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Roda Dos Livros

«Eliete» de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Entre cenas da vida normal, as fendas da maturidade e uma família destelhada

Efeitocris, 31.07.25

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A vida de Eliete decorre dentro da normalidade. Vive-se entre jantares, idas ao ginásio, mensagens trocadas com a filha e a mãe, e uma relação conjugal que se cumpre mais por hábito do que por afecto. No entanto, é nesta vida dita “normal” que Dulce Maria Cardoso faz emergir uma inquietação subtil, mas persistente — o ruído da privação. A privação de sentido, de escuta, de possibilidade. A Eliete não é uma mulher em colapso, mas alguém “a perder o pé à vida e a estar ancorada na dúvida”.

A família a que pertence é uma família destelhada, onde ainda sobram algumas telhas. E talvez seja isso a normalidade: viver sob uma estrutura que já teve mais força, mais abrigo, mas que continua de pé, colada por uma argamassa difícil de nomear. O que a mantém? O hábito, o dever, o medo da perda, ou apenas a falta de energia para reinventar tudo? A resposta ficará com cada leitor.

O livro é também sobre as ligações familiares como herança — e como prisão. Eliete vive rodeada de um passado povoado por mortes precoces, como a do pai, cuja ausência deixou um “amor filial sem destino”, uma dor sem pouso. A utilidade da morte, diz-se, é o sofrimento que deixa nos outros. E é isso que se impõe: os fiapos de memórias, colados por cheiros, fotografias, conversas repetidas, e que agora, com a doença da avó — guardiã maior dessa história —, parecem ameaçar desaparecer de vez.

Com uma escrita de precisão sensível e frases incisivas, Dulce Maria Cardoso evita qualquer dramatização. A protagonista move-se com dúvidas reais, inquietações que pertencem a qualquer pessoa — não são “dúvidas de mulher”, nem dramas íntimos exagerados. A autora dá corpo a uma personagem que questiona o papel que desempenha nos outros sem abdicar da procura de um espaço próprio. E, nesse movimento, toca questões fundamentais: como preservar os laços sem nos apagarmos? Como continuar a amar sem nos reduzirmos?

A falta de imaginação, o estar atracada à realidade, são formas de sobrevivência. Eliete não explode — resiste. E essa resistência ganha forma nas suas pequenas rebeliões: permitir-se apaixonar, por exemplo, é permitir-se a sonhar com um futuro, e isso, por si só, é um ato que desequilibra. Porque ao sonhar, Eliete desafia a previsibilidade do quotidiano, esse dia após dia onde tudo parece controlado mas nada é plenamente vivido.

O romance é um inventário de falhas, de silêncios e de tentativas. Mesmo que ela própria não quisesse fazê-lo, lá está “o dedo da mãe” para lembrar tudo o que ficou aquém. E talvez seja nesse entrelaçado de dores e tentativas que o livro mais nos toca — porque reconhecemos ali não só Eliete, mas muitos de nós, a tentarmos viver com as telhas que restam.

“O retorno” de Dulce Maria Cardoso :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.03.17

Li este livro em 2015 enquanto visitava Munique e me desloquei ao campo de concentração de Dachau. Foi interessante, e não deixa de ser bizarro, a ligação entre algumas coisas que li, vi e senti, tanto ao ler o livro, como ao visitar o campo. A memória realmente deve ser alimentada para que determinados eventos, que marcaram toxicamente a história de um país, não se percam na fraca e limitada memória colectiva das gerações vindouras.

"Estavam lá retornados de todos os cantos do império, o império estava ali, naquela sala, um império cansado, a precisar de casa e de comida, um império derrotado e humilhado, um império de que ninguém queria saber."

«O Retorno» de Dulce Maria Cardoso regressa aos tempos da descolonização quando chegam a Lisboa cerca de meio milhão de pessoas, a precisar de alojamento, trabalho, comida e integração numa sociedade diferente daquela que deixaram nas ex-colónias. Neste caso em particular, Angola, de onde Rui e a família saíram. Rui, de quinze anos, é o narrador deste retorno, com ele e pelos seus olhos assistimos a esta situação que se degradava de dia para dia, enquanto o processo revolucionário tentava ganhar o seu lugar.

