua patuda que nunca leu um livro da Shafak… Se calhar devias, disse a Dona Aveia em tom de sugestão, mas para quem a conhece sabe que queria dizer: “Não digas isso a ninguém e vai já corrigir essa lacuna. E no regresso traz biscoitos.”

O inventário podia continuar, mas sorte de um patrão sonolento é que em breve baixa a guarda e deixa a malta em auto-gestão, só assim podemos discutir e afirmar que «O inventário de sonhos» da Chimamanda fica um pouco a dever ao entusiasmo de outrora das suas narrativas africanas e que vamos metendo uns livros pelo meio desta leitura, que é como quem diz que nos sentimos culpadas de o deixar de parte.

A Dona Aveia diminuiu a sua atenção, entrou em modo Pausa e bocejou no colo de recomendações mais serenas… especialmente para ela que não fala russo e quando ouviu a Célia e a Renata discutirem se Tolstoi ou Dostoievski, deu um ar de sua graça com a cauda e fez um arrear estratégico — sinal de que era hora de deixar fluir a conversa sem moderação.

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E lá fomos nós, partilhando sugestões, umas tão desvairadas como um resumo de novela juvenil, outras profundas como se publicássemos um tratado filosófico caseiro.

Entre gargalhadas e lampejos de sabedoria, houve quem trouxesse leituras de autores que brincam com estilos, quem comentasse dramas mais sombrios, e quem citasse frases inspiradoras só para adensar o grau de profundidade literária — tudo isso enquanto a Aveia dormiam, ora na sua varanda privada ora na cama fofa e fazia círculos suaves ao nosso redor, passeando-se entre nós como quem garante que é visto, sentido e nunca esquecido… como o fazem certos livros e alguns deles tiveram palco nesta reunião, quem é como quem diz: “James”; “Orbital”, “Boulder”, “Túmulo de Areia”, “As malditas”, “melhor não contar”, “O bom mal”, “Triste Tigre”, “O Paradoxo do Cérebro” ou “As crianças adormecidas”

E se todos estes títulos não bastassem, há ainda a apologia de “Mudar de ideias” agora peneirada no crivo de Julian Barnes, entre mais títulos repetidos e tantos outros de policiais sangrentos e uns quantos títulos de livros-piscina que os roditas tanto gostam. Upa, upa, especialmente no verão para ler à sombra e á beira-mar.

Chegou o momento da pilha de sugestões, desta vez digna de fazer sombra a qualquer outra erguida este ano. Com direito a segura e-coisos cristalinos que quase quase não se fazem notar, esquecendo que estes dispositivos que se auto-intitulam de livros não são sequer capazes de se erguer sozinhos, nespecialmente nestas temperaturas. E sem mais demoras ou referindo quem sugeriu o quê e qual (e entretanto acordamos a patuda), fica a nossa bonita pilha de sugestões para lerem até ao Natal que deve ser quando voltamos duas mãos cheias de gente a animar as tardes da nossa Aveia.

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«Eliete» de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Entre cenas da vida normal, as fendas da maturidade e uma família destelhada

Efeitocris, 31.07.25

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A vida de Eliete decorre dentro da normalidade. Vive-se entre jantares, idas ao ginásio, mensagens trocadas com a filha e a mãe, e uma relação conjugal que se cumpre mais por hábito do que por afecto. No entanto, é nesta vida dita “normal” que Dulce Maria Cardoso faz emergir uma inquietação subtil, mas persistente — o ruído da privação. A privação de sentido, de escuta, de possibilidade. A Eliete não é uma mulher em colapso, mas alguém “a perder o pé à vida e a estar ancorada na dúvida”.

A família a que pertence é uma família destelhada, onde ainda sobram algumas telhas. E talvez seja isso a normalidade: viver sob uma estrutura que já teve mais força, mais abrigo, mas que continua de pé, colada por uma argamassa difícil de nomear. O que a mantém? O hábito, o dever, o medo da perda, ou apenas a falta de energia para reinventar tudo? A resposta ficará com cada leitor.

