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Roda Dos Livros

«Estou viva, estou viva, estou viva» de Maggie O'Farrell :: Opinião

Roda Dos Livros, 01.09.20

"Respirei fundo e ouvi o bater do meu coração.
Estou viva, estou viva, estou viva."
Sylvia Plath, A Campânula de vidro
 

Respire fundo também o leitor, pois vai precisar. Este livro reúne 17 episódios onde a ameaça de morte foi uma possibilidade, uma constante e um pensamento ao longo da vida de O'Farrell. Nesses textos, que fluem como um romance, o leitor sente-se impelido a avançar, dono de uma curiosidade mórbida, pela proximidade de alguns episódios ou simplesmente por ser um livro muito bem conseguido, quer pela escrita escorreita, quer pela frieza com que certas palavras nos atacam e mexem com a nossa sensibilidade. Estranho? Talvez. Talvez seja mais fácil sentir enquanto se lê, por isso, leia este livro.

Para já, pense nisto: de quantos atropelamentos fugimos nós ao longo da vida? Desses "foi quase" dos quais saímos ilesos, avançamos como se nada me pudesse tocar, nada de mal pudesse acontecer, desde que eu pudesse continuar em frente, continuar a correr, continuar em movimento.

"(...) o avião que não apanhámos, o vírus que nunca inalámos, o atacante com que nunca nos cruzámos, o caminho que não tomámos. Estamos, todos nós, a deambular num estado de ignorância inocente, a pedir tempo emprestado, a aproveitar os dias, a escapar aos destinos, a escapar por uma nesga, sem saber quando será dado o golpe. Como escreve Thomas Hardy sobre Tess Durbeyfield: «Havia outra data... a da sua própria morte; um dia que se ocultava, invisível, entre todos os outros dias do ano, sem dar sinal ou fazer som quando ela passava por ele, a cada ano; e ainda assim estava inteiramente presente. Quando seria?»"

Quando seria? Como seria? Que parte do corpo atacaria?

Dividido em 17 episódios que atacam partes dispares do seu corpo, Maggie O'Farrell começa por se sentir ameaçada no pescoço, marca essa que nunca a abandonará, no entanto, a ameaça, a sentença de morte prematura chega ainda mais cedo em 77, quando ainda miúda se chegam a conclusões assustadoras que irão encaminhar decisões e experiências futuras, no entanto, o espírito fugidio e escapista da autora talvez tenham sido determinantes para partes do corpo que surgem mais adiante e as conclusões que partilha com os leitores.

"Vivi grande parte da minha vida perto do mar: sinto a sua atração, sinto-lhe a falta se não o vir regularmente, se não caminhar à beira-mar, se não mergulhar, se não respirar o seu ar. (...) Desde criança que nado sempre que posso, mesmo na água mais fria. É, na minha opinião, uma experiência muito reconfortante. Nos seus Sete Contos Góticos, Karen Blixen escreveu: «Conheço uma cura para tudo: água salgada... de uma forma ou de outra. Suor, ou lágrimas, ou o mar salgado.»"

Para além de considerações muito acertadas, existem boas referências e um ritmo imenso que prende o leitor a cada página, junto com descrições muito vívidas e partilhas muito transparentes, diria até de uma raridade genuína.

"Sou a única abstémia de chá da minha família. Acho que eles o consideram uma perversão incompreensível. Para mim, o chá sabe a restos secos de relva, bolor de folhas diluído, composto húmido misturado com um toque de fluídos corporais bovinos. Nunca o consegui suportar."

"Está alguma coisa a mexer-se dentro de mim, nas profundezas dos canais em espiral do meu estômago, algo com garras, com presas, com intenções malévolas. (...) É como se tivesse engolido um demónio."

São vários os demónios que sugam a energia a esta autora, um deles é o da rotina, da doença ou da normalidade, para combatê-los, escreve e viaja, só isso é capaz de fazer frente à inquietude borbulhante que nunca a abandona.

"Depois de ter percorrido o Mediterrâneo em 1869, Mark Twain disse que viajar era «fatal para o preconceito, a intolerância e a mesquinhez."

Ler este livro também tem algo de fatal, é uma valente viagem, recheada de sabedoria e partilha que de certeza, tocarão no âmago de algumas memórias pessoais.

