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Roda Dos Livros

Debaixo da Pele - David Machado

Roda Dos Livros, 27.11.17

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Ando há anos para ler o Índice Médio da Felicidade, mas, por um ou outro motivo, foi-se-me escapando entre os dedos. David Machado publicou este ano o seu mais recente romance, Debaixo da Pele, e porque me foi emprestado, foi por aqui mesmo que decidi começar a conhecer melhor este autor (depois de breves incursões pelos seus trabalhos dirigidos a um público-alvo infanto-juvenil, em Os Livros do Rei ou Acho que Posso Ajudar).

Debaixo da Pele é um livro dividido em três partes: “Júlia não está cá (1994)”, “Notas para um romance sobre uma rapariga que não suporta ser amada (2010) e “As cassetes do Manuel” (2017). Na primeira parte, conhecemos Júlia e Catarina, a primeira uma jovem de 19 anos que vive atormentada pela violência de que foi alvo por parte de um antigo namorado e a segunda uma menina de 5 anos, vizinha de Júlia, que vive no seio de uma família disfuncional, em que os pais passam o dia a gritar um com o outro e a mãe a ser constantemente vítima de agressões físicas. Estas duas almas perdidas encontram-se e Júlia vê surgir em si um instinto maternal que a leva a fugir com a menina, rumo a algo desconhecido, um sítio onde não existisse dor. Só que Júlia está demasiado quebrada e as coisas acabam por tomar um rumo inesperado.

Anos mais tarde, um homem de meia-idade, que está preso, reescreve os acontecimentos que o levaram à prisão, quando uma jovem mulher entrou na sua vida e desfez a solidão de que se rodeava. Por fim, uma criança de dez anos, que vive com a mãe num local recôndito do Alentejo, tenta lidar com os motivos que levaram ao seu isolamento com a mãe, enquanto descobre que o medo e a coragem que movem a sua progenitora lhe toldaram o mundo de cores que não são as únicas que existem.

Como seria de esperar, as três histórias possuem pontos de contacto que deixarei por revelar, de modo a não estragar a leitura de quem ficar interessado nesta história. Mas posso dizer que a relação de Júlia e Catarina é um ponto essencial, e a violência e a forma como se lida com traumas passados um fio condutor. Um dos aspetos mais bem conseguidos neste livro, na minha opinião, são as vozes distintas de cada uma das partes. A dor de Júlia, na primeira parte, é palpável, e quase temos vontade de saltar para o livro e salvar aquelas duas almas das suas vidas miseráveis. A segunda parte, a cargo do homem preso, que reescreve a sua história pela voz de Salomão, é um exercício estilisticamente interessante e que transmite muito bem a sensação de arrependimento e confusão. Por fim, a inocência de Manuel na terceira e última parte são enternecedoras, bem como a vontade de ajudar a mãe e de conhecer o mundo.

Literariamente falando, acho que este é um livro muito bem escrito, com temas importantes desenvolvidos de modo satisfatório. Pessoalmente, faltou algo que ressoasse comigo, com quem sou e com o que vivi. Isso não é estritamente necessário, claro, mas neste livro em particular senti que seria importante. Apesar de tudo, foi um bom livro. Deixou-me, sem dúvidas, com vontade de continuar a explorar mais a obra deste jovem escritor português.

O corpo é o início de tudo, mas também carrega memórias impossíveis de serem desfeitas.
 

Uma Noite Caiu uma Estrela - David Machado e Paulo Galindro

Roda Dos Livros, 06.12.15

uma noiteHá adultos que compram livros infantis para crianças e há adultos que compram livros infantis para si. Eu pertenço aos dois grupos, mas confesso que vou para casa de alma cheia quando compro um livro infantil para mim.

Uma Noite Caiu uma Estrela é de um bom gosto irrepreensível. A história lê-se com prazer e as ilustrações são fabulosas. A preto e branco, é um livro que emana uma luz especial. A luz desta estrela que caiu do céu, que cega os olhos de sorrisos cada vez que o livro é aberto.

Trouxe a estrela para casa e vou visitar o Óscar muitas vezes. Eu acho que ele, afinal, não tem medo de nada.

Recomendo que esta estrela vos caia na estante.

