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Roda Dos Livros

O Leiteiro de Mäeküla - Eduard Vilde (Cavalo de Ferro)

Roda Dos Livros, 31.03.13
43. O Leiteiro de Mäeküla

Muitos livros são preteridos para um segundo plano tendo em conta os títulos e até as capas escolhidas nem sempre são as mais adequadas ou apelativas ao potencial leitor. Tal é o caso do livro O Leiteiro de Mäeküla (1916), a obra de referência do estónio Eduard Vilde e único título traduzido em português.Eduard Vilde é um dos precursores do realismo na Estónia mostrando-nos uma sociedade ainda com características feudais sobretudo na relação entre os senhores detentores de terras e os seus trabalhadores. Para além deste aspeto, Eduard Vilde faz um retrato bastante interessante da sociedade, nomeadamente em relação àquilo que ambicionamos na vida e as suas condicionantes, oportunidades que são aproveitadas e outras que ficam pelo caminho, decisões que tomamos que nos condicionam porque o verdadeiro empenho ficou aquém do necessário e o sonho ficou pelo caminho.Eduard Vilde é simultaneamente um crítico em relação à religião colocando Deus e o Diabo no mesmo patamar deixando o homem entregue a si próprio e aos seus atos como garantia de alcançar a felicidade.O Leiteiro de Mäeküla (1916) é uma das pérolas da literatura ocidental e que continua ainda bem escondida à espera de surpreender muitos leitores.

A minha sinopse:

Ulrich von Kremer é um nobre alemão que possui a herdade Mäeküla, nas proximidades de Tallinn, na Estónia. Trata-se de um senhor já com uma certa idade e que no essencial deixou tudo para trás na sua vida. Primeiro porque ainda tinha muito tempo para contrair o matrimónio; depois por pudor. Este limbo distanciou-o de certas vivências até que não querendo admitir, apaixonou-se por Mari, a esposa de Prillup, um dos trabalhadores da herdade. Herr Kremer, gozado por muitos e temido por outros, vai tomar uma decisão importante na sua vida: propõe a Prillup o cargo de responsável da leitaria de Mäeküla desde que este convença Mari, a sua jovem esposa a tornar-se amante do patrão...

Excertos:

vild01"Quem é que te há de dar seja o que for sem pedir nada em troca? A quem é que hás de tu ir tirar essa riqueza? Não somos esse tipo de gente, que ande para aí a tirar coisas aos outros (...). Talvez se alguma coisa estiver mesmo debaixo do nosso nariz, a gente queira ir lá e levá-la. Mas quando lá chegamos vemos que alguém já lá passou e a levou. (...) Mais vale nem desejar nada, nem sequer pensar nisso. Descansa mas é o teu corpo à noite e podes ter a certeza que hás de tirar a cabeça da almofada de manhã até que, certa manhã, há de ser a última vez que a tiras da almofada porque depois o dia amanhece e tu hás de estar frio e duro." (p. 87)

"Tinham acabado de vir da igreja e ele começou a falar meio sozinho, com voz zangada. A perguntar a quem é que devia rezar para ficar rico. A Deus ou ao diabo? Porque o Diabo é que dizem que tem pelos, Deus não. Nunca ninguém ouviu falar de Deus ser peludo. Então ele disse-me, muito irritado: «O melhor é não rezar a nenhum. Não há de servir para nada. Peixe salgado e pão hás de ter sem precisar de rezar.»" (p. 88)

"(...) Às vezes um homem põe-se a pensar, especialmente quando somos jovens: porque não apertar o cinto, pôr um chapéu na cabeça e partir aí pelo mundo? A gente pensa, se houve mais quem encontrou coisas boas, porque não eu? E talvez a gente encontre mesmo qualquer coisa que valha a pena, se tivermos sorte. Não somos piores do que os outros; temos olhos para ver e ouvidos para ouvir, como toda a gente, e se às nossas mãos lhes faltar a destreza, elas logo aprendem, acho eu, porque têm articulações, não são rígidas como paus. Assim, dava para sair deste buraco pantanoso de uma vez por todas. (...) Eu bem penso em ir embora, mas nunca vou. Vou até à porta mas depois nunca consigo passar para o outro lado. É como se houvesse alguém a segurar-me." (pp. 88-89)

"O avô tinha o costume de brincar com as crianças, e quando se dedicava a alimentar-lhes algumas pérolas de sabedoria, pelo meio dos jogos e das brincadeiras, o conselho que mais frequentemente lhes repetia era o de que não perturbassem, sob pretexto algum, Deus Nosso Senhor com orações. Os queixumes e os desejos humanos não lhe deviam ser endereçados, pois que Deus tinha assuntos mais importantes para tratar: tinha de encaminhar o sol e a lua nas suas órbitas, tinha que acender as estrelas, fazer o clima, substituir a lua velha e gasta por uma nova todas as quatro semanas..." (p.125)