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Roda Dos Livros

"A vida em surdina" de David Lodge

Roda Dos Livros, 08.08.13

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Atenção: Este artigo desvenda alguns aspectos da história do livro passíveis de prejudicar o prazer da sua eventual leitura futura

Não consigo evitar uma certa tristeza quando chego ao fim de um livro altamente recomendado com a sensação de que este ficou aquém das minhas expectativas. Pior ainda, tratando-se de uma obra que tem rodado por vários membros desta Roda dos Livros e sobre a qual foram já publicados neste blog nada mais, nada menos, do que 4 opiniões favoráveis. Pois bem, a quinta opinião é de natureza oposta. Inicialmente a leitura de “A vida em surdina” progrediu com certo agrado, embora sem entusiasmo, sobretudo devido às peripécias trágico-cómicas associadas à surdez do seu protagonista. Contudo, à medida que a narrativa avançava, comecei a ser assolada por uma sensação de incompletude, de que algo lhe faltava para ser um livro realmente cativante. Esperava muito mais da interacção entre Desmond e Alex Bloom. Afinal, esta revelou-se uma sucessão de lugares-comuns amplamente disseminados tanto na literatura como nas séries televisivas e mesmo no cinema. Nem sequer assumiu muita importância no desenrolar da história, ao contrário do que prometia a sinopse. Mas o que mais me desagradou foi a introdução, a meu ver forçada e completamente inusitada, duma ida de Desmond à Polónia e da sua subsequente visita a Auschwitz. A analogia feita pelo autor entre a morte das pessoas enviadas para esse campo de extermínio nazi e a eutanásia da primeira esposa do protagonista que se encontrava no estado terminal de um cancro pareceu-me de muito mau gosto. Não são de modo algum situações comparáveis e as questões éticas que levantam são de índole totalmente diversa. Creio que todos os seres humanos (e não só) têm um direito inalienável à dignidade, tanto na vida como na morte. Na sua tremenda massificação, a atroz indignidade das mortes das vítimas do holocausto judeu nada tem a ver com as circunstâncias de alguém que se vê perante a terrível escolha de preferir morrer em vez de prolongar um simulacro de vida desprovida de dignidade. Ficou-me a sensação de que o editor, pressentindo que faltaria espectacularidade à história, terá pedido ao autor para arranjar forma de incluir nesta algo passível de causar grande impacto nos potenciais leitores. Daí o aparecimento, no final do livro, destes aspectos “caídos de pára-quedas” e desgarrados do resto. Por fim, e mudando de tom, não posso deixar de salientar o excelente trabalho de tradução, evidenciado de modo muito especial, nas “conversas de surdos”.

A Vida em Surdina - David Lodge

Roda Dos Livros, 09.06.13
A vida em surdina

O personagem principal e narrador deste livro, Desmond Bates, é uma personagem complexa, com uma cultura acima da média, Professor universitário de linguística recém-reformado, homem de família no seu segundo casamento e, acima de tudo, possuidor de uma mente lúcida e de um sentido de humor agudo e contagiante. A sua decisão de escrever uma espécie de diário, onde regista os acontecimentos que marcam os seus dias e as reflexões que os mesmos lhe suscitam, é quase um recurso terapêutico, uma forma de racionalizar e dissecar as mudanças que a sua vida tranquila sofre em consequência das crescentes dificuldades auditivas que o afligem e da reforma a que essas mesmas limitações quase o obrigaram.

A prosa começa em tom ligeiro, provocando mesmo ataques de riso ao descrever, com um apuro tragicómico, os obstáculos levantados pela surdez a um comportamento social adequado. No entanto, logo aí, por muito que o estilo peculiar deste autor nos cative e divirta, não podemos deixar de intuir uma seriedade subjacente, uma espécie de subtexto mais grave sobre a intensidade dramática de que se revestem, para o protagonista, os incidentes aparentemente inócuos que nos são relatados de forma tão jocosa. Simpatizamos de imediato com Desmond, que, além de nos fazer rir, nos desperta empatia ao admitir-se envergonhado, receoso e até um pouco deprimido por ficar mal visto ao não conseguir acompanhar conversas na totalidade e por se aperceber da exasperação que provoca em quem com ele convive. Ao longo do livro, essa empatia aumenta gradualmente: a clareza de raciocínio de Desmond, o seu sentido crítico aplicado a pormenores do dia-a-dia que reconhecemos das nossas próprias vidas, a sua desaprovação irresistivelmente lógica de pequenos detalhes que, instintivamente, sabemos que nos provocariam uma reacção semelhante, fazem com que nos identifiquemos muito mais com ele do que seria previsível.