*

Uma descoberta que este livro me trouxe foi o podcast «Contos Não Vendem» de Joana Neves, tradutora deste livro. Um dos episódios traz-nos o conto "O Que Veio Salvar-me", de Virgilio Piñera, lido por Manel Moreira que faz muito bem a ponte para o tema da morte, especialmente para o conto «Corpo Inteiro» neste livro de O'Farrell.

Vale a pena ouvir, aqui.

«Onze tipos de solidão» de Richard Yates :: Opinião

Roda Dos Livros, 06.03.19

yates

Banda sonora para aumentar o efeito deste livro: Bill Evans & Chet Baker - The Legendary SessionsYates escreve de forma assombrosa. Ao longo de onze contos tipifica um pouco de todo o tipo de solidões. A laboral, a escolar, a militar, a de ausência de um parceiro, a de um amor não correspondido, a da falta de um objectivo ou até a da escrita, entre outras. As suas descrições, breves mas acutilantes, caracterizam pessoas e lugares, emoções e atitudes com uma capacidade que chega a abalar o leitor. São onze relatos, todos eles diferentes, mas onde as pessoas tocam facilmente a realidade e até se podem assemelhar ao leitor.
"Ele chegou cedo e sentou-se na última fila - de costas muito direitas, os pés cruzados sob a carteira e as mãos entrelaçadas exactamente sobre o centro do tampo, como se a simetria o pudesse tornar menos visível..."
Esta ideia de simetria versus invisibilidade cativou-me e não mais me largou. Mas muitos são os contos que marcam, aliás, eu diria que todos eles nos marcam, nem que seja com uma frase brilhante que descreve algo de uma forma que parece que nunca antes vimos.
"Por toda a Unidade Sete deambulavam homens à procura de mãos para apertarem."
E é assim. Parece simples, mas numa frase Yates caracteriza e revira todo um conto, mexendo com as emoções do leitor e revelando solidões.
"(...) mas foi o facto de o rosto dele ter assumido um ar que lhe era assustadoramente familiar, o mesmo rosto que ele, Banhas Platt, toda a sua vida tinha mostrado aos outros: assustado, vulnerável e terrivelmente dependente, tentando sorrir, um olhar que dizia «Por favor não me deixes só»."
Sós é o que estão todas as personagens destes onze contos, todos eles espelhando solidões muito diversas e que se expressam de maneiras tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão carregadas de angústia, máscaras, raiva, falhanços e falsas relações humanas, mas ainda assim, os contos estão carregados de gestos de amizade, amor, bons momentos e histórias donas de um humor particular e por vezes traçado numa só linha. Isso, e as descrições brilhantes.
"(...) a caminhar, o seu traseiro parecia flutuar como se fosse uma desajeitada entidade distinta que lhe seguia o rasto."
"A senhora Snell tinha provavelmente sessenta anos, era uma mulher alta e magra, com cara de homem, e as suas roupas, senão mesmo os seus poros, pareciam exalar sempre aquela essência seca de aparas de lápis e pó de giz que era o cheiro a escola."
É extraordinária esta capacidade de retratar alguém com meia dúzia de palavras. A sua escrita chega a ser enérgica, pois o ritmo de leitura não quebra e ainda assim sentimos a solidão e o desespero das personagens, no entanto, é a forma de descrever que prima pela distinção.
"(...) Finney com o sorriso imbecil que por vezes se vê nos ajuntamentos de gente que olha boquiaberta para um acidente na rua e Sobel, tão inexpressivo como a morte."
"Ele parecia determinado a gostar do trabalho. Até trouxe uma pequena fotografia da família - uma mulher cansada a sorrir com desdém e dois filhos pequenos - e pregou-a ao tampo da secretária (...) Mais ninguém alguma vez deixara ficar coisa mais pessoal do que uma caixa de fósforos (...)"
Todos os contos têm particularidades interessantes, mas confesso que «O Sofredor» arrebatou-me, pensar em alguém que havia nascido para sofrer e apreciava esse papel e o desempenhando grande parte da vida, para ser um bom perdedor, deixa qualquer um a pensar.
"Quando Walter Henderson tinha nove anos, durante algum tempo pensou que o auge do romance era cair morto (...)
Ninguém conseguia igualar o abandono com que ele atirava o corpo mole pela ladeira abaixo. (...)
Não havia certamente como negar que o papel de um bom perdedor tinha sempre exercido sobre ele uma atracção desmedida."
No conto «Os dados estão lançados» também fiquei a pensar na dualidade da vida militar e na solidão que pode ser ter e defender uma patente e Yates deixa-nos a pensar ainda mais nisto quando no mesmo parágrafo refere duas ideias tão díspares como estas:
"(...) Reese recusava fazer-se afável. Era o seu único defeito, mas era um grande defeito, porque o respeito não pode durar muito sem afeição (...)
Reese racionava a bondade da mesma forma que racionava água: podíamos apreciar o valor de cada gota (...) mas nunca tivemos o suficiente (...), para matar a sede."

