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Roda Dos Livros

"Aberto toda a noite" de David Trueba - Opinião

Roda Dos Livros, 20.01.15

"Haverá tanta dor como prazer, tanta solidão como companhia, tantas bofetadas como beijos." DEUS

E assim começa o enredo em torno da família Belitre e não podia ter uma citação mais correcta. Entre os Belitre existe tanto do comum de qualquer família como do alucinado de qualquer hospício, que é exactamente como muitas vezes se sente o ambiente familiar.

"Se esperares, conto-te o que nos aguarda depois da morte. Amiga, tu e eu sabemos que viver não foi nada mau, porque não haveria de ser ainda melhor o que vem depois? Agora parece-me óbvio que a morte é o estado normal e que viver é o acidente. E achas alguma razão mais justificada para morrer do que saber o que nos espera? Que não digam: morreu de cancro ou de um tumor cerebral. Digam: morreu de curiosidade.

Última carta de Ernestina Beltrán a Alma Belitre"

Excelente epitáfio: morreu de curiosidade!

São inúmeras as descrições que fazem jus a qualquer família. Seja a loucura cáustica já aceite de quem quase está senil às decisões tomadas a quente dos mais jovens e inseguros, que buscam orientação, mas também liberdade e aventura.

A família o avô Abelardo, que é um personagem que vale por todos os outros, vai sendo apresentada, um a um, pelas alegrias, mas também pelos desaires próprios de cada carácter.

"Nas famílias predomina essa virtude de admitir a extravagância quotidiana como normalidade."

Bem dito e bem certo para todos os membros desta família. Por eles, a mansão estará sempre aberta.

"O lar é o único lugar aberto toda a noite." A citação é de Ambrose Bierce, um jornalista e satírico contista que considerava que sinónimo de "sozinho" era estar em "má companhia". Ao lermos que este escritor realista misturava humor negro, cinismo e um olhar acutilante à sociedade que o rodeava... é exactamente o que encontramos neste relato familiar de Trueba, olhar esse que se mantên do seu aclamado Saber Perder.

"- Avô, o que mais te disse Deus?

- Que não revele nada da nossa conversa a não-crentes e romancistas. Deus só fala a poetas e por isso a Sua voz é verso, verdade e vida. Os três vês que, para o caso de não saberes, são sinónimos."

Faltam muitos vês nesta conversa, falta: vitalidade, virilidade, vicissitude, vulgaridade, veleidade ou ainda vontade, vibrante, vitorioso... São várias características para descrever os três vês do avô Abelardo e caracterizar os eventos familiares bem como os seus facilitadores.

O amor, em todas as suas vertentes existe em "Aberto toda a noite", mesmo que por vezes seja ridicularizado e visto como supérfluo. Dizer mais sobre os acontecimentos desta família é retirar todo o humor de se ir divertindo a cada página. Essencialmente, este romance de Trueba é puro entretenimento para o leitor. Aliás em filme e com as expressões idiomáticas espanholas deveria ser a comédia do ano.

"Amor: A estupidez de pensar demasiado no outro antes de saber o que quer que seja sobre si próprio."

Bierce é citado novamente e faz todo o sentido, face ao rumo que o amor ou algo que se confunde com ele, obriga as pessoas a agir, ou melhor, reagir, desesperadamente. No entanto, "O fardo que pesa sobre os ombros, não pesa menos por o deixarmos cair." é um provérbio edetano citado perto do final e abre o caminho para pensarmos em como por vezes podemos ver ou sentir a família.

Quatro Amigos - David Trueba

Roda Dos Livros, 20.12.14

Quatro AmigosGosto muito de David Trueba mas “Quatro Amigos” ficou aquém das minhas expectativas. Depois do grande favorito “Aberto Toda a Noite”, sobre a família, depois de “Saber Perder”, sobre a perda, segui para “Quatro Amigos”, sobre a amizade. Amizade entre quatro tipos imaturos e parvos que vão de férias juntos, sem destino definido, numa carrinha a cheirar a queijo, com propósito de se envolverem sexualmente com o número máximo de mulheres que conseguirem.

A habilidade humorística do Trueba de “Aberto toda a Noite” não teve uma concretização positiva neste livro. Ou então a minha veia humorística estava morta durante esta leitura. Esta quadrilha de parolos Madrilenos foge das suas vidas desgraçadas para uma viagem em que o poder da amizade os envolve em bebedeiras e figuras tristes. Humor fácil e pouco refinado, muito distante, volto a referir, do humor inteligente a cair para o negro de “Aberto toda a Noite”, o meu livro favorito do autor que, depois disto ascendeu a super-favorito.