O livro é também sobre as ligações familiares como herança — e como prisão. Eliete vive rodeada de um passado povoado por mortes precoces, como a do pai, cuja ausência deixou um “amor filial sem destino”, uma dor sem pouso. A utilidade da morte, diz-se, é o sofrimento que deixa nos outros. E é isso que se impõe: os fiapos de memórias, colados por cheiros, fotografias, conversas repetidas, e que agora, com a doença da avó — guardiã maior dessa história —, parecem ameaçar desaparecer de vez.

Com uma escrita de precisão sensível e frases incisivas, Dulce Maria Cardoso evita qualquer dramatização. A protagonista move-se com dúvidas reais, inquietações que pertencem a qualquer pessoa — não são “dúvidas de mulher”, nem dramas íntimos exagerados. A autora dá corpo a uma personagem que questiona o papel que desempenha nos outros sem abdicar da procura de um espaço próprio. E, nesse movimento, toca questões fundamentais: como preservar os laços sem nos apagarmos? Como continuar a amar sem nos reduzirmos?

A falta de imaginação, o estar atracada à realidade, são formas de sobrevivência. Eliete não explode — resiste. E essa resistência ganha forma nas suas pequenas rebeliões: permitir-se apaixonar, por exemplo, é permitir-se a sonhar com um futuro, e isso, por si só, é um ato que desequilibra. Porque ao sonhar, Eliete desafia a previsibilidade do quotidiano, esse dia após dia onde tudo parece controlado mas nada é plenamente vivido.

O romance é um inventário de falhas, de silêncios e de tentativas. Mesmo que ela própria não quisesse fazê-lo, lá está “o dedo da mãe” para lembrar tudo o que ficou aquém. E talvez seja nesse entrelaçado de dores e tentativas que o livro mais nos toca — porque reconhecemos ali não só Eliete, mas muitos de nós, a tentarmos viver com as telhas que restam.

"Jantar Secreto" de Raphael Montes - Opinião

Entre a Crítica e o Espetáculo do Horror

Efeitocris, 29.07.25

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Raphael Montes, conhecido pelo seu estilo provocador e sombrio, leva-nos em Jantar Secreto a uma narrativa onde o grotesco, o absurdo e a crítica social se entrelaçam. O livro apresenta-se como um thriller macabro, centrado num grupo de jovens que, em (supostas) dificuldades financeiras, decide organizar jantares clandestinos para uma elite disposta a pagar fortunas por um prato incomum: carne humana. No entanto, o que poderia ser apenas uma trama de terror ganha uma camada extra ao roçar questões morais e sociais inquietantes.

A analogia com a exploração animal na indústria alimentícia é evidente: Montes subverte a lógica habitual e, ao inverter os papéis, obriga-nos a questionar a hipocrisia do consumo de carne e até que ponto estamos dispostos a ignorar o sofrimento dos animais quando dele retiramos algum tipo de benefício e prazer.

No entanto, e importa muito destacar, essa crítica, por mais pertinente que seja, corre o risco de ser obscurecida pelo próprio espetáculo de horror que o livro encena, fruto das descrições sordidamente requintadas. Conseguindo, mais uma vez, sublinhar a hipocrisia do consumo de carne animal: isenta de cheiro e imagens do sofrimento dos animais quando a vemos no prato!

As descrições viscerais, muitas vezes gore, não apenas chocam, mas podem também afastar leitores que se sintam desconfortáveis com esse tipo de narrativa. Mais do que provocar reflexão, o horror gráfico pode conduzir à dessensibilização, tornando-se num entretenimento mórbido e até desconexo, afastando uma maior tomada de consciência. Essa desconexão é muito dada pelo tom da narrativa: se, por um lado, há uma tentativa de denuncia social, por outro, a linguagem e a abordagem juvenil do grupo de protagonistas dá um ar quase banal a atos de extrema crueldade.

Outro ponto que ressoa na leitura é a capacidade humana de normalizar atrocidades quando há um ganho envolvido. Jantar Secreto não é apenas um livro sobre canibalismo, clandestinidade e redes de tráfico, mas sobre a frieza e a maldade que podem emergir quando a conveniência se sobrepõe à moralidade.