Como seria de esperar de um linguista, Desmond usa, no seu "diário", vários artifícios estilísticos. A alternância entre a primeira e a terceira pessoa é a mais evidente, sendo a terceira pessoa usada como forma de distanciamento de acontecimentos traumatizantes. No entanto, com a intensificação progressiva do conteúdo narrado, as preocupações formais assumem uma relevância cada vez menor, acabando por ser postas de lado em favor de uma catarse cada vez mais envolvente.

À medida que a história progride, o elemento dramático e intimista vai-se intensificando. A relação de Desmond com o pai é o espelho dessa evolução: c0meçando por episódios tristemente engraçados, onde, através de situações levemente ridículas, nos é transmitida a dificuldade de comunicação com uma pessoa idosa, obstinada, voluntariosa e também um pouco surda, as descrições de Desmond tornam-se depois mais e mais pungentes, à medida que a saúde do pai se deteriora e a transitoriedade de tudo o que compõe uma vida surge cada vez com mais clareza.

Por fim, a visita de Desmond a Auschwitz e os paralelismos que se estabelecem na sua mente entre aquilo que aí viu e diversos aspectos da sua própria vida fornecem uma conclusão exímia a uma história magistralmente contada. É impossível não se dedicar algum tempo a digerir este livro depois de o terminar. As questões que levanta e a candura com que são tratadas deixam-nos entregues às nossas próprias reflexões.

Excertos:

"Os cegos têm páthos. As pessoas que vêem bem encaram os cegos com compaixão, desviam-se do seu caminho e fazem de tudo para os socorrer, ajudam-nos a atravessar estradas movimentadas, avisam-nos da presença de obstáculos, afagam os seus cães-guia. Os cães, as bengalas brancas, os óculos escuros, são sinais visíveis do mal que os aflige e suscitam uma onda imediata de solidariedade. Nós, os moucos, não temos nenhum sinal de alerta que instigue compaixão. As nossas próteses auditivas são praticamente invisíveis e não temos nenhum aninal querido a tomar conta de nós. (Qual seria o equivalente de um cão-guia para os surdos? Um papagaio ao ombro a guinchar-nos ao ouvido?) As pessoas que não nos conhecem só se apercebem de que somos surdos depois de passarem vários minutos a tentar comunicar connosco em vão, e quando isso acontece, o sentimento que as assola é de irritação e não de dó. «Não amaldiçoarás o surdo, nem porás tropeço diante do cego», diz a Bíblia (Levítico, 19:14). Bom, só um sádico pregaria uma rasteira a um cego, mas até a Fred solta um »Porra!» de vez em quando, quando não consegue comunicar comigo. Há profetas e videntes cegos - Tirésias, por exemplo -, mas nunca surdos. Imaginem o que seria fazerem uma pergunta à Sibila e levarem com a resposta: «O quê? O que é que disse?» (págs. 21-22).

"O incidente provocou em mim uma daquelas minhas crises de «onde é que este mundo vai parar», crises essas a que sou cada vez mais propenso e que são suscitadas por fenómenos como o Big Brother, a utilização de palavrões num jornal como o Guardian, anéis vibradores para o pénis à venda em qualquer farmácia, gente completamente bêbada a vomitar no centro da cidade ao sábado à noite e quimioterapia para cães e gatos. De certo modo, é mais fácil concentrar a raiva e o desespero nestes pequenos delitos, comparativamente triviais, que atentam contra o bom-senso e os bons costumes, do que nas grandes ameaças que pairam sobre a civilização, como o terrorismo islâmico, o conflito israelo-palestiniano, o Iraque, a sida, a crise energética e o aquecimento global, que parecem impossíveis de controlar, seja por quem for. Acho que nunca me senti tão pessimista como hoje em relação ao futuro da raça humana, nem sequer no auge da Guerra Fria, porque agora há tantas mais maneiras possíveis de a civilização acabar em catástrofe, e ainda por cima a curto prazo. Provavelmente não durante o meu tempo de vida, mas possivelmente durante o tempo de vida do filho que a Anne tem na barriga." (págs. 123-124).