"A culpada de a mãe ser assim é esta terra. Sempre houve duas terras para a mãe, esta que a adoeceu e a metrópole, onde tudo é diferente e onde a mãe também era diferente. O pai nunca fala da metrópole, a mãe tem duas terras mas o pai não. Um homem pertence ao sítio que lhe dá de comer a não ser que tenho um coração ingrato (...)"

O regresso é pautado por sentimentos de desconfiança, mas de esperança, de humilhação, mas de saudades. Há amor de diversas formas, um amor à terra que os viu crescer, um outro que os liga a uma terra que os acolhe, o amor entre irmãos... há tantas formas de amor, como de revolta num livro terno, mas duro, divertido, mas também recheado de episódios negros desta nossa história tão recente.

"(...) mas o João Comunista não é comunista, chamam-lhe assim por estar sempre a dizer que o império era uma vergonha, que devíamos ter vergonha por termos subjugado inocentes durante tantos séculos. Já houve macas enormes à conta disso, (...), o Sr. Serpa só gritava, que os de cá digam isso é uma coisa mas você devia ter juízo e vergonha nessa cara."

"(...) os que lá trabalhavam para o estado não estão nos hotéis, têm a vida arranjada, foram colocados nalgum sítio ou reformaram-se, alguns até têm trabalho e reforma. São recompensados como se tivessem estado no inferno enquanto nós somos tratados como se tivéssemos de ser castigados."

O hotel que os recebe e a respectiva directora sofrem transformações que acompanham o mesmo tipo de mudanças que estão a acontecer com as famílias acolhidas. A revolução não se faz só na rua, as atitudes e as opiniões reaccionárias estão ali e talvez ali sejam tão ou mais precisas, de modo a devolver dignidade e esperança aqueles que ali estão. Estão, mas estão como se estivessem sem chão e tecto, sentem-se injuriados e sem perspectivas e isso a autora consegue muito bem relatar pelas constante acção atrás de acção e simultânea reacção.

"Mas o que fazem é gastarem horas a lembrar-se do que perderam, se me ponho a pensar no que lá ficou dou um tiro na cabeça, acho que já ouvi cada um deles nesta conversa pelo menos uma vez.

Os homens também querem arranjar trabalho para mostrar aos mangonheiros da metrópole de que massa os retornados são feitos, se conseguimos construir terras como as que fomos obrigados a deixar também conseguimos mudar o atraso de vida que a metrópole é."

O relato de Dulce Maria Cardoso é bastante sentido, diria assim, com muita coisa preto no branco, tipicamente como se vê com os olhos dos nossos 15 ou 16 anos, com as ideias a fervilharem e a pedirem conselhos, mas a quererem toda a liberdade que com essa idade se anseia, isto tudo junto com o clima de instabilidade e transformação social e uma série de ideais que aparecem em conversas que deixam dúvidas e das quais também se fazem piadas.

O conteúdo é assim bastante rico e abre espaço para inúmeras reflexões, tanto para quem viveu esse período do Verão Quente de 75, como retornado ou não ou quem, como eu, apenas o estudou nos manuais na escola. É igualmente interessante ler este livro e ver a série portuguesa "E depois do adeus" que a RTP passou, julgo, que entre o final de 2014 e o início de 2015.

“Uma dor tão desigual” – Vários autores

Roda Dos Livros, 30.10.16

   contos 

“Só sobrevivemos numa corda muito fina estendida sobre um abismo. Todo o ser vivo é um equilibrista.”

Afonso Cruz in “O pintor debaixo do lava-loiças”

 

Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença.