E é nesse ponto que o livro ainda se torna mais inquietante: não por nos apresentar o horror de forma crua, mas por nos fazer perceber que, em algumas instâncias, a realidade não é assim tão diferente da ficção. E é aceite! A maldade é aceite e justificada.

No final, Jantar Secreto deixa uma questão em aberto: o impacto emocional gerado pela leitura é suficiente para despertar consciência e mudar comportamentos ou trata-se apenas de um choque momentâneo, que se dissipa no ritmo do thriller?

Repensar a maternidade: entre o instinto, o abismo e o silêncio

Efeitocris, 25.07.25

Maternidades em contraluz, leitura comparada entre Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum 

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As narrativas sobre a maternidade pedem hoje uma leitura crítica que reconheça a sua pluralidade de formas, vínculos e experiências. Não se trata de encontrar respostas, mas de abrir espaço para interrogações: o instinto maternal é mesmo natural? Ou é algo socialmente exigido às mulheres, independentemente do seu desejo ou circunstância?
É nessa zona de fricção que se encontram Boulder, de Eva Baltasar, e Como amar uma filha, de Hila Blum — dois romances que, a partir de vozes e geografias distintas, desconstruem ideias feitas sobre o que significa ser mãe.

Em Boulder, a maternidade surge como algo imposto, não desejado. A protagonista, envolvida numa relação com outra mulher, vê-se arrastada para uma parentalidade que não quer. O seu percurso revela o desconforto que nasce quando se espera que o instinto apareça “naturalmente” — só porque é mulher, só porque ama outra mulher. A linguagem de Baltasar é afiada, condensada, e traduz essa ambivalência: a protagonista tanto acolhe como repele, tanto ama como se ausenta. O livro não oferece reconciliação, mas um retrato cru da mulher que não se reconhece no papel que lhe é atribuído.

No extremo oposto, Como amar uma filha explora a história de Yoella, mãe que sempre quis sê-lo. No entanto, perde o vínculo com a filha, que corta o contacto e a deixa num silêncio irreparável. A partir desse vazio, a narrativa reconstrói a tentativa de “ter feito tudo certo” — proteger, cuidar, amar. Mas a ausência da voz da filha e o olhar obsessivo da mãe levantam uma pergunta difícil: quando é que amar se transforma em vigilância? E o instinto, por mais presente que esteja, basta?

Ambos os romances recusam a visão idealizada da maternidade. Mostram que ela pode ser desconforto, desencontro, cansaço ou excesso. E que o amor, mesmo quando existe, não garante pertença. Ao problematizarem o que é ser mãe — ou não querer sê-lo — Baltasar e Blum contribuem para pensar a maternidade como um território plural, cheio de zonas cinzentas. E isso, hoje, é mais necessário do que nunca.

*

Para ler mais sobre Boulder, clique aqui e sobre Como amar uma filha, aqui. Boas leituras.

«A Mãe e o Crocodilo» de José Gardeazabal :: Opinião

Efeitocris, 24.07.25

De vez em quando apetece revisitar um livro, mesmo daqueles já lidos há um ano ou mais e dedicar-lhes um texto. Hoje foi a vez deste. Já leram? Se não, espero que a minha review vos espicace o suficiente para o lerem.

Dizer que A Mãe e o Crocodilo é um romance é, no fundo, não dizer nada. Porque este livro não se deixa agarrar por categorias comuns, nem por palavras isentas de um sentido duplo. O que temos aqui é uma narrativa onde as palavras tremem, as personagens ao que parece só aprendem a andar para trás, e a realidade... bem, a realidade passa por nós a correr e nem sempre acena. Pior é não saber o que esperar do futuro, pois ele está cheio de sentimentos e saber que: “Há pessoas à espera do futuro para gritar.”

