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Roda Dos Livros

Adoração - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 11.12.16

adoracaoDepois de Os Olhos de Tirésias, uma das minhas melhores leituras de 2015, Adoração esperava-me com elevada expectativa. O desejo de voltar a uma narrativa envolvente, e a um estilo literário que eu já colocara (bem) acima da média era enorme. É fácil, como nós leitores bem sabemos, esta ser uma premissa para a desilusão. E, por isso, iniciei a leitura com cautela, embora sinceramente esperasse nada menos do que uma superação do livro anterior.

Gostei bastante deste Adoração. Revela uma evolução e um nível de maturidade literária que me surpreendeu. Cristina Drios evoluiu de modo colossal, fazendo-me emaranhar de prazer nas frases cuidadas, apreciando as palavras escolhidas com esmero. Um deleite, só vos digo, o que foi ler este livro lentamente, saboreando a linguagem cuidada e o vocabulário rico, contudo bastante acessível. Uma escrita palavrosa, porém, descomplicada. Sem definições desconhecidas ou termos complexos. Nada presunçoso, porém, erudito. Ou a caminho disso, digo eu.

A história é excepcional e merece que a descubram. Não me perderei em considerações sobre o enredo ou as personagens, pois admito que Adoração me encantou sobretudo pela escrita. Além disso é uma história misteriosa, não se encaixará exactamente no rótulo do policial, apesar de começar com um crime. Também não sei se será um romance histórico, dado que uma parte acontece num passado muito recente. É um romance cheio de segredos, com cadência ponderada. Um livro pensado. Muito bem pensado. Deixo-vos a sinopse para se entusiasmarem.

Agradeço à Cristina ter-me tirado da ignorância no que toca a Caravaggio e ao seu percurso, que conhecia de forma muito superficial. A internet ajudou-me a ver a luz na escuridão dos seus trabalhos. Fica o desejo de me maravilhar “olhos nos olhos”.

Gostei imenso, recomendo sem reservas, mas não posso deixar de admitir que a trama de Os Olhos de Tirésias me marcou de modo diferente e especial.

Sinopse

“Descrito pelo duque de Nottetempo, seu contemporâneo, como «um brigão, um arruaceiro», o pintor Caravaggio passou uma curta temporada na Sicília em 1609, aguardando o indulto papal para um crime de sangue que cometera em Roma. Nesse período, pintou uma tela que ficaria conhecida por A Adoração e que esteve no Oratório de S. Lourenço, em Palermo, até ser roubada em 1969, ano em que nasceria Antonia Rei.É essa mesma Antonia que, em 1992, testemunha um homicídio perpetrado pela máfia numa praça da cidade, onde é interrogada pelo comissário Salvatore Amato, que acaba por contactar alguns dias mais tarde. Mas não é curiosamente sobre o assassínio que lhe quer falar, antes sobre o roubo do famoso quadro. Oscilando entre épocas afastadas no tempo, entre a história fascinante da pintura d’A Adoração e a da investigação de Salvatore Amato num dos mais violentos períodos da acção da máfia, este romance recorre aos jogos de espelhos que Caravaggio usava nas suas pinturas para atrair ao mesmo vórtice de luz e trevas as vidas de um leque de personagens cativantes, mortas ou vivas, mas todas misteriosamente condenadas ao desencontro.”

Teorema, 2016

«A ADORAÇÃO» de Cristina Drios :: Opinião

Roda Dos Livros, 21.10.16

adoracao"O pintor fora sempre um obcecado perfeccionista e nada nos seus quadros se devia ao acaso (...) O erro, portanto, fora propositado, de tal modo era flagrante. Salvatorre Amato detectaria esse erro (...)

N' A Adoração, José é esse anacronismo. José somos todos nós quando certo dia, por egoísmo, negligência ou desatenção, desviamos o olhar daquilo que amamos."

As reminiscências atacam os personagens deste livro com a mesma força que o negro povoa os quadros desse tal Caravaggio, elemento de adoração neste relato precioso, cuidado, esmerado, sentido, tal como tudo o que aqui é descrito ou vivido. Aquilo que aqui se ama, se por momentos cai em desatenção, com maior apego e arte é repuxado para a realidade, alimentando esse temível compasso de solidão.