Definição de saúde de acordo com a OMS

 Há livros de apreciável valor literário, capazes de proporcionar momentos de leitura de grande prazer, cuja relevância transcende os limites da literatura. Este “Uma dor tão desigual” é um deles. Reúne contos desiguais, únicos na forma e no conteúdo, todos interessantes, tendo em comum a temática da saúde mental.Realidades dentro do real convencional, daquele percepcionado como tal pela grande maioria das pessoas; daquele considerado, sem sombra de dúvida, como verdadeiro e objectivo. As dores destas histórias evocam universos múltiplos que podem existir dentro daquele aspecto esquivo, ainda incompletamente explicado ou não conhecido na sua totalidade, ao qual chamamos consciência. Tal como a Márcia (
podem ler o texto dela aqui ), gostei deste conjunto de contos e hesito em destacar uns em detrimento de outros. Todos nos colocam perante pessoas fictícias habilmente construídas e confinadas às suas solidões únicas, aos seus traumas (não o estaremos todos?) e às fracturas das profundezas das suas mentes, perdidas nos seus labirintos mentais e , umas mais do que outras, incapazes de reconhecer e habitar a realidade como aqueles ditos “normais”. Um dos contos evoca as figuras mitológicas de Ariadne e Cassandra as quais não poderiam ser mais apropriadas neste contexto. Cada protagonista destas histórias precisa desesperadamente do seu fio de Ariadne, pessoal e intransmissível, para  ajudar a encontrar o equilíbrio no centro de si próprios. Por outro lado, quantos pedidos de ajuda, mais ou menos discretos, mais ou menos histriónicos, tal como as profecias de Cassandra, são desconsiderados, não são escutados, sendo remetidos para a prateleira das “fraquezas de espírito” de alguém aparentemente “bem na vida”?As vidas que povoam estes contos poderiam muito bem ser as dos nossos amigos e conhecidos, as dos nossos vizinhos, as nossas. O estigma e o preconceito são fronteiras quase inultrapassáveis mas aquela que separa o território do equilíbrio mental, ainda que relativo, do da doença poderá não ser mais do que um véu fino e frágil, facilmente rasgável. Um dia poderá ser o meu ou o teu a rasgar-se. Também por isso, este é um livro que merece ser lido.Sinopse: Este livro resulta de um desafio feito a oito autores portugueses para que explorassem as fronteiras múltiplas e ténues que definem a saúde psicológica e o que dela nos afasta. Em estilos muito diferentes, um leque extraordinário de escritores brinda-nos com textos que mostram como qualquer um de nós pode viver momentos difíceis e precisar de ajuda. Estas são histórias de perda, solidão, fraqueza e delírio, mas também de esperança e humanidade. São relatos de gente que podíamos conhecer e talvez conheçamos, histórias íntimas e ricas de homens e mulheres como nós. A área da saúde psicológica está ainda sujeita a muitos preconceitos, que dificultam a procura de ajuda profissional e estigmatizam quem sofre. Pretende-se com este livro combater esses preconceitos, despertar consciências e ajudar a encontrar uma saída 

os meus sentimentos - Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 18.08.15

osmeussentimentosIniciei este livro várias vezes sem nunca passar da primeira página. A dor das primeiras frases bloqueou-me, retraiu-me, assustou-me pelo que poderia vir a seguir. Mas, ao mesmo tempo, senti a necessidade de prosseguir a leitura, como se o livro me chamasse.

Porque mesmo as descrições mais dolorosas sobre temas particularmente assustadores, têm de ser lidas. Assim o obriga a excelência da escrita, imediatamente notória no início, e que, confirmo, é perfeita até à última página.

“inesperadamente

não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa, durante algum tempo, segundos, horas, não sou capaz de mais nada,

inesperadamente páro

a posição em que me encontro, de cabeça para baixo, suspensa pelo cinto de segurança, não me incomoda, o meu corpo, estranhamente, não me pesa, o embate deve ter sido violento, não me lembro, abri os olhos e estava assim, de cabeça para baixo, os braços a bater no tejadilho, as pernas soltas, o desacerto de um boneco de trapos, os olhos a fixarem-se, indolentes, numa gota de água parada num pedaço de vidro vertical, não consigo identificar os barulhos que ouço, recomeço, não devia ter saído de casa, não devia ter saído de casa,

são tão maçadoras as lengalengas”

Inevitavelmente, chegou o dia que comecei a ler este livro. Passei à segunda página a que se seguiram todas as outras. Foi das experiências de leitura mais magníficas que tive. Dolorosa. Como se me rasgasse por dentro de tão intenso. Pela história, pelas circunstâncias, pela construção de uma narrativa que parece confusa mas que se entende. Entendemos e lemos os pensamentos da personagem, Violeta.

