Debaixo da Pele - David Machado


Ando há anos para ler o Índice Médio da Felicidade, mas, por um ou outro motivo, foi-se-me escapando entre os dedos. David Machado publicou este ano o seu mais recente romance, Debaixo da Pele, e porque me foi emprestado, foi por aqui mesmo que decidi começar a conhecer melhor este autor (depois de breves incursões pelos seus trabalhos dirigidos a um público-alvo infanto-juvenil, em Os Livros do Rei ou Acho que Posso Ajudar).
Debaixo da Pele é um livro dividido em três partes: “Júlia não está cá (1994)”, “Notas para um romance sobre uma rapariga que não suporta ser amada (2010) e “As cassetes do Manuel” (2017). Na primeira parte, conhecemos Júlia e Catarina, a primeira uma jovem de 19 anos que vive atormentada pela violência de que foi alvo por parte de um antigo namorado e a segunda uma menina de 5 anos, vizinha de Júlia, que vive no seio de uma família disfuncional, em que os pais passam o dia a gritar um com o outro e a mãe a ser constantemente vítima de agressões físicas. Estas duas almas perdidas encontram-se e Júlia vê surgir em si um instinto maternal que a leva a fugir com a menina, rumo a algo desconhecido, um sítio onde não existisse dor. Só que Júlia está demasiado quebrada e as coisas acabam por tomar um rumo inesperado.
Anos mais tarde, um homem de meia-idade, que está preso, reescreve os acontecimentos que o levaram à prisão, quando uma jovem mulher entrou na sua vida e desfez a solidão de que se rodeava. Por fim, uma criança de dez anos, que vive com a mãe num local recôndito do Alentejo, tenta lidar com os motivos que levaram ao seu isolamento com a mãe, enquanto descobre que o medo e a coragem que movem a sua progenitora lhe toldaram o mundo de cores que não são as únicas que existem.
Como seria de esperar, as três histórias possuem pontos de contacto que deixarei por revelar, de modo a não estragar a leitura de quem ficar interessado nesta história. Mas posso dizer que a relação de Júlia e Catarina é um ponto essencial, e a violência e a forma como se lida com traumas passados um fio condutor. Um dos aspetos mais bem conseguidos neste livro, na minha opinião, são as vozes distintas de cada uma das partes. A dor de Júlia, na primeira parte, é palpável, e quase temos vontade de saltar para o livro e salvar aquelas duas almas das suas vidas miseráveis. A segunda parte, a cargo do homem preso, que reescreve a sua história pela voz de Salomão, é um exercício estilisticamente interessante e que transmite muito bem a sensação de arrependimento e confusão. Por fim, a inocência de Manuel na terceira e última parte são enternecedoras, bem como a vontade de ajudar a mãe e de conhecer o mundo.
Literariamente falando, acho que este é um livro muito bem escrito, com temas importantes desenvolvidos de modo satisfatório. Pessoalmente, faltou algo que ressoasse comigo, com quem sou e com o que vivi. Isso não é estritamente necessário, claro, mas neste livro em particular senti que seria importante. Apesar de tudo, foi um bom livro. Deixou-me, sem dúvidas, com vontade de continuar a explorar mais a obra deste jovem escritor português.
O corpo é o início de tudo, mas também carrega memórias impossíveis de serem desfeitas.







ar tem um diário. Um diário serve para se escrever livremente, sem filtros nem receios, porque não há público e, logo, não há censuras. E é isso que Valdemar faz, até ao dia em que, na qualidade de seu próprio público, começa a censurar-se a si mesmo, porque lhe parece que há coisas que não devem ser contadas.