"As pessoas, todas as pessoas - sublinhou -, são capazes de coisas muito excêntricas. Soturnas. Ou terríveis. Sobretudo quando são presas desse estado, não, corrijo, desse movimento, dessa tortura e dessa magnanimidade que é o adorar algo ou alguém."

Presos desse estado de adoração, devotos a uma enorme condescendência, encontramos as personagens deste enredo, separado por séculos, mas unidos pela procura da beleza, da verdade, do amor, mas também da desilusão, da mágoa e dessa tal desatenção momentânea que é capaz de torturar um homem e alterar-lhe o rumos dos seus dias finais.

Dito desta forma fatalista parece que estamos perante um romance clássico e de argumento já gasto, mas não, as palavras aqui oferecidas e as personagens que as trazem, carregam como que uma assinatura que se empoleira no mesmo beiral de onde, boquiabertos, contemplamos os recantos que visitamos em Itália, recheados de história, enigmas e aventuras que desabam em cabeças criativas, como a da autora, capaz de enfeitiçar o leitor.

"(...) falando um dialecto tão poético como as cúpulas e as arcadas das igrejas e dos palácios das cidades sicilianas (...)"

Depois de «Os olhos de Tirésias», Cristina Drios fez o leitor esperar, mas trouxe-lhe agora uma natividade, "(...) portanto, cabe nela toda a esperança, todo o amor, toda a fé na salvação." A ela mesma, concedemos-lhe o devido indulto pela demora que tomou, outra forma de espera, a da própria adoração.

"E, enquanto esperei, nada fiz, se é que a espera não é em si mesma um laborioso fazer."

"Adoração" de Cristina Drios

Roda Dos Livros, 06.10.16

   adoracao

“(…) nessas catorze majestades, que combinam o raro prodígio das trevas de que são feitas com a paz que a sua contemplação oferece, como se a precipitação de toda a angústia que cabe no coração de um homem tivesse como resultado a conquista da felicidade por parte de quem a contempla. (...) O que pintou Rothko em The Houston Chapel? Talvez os mistérios de um deus severo: a dor psíquica transmutada em beleza.”

Ricardo Menéndez Salmón in “A Luz é Mais Antiga que o Amor”

Primeiras impressões: palavras iluminando uma primeira página, engendrando desde logo o encantamento, e uma capa belíssima. Superficialidades, talvez. Ou talvez não. “Chiaroscuro”; a escuridão parindo luz. Luz apartando a escuridão. A técnica do mestre Caravaggio parece a metáfora perfeita para ilustrar o ser humano em todo o seu esplendor e em toda a sua miséria; a luta intestina e interminável dos impulsos, dos desejos, das emoções e das razões. Cristina Drios conduz-nos de forma exímia pelos meandros de uma narrativa imaginativa dividida em três tempos diferentes, feita de segredos inconfessáveis, de mistérios adensando-se em frases perfeitas. Amiúde, passagens de uma beleza e de uma lucidez espantosas, espelhos reflectindo as profundezas da essência humana, contrapartida escrita das imagens excessivas, tremendas, atrozmente belas pintadas pelo mestre italiano. Não vou aqui esmiuçar detalhes da história, isso seria estragar o prazer da leitura a potenciais leitores. Digo apenas que li este romance rapidamente por ter sido difícil lê-lo mais devagar, porque não me apetecia deixar as suas páginas preenchidas pela luz das palavras da Cristina e porque tinha de saber como é que tudo aquilo se resolveria no fim. O resultado disto é que me vejo a reler este “Adoração” um qualquer destes dias para poder saboreá-lo com mais calma e assim prolongar o prazer da leitura em redor da jovem siciliana do final do século XX que descobre um facto terrível, do fantástico Duque de Nottempo, obcecado com a obra de Caravaggio, e da mulher encurralada numa gaiola dourada. Não vale a pena dizer mais nada. A não ser que este “Adoração” merece, sem dúvida, ser lido. Muito mais do que estas impressões apressadas de uma leitora impaciente. Apenas uma achega, caso não conheçam a obra de Caravaggio procurem umas imagens e contemplem-nas. Assim, este texto fará, talvez, algum sentido.