Sinopse

“Uma noite, cai uma estrela na terra. Um menino resolve guardá-la sem saber que a luz emitida pela estrela vai impedir toda a gente de dormir. É uma história sobre coragem, sobre superação de adversidades, sobre a aventura que é ser-se criança.”

Alfaguara, 2015

Índice Médio de Felicidade - David Machado - Opinião

Roda Dos Livros, 25.11.14

"Pode-se orientar uma pessoa para ser mais feliz, mas não é possível ensinar alguém a ser optimista.Isso ou és ou não és."David Machado

Antes de ler este livro, pergunte-se:- O que o anima?- O que o faz infeliz?- É depressivo ou optimista?- De 0 a 10, como considera a sua felicidade?...Assim, até parece um livro de auto ajuda, não é, mas pode bem ser.Um livro orientado a olhar o futuro com outros olhos. É não temer o futuro, mas é também não ter medo de não ter medo. Faço-me entender?

Durante a leitura deste livro experimentei diversos sentimentos e sensações. Confesso, um livro é bom tanto quando nos irrita, nos deprime ou nos faz sorrir e sonhar. Este teve de tudo para mim. Pode não ter de tudo para todos quanto o lerem, pode ter só crise, depressão, desemprego ou pode ter o olhar optimista, esperançoso... até atrevido.Pergunte-se: Ser animado, esperançoso, criativo, emocionado, crente e tantas outras coisas positivas nos dias de hoje não é quase uma afronta!?É isso, creio que este livro é isso uma afronta.Um espanta espíritos de espíritos maus, que pretende afastar a crise e dizer a todos que é possível avançar.

Daniel é um optimista. Acredita na felicidade. Tem sonhos e quer dar-lhes vida. Aliás quer voltar a ter a sua vida, sem esquecer que depende da vida dos outros. Como se o mundo fosse ainda mais reduzido que uma ervilha e a felicidade de qualquer um de nós interferisse na felicidade de todos.Será assim? Estaremos todos ligados? Se tecermos uma teia de ideias e energias positivas seremos todos mais felizes e optimistas!?

"(...) o verdadeiro budista é aquele que é capaz de eliminar do seu corpo qualquer tipo de desejo, seguindo a teoria de que é o desejo que nos torna infelizes. Eu disse-lhe que, por outro lado, é o desejo que faz de nós seres humanos. Ele respondeu:Eu não quero ser um ser humano. Quero ser feliz." (pág.197)

Infantil, pueril, inocente!? Talvez, mas não deixa de ter um toque mágico que coloca um certo sorriso no rosto.

Ao ir entrando na história eu queria sempre mais, como se o que se fosse passando não fosse suficiente, levando-me até a desgostar do livro, do enredo pouco célere, chegando a duvidar da esperança e positivismo do personagem. Arranjando-lhe um delírio qualquer, considerando que o seu amigo encarcerada seria um seu alter ego, onde arremessava todas as frustrações. Confesso, a certa parte este livros frustrou-me, experimentei com ele irritação. Havia ali uma certa pacificidade e passividade do protagonista que me dava urticaria.E no final, cheguei a pensar se o autor não queria exactamente isso. Provocar emoções nos leitores, talvez até mais do que só lerem e gostarem ou não da história.

"O que estás a ler?É um romance.E os jornais?Já não leio jornais. Já não leio nada que seja real.Porquê?Já sei como acaba.Como é que acaba?Não acaba bem." (pág.157)

Confesso que não sendo um dos meus favoritos, foi um livro que acompanhou algumas horas à conversa com amigos, debatendo não propriamente o livro ou o enredo, se era ou não verossímil, mas antes as questões que levantava. E isso é muito bom. Termos um livro em mãos que nos leva a dialogar, debater ideias e esquecer muitas das vezes do "nós" e parar para olhar o mundo envolvente.

As questões são pertinentes. Os problemas persistem e insistem para ter solução. A sociedade é posta em causa. Nós, como parte integrante somos postos em causa, ridicularizados. Não vejam de forma nefasta ou recriminatória, mas antes como uma segunda oportunidade. Será disso que este livro trata? Darmos a nós mesmos a oportunidade de termos oportunidade?!?

É saber dosear o Daniel que há em nós com o Almodôvar que também por cá habita.O diálogo, arrisco a dizer, imaginário no índice de 7.1, algures nas páginas 81 em diante tem um deles diálogos...