Os sentimentos são um lago. Está escrito. Um lago onde as pessoas se molham até ao pescoço. Mas o narrador está de fora — não sabe nadar. O leitor também não sabe, mas entra. Porque Gardeazabal não escreve para os que sabem nadar. Escreve para os que se vão afundando. Boia-se no absurdo, como quem flutua numa banheira de realidade reciclada e reciclar rima com ressuscitar e a ressurreição do mundo está na mão dos assalariados da fábrica de reciclagem. Os pobres. E os pobres estão sozinhos e precisam de ficção.

Estranho?

Ainda não, porque eu nem falei da mãe ou do crocodilo Benito.

Gardeazabal não escreve para o leitor comum — escreve para o leitor que aceita o desconcerto como ponto de partida. E esse desconcerto não é estético, nem gratuito: é estruturante. Nem que seja de um universo muito próprio, mas que está cheios de semelhanças com o do leitor. E o leitor somos todos nós!

A intriga é cheia de escamas. Grossas. Ancestrais. É com elas que nos desarma e nos impede de aplicar categorias confortáveis, ou ter certezas… um pouco como Vladimir, personagem-narrador quando diz: “Uma luzinha entra pela claraboia. Suspeito de um sol extraordinário do lado de fora. Não saio, para continuar em dúvida."

E não andamos nós, por aí, todos os dias, cheios de dúvidas? Cheios de ficção.

“O amor, para mim, é primeiro imaginação, e depois realidade. Para mim, amar uma mulher é ficção. Ficção e mentira são coisas diferentes, os pobres e os sozinhos precisam muito de ficção.”

A assinatura do autor, para quem já leu obras anteriores, é clara como um crocodilo num quintal: há sempre uma figura estranha a ocupar o lugar do óbvio. Benito, o crocodilo domesticado, aquece-se ao sol tendo nostalgia do que não viveu. O leitor olha, desconfiado, mas fica. Porque sabe — ou começa a saber — que ali, no coração da bizarria, está uma forma de verdade.

“O crocodilo aquece a barriga mole no calor do cimento, a pose de um velho forçado à experiência das trincheiras. No dia seguinte, o gato do vizinho desapareceu. Também se aquecia no cimento, ao lado do crocodilo, e Benito gostava do gato. Olhava-o, sem se mexer, como um avô a imaginar o fim de uma grande guerra.”

Porque na verdade a guerra está à porta, negá-la é não olhar com atenção às diferentes máscaras com que se apresenta, é negar os transparentes.

“Os mais velhos lembram-se, normalização quer dizer que vai morrer gente. Racionalização, que a matança será organizada. Comboios, horários secretos, construções no campo, cães pastores. Ao fundo, o fumo dos mortos. À chegada, a roupa dos nus amontoada em pirâmides frias.”

A narrativa de Gardeazabal não nos dá respostas, antes oferece o desequilíbrio do silêncio, da reflexão que se entranha pelas ideias bizarras que de tanto chamarem à nossa atenção ganham corpo. Ganham realidade.

“A vida depois da morte é parecida com a vida antes da morte, nós sabemos, vivemos aqui. (…) Um ano depois do fim da reciclagem (e já depois do fim da mina) as pessoas pareciam transparentes, de uma maneira má (…) a pobreza perdeu o seu romantismo, não há mais nada a perder.”

 

A Morte de uma Livreira, de Alice Slater :: Opinião

Efeitocris, 22.07.25

Este sábado que aí vem, em plena canícula do fim de Julho, é dia de andar à Roda e desta vez vou antecipar-me e postar a minha opinião para uma das sugestões que irá para a pilha. 

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“A Morte de uma Livreira” não é um thriller convencional. E ainda bem!

Começa com o típico prólogo enigmático, e segue com uma cadência deliberadamente lenta, onde a intensidade é servida quase em doses homeopáticas (e não esquecer que são quase 400 páginas). A narrativa instala-se no desconforto como atmosfera principal, com o foco na psique obsessiva que desafia expectativas sobre um thriller comum e empurra o leitor para territórios psicológicos mais sombrios, deixando antever um final que faz jus àquela máxima: "os maus voltam sempre!" 😉 A piscadela de olho chega entre referências literárias, reflexões livrescas e turnos na livraria que parecem aligeirar a obscuridade absorvente.