Excertos:

“Quando as ruas se estreitaram num emaranhado confuso, pendiam, de cada lado, edifícios oitocentistas, velhas senhoras aristocráticas que havia muito tinham penhorado as jóias mas que apesar dos vestidos coçados e da pele enrugada no pescoço, esticavam a cabeça com orgulho. Os pombos compraziam-se em fazer-lhes ninhos nos bigudis enquanto o sol espreitava pelas nesgas das claraboias partidas. Nesses palácios escalavrados viviam agora famílias numerosas. Ocupavam os pisos até às águas-furtadas, as varandas e os passeios com a vozearia e a roupa batida a vento nos estendais. Os velhos passavam os dias a jogar dominó e a dormitar estendidos nas lonas das cadeiras, revezando-se nessas tarefas cansativas, enquanto as crianças corriam atrás de uma bola, entre duas balizas que eram muitas vezes as pernas dos avós. Enquanto isso, as mulheres lavavam e estendiam a roupa, conversavam entre elas do terceiro andar para o rés-do-chão, acendiam o lume no fogareiro e ralhavam ao mesmo tempo com os velhos e as crianças.”

“Ao contrário do que acontece com outras obras, não somos nós que olhamos, são as personagens que nos olham. Admirai uma dessas telas e vereis que sois observado, de outra dimensão, ao mesmo tempo íntima e intangível, porque, na verdade, descobrireis que é aí, no território da genialidade e do fracasso, que Deus espreita. Quanto a mim, Matteo Mattei, duque de Nottetempo, não terei o perdão de Deus nem o dos homens: sou apenas mais uma obra do primeiro, rudimentar e imperfeita, que nada deixa aos segundos.”

“Dizeis que amais a arte, a pintura e a música, a representação e a dança, e porém tudo isso visto de perto é tão insípido como um gole de água morna ou um insecto esmagado. Preferis sangue, suor, lágrimas e dor aos risos, à alegria e à inocência. Achais que o sublime não chega ao pé do espectáculo do escabroso humano. Porque, como eu, sois feitos por dentro de vísceras mais do que sinceridade, de carne mais do que castidade e de sangue mais do que pureza. Na verdade sois feitos daquilo que o Caravaggio nos seus quadros pinta, sois feito de luz e sombra, de vida e de morte, de culpa e perdão.”

“Nunca se sabe o que pode subir à superfície quando se remexe no lodo de águas paradas: nada há mais perigosamente traiçoeiro do que o socrático “conhece-te a ti mesmo”. Deixai-vos, pois, ficar a boiar no conforto da superfície de vós mesmos. Não queirais saber qual é a criatura ignóbil, o pequeno monstro, que provavelmente se vos deparará quando imprudentemente abrirdes a vossa própria caixa de Pandora.”

“Para pintar o ser humano é preciso conhecê-lo. (...) Há que conhecê-los vivos, ardentes, palpitantes, em pranto, em suor, nus por fora e por dentro. Há que conhecer-lhes os torpores e as fúrias, a pequenez e a grandeza das almas que os habitam, a sua intrínseca, mísera e inútil humanidade. Aquilo que sentem e pensam no amor, quando adoecem, sofrem e se minam, quando suspiram e se agitam em estertores antes de agonizarem, expirarem e morrerem.”

“A grandeza de um artista mede-se pela sombra que a sua obra deita sobre todas as coisas. A sombra da obra do Caravaggio excede a altura das sombras do maior obelisco, do mais alto pináculo de catedral, das labaredas das fogueiras nas praças públicas, ombreando com a das montanhas, o vôo dos pássaros migratórios, as nuvens nos céus. Mede-se com todas as coisas do Bem, da obra humana e da natureza, porque com as coisas do Mal, apenas o Diabo e os seus discípulos se podem medir. Todavia, não está a salvo da mesquinhez e da maledicência, da zombaria e da inveja, baixezas que rastejam de ventre colado ao chão e raramente levantam a cabeça e os olhos. Não está a salvo dos medíocres. Nós, comuns mortais, sem obra nem valia, medimo-nos apenas pela largueza da nossa sombra na terra, a do nosso carácter. De certa forma, isso salvaguarda-nos.”