"(...) Uma casa? Para que queria eu uma casa? Quem foi o cabrão que inventou que precisamos de uma casa? Não admira que o mundo esteja a cair num buraco (...) metade do dinheiro do Planeta transformado em tijolo e betão. Quando é que nos tornámos tão fracos?(...)Os seres humanos sempre viveram em casas.Não estas casas. Aglomerados de casas.(...)E a electricidade. (...) Se tens um conflito com alguém, não compres uma arma (...) corta-lhe simplesmente a electricidade. (...) depois disso, morrerá devagar, de frio, de fome, de tédio.Não estás a ser justo Daniel. A electricidade dez o mundo andar para a frente, a vida dos seres humanos tornou-se mil vezes melhor (...)Vai-te foder, Almodôvar. (...) Um dia vamos ser todos alimentados a lasanha e mousse de chocolate pelas veias só para não termos de usar o maxilar (...)"

Conforto ou não, é curioso que o projecto destes amigos fosse dar um pouco de conforto a quem mais precisava dele. Altruísta ou salvação para quem ajuda!? Uma ideia para heróis simples e do dia a dia, tecendo diariamente a tal teia do positivismo e da felicidade de um para todos e de todos para um.

E só para terminar, não posso deixar de dizer que durante toda a leitura me ocorreu esta música:

http://www.youtube.com/watch?v=ETEVBrGZiHg

(...)
vivo do que me dão
nunca falto às aulas de esgrima
e todos os dias agradeço a deus
esta depressão que me anima
(...)
A Naifa

Deixem Falar as Pedras de David Machado

Roda Dos Livros, 26.10.14

Gosto de ler autores portugueses. Porque me surpreendem pela positiva cada vez mais.

David Machado jå me foi apresentado com o seu "Índice Médio de Felicidade". Sei que imaginação nao lhe falta! No entanto, creio que este livro superou ainda mais as minhas espectativas! Gostei que esta história me fosse apresentada por dois narradores completamente diferentes, um narrador por detrás de outro, por assim dizer.

Umas vezes é Valdemar a fazer esse papel. Conta-nos a sua história, tão profundamente ligada à história de seu avô. É um adolescente gordo e grande, apaixonado por Alice, uma vizinha e amiga que sofre de uma anorexia crescente. Valdemar toma como suas as dores do avô e vendo-o afastar-se para um mundo cada vez mais longe e que só a ele pertence, tenta, a todo o custo, ajudá-lo a não se perder nas memórias tão cruéis que transporta consigo. Nicolau Manuel, herói desventurado de uma época sombria do nosso país, é um homem marcado pelas inúmeras torturas e prisões que lhe vestiram a vida, e tem no seu neto um aliado fortíssimo.

E, se dúvidas houvesse em relação à capacidade quase sobre-humana deste ingénuo avô-herói, David Machado apresenta-nos outro narrador (ele próprio?) que questiona, que coloca hipóteses, dando-nos as respostas às dúvidas que vamos colocando interiormente, conduzindo-nos e guiando-nos na história.

Valdemar tenta recuperar as memórias do avô e para que fiquem nas memórias de outros escreve a sua história. História que se cruza com a História do nosso país e que é fruto de muitos desencontros e mal entendidos. História que retrata magnificamente a história de tantos portugueses que se viram, sem perceber bem porquê, dentro de celas minúsculas e sob tortura. Ao escrever as memórias do avô, Valdemar sente necessidade de utilizar na sua escrita, o mesmo utensílio que era usado antes da revolução dos cravos, a censura. E vai riscando, riscando, pedaços da história que ele próprio escreve. Não se espantem, por isso, ao encontrarem frases cortadas e riscadas. A compreensão do texto não sofre com essa censura, sendo perceptível tudo o que Valdemar nos quer contar. O mesmo não se pode dizer da vida de seu avô! A censura limita em tudo a vida de Nicolau Manuel. Tanto que chegamos a dúvidar que alguém, alguma vez, conseguisse suportar tamanha dor...

Recomendo muitíssimo!