"Pequenos Delírios Domésticos" (contos) de Ana Margarida de Carvalho :: Opinião

Roda Dos Livros, 31.01.19

Este livro é um como álbum, composto por várias músicas, começando por esta "Pequenos Delírios Domésticos" de Sérgio Godinho, e se pararmos na estrofe:"Vou até bater ao fundodepois venho respirar, o arque me coube nesta vidavolto ao ponto de partida(...)"É talvez o melhor resumo para quase todos os contos que li.Desses pego em três deles e escrevo:Entrei num táxi numa qualquer avenida, esbarrei o olhar numa estranha perspectiva.Era uma nuca conhecida. Sem confiança no percurso, dei voltas e voltas, estremunhei e sonhei, lá fui misturada em delírios-desvarios, numa aventura centrifuga.Acordei à terceira buzinadela, havia chegado.Impaciente. Ele impaciente, ralhando qualquer coisa que não decifrei.A porta rústica escancarada, como uma cabeça aberta, uma entrada para o sótão das memórias.Os contos de Ana Margarida de Carvalho são preciosos!Fazem o leitor divergir da realidade e entrar em momentâneo delírio. O pequeno delírio de querer fazer parte daqueles contos. O lado fabuloso de um bom conto é fazer crer nas possibilidades ilimitadas de o alterar, dar-lhe continuidade, mexer e remexer-lhe nas personagens, inventar-lhes passados, dar-lhes futuros de uma linha ou ligá-los a um outro personagem vinte páginas mais à frente.Ler contos é divagar em como lhes acrescentar um ponto, pois a mim, um conto parece sempre uma peça inacabada ou com rachaduras, pequenos veio por onde podemos acrescentar uma linha.

«O corpo dela e outras partes» de Carmen Maria Machado :: Opinião

Roda Dos Livros, 26.11.18

As distinções e ovações quase falam sozinhas sobre a qualidade reconhecida à escrita de Carmen Maria Machado, mas a questão que se principal é:
O que é viver no corpo de uma mulher?
Talvez seja preciso pesquisar muito e lutar por entender a body literacy que encerra cada corpo feminino. 
Carmen Maria Machado explora cada conto com imprevisibilidade e experimentalismo, tal como se percorresse um corpo com ânsia de o conhecer em todos os seus recantos. É assim que eu leio os seus contos. A voz do corpo, a voz por vezes escondida ou recatada. É também o dar voz às mulheres, pelo seu corpo, pelos seus desejos, pelos seus anseios e preocupações e pelas suas metades, feminina ou masculinas. Carmen Maria Machado assume-se metade diva, metade bruxa. Eu diria antes: metade besta, metade bestial. E é isso mesmo: ser mulher, é ser capaz de numa hora ser uma mulher bestial, e na seguinte uma besta. 
Talvez seja preciso ter uma metade mais ligada à fantasia para se gostar destes contos. Talvez! Tudo dependerá muito de cada uma e da realidade de cada quotidiano. E também pelo entendimento que se faz do corpo com que se vive; se o aceitamos ou não.  Assumir o corpo é  talvez a forma mais rápida de entender o lado selvagem que cada uma tem em si, é aceitar que o humor, as necessidades, as vontades, os sentimentos, as paixões, as falhas... oscilam. E oscilar faz-nos questionar. É aceitar, abraçar cada oscilação como uma força.Pela objectiva, cada vez mais afinada, da crítica cultural-feminista o livro de Machado é um livro político, muito centrado nos temas de hoje, um livro que mistura a realidade com a fantasia, alertando para as caixas e caixinhas que determinam o território feminino, condicionado à masculinidade de uma linguagem espalhada pelo mundo fora. Os críticos têm dificuldade em catalogá-la, chegando até ao rótulo de erótico e pornográfico.  Nos oito contos, para além de um experimentalismo constante (a meu ver!), destacamos a forma de narrar que cruza, por palavras da autora, meta-ficção, não-realismo, fantasia, horror e ficção-científica. Tudo unido por uma imaginação recheada de folclore, muito dele proveniente das origens cubanas de Machado. No entanto, o que interessa é o resultado. Todos são contos surreais, abordando constantemente o desejo como um motor poderoso e pequenos padrões, nas personagens, que se repetem e se aproximam à realidade, tão própria, de cada mulher. 