    

Histórias Indianas - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 17.07.16

historiasindianasEstas histórias encantaram-me. Li-as de uma assentada e com um imenso prazer.

São oito viagens a uma Índia descoberta por um olhar atento aos detalhes. De pequenos pormenores vi nascer personagens que brincaram com a minha imaginação, deixando-me fantasiar enquanto me embalavam no exotismo dos cheiros e dos ambientes.

É permitido saltar da riqueza para a pobreza, ou do calor prazeroso para a humidade sufocante, como quem abre e fecha uma porta. É essa a grande vantagem dos Contos. A rapidez com que se descobrem tantas coisas e a facilidade de regressar, de voltar atrás no caminho para novas e insuspeitas descobertas.

Parece fácil. Mas não é. É sempre mais difícil dar muito quando se escreve menos. Contos são mistérios que tenho vindo, com calma, a descobrir. Que quero estar sempre a ler, independentemente do tamanho de outras leituras que possa ter em curso. É uma arte difícil. Dar tanto ao leitor em menos linhas, em menos páginas, mas proporcionando tanta agitação da imaginação, a nossa contribuição para tornar cada história, cada livro, único e muito pessoal.

Só os melhores Contos o conseguem. São esses que guardamos. Deste livro guardo todos, mas muito especialmente o Obsessão e o 205.

Cristina Drios escreve com uma beleza inspiradora. A narrativa, por vezes densa, marca um ritmo que não se consegue abandonar. Já me tinha conquistado com Os Olhos de Tirésias, e estas Histórias Indianas aumentaram o meu interesse de a continuar a ler. Cá fico na expectativa de novos trabalhos.

Editora Objectiva, 2012

Os Olhos de Tirésias - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 20.12.15

osolhosdetiresiasHá livros que nos contam, logo nas primeiras páginas, que serão dos nossos preferidos.

O ano de 2015 está a terminar. Não ligo a listas de preferidos, não escolho os meus livros top, estou sempre a pensar no que ler a seguir e, quando muitos leitores refazem o caminho percorrido, eu dou por mim a organizar o meu 2016 em leituras. É por isso curioso que este ano me tenha reservado algo tão bom para o fim. Tão bom que me faz, a mim, a anti-listas de favoritos, repensar leituras, olhar para trás, para ter a certeza de que, Os Olhos de Tirésias foi mesmo do melhor que li este ano.

Confirmo que sim. Poucas vezes, nas minhas leituras, senti que a escrita me inundava de beleza. A busca pela beleza é inglória. O bom pode sempre ser melhor, o belo tem de nos extasiar, levar ao próximo nível. Estas páginas levaram-me embalada na beleza da escrita da Cristina.

Leio rápido, sôfrega de chegar ao fim, muitas vezes leio o fim antes do tempo, sem calma nem ponderação. Mas desta vez não consegui. Quis, sempre, ficar um pouco mais enredada na escrita densa, saboreando as palavras nas frases, as frases no texto, atravessando as fronteiras do espaço e do tempo, e indo, realmente indo, aos locais.

A beleza da escrita e o vocabulário rico não dissimulam os horrores da guerra. O horror pode ser belo se nos marcar de forma permanente, fazendo-nos querer ler outra e outra vez determinada passagem, mesmo que dura, mesmo que de cada vez sintamos que são os nossos pés que estão a congelar de frio na trincheira, ou que é sobre o nosso corpo que as ratazanas se passeiam. E depois sentir o amor. Lê-lo e senti-lo nascer da dor, do frio e do sangue, como a paz no meio da luta, o esconderijo, a porta que se fecha deixando o sofrimento de fora.

Conto-vos apenas que há uma mulher que quer descobrir quem foi o seu avô. Esta mulher quer escrever, e luta por conhecer a história desse antepassado que combateu na Primeira Guerra Mundial. Recupera-lhe a infância e reconstrói-lhe o percurso. Reconhece-lhe o círculo negro que o isola, e sabe-o como se ele estivesse vivo, na sua frente, e lhe pudesse contar que não sabe sentir. Que nada o magoa, seja a miséria ou o frio quando criança, seja estar só na noite da guerra rodeado de mortos. Até um dia. Porque há sempre um dia que é o fim de tudo, mesmo das coisas más. Nesse dia o círculo negro fica menos negro.