E Violeta pensa como todos nós. Lembra-se do passado mais antigo, salta para o mais recente por causa de alguma memória que se atravessa, cruza acontecimentos, pessoas, recordações, e o leitor percebe. Entende e vive a dor de Violeta, percebe a amálgama de coisas que lhe surgem à velocidade do pensamento, identifica-se, porque todos pensamos assim, a um ritmo que só o próprio, por conhecer a sua história, acompanha.

No momento em que pensamos que vamos morrer revemos tudo o que fomos e fizemos, dizem. É o que acontece a Violeta, de cabeça para baixo no carro acidentado. Este livro é a viagem à vida de Violeta e lê-se com o ímpeto de um pensamento.

Escrever um livro assim é de uma capacidade surpreendente. Virei página depois de página sempre com a certeza de que, por muito que um livro exija de quem o escreve, é em livros como este que se distingue quem realmente tem o dom. E Dulce Maria Cardoso tem-no sem dúvida alguma.

“… não consigo estar acompanhada por muito tempo, nunca me habituei à presença dos outros, ainda não deixei de me espantar com os que não conseguem comer ou dormir sozinhos, com os que se queixam de solidão, talvez sejam felizes os que conseguem suportar os outros, mais felizes ainda os que precisam dos outros,…” (Pág. 25)

“… quando os dias são todos iguais há forçosamente um desentendimento com a vida,…” (Pág. 66)

“… não há nada que sobreviva ao silêncio, nada,…” (Pág. 148)

“… sonho muitas vezes que estou a voar, é um sonho muito vulgar mas conheço quem nunca tenha sonhado que voava, aliás há pessoas que não sonham, dormem apenas, limitam-se a dormir, deve ser muito triste,…” (Pág. 342)

Sinopse

“É uma noite de temporal. A noite do acidente. Há uma gota de água suspensa num estilhaço de vidro que teima em não cair. Há um instante que se eterniza. Reflectida na gota, Violeta mergulha nessa eternidade e recorda aquele que pode ter sido o último dia da sua vida. Na verdade, as memórias desse dia contam toda a história de Violeta: os pais, a filha, a criada, o bastardo, e em todos a urgência da vida, que prossegue indiferente, como a estrada de onde ainda agora se despistou. Nessa posição instável, de cabeça para baixo, presa pelo cinto de segurança, parece que tudo se desamarra. O presente perde a opacidade com que o quotidiano o resguarda, e Violeta afunda-se nos passados de que é feita, uma espiral alucinada de transparências e ecos.”

Tinta-da-china, 2014

O retorno, de Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 28.09.14

o retornoSinceramente até considero irrelevante e quase insultuoso dizer que gostei deste livro. Não gostei. Não gostei do conteúdo. Não gostei do nó na garganta que me acompanhou ao longo desta leitura. Pela primeira vez ponderei parar de ler um livro pela simples razão de que a leitura me estava a incomodar. Em vez disso optei por ler compulsivamente para ver se o incómodo se atenuava. Não aconteceu. Acho que cada vez que olhar para este livro vou sentir vergonha e orgulho em proporções quase iguais. Porque este livro é mais que uma simples história, tem e terá (digo eu) um estatuto de documento. O retorno das colónias contado magistralmente pela Dulce Maria Cardoso (acredito que foi um livro que lhe saiu da alma) sob a voz de um menino de 15 anos que mistura dor, medo, esperança, desesperança e amor. Percebo porque tanta gente se sentiu tocada por este livro. É quase impossível que isso não aconteça. É quase impossível não sorrir e não chorar com o Rui. É quase impossível não sentir um murro no estômago a cada página. Escusado será dizer que recomendo esta leitura a todos.

Sinopse:

1975, Luanda. A descolonização instiga ódios e guerras. Os brancos debandam e em poucos meses chegam a Portugal mais de meio milhão de pessoas. O processo revolucionário está no seu auge e os retornados são recebidos com desconfiança e hostilidade. Muitos nao têm para onde ir nem do que viver. Rui tem quinze anos e é um deles. 1975. Lisboa. Durante mais de um ano, Rui e a família vivem num quarto de um hotel de 5 estrelas a abarrotar de retornados — um improvável purgatório sem salvação garantida que se degrada de dia para dia. A adolescência torna-se uma espera assustada pela idade adulta: aprender o desespero e a raiva, reaprender o amor, inventar a esperança. África sempre presente mas cada vez mais longe.