Fui avançando na leitura apenas devido à excelente qualidade da escrita do autor, sem me interessar particularmente pelo enredo, que achei maçador, e nem mesmo as ocasionais reflexões sérias e mais profundas me trouxeram à superfície, nesta leitura assim-assim, que me fez sentir sempre debaixo de água.

Trueba escreve bem e sabe fazer melhor.

Sinopse

“Quatro amigos, decididos a queimar os últimos cartuchos de uma juventude que terminou, deixam para trás os seus trabalhos, famílias e problemas e improvisam uma viagem de férias por Espanha, sem destino. Quatro Amigos é o relato agridoce do final de uma era, de uma idade. David Trueba recupera, neste segundo romance, os temas e o tom que o caracterizam: as frustrações de uma geração e as amarguras do crescimento num tom contrastante entre a comédia e o romantismo, a ternura e o rancor. Um talento narrativo sem rival na nova literatura espanhola.”

Alfaguara, 2014

Tradução de Maria do Carmo Abreu

"Saber Perder", David Trueba - Opinião

Roda Dos Livros, 04.12.14

«SMS: posar-li memoria al temps», Josep Santilari, 2005
Não consigo iniciar um comentário a este livro de Trueba sem que antes refira o impacto da capa. Há em todo este cenário, aparentemente calmo, mas ansioso, que reflecte na totalidade, o espírito inquieto, lânguido, um tanto sensual e ainda de resignação que reside em cada uma das histórias de vida que aqui são narradas.
É um poder enorme o desta composição, que a um primeiro olhar parece banal e rotineira, mas que encerra em si inúmeras preocupações e ansiedades desconcertantes.
A procura por uma resposta, a mensagem que não chega, a solução que tarda, osim ou o não pretendido que falha e que não corresponde...
É, em toda essa complexidade do quotidiano, mas também na sua beleza, que o enredo, quase só familiar, de Saber Perder se foca e é tão bom, tão real, quanto assombroso e próximo.
Todo este Saber Perder de Trueba foi uma surpresa. Há uma certa embriaguez e um tanto de volúpia que dão um toque de magia e de esperança aquilo que é narrado e que se desenrola sem segredos na nossa frente. Ainda assim, teimamos em querer ver para além daquilo que há e vai continuar a existir, a perda, a dor, o sofrimento infligido no próximo, a morte, o esquecimento. E é nessa dualidade, ora de prazer como de dor, ora de extravagância como de recatamento, que Sílvia ou Leandro se deslumbram com proibições ou Lorenzo e Ariel aceitam as rasteiras da vida.
As histórias cruzam-se e alimentamo-nos delas ao longo de quase quinhentas páginas, sabendo que são quase mil, tal é o enredo ou as letras miudinhas que dificultam as largas horas em que nos embrenhamos na história. Até isso, uma certa demora em ler o livro, parece propositado, como que nos fazendo ver que a vida pode muito bem desacelerar...que nós só temos a ganhar com isso.
Com amor, humor, emoção, desilusão, aventura, mas também abrandamento, todos os personagens desta vida comum vão terminar a celebrar esta aventura que é saber perder para saber (continuar a) viver!
Saber Perder foi o romance vencedor do Prémio Nacional de la Critica, em 2009 e o júri não hesitou em compara o elevado realismo literário com o romance  A Colmeia, do Prémio Nobel da Literatura de 1989, Camilo José Cela. Fica mais uma referência para juntar à wishlist de leitura.
Encontrei Quatro Amigos que não me conquistaram! ;)
Apostei em Saber Perder que, confesso, agarrou-me!
Resta-me agora encontrar Aberto toda a noite e render-me a Trueba.