Estrelas: 6*

Sinopse

No dia em que se ia casar, Nicolau Manuel foi levado pela Guarda para um interrogatório e já não voltou. Viveu, assim, quase toda a vida na urgência de contar a verdade a Graça dos Penedo, a noiva que mais tarde lhe seria arrebatada pelo alfaiate que lhe fizera o fato do casamento. Porém, sempre que se abria uma possibilidade, uma ameaça desviava-o dramaticamente do seu destino - e agora, meio século volvido, está velho de mais para querer mudar as coisas, gastando os dias com telenovelas. De tanto ter ouvido ao avô a sua história rocambolesca, Valdemar - um rapaz violento e obeso apaixonado pela vizinha anoréctica - não desistiu, mesmo assim, de fazer justiça por ele. E, ao encontrar casualmente a notícia da morte do alfaiate, sabe que chegou a hora de ir falar com a viúva: até porque essa será a única forma de resgatar Nicolau Manuel da modorra em que se deixou afundar.

Alternando a narrativa dos sucessivos infortúnios de Nicolau Manuel - que é também a história de Portugal sob a ditadura, com os seus enganos, perseguições e injustiças - com a de um adolescente que mantém um diário com numerosas passagens rasuradas como instrumento de luta contra o mundo -, Deixem Falar as Pedras é um romance maduro e fascinante sobre a transmissão das memórias de geração em geração, nunca isenta de cortes e acrescentos que fazem da verdade não o que aconteceu, mas o que recordamos.

 

 

Deixem Falar As Pedras - David Machado

Roda Dos Livros, 20.09.14

Valdemdeixemfalaraspedras_1300729477ar tem um diário. Um diário serve para se escrever livremente, sem filtros nem receios, porque não há público e, logo, não há censuras. E é isso que Valdemar faz, até ao dia em que, na qualidade de seu próprio público, começa a censurar-se a si mesmo, porque lhe parece que há coisas que não devem ser contadas.

Aquilo a que temos acesso ao abrir este livro é ao diário de Valdemar, já depois de revisto pelo seu autor/censor - o próprio Valdemar. O texto está, por isso, salpicado de grossos traços negros, que escondem as partes da narrativa que não devem ser narradas. Mesmo assim, o que resta é suficiente para nos fazer mergulhar nas várias histórias que daqui transbordam: a vida do próprio Valdemar, para começar, gordo e inadaptado, rebelde e violento, e ao mesmo tempo capaz de uma empatia enternecedora com o avô;  a vida da sua amiga Alice, anoréctica, complexada e promíscua; a vida do avô, absorvida através das histórias contadas por este, e constantemente desdobrada em versões mais e menos verdadeiras, cujos matizes vão das mentiras perfidamente inventadas pelos seus inimigos às ilusões criadas pelos efeitos de espelhos de uma memória já envelhecida; a vida do pai, figura de autoridade falhada que cai em trafulhices básicas na Internet e nunca consegue ganhar o respeito do filho; a vida da mãe, jornalista sempre ausente mas cuja presença nunca deixa de ser desejada. Tudo isto para quê? Para se construir uma soberba tese acerca do que é uma história e, mais importante ainda, do que é a verdade.

Uma história não existe se não houver palavras para contá-la. E a verdade não é um valor absoluto, pois até o facto mais simples pode gerar diferentes verdades, uma para cada pessoa que o tenha vivido. Estas duas conclusões são.nos gritadas recorrentemente ao longo do livro, e sobejamente ilustradas com  exemplos concretos. E acabamos por ser confrontados com a questão de um milhão de dólares: até onde valerá a pena lutar para contar uma história? Para fazer valer uma verdade sobre as outras? Onde se traça a linha entre o que deve ser contado e o que não deve?

Mas não é tudo. Para mim, existe ainda uma outra dimensão nesta obra, não menos importante e igualmente bela: esta é uma história sobre histórias, sobre verdades e mentiras, mas também sobre a liberdade. A busca constante dos homens (pelo menos de alguns homens) pela verdade não será, no fundo, apenas uma busca pela liberdade? Espera-se que a verdade liberte. Espera-se que, depois de tudo narrado e esclarecido, acabem as dores, as intrigas, os ressentimentos. E se assim não for? E se a preocupação constante em repor a verdade se tornar mais uma prisão, mais um obstáculo à liberdade? E se, uma vez feita a última narrativa, se verificar que o que se ganhou foi apenas, em vez da felicidade suprema, a triste consciência do tempo que se perdeu nessa luta? Terá valido a pena? E se não tiver valido, onde se deveria ter parado?