"O retorno" de Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 10.06.14

 

 

o retornoMais uma vez, ao iniciar a escrita de uma opinião sobre um livro, não consigo deixar de pensar que tanto foi já dito sobre este romance e que provavelmente nada conseguirei acrescentar de relevante. Contudo, senti-me compelida a escrever este texto porque esta foi uma leitura que me tocou profundamente, diria mesmo, me impressionou de sobremaneira.Movimento. Uma sensação de movimento constante, incessante e implacável; pensamentos a sucederem-se numa torrente incontrolável que tudo leva à sua frente, nada nem ninguém lhe escapa. Como se estivesse a ver um daqueles filmes feitos com as câmaras sempre em movimento, uma impressão de rodopiar até ficar zonza. Foi isto que a escrita da autora me transmitiu. Senti no seu modo de escrever uma espécie de vórtice emocional, um turbilhão imparável, que destrói toda e qualquer chance de impassibilidade perante o destino daquelas pessoas encurraladas por um processo de descolonização atabalhoado e precipitado. Dulce Maria Cardoso não dá tréguas ao leitor, não há qualquer descanso ou pausa ao longo da narrativa que construiu. A angústia, o desamparo, o medo, a raiva, o ódio, a tristeza e a incerteza palpitam como um coração escondido nas páginas deste livro. Por fim, uma réstia de esperança, o vislumbre de um novo começo, da construção de uma nova etapa de vida, forçosamente diferente da anterior mas, ainda assim, digna e carregada de promessas de prosperidade, bem-estar e, talvez mesmo, felicidade.Este “O Retorno” não é apenas um retrato histórico duma época, instável e de grandes transformações, do nosso passado recente, é também um sublime testemunho emocional do sofrimento de tantos portugueses a quem o país “colou na testa” o rótulo de “retornados”. Gostei imenso e recomendo.

Excertos:“Não, a metrópole não pode ser como hoje vimos. A prova de que Portugal não é um país pequeno está no mapa que mostrava quanto o império apanhava da Europa, um império tão grande como daqui até à Rússia não pode ter uma metrópole com ruas onde mal cabe um carro, não pode ter pessoas tristes e feias, nem velhos desdentados nas janelas tão sem serventia que nem para a morte têm interesse. Lá os velhos tinham dentes postiços muito brancos e andavam de um lado para o outro com chapéu na cabeça e os fatos dos trópicos engomados.”

“(...) escrevo-lhe porque preciso de saber notícias do pai e porque tenho medo. A Milucha deve ter ainda mais medo do que eu porque ainda me parece mais sozinha e as pessoas quanto mais sozinhas mais medo têm. Mas no hotel não há ninguém que não tenha medo. Todos tentam disfarçar, disfarçam tanto que a sala de convívio ou da televisão chegam a parecer uma festa. Mas é uma festa de gente triste. Agora então que o verão acabou acho que a tristeza da metrópole entra em nós como se fosse o ar que respiramos.”

“ A puta de matemática pôs os retornados na fila mais afastada das janelas, nos lugares com menos luz, deve pensar que somos como as rosas da mãe que murchavam se não lhes dava o sol, deve ser isso. Um dos retornados que responda, a puta nunca diz os nossos nomes, um dos retornados que responda, era o que faltava, nunca abro a boca, o retornado da carteira do fundo que responda, insistiu a gaja, estava mesmo a querer farra.”

“Os homens também querem arranjar trabalho para mostrar aos mangonheiros da metrópole de que massa os retornados são feitos, se conseguimos construir terras como as que fomos obrigados a deixar também conseguimos mudar o atraso de vida que a metrópole é. Os de cá gostam cada vez menos de nós, andámos lá a explorar os pretos e agora queremos roubar-lhes os empregos além de estarmos a destruir-lhes os hotéis, a destruir a linda metrópole que nunca mais vai ser a mesma. O Pacaça diz que a desgraça que nos aconteceu não é nada comparada com a desgraça que nunca deixou de acontecer aos de cá e até o João Comunista que discorda sempre do Pacaça lhe deu razão, não há pior desgraça do que nunca ter saído daqui, no meio de tanta miséria a única coisa que medra é a inveja.”