“A minha vida começou realmente quando desisti de tentar integrar-me, quando me instalei em mim própria, como um crocodilo que se afunda num pântano.”

E aí, no lodo, as personagens podem ser desagradáveis, fragmentadas e emocionalmente destruídas, sob tensão, mas desdobram-se num ambiente realista, ainda que com alguns exageros caricaturais. Prova disso é o esforço da autora em detalhar os seus dramas, hábitos, vidas sociais e, claro, o trabalho na livraria — que assume quase o papel de uma personagem. Para dar corpo à rotina numa livraria corporativa, reflexo da experiência pessoal da autora como livreira, ela cria um rol de personagens secundárias que vêm dar sentido e pano de fundo.  A única exceção talvez seja o turno da noite, que só faz sentido para o rumo narrativo que a autora quis seguir. Mas não vou ser picuinhas pois as tensões entre a equipa estão muito bem conseguidas nos diálogos e na frase do plástico bolha 😉 que espelha bem o nível de stress que um trabalho pode gerar.

A obsessão da Roach, num cansaço ósseo que a corrói, supera o simples entusiasmo pelos relatos do true crime: à medida que escala e se transforma em comportamentos extremos — stalking, invasão de privacidade, roubo de objetos pessoais (e mais não digo). Tudo isto motivado por uma ideia distorcida — sublinhe-se: distorcida — de uma “irmandade de sangue” entre ela e Laura, disfarçada, apagada e encerrada no seu trauma e solidão que tanto a abraçam como lhe pesam.

Roach ultrapassa todas as linhas do aceitável, sem qualquer empatia ou entendimento pela experiência das vítimas, que deveriam ser protegidas, e não exploradas. Ser vítima e viver com o trauma não faz de Laura uma normie.

Mas a estranheza de Roach faz dela uma snarky e, poderia o seu humor cortante e sarcástico — típico de uma livreira desencantada e subversiva — ter um tom ácido peculiar e inteligente que nos deixasse groupies mas a sua obsessão fá-la resvalar para uma caricatura assustadora de psicopata e o leitor entre em dilema moral.

“Foi um caso bastante mediático e... Detesto o facto de o meu trauma estar ligado a esta história horrível e de não poder falar de um sem falar do outro. Detesto que o nome dela fique para sempre associado ao homem que a matou e detesto que o mundo só se lembre dela como um capítulo da história da vida dele. Segue-se um longo silêncio e pergunto-me qual deles estará em pulgas para fazer a pergunta inevitável: Mas qual deles? Quem era o serial killer?”

O nível de obsessão desafia a empatia tradicional do leitor, que se vê perante uma personagem perturbada, socialmente desajustada, mas à qual a autora — notoriamente #teamroach — dá todo o espaço narrativo. Torna-a complexa, quase humana, e nunca a condena. No entanto, levanta diversos tópicos para reflexão nas entrelinhas das discussões livreiras. E talvez esse talvez seja um dos lados mais interessantes do livro.

Por trás da obsessão de Roach e da vida quotidiana da livraria esconde-se outro debate, mais estrutural, que ecoa temas anticarcerários e críticos do sistema #ACAB: que narrativas valorizamos, quem lucra com o consumo de tragédia e a quem damos voz nas livrarias? O true crime funciona como mercadoria, e as vítimas — como Laura e a mãe dela — são secundarizadas em favor de uma fascinação mórbida. Laura, em contraste, utiliza a poesia para restaurar humanidade às vítimas, heroicamente recusando-se a cair nesse culto ao criminoso.

Slater não levanta cartazes, mas deixa no ar uma pergunta difícil: será que o fascínio por violência não perpetua exatamente aquilo muitos querem contrariarontar — a exibição do sofrimento como entretenimento e a exploração dos que jamais escolhem ser protagonistas. Não podendo por isso fugir aos tópicos da cultura de cancelamento, a crítica ao consumo voyeurista do true crime e personificar isso em duas mulheres que simbolizam duas escolhas — exploração versus reparação — numa narrativa que convida a pensar além das páginas.