«as coisas que perdemos no fogo» de Mariana Enriquez :: Opinião

Roda Dos Livros, 13.11.17

 "Vi-a quando estava prestes a atravessar a avenida. Estava no meio de um monte de lixo, abandonada sobre as raízes de uma árvore. (...)
Peguei nela com as duas mãos, para não a desmontar. A caveira não tinha mandíbula nem dentes (...)
(...)
Comprei à Vera umas luzes decorativas, dessas que servem para enfeitar árvores de Natal. Não podia continuar a vê-la sem olhos, ou melhor dizendo, com os olhos mortos,e, por isso, decidi que dentro das órbitas vazias brilhariam luzinhas. Como são coloridas, vão mudando, e um dia a Vera terá olhos vermelhos, noutro dia serão verdes, e ainda outro, azuis."
Se já se riu, não se habitue.
Se por acaso se espantou, não se renda.
Se só se arrepiou, aviso desde já que se arrepiará mais e repetidamente.
Mariana Enriquez especializou-se na arte de bem combinar palavras para arrepiar o leitor, mas mesmo assim ser capaz de o viciar no macabro e no sórdido que, conto a conto, o vai envenenando para perder a fé nas pessoas.
O excerto pertence ao conto "Nada de carne sobre nós", que foi o primeiro e talvez o único a fazer-me rir, no entanto, todos os outros contos traçam histórias macabras e de um horror e bizarria bem mais malévolos que este. Ainda assim, Enriquez é capaz de satirizar e dar um tom humorístico ao que escreve, o que revela e eleva ainda mais a violência e o diabólico de cada acontecimento.
Em "Fim de Ano", por exemplo, vamos seguindo aqueles dias de aulas quase como se estivéssemos na sala, assistindo, pacíficos, aliás, como toda a turma e, sentimo-nos a pertencer a um grupo de sanguessuga que espera, avidamente, mais sangue e drama ... E como se não bastasse uma, no final, somos varridos por duas adolescentes que sofrem da mesma patologia e com uma só frase a autora é capaz de nos derrubar.
Derrubar-nos com os finais acontece em vários contos, quase como se nada preparasse o leitor para aquele embate, mas pior embate é ouvir a autora, com quem estive, estivemos, à conversa na Feira do Livro de Lisboa deste ano, e ouvi-la dizer que esta é uma Buenos Aires que existe e nem tão assim escondida, o que nos arrepia, seja com o primeiro conto ou com o último, que, se pensarmos bem são tudo formas medonhas de morrer e seguir vivendo.
"Quando o sol caiu, a mulher eleita dirigiu-se para o fogo. Lentamente. Silvina pensou que a rapariga se ia arrepender, porque estava a chorar. Tinha escolhido uma canção para a sua cerimónia (...). A mulher entrou no fogo como quem entra numa piscina, atirou-se, num mergulho convito: não havia dúvida que o fazia de livre vontade. (...)"

«O Que não É Teu não É Teu» de Helen Oyeyemi - Opinião

Roda Dos Livros, 12.05.17

oyeyemiHelen Oyeyemi, premiada em 2010 com o Prémio Somerset Maugham e destacada, pela Granta, como uma das novas melhores vozes da literatura inglesa, não facilita o caminho ao leitor. Os seus contos são labirínticos, intrincados e cheios de mistérios por desvendar. Seja pelo enredo, meio mágico meio onírico, seja pelo ambiente, que à primeira vista parece quotidiano mas facilmente trespassa a porta da fantasia e o mundo cintilante dos sonhos. Melhor, quase todos os contos têm chaves e parece que cabe ao leitor ir, de conto em conto, descobrir que portas abre cada uma. Cedo aprendemos o conceito de clidomância. Parece-me a mim que cada chave permitirá abrir sempre a porta do espanto e do transcendente, pois a imaginação da autora deslumbra e inebria o leitor, mas também o confunde e o mistura num universo muito próprio que Helen Oyeyemi cria em cada conto.