Tal como o Índice Médio de Felicidade, também este livro faz pensar. E faz continuar a pensar depois de acabada a viagem através das suas páginas. Viagem essa que, note-se, é agradável e divertida, porque David Machado escreve com ligeireza e humor, e com uma mestria inegável. Mas, enquanto nos distrai e diverte, vai lançando umas achas para a fogueira do debate... e elas lá ficam, incandescentes, à espera que as deixemos arder.

Excertos:

"O que é que pode haver melhor do que uma cicatriz para rematar uma história?" (pág. 69).

"Só quem viveu os acontecimentos pode falar deles; todos os outros, por muito que aquilo que digam se aproxime da verdade, teriam feito melhor em calar-se." (pág. 94).

"Eu era só um puto mas falava em pendurar toda a gente no colégio de cabeça para baixo e queria distância dos putos que andavam pelos corredores com um sorriso do tamanho de uma laranja, como se a vida fosse um lugar que não dá alternativa a não ser a felicidade. Eu não sabia muita coisa mas pelo menos sabia que não podia faciliar, que não podia baixar a cabeça. Rir estava fora de questão. Eu estava de vigia, atento. E mais ninguém estava atento. A Alice gostava disso."

(...)

"O meu avô era uma pedra. Depois de tanto tempo à espera, apenas vendo o mundo passar, o meu avô transformou-se numa pedra, incapaz de se mover, incapaz de falar." (pág. 230).

"A mentira não é o pior inimigo da verdade. A dúvida é que é. É a incerteza que arruína tudo, criando buracos nos quais existe espaço para todas as verdades, possíveis e aparentes. É esta a maldição da racional mente humana e da sua dita imaginação pródiga, capaz de promover todas as possibilidades para justificar um acontecimento, mesmo os maiores devaneios." (pág. 305).

Dom Quixote, 2011

Índice Médio de Felicidade - David Machado

Roda Dos Livros, 03.08.14

Índice Médio de FelicidadePor muito ler, pensava que conhecia muitos dos bons escritores e os respectivos livros que se encontravam facilmente disponíveis nas livrarias. Como membro da Roda dos Livros, descobri que não poderia estar mais equivocada, e nem ter sido mais presunçosa, porque tanto há para descobrir, principalmente novos e bons autores portugueses. Confesso, com algum embaraço, que ainda não me rendi completamente. Ainda assim, são cada vez mais os que ouso ler e aprecio bastante. Índice Médio de Felicidade aguardou muito tempo na estante que o lesse, mas tal como aventaram revelou-se uma leitura actual, pertinente e difícil, pelo muito que em si contem da real conjuntura económica.

Três amigos criaram um site que funcionava como uma rede social, sem sucesso, tal como eles, já que todos se distanciaram dos seus planos. Xavier, deprimida e sombria personagem, tinha um questionário com uma única questão:

- Numa escala de 0 a 10, quão satisfeito se sente com a vida no seu todo?

A partir daqui tudo se complica. Focado na demanda da felicidade como objectivo primordial do ser humano, esta é uma questão abrangente e complexa, que envolve tanta informação e emoção, que até para o leitor comum se torna perturbador. Equacionar a vontade de ser feliz e a esperança nos reveses da vida ou da sorte, quando relativizamos tudo, e não aceitamos menos e queremos sempre mais e até mesmo uma profissão nos define, leva a confrontar-nos com as nossas escolhas e valores numa obra de fição muito bem escrita e com um Daniel extraordinário.

Sinopse:

Daniel tinha um plano, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. Às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas, mas, ainda assim, a vida parecia fácil - e a felicidade também. De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a prestação da casa; a mulher, também desempregada, foi-se embora com os filhos à procura de melhores oportunidades; os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes: um, Xavier, está trancado em casa há doze anos, obcecado com as estatísticas e profundamente deprimido com o facto de o site que criaram para as pessoas se entreajudarem se ter revelado um completo fracasso; o outro, Almodôvar, foi preso numa tentativa desesperada de remendar a vida. Quando pensa nos seus filhos e no filho de Almodôvar, Daniel procura perceber que tipo de esperança resta às gerações que se lhe seguem. E não quer desistir. Apesar dos escombros em que se transformou a sua vida, a sua vontade de refazer tudo parece inabalável. Porque, sem futuro, o presente não faz sentido. 