"Qual é a explicação para esta praga do Natal que brota em toda a parte? Quando eu era miúdo, o dia de Natal era feriado e depois a vida voltava ao normal, mas agora o Natal prolonga-se sem interrupções até ao fim de ano, uma festividade ainda mais sem sentido, o que significa que o país inteiro fica paralisado durante pelo menos dez dias, estupidificado por ter bebido demais, dispéptico por ter comido demais, falido por ter gasto demais em prendas inúteis, entediado e irritadiço por ter estado trancado em casa com familiares chatos e crianças rabugentas, e com os olhos com a forma do ecrã de tanto ver filmes antigos na televisão. É a pior altura do ano para se ter umas férias prolongadas à força, sendo as condições meteorológicas mais tristes que nunca e estando as horas de luz solar reduzidas ao mínimo. O Scrooge é o meu herói - isto é, o incorrigível Scrooge da primeira parte de Um Conto de Natal. «Pff, que disparate!» Ele tinha toda a razão. Que pena ele ter mudado de ideias. (pág. 170).

"Os acontecimentos destes últimos dois meses não param de provocar em minm ecos e referências cruzadas como essa: a vela votiva a tremeluzir na escuridão, no cascalho do crematório de Auschwitz, e a luz nocturna que pus na mesinha-de-cabeceira da Maisie, quando ela adormeceu para sempre; pijamas hospitalares e uniformes prisionais às riscas; a imagem do corpo nu e enfraquecido do meu pai no colchão do hospital, quando ajudei a lavá-lo, e as fotografias granitadas de cadáveres nus amontoados nos campos da morte. Foi uma espécie de educação para mim, a experiência destas últimas semanas. «A surdez é cómica, a cegueira é trágica», escrevi eu no início deste diário, e fiz variações com base na proximidade fonética entre deafdead, «surdo» e «morto», mas agora parece-me mais importante dizer que a surdez é cómica, e a morte, trágica, porque é definitiva, inevitável e inescrutável. Como disse Wittgenstein: «A morte não é um acontecimento da vida.» Não podemos vivê-la, podemos apenas vê-la acontecer aos outros, com diferentes graus de compaixão e medo, sabendo que um dia teremos o mesmo destino. (pág. 331).

A vida em surdina - David Lodge

Roda Dos Livros, 05.05.13
A vida em surdina

Este romance despertou-me a atenção durante o nosso encontro na Roda dos Livros. Nada sabia mas fiquei intrigada e na expectativa de o ler. Agora não posso deixar de compartilhar as boas opiniões sobre a estória de Desmond Bates e a sua perspectiva da vida em surdina.

"(...) uma espécie de diário, ou notas para uma autobiografia, ou porventura uma simples terapia ocupacional." (pag.49),  que Desmond Bates iniciou em 1 de Novembro de 2006 até 8 de Março de 2007 em que escrevia sobre tudo o que de mais relevante lhe acontecia e onde a privação da audição lhe deixou sensações e percepções distintas na relação com os outros e na gestão corrente da sua vida. Esta característica humaniza a personagem e o seu acutilante sentido critico dá-lhe uma dimensão trágico-cómica em que todos são visados, incluindo ele próprio.  

Inserido numa família alargada com um segundo casamento temos várias personagens mas duas destacam-se - o pai e Fred, a mulher. Personalidades diferenciadas que o autor bem caracteriza como antagónicas. Enquanto o pai, mais emocional e menos racional com a degradação física e mental, resultado da avançada idade, Fred, mais racional e menos emocional com a certeza das suas convicções e no auge das suas forças. E ainda uma contraditória e perturbada personagem fora da teia familiar - Alex Loom,  e sua tese de doutoramento sobre bilhetes de suicídio. Todo um cenário ora arrepiante, ora hilariante na conjugação de afectos.

Romance equilibrado e profundo, maduro até, provoca variadíssimas emoções numa escrita ritmada e ponderada. Surpreendentemente bem contado para quem como eu nada lera do autor. 

"Já se disse vezes de sobra que não há palavras adequadas para exprimir o horror do que aconteceu em Auschwitz e noutros campos de extermínio, cujos vestígios os nazis em retirada apagaram com mais cuidado.  Também não há pensamentos adequados, nem respostas emocionais adequadas, para o visitante que na vida nunca passou por nada de minimamente comparável aquilo. Sente-se compaixão como é óbvio, e mágoa, e raiva, mas esses sentimentos parecem tão supérfluos perante a imensidão do sofrimento que este lugar evoca, como lágrimas vertidas num oceano. " (pag.293)

Sinopse:

Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.