“A casa nova é um quarto e uma sala sem varanda. As janelas são junto ao tecto, uma nesga de luz que não ilumina nada, mas a mãe está feliz como se estivéssemos a mudar-nos para um palácio. (...) O pai baixou os olhos, prometo-vos que um dia ainda teremos uma casa como a de lá, o pai com os olhos na alcatifa gasta e a promessa a ecoar na casa vazia.”

 

 

tudo são histórias de amor, de Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 01.05.14

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Não sou leitora de contos e talvez por isso ando a adiar a escrita deste post, desta opinião sobre o livro “Tudo são histórias de amor”.Ou talvez seja porque mesmo agora, passado alguns dias de terminada a leitura, ainda não sei o que pensar sobre este livro.Aqui, ao longo destas páginas, misturam-se a realidade e a ficção de uma forma que me surpreendeu e até me chocou. Não estava preparada para a crueldade de um livro chamado “tudo são histórias de amor” que fala de amor, pois claro, mas que também fala de morte, decadência, maldade. Isso não deveria surpreender-me. Afinal, como todas as verdades têm dois lados, a beleza não faz sentido sem a fealdade, são os extremos que se equilibram, que dão sentido ao mundo.Será necessário chegar a extremos como esta escritora faz, para se falar de amor? Talvez não, mas para fazê-lo e para funcionar é necessário que se seja dona das palavras, é necessário um imenso talento e isso é inegável que a autora é e tem.Este livro não me encantou. Mas desconfio que este livro não tem o propósito de encantar. Muitos destes contos deixaram-me desconfortável. E tenho para mim que a intenção era precisamente essa. Surpresa, choque, culpa, desconforto e um ou outro sorriso foi aquilo que senti ao longo destas páginas.Não sou leitora de contos mas este livro não me deixou indiferente. Não sou leitora de contos mas não me vou esquecer destes tão depressa.Não acho que seja um livro ao gosto de toda a gente. Este livro, estas histórias de amor são, acima de tudo, uma provocação. Mais do que para ler, este livro obriga-nos a pensar.

O Retorno - Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 19.04.14

 

o retorno

Ler este livro foi uma viagem no tempo. Foi um voltar à infância, ao pós-25 de Abril, ao tempo em que os dias de férias e fins-de-semana eram passados a brincar na rua e em que praticamente todos os companheiros de brincadeiras eram retornados. Claro que, na altura, como criança que era, não me apercebi da dimensão do drama humano que ser retornado representava. Aliás, só muito mais tarde vim a saber de muitas das componentes desse drama. Naquele tempo, nem me passava pela cabeça que aqueles miúdos com quem brincava todos os dias tivessem tido todos os seus pertences encerrados em contentores durante meses a fio por não terem possibilidades de os ir levantar, nem que tivessem passado os mesmos meses amontoados em hotéis até conseguirem uma casa ao pé da minha. Para mim, a palavra "retornado" queria apenas dizer que tinham vindo de África, onde viviam antes. Sabia que tinham saudades de lá porque os ouvia dizê-lo. De resto, eram crianças como eu, a quem emprestava a bicicleta e os patins porque estavam cá há pouco tempo e ainda não tinham os seus.

Rui, de 15 anos, chega à "metrópole" com a família no Verão Quente de 1975. A história é-nos contada pela sua voz e filtrada pela sua percepção de adolescente. Através dos seus olhos, revemos os "tempos conturbados", os discursos típicos da época - tanto o do zelo revolucionário como o da revolta dos despojados -, a obsessão com os plenários, votações e demais manifestações democráticas onde os discursos se eternizavam e as conclusões rareavam (até na minha sala de aula havia um jornal de parede e se faziam plenários para discutir as queixas aí enumeradas, obviamente sem qualquer resultado prático), os comentários racistas contra os "pretos", apelidados de burros e preguiçosos, a discriminação mais ou menos aberta contra os "retornados", vistos como exploradores oportunistas que, acabada a fonte de receita, vinham agora competir por empregos com os que sempre cá haviam estado. Para todo o cenário ainda se me tornar mais familiar, o hotel em que a família de Rui é alojada parece ser o Estoril-Sol, a cuja piscina tantas vezes fui nos anos que se seguiram aos factos aqui relatados e onde, aliás, aprendi a nadar, pela mão do fantástico Professor Azinhais (do qual nunca mais soube nada e que hoje, infelizmente, já deve ter morrido).