Índice Médio de Felicidade - David Machado

Roda Dos Livros, 22.02.14

Índice Médio de Felicidade

Era uma vez três amigos. A crise destruiu-lhes as vidas. Dois sucumbiram. O outro não.

Daniel viu a sua vida colapsar. Daniel recusou-se a colapsar também.

A questão mais evidente levantada por este livro é até onde será razoável manter o optimismo. Daniel perde tudo - emprego, casa, família -, vê-se a viver em condições surreais e é-lhe oferecida uma possibilidade concreta de refazer a vida: sair de Lisboa, hospedar-se em casa dos sogros, que farão o favor de o receber, reunindo-se assim novamente à mulher e aos filhos, e viver do ordenado da mulher até arranjar trabalho. Mas Daniel acha que merece melhor. Não se conforma com a dependência da boa-vontade dos outros. É bom naquilo que faz e teima em esperar que surja a oportunidade que merece, de trabalhar na sua área e prover ao seu próprio sustento. Portanto, recusa. E, enquanto espera, vive como muito poucas pessoas aguentariam viver. Porque acredita firmemente que a oportunidade chegará.

Daniel pode ser visto como um obstinado irracional, desprovido da flexibilidade necessária para se adaptar a novas circunstâncias, ou como um modelo de resiliência em nome de um ideal. Seja como for, gera simpatia. É inevitável: quem se recusa a ceder à crueldade da vida, seja por estupidez ou por egoísmo, será sempre olhado com apreço... e alguma admiração.

Mas as questões levantadas não se ficam por aqui. A meu ver, uma das mais importantes é a do conflito entre as necessidades individuais e as alheias. Até determinado ponto, ninguém questiona que devemos tentar ajudar quem nos rodeia, mesmo que, para isso, tenhamos de alterar um pouco o nosso percurso. Mas haverá um limite? Haverá um ponto em que a racionalidade imponha que nos recusemos a ajudar outrem porque o custo pessoal dessa ajuda seria demasiado alto? E, em caso afirmativo, onde será aceitável traçar-se a fronteira?

E depois há o tema que dá o título ao livro: a felicidade poderá ser contabilizada? Medida? Calculada? Será possível sabermos em que grau somos felizes? Que factores deverão ser tidos em conta nesse cálculo? Será uma avaliação simples ou complexa? Devemos concluí-la num minuto ou depois de anos de estudo? E valerá a pena saber o resultado?

Todas estas questões são enquadradas numa narrativa agradável e fluida, feita na primeira pessoa pelo protagonista Daniel, que prende e cativa o leitor; há acontecimentos bizarros, desabafos, considerações cáusticas, reflexões surpreendentes. É impossível parar de ler. E, quando acaba, deixa saudades. Como acontece sempre com os bons livros.

Excertos:

"Daniel, a tua habilidade para resolveres qualquer questão através da esperança dá cabo de mim.

Foda-se, isto não é esperança. É ser exigente. Fazemos tudo certo, damos o nosso máximo, calculamos todos os passos, empregamos todo o esforço. O mínimo que podemos pedir é que a vida retribua.

Mas não vou matar-me a procurar explicações para o que aconteceu. Esse é o problema de toda a gente neste momento: as vidas que tinham desapareceram, as pessoas que eram já não existem, e ainda assim andam todas a lutar por ontem, sem saberem que ontem é uma coisa pela qual não vale a pena lutar em nenhuma circunstância. Por isso adiante." (pág. 77).

"Um dia vamos todos ser alimentados a lasanha e mousse de chocolate pelas veias só para não termos de usar o maxilar, só para que o nosso aparelho digestivo tenha algum descanso. És capaz de imaginar a aberração? Só que então alguém irá levantar-se e afirmar, no seu sorriso mais consolador: este novo método de abastecimento do corpo traduz-se numa inequívoca melhoria de vida. Um dia, a vida dos seres humanos irá resumir-se a um sono de cento e trinta anos, uma total ausência de actividade física, o conforto absoluto, se possível eliminaremos também os sonhos, não há nada que provoque tanta fadiga como sonhar, e o cérebro das pessoas ficará tão inerte quanto possível, talvez então sejamos completamente felizes." (págs. 82-83).