E esta mulher luta, num escritório pequeno onde cabe uma parte do mundo, por escrever. Luta com as palavras que nunca são, para ela, as certas, que apaga muitas vezes até que tudo fique no papel como é na sua cabeça. Sofre e observa. Viaja para França para descobrir o avô e tropeça no amor. Mas a distância alimenta a dúvida e, no seu mundo de palavras, a memória é traiçoeira. Insegura e um pouco tonta, embrenha-se cada vez mais na sua solidão. Na angústia. Na expectativa. Recupera documentos e cartas. Trabalha. Cria as personagens inesquecíveis deste livro, coloca-as num cenário real, que deixa de ser cenário para ser vida, as suas vidas, reais, que aconteceram. Porque depois da última página ninguém tem dúvidas disso.

“Nas nossas vidas, construídas, tijolo a tijolo, de acasos, o azar ocupa pouco lugar; há sempre uma razão para estarmos em determinado local, e não onde supostamente deveríamos estar, acomodados e obedientes, embora não tenhamos logo a consciência do que, na verdade, ali nos levou. E quando, ao contrário da vaga impressão de não estarmos onde deveríamos estar – ainda que não sabendo onde isso fosse, tão infinito é esse mundo de possibilidades-, intuímos finalmente essa razão, esse momento único e irrepetível fica, indelével, na nossa memória e nos nossos sonhos.” (Pág. 18);

“Creio que, para se tornarem marcos miliários na vida do leitor, os livros carecem de uma leitura não só no tempo certo, como no local certo, como ainda, nesse tempo e local, abrindo campo a uma possibilidade latente, escondida, talvez mesmo rejeitada. Como o amor. Abrem-nos os olhos para um desejo, qualquer coisa a latejar cá dentro que não queríamos ou sabíamos exprimir. Ali está, preto no branco, de repente tudo se torna claro, preciso e irrefutável, abre-se uma porta e, daí em diante é impossível arrepiar caminho. Como se o diabo nos entrasse no corpo.” (Pág.122);

Sinopse

“A descoberta de um retrato daquele avô cuja história a família sempre encobriu - Mateus Mateus, o gigante de olhar estranho que partiu, no contingente português, para a Flandres durante a Primeira Guerra Mundial - é o pretexto que a narradora encontra para, simultaneamente, escrever um romance e se afastar de um casamento que parece condenado ao fracasso. Para saber mais sobre o passado desse desconhecido, parte, também ela, para a propriedade de La Peylouse, em Saint-Venant, que alojou o Estado- Maior português nos anos 1917-1918 e da qual o avô, depois de ter servido na frente como maqueiro e coveiro, foi enviado numa missão de espionagem, acabando prisioneiro dos alemães. No bizarro hospital onde passa os meses que antecedem a batalha de La Lys (o mesmo onde virá a ser internado um cabo alemão chamado Adolf, atacado de cegueira histérica), Mateus Mateus cruza-se com figuras inesquecíveis: Alvin Martin, um inglês albino dado às premonições; Hugo Metz, o médico que usa métodos de inspiração freudiana para interrogar os pacientes; o órfão Émile Lebecq, pequeno ladrão e ilusionista amador; e, sobretudo, Georgette Six, a bela enfermeira francesa que perdeu o noivo na guerra e pela qual o português se tornará um homem diferente. E, porém, à medida que a neta de Mateus Mateus vai desfiando essa história - num jogo em que a realidade se torna indestrinçável da ficção -, também a sua vida é sacudida por uma paixão - e só o encontro com Cyril Eyck e o seu bisavô centenário trará a chave para os enigmas do próprio romance.”

Teorema, 2013

Os Olhos de Tirésias - Cristina Drios

Roda Dos Livros, 24.09.13

tiresias

O que mais me impressionou neste livro foi, sem dúvida, a qualidade da escrita. O texto flui com naturalidade, sem nunca prescindir da riqueza de vocabulário e da elegância de estrutura; a narração a várias vozes permite o recurso a diferentes estilos, os quais apresentam diversos graus de confessionalidade e intimismo; as frequentes referências literárias e históricas tornam a obra mais abrangente, levantando questões e deixando pistas para reflexão; e as abundantes metáforas e imagens adicionam à leitura uma nota de beleza e musicalidade.