Invulgar talvez seja a definição que melhor veste estas narrativas. Podemos procurar o título «O que não é teu não é teu», mas não o acharemos entre o leque de contos, o que não deixa logo de ser diferente e nos coloca a pensar se este título, une ou estabelece, uma moral para todos eles, bem ao jeito dos contos de fadas. A actualidade e a critica social também se encontram de forma abundante, nomeadamente questões de orientação sexual, padrões institucionalizados de beleza e relações de poder, bem como, de forma metafórica, a necessidade de dar voz às minorias e promover, talvez desde a escola, a criatividade e a necessidade da arte, nas suas mais variadas formas, como mecanismo de defesa da dura e opressiva realidade.

No entanto, não é fácil encontrar explicações para o conteúdo dos contos e o caminho que a autora segue, que se torna por vezes incompreensível, deixa o leitor à procura de respostas. Talvez seja como as marionetas do conto "O teu sangue é assim tão vermelho?" que ora são obra completa e respeitam quem lhes dá vida, como têm vida própria e agem por si. Se isso se aplicar ao livro de Oyeyemi, temos de lhe conferir um estatuto mais híbrido e mutante, que o leitor terá dificuldades em acompanhar.

"«Como é que eu sei quando é que cresci?» Quando começasse a usar palavras cujo o significado não soubesse, respondeu ela. Disse-lhe que já fazia isso, e ela respondeu, «Pois, mas preocupas-te com isso, e os crescidos não.» (...) Por isso, há aquela ansiedade de, de repente, uma pessoas estar a ter uma conversa que a transforma em adulto, uma conversa que a impede de ver as coisas e pessoas que estão realmente lá."

Com os contos «Presença» e «Breve história da Sociedade das Jovens Feias», aliás como com quase todos, talvez consigamos também retirar outro significado para as chaves. Uma a uma, vão compondo um molhe, que podem, metaforicamente, corresponder às coisas que vamos guardando para nós e dentro de nós, fechadas à chave, e que a certo ponto, numa determinada fase da vida, temos de destrancar, abrir e deixar sair, para podermos continuar mais leves, mais livres. Será?

Gosto de livros que nos deixam com perguntas a ecoar na nossa cabeça. Foi uma boa leitura, estou cada vez mais fã de contos.

Antes de finalizar, quero, mais uma vez, salientar o trabalho maravilhoso de Lord Mantraste, pois esta capa capta totalmente o ambiente que a autora cria.

«Sete anos bons» de Etgar Keret :: Opinião

Roda Dos Livros, 27.01.17

sete_anos_bonsAterrei neste «Sete anos bons» um pouco ao acaso, mas confesso que ao fim de poucas páginas estava rendida ao humor e à narrativa um pouco peculiar deste autor. Etgar Keret é uma das vozes mais populares entre escritores israelitas contemporâneos e está fortemente traduzido. Bastante aclamado e requisitado, as opiniões sobre os seus (essencialmente) contos são muito abonatórias, destacando criatividade e sacarmos na forma como retrata o quotidiano.

Confesso que o conto "(In)sinceramente seu" me convenceu e me motivou para ir ouvir a sessão que decorreu em Lisboa a 4 de Novembro. Fui não só para o lançamento deste seu primeiro livro editado em Portugal, mas também para ter um autógrafo fictícia no meu livro. (Obrigada também a ti, Renata!)

"O que se pode escrever no livro de um desconhecido, que pode ser alguém desde um assassino em série a um Justo entre as Nações? «Com amizade» cheira a falsidade; «Com admiração» não é sincero; «Com os melhores desejos» soa demasiado familiar; e «Espero que goste do meu livro!» distila bajulação...Por isso, há precisamente dezoito anos, criei omeu próprio género: dedicatórias fictícias. Se os livros são eles próprios ficção pura, porque é que as dedicatórias têm de ser verdadeiras?"