"Quando é que desistir se tornou aceitável? Nós éramos melhores do que isto, havia uma força imensa nos nossos espíritos, o lado físico das coisas não era suficiente para nos travar a vontade. Olha para nós agora. O problema já não é sequer andar cada um a lutar para seu lado. O problema é a quantidade de pessoas que já não lutam sequer." (pág. 124).

"Nunca será suficiente. Podemos sempre fazer mais. Sabemos que há pessoas a morrerem de fome, de doenças tratáveis com os medicamentos mais simples e banais, de frio, de calor, de angústia. Mas não fazemos nada. E eu digo-te: Porque é que não fazemos nada? Temos a nossa própria vida para viver. Isso não pode ser considerado uma coisa má." (pág. 177).

2013, Publicações Dom Quixote

Índice Médio de Felicidade - David Machado

Roda Dos Livros, 19.10.13

Índice Médio de FelicidadeExperimento emoções contraditórias em relação a este livro. Uma leitura que não me realizou a 100%. Escrito na primeira pessoa, lemos a voz de Daniel, um idealista optimista com uma tremenda fé no futuro.

Daniel começa por me irritar. A sua fixação no sucesso não é real, tanta vontade de vencer e certeza de concretizar objectivos passa a teimosia oca quando tudo vai desabando à sua volta. Perde o emprego, perde a casa, separa-se da família, e continua plenamente confiante no sucesso que escreveu num caderno há muitos anos. Credível é ter sonhos, verosímil é ser determinado, inteligente é encontrar um plano alternativo.

Mais um livro sobre a crise, sobre a injustiça e o desemprego, sobre uma juventude capaz e competente que perde emprego qualificado e acha uma sorte conseguir trabalhar a fazer entregas. Daniel é salvo pela determinação e pela sorte, assim pensa ele, mas a sorte é aleatória, não depende da determinação. A sua revolta é demonstrada pelo uso abusivo de palavrões, que achei excessivo e me desagradou; haveria outras formas de expressar a angústia da personagem.

Daniel é “Amanhã o sol volta a nascer” levado ao extremo. É convicto que tudo pode resultar e que os seus intentos serão concretizados. Pode o sonho justificar essa tenacidade? Esse investimento na incerteza? A fé cega?

Foi esta dualidade que me manteve nesta leitura. Tentei gerir o conflito que senti pelas atitudes irracionais de Daniel, com a luz do sonho que o orienta. A utopia de que há reviravoltas, que a sorte, o destino ou o que seja cumpre a sua função de colocar de novo a vida sobre carris.

Um livro que não me convenceu verdadeiramente mas que vale pelo conflito em que me colocou e pela discussão que pode iniciar. Composto de contrastes. Não se consegue ficar indiferente.

Uma leitura que leva a uma reflexão sobre a felicidade e que, provavelmente, me fez incluir mais variáveis nos meus cálculos pessoais. Na certeza de que o meu índice médio de felicidade não é o mesmo na primeira e na última página.

“Foi isso, essa falta de futuro, que me assustou. Como é que ele consegue não pensar no futuro? Como é que amanhã, ou no mês que vem, ou daqui a dez anos não lhe pesa no espírito? Como é que uma pessoa pode acordar todas as manhãs e não sentir qualquer esperança ou receio daquilo que está para acontecer? Eu não sabia falar com uma pessoa assim.” (Pág. 17)

“Não tive medo. Lembro-me disso. Repara, eu tinha o futuro escrito num caderno, li-o dezenas de vezes, estudei-o, pensei-o, as palavras assumiram uma solidez dentro de mim, quase um instinto, a minha certeza em relação àquilo que estava para acontecer era inabalável.” (Pág. 49)

“O que é que estás a ler?

É um romance.

E os jornais?

Já não leio jornais. Já não leio nada que seja real.

Porquê?

Já sei como acaba.

Como é que acaba?