A neta de um soldado português enviado para a Primeira Guerra Mundial decide investigar a história desse seu antepassado e escrever um livro sobre ele. Entrará assim em contacto com elementos do seu próprio passado, que até então desconhecia, e também com alguns personagens curiosos cujas vidas rodearam a do seu avô. Cada um desses personagens abre uma janela sobre a história que procura e, mais importante ainda, uma nova perspectiva sobre a questão da percepção humana, que, durante toda a leitura, nos é colocada de várias formas: será aquilo que vemos real? Será uma imagem objectiva ou subjectiva? Será suficiente? Deveremos contentar-nos com a visão que temos do mundo? Teremos a capacidade de ver mais além? E a de não ver aquilo que nos horroriza? E será mais clarividente quem vê com os olhos ou com o coração?

Tal como Tirésias, o profeta cego da mitologia grega, dois dos personagens desta história têm o dom da premonição. Um deles, o avô investigado, é também, de certo modo, cego - um cego sentimental, incapaz de experimentar ou compreender qualquer tipo de emoção. Poderá essa cegueira ser ultrapassada? E, se o for, o que sucederá então às suas capacidades premonitórias? De notar que o médico que pretende estudar as mentes incomuns destes dois seres se vê confrontado com o mais rotundo fracasso e obrigado a remeter-se à cura das feridas do corpo, mais prosaica mas considerada mais urgente. E de assinalar também a presença do pequeno Émile Lebecq, que deve a sobrevivência às suas artes de... ilusionista. É que os ilusionistas só existem porque as pessoas gostam de ser iludidas...

Estão, pois, lançadas as sementes para um romance em dois planos - o plano factual, histórico, e o subjectivo, psicológico. A este quadro soma-se a análise feita pela narradora da sua própria vida pessoal, numa exposição lúcida e honesta das pulsões e dilemas comuns à generalidade dos seres humanos. O resultado é um livro que fala ao ouvido do leitor, relatando-lhe uma história que o prende enquanto, ao mesmo tempo, o faz pensar sobre a sua própria existência.

Excertos:

"E, se atentarmos bem nos nossos pés, nas nossas pernas, no movimento mecânico de andar, sincopado ou desajustado entre pés e braços, essa forma física de chegar às coisas e aos sítios, às outras pessoas, é irremediavelmente diferente se estivermos a ser levados pelo amor, pelo ódio ou pela suma indiferença. Por isso me agrada tanto observar, em locais de chegadas e partidas um terminal de aeroporto ou uma estação ferroviária -, a forma como cada pessoa se move, a andar, a correr, quantas vezes a tentar escapar-se, na única direcção possível, o futuro." (págs. 18 e 19).

"Há coisas que sabemos que hã-de acontecer e, no entanto, só ocorrem quando já desistimos de as desejar; nesse momento ficamos irremediavelmente aturdidos, não porque tenha por fim acontecido aquilo por que tanto ansiávamos, mas porque não perdemos a capacidade de nos espantar." (pág. 24).

"A resposta, porém, conheço-a bem, é simples e aterradora: em breve, quebrado esse ténue fio a ligar-me aos factos, terei perdido o pé e, num jardim do éden, estarei a apaixonar-me por uma ficção. Apaixonar-me-ei, não por uma pessoa, não por uma situação, nem sequer pela conjunção estelar da pessoa na situação certa, mas pela possibilidade encerrada ness promessa dúbia, o amor. De certa forma, neste encontro, foi-me prometida uma vida nova, um recomeço." (pág. 121).

"Creio que, para se tornarem marcos miliários na vida do leitor, os livros carecem de uma leitura não só no tempo certo, como no local certo, como ainda, nesse tempo e local, abrindo campo a uma possibilidade latente, escondida, talvez mesmo rejeitada. Como o amor. Abrem-nos os olhos para um desejo, qualquer coisa a latejar cá dentro que não queríamos ou sabíamos exprimir. Ali está, preto no branco, e de repente tudo se torna claro, preciso e irrefutável, abre-se uma porta e daí em diante é impossível arrepiar caminho. Como se o diabo nos entrasse no corpo." (pág. 122).

Teorema Editora.