As descrições e reflexões do Rui fizeram-me, pois, viajar no tempo, não só por se reportarem a acontecimentos e lugares de que tão bem me recordo, mas também por retratarem na perfeição o pragmatismo sem cedências tão característico da adolescência: ele tem de fazer o que tem de fazer, sem qualquer contemplação pelas suas próprias limitações, que vê como fraquezas vergonhosas; e a sua visão dos outros é a preto e branco, sem gradações nem atenuantes - a histérica, o maluco, o gabarolas, o tarado sexual, o amigo, a oferecida, etc. Quem nunca viu o mundo desta forma que atire a primeira pedra...

Esta foi uma leitura que me prendeu do princípio ao fim, e julgo que o mesmo acontecerá com qualquer leitor que tenha memória dos tempos do PREC, por difusa que esta seja. Conta-se aqui uma história que tem demasiados pontos de contacto com o nosso passado recente para que assim não aconteça. E, mais do que isso, levantam-se aqui questões, tanto políticas como humanas, sobre as quais qualquer português que estivesse vivo em 1975 não pode deixar de reflectir.

 

Excertos:

 

"Os empregados não nos querem cá e não gostam de nos servir. Acreditam que os pretos nos puseram de lá para fora porque os explorámos, perdemos tudo mas a culpa foi nossa e não merecemos estar aqui num hotel de cinco estrelas a sermos servidos como éramos lá. Os empregados preferem servir os pretos que nem nos talheres sabem pegar a servir-nos a nós, acham que os pretos são vítimas que ao fim de cinco séculos de opressão ainda tiveram de fugir da guerra. Dêem-lhes de comer como nós demos, sirvam-nos e um dia vão ver, quando eles se revoltarem e quando lhes fizerem o que nos fizeram a nós, batem-lhes à porta e levam-nos de mãos atadas, vão levá-los e eu vou rir-me. Os de cá podem dizer o que quiserem que não vão mudar a minha opinião, os pretos não prestam. Também se riam para nós até terem uma catana na mão, os de cá ainda vão arrepender-se mas já vai ser tarde demais. E eu não vou ter pena nenhuma." (pág. 91 e 92).

 

"A Rute não se importava de ser Miss Portugal mas também não pode, os revolucionários acabaram com os concursos das Misses e as mulheres têm de queimar os sutiãs e ir deitar panelas fora nas manifestações para não serem acusadas de reaccionárias. A Rute gostava da viver na América, na América as mulheres também queimam sutiãs mas continua a haver concursos de Misses, ninguém manda em ninguém. Se a metrópole seguisse a América em vez da União Soviética a Rute podia ser Miss Portugal." (pág. 104).

 

"O Pacaça torna a recordar que se convocou o plenário para resolver problemas concretos, alguns deles já antigos, e passa a ler, quartos sobrelotados que não oferecem condições mínimas aos que neles têm de habitar, esperas para todas as refeições que chegam às duas horas e que além de agastarem quem nelas tem de permanecer de pé ocasionam distúrbios que põem em causa o clima pacífico que todos prezamos, a comida de péssima qualidade, prova da falta de consideração com que somos tratados. Lê agora os problemas mais recentes, um dos elevadores de serviço há mais de três dias avariado fazendo com que o pessoal tenha de usar os nossos elevadores tornando-os ainda mais insuficientes, a tendência crescente para o desleixo higiénico dos espaços comuns como a própria sala onde estamos pode comprovar, e por último a razão principal para a convocação do plenário, o esvaziamento da piscina sem ter havido sequer um aviso prévio, uma atitude abusiva que merece a nossa veemente condenação. Batemos palmas mais uma vez, o lado dos trabalhadores não se mexe. Está ainda o Sr. Acácio a gritar de pé, apoiado, apoiado e já o maoísta protesta porque a competência e o zelo profissional dos camaradas cozinheiros e das camaradas da limpeza tinham sido injuriados. A propósito disso o maoísta fala uns dez minutos sobre a resistência que a força do trabalho dos camponeses, operários e assalariados deve exercer contra os agrários exploradores, o patronato chupista e os capitalistas cegos pela ganância. Acrescenta que a existência de elevadores de serviço é um atentado à revolução que foi feita para acabar com essas diferenças e lembra que noutras revoluções rolaram cabeças por semelhantes afrontas à igualdade. Sobre o esvaziamento da piscina apoia a decisão da camarada directora, a piscina é um símbolo dos hábitos da burguesia reaccionária e mesmo vazia atenta contra os interesses legítimos dos trabalhadores, dos camponeses e da classe operária." (págs. 118 e 119).