Não acaba bem.” (Pág. 157)

“Havia tanta coisa para fazer, tantos lugares onde estar, tanta vontade para consolar, mas andamos a gastar os dias uns dos outros, por não sabemos tomar conta de nós próprios, não sabemos fazer o que é exigido de nós e continuar em frente quando nos perdemos no caminho que seguíamos, e então contamos que alguém apareça, que nos dê a mão, ou o braço, ou a vida. Eu não que ajudar ninguém e também não quero ser ajudado.” (Pág. 213)

Sinopse

“Daniel tinha um plano, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. Às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas, mas, ainda assim, a vida parecia fácil - e a felicidade também. De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a prestação da casa; a mulher, também desempregada, foi-se embora com os filhos à procura de melhores oportunidades; os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes: um, Xavier, está trancado em casa há doze anos, obcecado com as estatísticas e profundamente deprimido com o facto de o site que criaram para as pessoas se entreajudarem se ter revelado um completo fracasso; o outro, Almodôvar, foi preso numa tentativa desesperada de remendar a vida. Quando pensa nos seus filhos e no filho de Almodôvar, Daniel procura perceber que tipo de esperança resta às gerações que se lhe seguem. E não quer desistir. Apesar dos escombros em que se transformou a sua vida, a sua vontade de refazer tudo parece inabalável. Porque, sem futuro, o presente não faz sentido.Índice Médio de Felicidade é um romance admirável e extremamente actual sobre um optimista que luta até ao fim pela sua vida e pela felicidade daqueles que ama. Dramático e realista, mas com momentos hilariantes, confirma o talento de David Machado como um dos melhores ficcionistas da sua geração.”

D. Quixote, 2013

"Índice Médio de Felicidade" de David Machado

Roda Dos Livros, 16.10.13

Mal acabei de ler este livro surgiu uma pergunta dentro de mim: "Será que este autor tem outros livros?"Depois de pesquisar um pouco, reparei na sinopse e na capa do "Deixem falar as Pedras" que vou querer ler em breve... Mas voltemos ao Índice Médio de Felicidade: gostei muito desta leitura. Rapidamente entrei na história e criei empatia com o personagem principal, Daniel. A escrita do autor é clara, límpida, com poucos floreados. Como gosto. As palavras aparecem no lugar certo. Algumas, mais rudes, também. Não me feriram. Achei que pertenciam à história, que estavam bem situados. No contexto certo.A história relatada poder-se-ia passar com qualquer um de nós. Cenas fortes, duras. Às vezes a vida é madrasta e prega-nos partidas com as quais não contamos... Daniel viu-se, como tantos nós hoje em dia, sem emprego e, mais tarde, sem casa. Com família. Sempre acreditando que vai ultrapassar tudo. E escreve para um amigo de há longos anos, que se encontra preso, contando, acusando, relembrando. A trama urdida pelo escritor envolve com mestria, Daniel, seus amigos próximos e sua família. O texto possui intensos e emotivos diálogos que nos envolvem na história, nos prendem e que descrevem com autenticidade aspectos do nosso Portugal de hoje.Gostei do final. Não vos conto, fica para vocês apreciarem. Como eu fiz. Recomendadíssimo! Um daqueles livros que gostaríamos de ter sido nós a escrever...

Terminado em 13 de Outubro de 2013

Estrelas: 6*

SinopseDaniel tinha um plano, uma espécie de diário do futuro, escrito num caderno. Às vezes voltava atrás para corrigir pequenas coisas, mas, ainda assim, a vida parecia fácil - e a felicidade também. De repente, porém, tudo se complicou: Portugal entrou em colapso e Daniel perdeu o emprego, deixando de poder pagar a prestação da casa; a mulher, também desempregada, foi-se embora com os filhos à procura de melhores oportunidades; os seus dois melhores amigos encontram-se ausentes: um, Xavier, está trancado em casa há doze anos, obcecado com as estatísticas e profundamente deprimido com o facto de o site que criaram para as pessoas se entreajudarem se ter revelado um completo fracasso; o outro, Almodôvar, foi preso numa tentativa desesperada de remendar a vida. Quando pensa nos seus filhos e no filho de Almodôvar, Daniel procura perceber que tipo de esperança resta às gerações que se lhe seguem. E não quer desistir. Apesar dos escombros em que se transformou a sua vida, a sua vontade de refazer tudo parece inabalável. Porque, sem futuro, o presente não faz sentido.Índice Médio de Felicidade é um romance admirável e extremamente actual sobre um optimista que luta até ao fim pela sua vida e pela felicidade daqueles que ama. Dramático e realista, mas com momentos hilariantes, confirma o talento de David Machado como um dos melhores ficcionistas da sua geração.