Saber Perder - David Trueba

Roda Dos Livros, 10.08.14

saberperderA fórmula é simples e, talvez por isso, resulta muito bem. “Saber Perder” é o segundo livro que leio de David Trueba. “Aberto toda a noite” teve um impacto diferente em mim, talvez por ter mais detalhes rocambolescos e personagens mais peculiares. Em todo o caso “Saber Perder” é um excelente livro, que ganha pontos pela simplicidade de descrever a vida com que qualquer um de nós se poderá identificar. Enfim, mais ou menos, em algumas situações o autor já revela o gosto pelo insólito que veio a apurar com “Aberto toda a noite”:

Novamente uma família. Menos numerosa agora. Pai, filho e neta são os personagens ao redor de quem toda a acção se vai desenvolvendo. O seu dia-a-dia e forma de enfrentar os desaires. A morte iminente da avó e a necessidade de escape para o avô, que desenvolve um delírio por prostitutas que o leva, em segredo, ao endividamento extremo. O namoro da filha adolescente e a falta de acompanhamento dos pais, divorciados, e cada um preocupado com o seu próprio umbigo. O percurso do pai, arruinado e desempregado, frustrado por ter sido abandonado pela mulher, sem saber lidar com uma filha adolescente, com a doença terminal da mãe, e com a vida dupla do pai. Um cobarde que se deixou arruinar pelo sócio e que, levado pela vingança, mas principalmente pelo descontrolo emocional, comete um acto desesperado de homicídio.

Por vezes exagerado mas bastante realista. Digno de nota pela forma como comove o leitor e o leva a identificar-se com sentimentos e situações que, apesar dos exageros, reconhece. Porque a natureza humana é comum, independentemente das excentricidades, há sempre algo de humanamente semelhante a todos nós no percurso de Leandro, Lorenzo e Sylvia.

A cegueira pelo futebol, esse desporto que na verdade é apenas uma desculpa para conflitos e discussões absurdas. A forma como as preferências clubísticas ditam a ascensão e queda dos jogadores, a pressão profissional sobre aqueles que não sabem fazer mais nada senão correr atrás de uma bola, um nível de inteligência baixo com os bolsos sempre cheios de notas.

O dia-a-dia com apontamentos requintados de quem sabe escrever. Manteve-me interessada ao longo de quase quinhentas páginas, sem que possa referir um pico de acção ou reviravolta. Uma leitura constante, sem surpresas, que curiosamente faz dessas características os seus pontos fortes.

Sinopse

“Sylvia cumpre dezasseis anos no dia em que começa este romance. Para celebrar o aniversário, organiza uma falsa festa que tem só um convidado. Horas depois, sofre um acidente que a levará a descobrir a complexa intensidade da vida adulta.Lorenzo, pai de Sylvia, é um homem divorciado que tenta esconder o vazio que o abandono da mulher e o fracasso no trabalho deixaram na sua vida. O desencanto e a frustração levam-no a ultrapassar fronteiras que nunca julgara possíveis.Ariel é um jovem jogador de futebol que deixa Buenos Aires para jogar numa equipa espanhola. Esmagado a princípio pelo frio anonimato da grande cidade, não tardará a ouvir o estádio entoar o seu nome em êxtase.Leandro, velho reformado, está numa fase da vida em que assiste a mais enterros do que nascimentos. Mas descobre para sua surpresa que ainda está em idade de ser tocado por uma fascinante obsessão.”

Alfaguara, 2009

Aberto Toda a Noite - David Trueba

Roda Dos Livros, 20.03.13
abertotodaanoite

Desde a primeira linha, apercebemo-nos de que esta não é uma história comum. Relata o dia-a-dia de uma família composta por elementos problemáticos - cada membro da família transporta consigo um conjunto de traços psicológicos fora do normal, que vão da mera excentricidade à verdadeira patologia. Perante este quadro, preparamo-nos para o relato de uma vida familiar infernal - e é aqui que David Trueba nos surpreende. Na verdade, a família Belitre é fora do comum em tudo, até num pormenor hoje em dia cada vez mais raro: não se trata de uma família disfuncional. Muito pelo contrário, é no seu seio que os seus perturbados membros encontram o conforto e o apoio necessário para suportarem as restantes vertentes das suas caóticas vidas. Como reza a citação de Ambrose Bierce que dá início à Terceira Parte do livro, "Lar é o lugar de último recurso - aberto toda a noite."

Mas Trueba também não limita a sua narrativa à descrição das peripécias tragicómicas dos elementos da família Belitre, nem à constatação de que é o cimento unificador daquela família que impede a desagregação dos seus membros enquanto indivíduos. Enquanto nos deslumbra com as situações ao mesmo tempo banais e delirantes em que os personagens se colocam, fazendo-nos lembrar de que também as nossas vidas têm, com frequência, muito pouco a ver com o conceito habitualmente aceite de normalidade, o narrador aproveita para desenvolver uma filosofia muito particular, apresentando-nos teorias como as vantagens da invisibilidade social como defesa contra a crueldade alheia, a inevitabilidade da corrosão de qualquer estado de felicidade após algum tempo, a idade avançada como estado de suprema sabedoria disfarçada de senilidade (as geniais figuras do avô e da avó são as únicas de entre todos que, a coberto da impunidade fornecida pelo estatuto de idosos, conseguem fazer o que realmente querem e ser, à sua maneira, felizes); e, para coroar esta obra ímpar, David Trueba vai ainda desconstruindo ao longo de todo o livro, pedaço a pedaço, preconceito a preconceito, a noção de amor romântico que começa a ser incutida a qualquer ser humano a partir do momento em que chega a este mundo.