A Vida em Surdina - David Lodge

Roda Dos Livros, 17.03.13

250_9789892304762_a_vida_em_surdina_254Tinha lido dois livros de David Lodge (Pensamentos Secretos e Longe do Abrigo) antes deste “A Vida em Surdina”. É sem dúvida um autor que já me tinha cativado e agora, depois desta recente leitura, fiquei ainda com mais vontade de conhecer outros livros dele.

Confesso que as minhas expectativas eram altas pois já diversas pessoas comentaram este livro de forma muito positiva.

“A Vida em Surdina” é o diário de Desmond Bates. Desmond vem perdendo a audição desde há alguns anos; este livro é no fundo um conjunto de reflexões sobre os seus dias e a sua percepção da vida. Tudo é alvo de dissertação, qualquer situação da vida quotidiana é esmiuçada ao detalhe, sempre com um sentido de humor muito próprio do autor, eu diria que são uns rasgos de uma deliciosa ironia aplicada a tudo, desde a família, o Natal, e principalmente à sua situação de “quase” surdo, bem como à forma como a sua condição pode levar a situações perfeitamente hilariantes e, ao mesmo tempo tristes. Parafraseando o autor: “A surdez é cómica, a cegueira é trágica”.

Este livro tocou-me muito, a principal razão deve-se ao facto de se tratar de um livro em parte autobiográfico, pois David Lodge sofre de perda de audição. Esta situação acaba por transmitir ao leitor o peso da verdade em quase tudo o que lê. Imaginamos as cenas de todas as dificuldades de comunicação e suas consequências como verdadeiras, e provavelmente são situações que aconteceram mesmo. David Lodge consegue fazer rir com descrições de cenas que por um lado podemos achar patetas, como os diálogos entre Desmond e o pai (que também é surdo), e emocionar com as suas reflexões sobre essas situações, a forma como expõe os seus sentimentos é de facto tocante.

O livro está repleto de trocadilhos divertidos, não só a exemplificar as dificuldades de percepção de Desmond e a forma como uma frase pode passar a ter um sentido completamente diferente, mas também de forma intencional em notas de humor muito característico. Imagino que estes trocadilhos não tenham facilitado o trabalho da tradutora. Através das diversas notas de rodapé, e dado que a nossa língua tem características gramaticais tão diferentes da Inglesa, penso que o sentido das frases chega intacto aos leitores portugueses. A maioria dos livros que leio são traduzidos, por vezes surge a dúvida se a tradução espelha efectivamente o que o autor escreveu, e reflicto na importância da tradução na transmissão da mensagem. Na minha opinião de simples leitora, e não tendo lido o original, parece-me estar na presença de uma boa tradução. Os meus parabéns à Tânia Ganho.

“A Vida em Surdina” é um livro excelente que recomendo sem qualquer reserva. Deu-me um imenso prazer ler cada página, pensar sobre as situações da vida de um homem que podia ser qualquer de nós, com as suas dificuldades e formas de as ultrapassar. As dúvidas, receios e inseguranças de Desmond dão-lhe uma humanidade com que depressa nos identificamos, ficamos solidários e, acima de tudo, muito emocionados.

Sinopse

“Quando decide pedir a reforma antecipada, o professor universitário Desmond Bates nunca pensou vir a sentir saudades da azáfama das aulas. A verdade é que a monotonia do dia-a-dia não o satisfaz. Para tal contribui também o facto de a carreira da sua mulher, Winifred, ir de vento em popa, reduzindo o papel de Desmond ao de mero acompanhante e dono de casa. Mas o que o aborrece verdadeiramente é a sua crescente perda de audição, fonte constante de atrito doméstico e constrangimento social. Desmond apercebe-se de que, na imaginação das pessoas, a surdez é cómica, enquanto a cegueira é trágica, mas para o surdo é tudo menos uma brincadeira. Contudo, vai ser a sua surdez que o levará a envolver-se, inadvertidamente, com uma jovem cujo comportamento imprevisível e irresponsável ameaça desestabilizar por completo a sua vida.”

Asa, 2009