 

Tinta-da-China, 2012.

 

Tudo são histórias de amor - Dulce Maria Cardoso

Roda Dos Livros, 06.04.14

tudosaohistoriasdeamorHabitualmente não leio Contos. Porque acho sempre que me vão saber a pouco. Porque gosto de ler muitas horas seguidas (quando posso), e o Conto, não sei, despacha-se num instante. Mas a verdade é que tem muita lógica ler contos nos tempos de hoje, em que o tempo nunca chega para o que mais gostamos. Assim, no final de um dia de trabalho, lê-se um conto e fica-se com uma sensação boa de dever cumprido, meta atingida, o que se quiser chamar.

Teoricamente soa bem mas nunca será como aquela sensação de ler um livro com centenas de páginas, genial, que não queremos que acabe nunca. Um Conto consome-se rápido. Umas quinze a vinte páginas ou até menos. Mas se for um bom Conto… lê-se outro logo a seguir.

Foi o que me aconteceu com “Tudo são histórias de amor” de Dulce Maria Cardoso. Em dois dias consumi o livro todo. Não sei se esta é a forma certa de ler Contos pois que sou uma principiante mas, sabendo que também há os micro-contos, já me vou imaginando a preencher pequenos espaços de tempo com narrativas curtas, naquelas alturas em que não dá para enfiar a alma e o corpo num romance.

Doze contos para escolher neste livro. Podemos ser malandros e não os ler de seguida, escolher pelo título, pelo número de páginas, ou por razão nenhuma. É uma liberdade engraçada esta que agora descubro. Eu comecei pelo segundo Conto. Como resistir ao Título “A biblioteca”?

Mas a mais simples verdade é que, quando se escreve bem, dá gosto ler seja o que for. E a Dulce mais uma vez cumpre esta premissa, com um estilo meio sonhador que nem sempre é o que parece, e surpreende com finais inesperados, que sinceramente resultam muito bem neste género de narrativa curta.

E de que falam estes Contos? De tudo, de pouco e de muito, depende de quem lê e de como o sente. Senti margem para imaginar, divagar e construir. Para fazer parte desta espécie de corridinhas literárias, apesar de não dispensar, nunca, a boa maratona.

“Não há aqui um único livro que não tenha lido. A minha biblioteca. Tive todas as vidas que li. Milhares de vidas. Pensarás que deliro. As minhas ideias já estão um pouco confundidas, mas não a este respeito. As vidas que li não foram menos minhas. Não há grande diferença entre o que se vive lendo e o que se vive vivendo. Milhares de vidas à nossa espera no silêncio dos livros.” A biblioteca, página 38.

Sinopse

“Uma velha que em clausura depende do que o seu cão fiel lhe recolhe, uma mulher que mata a sua alma gémea, nós que nos tornamos cúmplices num autocarro em noite de temporal, um rio que devolve os ecos de duas crianças a quem aguarda um terrível milagre, uma ilha onde congeminam os faroleiros e suas zelosas esposas, um assassino a salvo na biblioteca, uma menina desaparecida, uma mulher intrigada pelo homem desconhecido. Um destino chamado amor.Nesta inquietante colectânea de contos, Dulce Maria Cardoso revela de novo a sua mestria literária.”

Tinta da China, 2014