Este é um daqueles livros que, nunca se levando verdadeiramente a sério, fornece abundante matéria para reflexão e não cairá no esquecimento tão depressa.

Excertos:

"Matías ordenara a Gaspar que limpasse todo o pátio com o ancinho depois de almoçarem, mas Gaspar, entre protestos, negava-ser a fazê-lo. Matías, com insistência paterna, falou-lhe com autoridade e chegou a pôr-lhe o ancinho na mão. Quando Gaspar o atirou para longe de si, Matías entrou em casa e foi directamente falar com a mãe. Disse-lhe que Gaspar não respeitava a sua autoridade, perguntou-lhe que género de filhos estavam a educar, pediu-lhe que tentasse ela falar com ele para ver se ganhava juízo. A mãe saiu para o jardim e chamou Gaspar.

Primeiro falou-lhe com ternura, numa tentativa de o fazer compreender a doença do irmão e obedecer: «Nem sequer te está a pedir que faças nada de mal.» Mas Gaspar tinha planos muito diferentes para aquela tarde. Planos com um nome próprio: Sara.

- Tinha pensado ir ver a avó.

- Vais amanhã. Não dês esse desgosto ao teu irmão.

Com raiva contida, Gaspar agarrou no ancinho e começou a juntar as folhas caídas. Matías sentou-se no alpendre. Limpou as lágrimas. Aos poucos, à medida que o cansaço ia consumindo a sua zanga, Gaspar foi compreendendo a doença do irmão Matías e a difícil encruzilhada em que estavam metidos o pai e a mãe. Viu Matías pedinchar com insistência a Nacho que lhe ensinasse uma canção na guitarra, como uma criança.

- Deixa-me em paz, Matías - dizia Nacho. - Não tens ideia nenhuma do que é tocar.

- Então ensina-me.

- Para me arrancares as cordas se alguma coisa te correr mal? Como no outro dia...

Gaspar viu como por fim Nacho cedia e Matías lhe dava um abraço antes de pegar na guitarra. Ninguém queria que voltassem a internar o irmão.

- Muito bem, vamos começar com uma muito fácil. Três acordes...

- O que são acordes?

A guitarra de Nacho, manejada pelas mãos de Matías, começou a emitir terríveis dissonâncias.

- Eu sozinho, eu sozinho - entusiasmava-se Matías.

- Isto já começa a soar bem - mentiu Nacho, e, à distância, trocou uma piscadela de olho cúmplice com Gaspar." (págs. 101-102).

"O fracasso amoroso no homem provoca estados tragicómicos. Quem evita os remédios clássicos - álcool, drogas, prostituição - mergulha num complicado estado depressivo. A grande crise da vaidade conduz a uma completa baixa de defesas e a uma incontrolável tendência para a depressão. Vi homens passarem semanas sem abandonarem de facto a cama, numa tentativa de dormir para esquecer. Vi homens marcarem todos os números femininos da sua agenda de telefones, procurando foder para esquecer. Vi homens lançarem-se na literatura e na redacção de cartas, como se escrever ajudasse a esquecer. Vi homens gritarem um nome de mulher pela janela de um carro a toda a velocidade, decididos a berrar para esquecer. Tudo isso numa luta sem quartel, e de antemão perdida, para evitar a grande derrota do seu ego. Os homens utilizam as mulheres para se apaixonarem por si mesmos por interposta pessoa.

(...)

Há razões para pensar que essa suposta dignidade amorosa é menor na mulher. Elas estão com frequência mais dispostas a ser insultadas e desprezadas pelo homem que amam. Como por exemplo Aurora. Um homem no seu lugar teria sido considerado um fantoche. Mas ela, pelo contrário, continuava a atender o telefone quando Nacho lhe ligava, abrindo-lhe os braços e as pernas quando ele solicitava e sofrendo sozinha quando ele a evitava. Poucos homens possuem uma dignidade disposta a ser esbofeteada com semelhante regularidade. Para muitos, a desculpa seria a fascinação daquela infeliz mulher pelo seu jovem e atraente amante, de quem tinha o dobro da idade. Talvez tivessem sido assim todas as histórias dolorosas que tivera de suportar ao longo da vida. E Aurora não era de maneira nenhuma uma mulher feia ou desagradável, envelhecida ou incapaz. Simplesmente, perdera a paciência. Essa virtude tão feminina.

Por isso, onde quer que estivesse e o que quer que tivesse planeado, Nacho podia contar com ela. Aurora entregava-se-lhe. Sentia que, ao cravar as unhas nas costas do seu amante, podia também agarrar-se à vida que lhe fugia. Depois de tantos anos perdidos e de tantas desilusões, fora capaz de apaixonar-se outra vez e resistia a perder o alimento da sua paixão. Estava disposta a suportar qualquer castigo para o conservar, inclusive o desprezo." (págs. 128-129).

"Diante da sepultura de Júlio, Sara disse:

- Em princípio eu devia chorar; mas não me parece.

- Claro que não, deve-se chorar é pelos vivos - proclamou o pai com uma alegria pouco habitual nele. - Olha, nos cemitérios é onde menos mortos há. Em contrapartida, vai a um bar de manhã cedo e verás um montão de mortos.

(...)

- Estou a falar a sério. Penso nisso friamente e garanto-te que estou morto há uns bons vinte anos.

- Para quem está há tanto tempo debaixo da terra, não tens mau aspecto.

O pai insistiu na sua ideia. Sara contestava que havia sempre coisas excitantes para fazer enquanto a vida durava.

- Só tens de procurar um pouco mais além.

- Claro - explicou-se o pai. - Imagina que te tinha conhecido com menos trinta anos. Agora podia apaixonar-me por ti. E desculpa o exemplo. Casar-nos-íamos, teríamos filhos, e trinta anos depois pensaria de novo que a vida é uma merda." (Pág. 151).

"- Tem cinquenta anos. É demasiado cedo para morrer e demasiado tarde para começar de novo." (Pág. 197).

Aberto toda a noite - David Trueba

Roda Dos Livros, 03.03.13

abertotodaanoite“Aberto toda a noite” chegou até mim pelas palavras do Jorge, após ler alguns excertos fiquei logo interessada. Não conhecia o autor. Trueba escreve bem. Sem artifícios nem pudores daquelas palavras mais cruas, no tempo certo, sem exageros.

O narrador apresenta a família Belitre. É um retrato feito por um observador externo do dia-a-dia de uma família muito particular. Não são todas? Talvez, mas poucas como os Belitre. Uma família numerosa, os pais, seis filhos e o avô habitam a mesma casa. Personagens com rasgos de loucura inesperados, atitudes estranhas que variam entre a comédia e a tragédia, desde o impensável ao óbvio, tudo acontece aos Belitre.

Prevalece o divertimento pela forma como as situações são expostas, doenças mentais, traumas, traições e loucura são descritas e contextualizadas de forma que o absurdo é verosímil, e por vezes, raras vezes podemos acreditar que tais situações poderiam acontecer a qualquer um de nós. Desde o filho que assume o papel de pai e dorme com a mãe, ao psiquiatra que acampa no jardim, passando pela enfermeira por quem todos os homens da família se apaixonam, “Aberto toda a noite” é um livro sobre a família, que lembra que quando tudo o resto desaba nas nossas cabeças (mesmo que seja o teto), a família está lá para nós.

Brilhante e altamente recomendado!

Sinopse

“O primeiro romance de David Trueba convida-nos a entrar no lar dos Belitre, uma família tão numerosa quanto disparatada. Crónica de uma educação sentimental, as pessoas que habitam este livro apenas dão ouvidos à voz do seu coração. Numa sucessão irresistível de quadros da vida familiar, conhecemos Félix e Paula, um casal em crise, agastado pela rotina de criar seis filhos. Conhecemos Matías, um rapaz de doze anos que sofre de uma misteriosa doença mental. Conhecemos Abelardo, o avô, que no meio da demência senil se entrega de corpo e alma à poesia e à religião. Mas, ainda assim, falta conhecer muito, porque a família é muito mais do que as pessoas que a compõem.

Em Aberto toda a noite, Trueba pinta, com humor, ternura e magia, o fresco de uma família deliciosamente excêntrica, a que apetece pertencer.”

Alfaguara, 2012