Ficção, realidade, Israel, bombas e atentados, guerra, critica social e política, preocupações e inquietações, paternidade e casamento, família, doença, questionamento do futuro, piadas, amigos, desculpas e estados de humor, bigodes e Angry Birds, o leque não podia ser o mais variados. Keret revela de tudo, sem propriamente se debruçar sobre nada, mostrando esse traço tão rigoroso da vida quotidiana. Temos dias em que encerramos em nós todas as preocupações que conseguimos suportar, temos outros em que somos capazes de fingir ser queijo ou pastrami e ficcionar a guerra que nos rodeia, já outros, apetece-nos refugiar dentro de casa e esquecer que o mundo existe.

"Sob a adorável aparência dos divertidos animais e da sua voz doce, o Angry Birds é de facto um jogo que corresponde perfeitamente ao espírito dos fundamentalistas religiosos e dos terroristas. (...) E isto sem falar na história dos porcos: um animal imundo que, na retórica islâmica fanática, é frequentemente usado para simbolizar raças heréticas cujo destino deve ser a morte."

 

 

Uma dor tão desigual :: Opinião

Roda Dos Livros, 17.01.17

contosOs contos povoaram o meu final de 2016 e alguns deles atravessaram o ano e continuam comigo, é o caso do conto «Jogo honesto» de Nuno Camarneiro que se encontra nesta colectânea. «Uma dor tão desigual» propõe-se a abordar a saúde mental, explorando as inúmeras fronteiras e as dificuldades associadas à depressão, solidão, demência ou até ao estigma que é a procura por ajuda profissional.A colectânea reúne contos de oito autores portugueses, todos eles muito diferentes na forma e no conteúdo e de outra forma não podia ser, pois só assim espelha a diversidade que compõe a complexidade da mente humana.De Richard Zimler fica-me um tango e um certa tristeza, mas também a resiliência:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=djJGEWeeNUo&w=420&h=315]

*

De Patrícia Reis em «A impossibilidade de ser livre» a assustadora realidade.

"Não sei como definir o bem, esse estado de bonomia apesar das agruras e penas duras da vida."

*

De Camarneiro fica-me quase tudo, já que foi o meu conto favorito, mas a imagem que fiz na minha cabeça é a de um homem mixando comprimidos e anotando percentagens e probabilidades como se fosse o euro milhões e não uma tentativa de suicídio. É macabro, mas é brilhante e embora um cenário muito negro.

"Os pensamentos e as emoções desviados como trânsito de uma via impedida, orientados para a frente, para o futuro, para novas possibilidades que conseguia imaginar e até cumprir. E eu sempre a vi partir, transtornado, preso a tanta coisa, parado num engarrafamento sem fim à vista."

 *

Na «Chameada de pássaros» por Maria Teresa Horta (MTH) reencontrei «Meninas» e toda a desafeição materna que pauta os contos de MTH, um desamparo próprio de cada um quando caminha, constantemente atrás dos seus próprios passos, dos passos dos seus entes queridos, aqueles que nunca consegue atingir.

"Sem conseguir explicar a si mesma aquela sensação de excesso que de súbito a cumpre, fazendo-a sentir-se a mais onde quer que esteja, sem pertencer a parte algum, nem caber em nenhum lugar. Desafeiçoada ao disfarce da vida."

*

Pegando nas palavras de MTH, há mais desafeiçoados do disfarce da vida dentro desta colectânea.  Nos contos de Afonso Cruz (AC) ou de Gonçalo M. Tavares (GMT) encontramos os desafeiçoados do costume, desiguais dos demais, tão cheios de histórias e filosofias, tentado assim apontar um caminho alternativo... talvez o da literatura, da filosofia e até o da religião.

"O avarento ao não prescindir de coisa alguma, da maior à mais insignificante, abdica de tudo, pois não desfruta de nada." AC

No conto de Afonso Cruz há uma outra ideia na qual fico a pensar. Os buracos, umbigos de coisas por preencher, não falhas, não rachaduras ou defeitos, mas uma incompletude passível de ser preenchida, colada a outro, ornamentada, trabalhada, lembrou-me esta imagem e ensinamento japonês:

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Neste mini manifesto filosófico pelas insignificâncias como mote para toda a ressurreição possível e um exercício criativo que é levantar-se um ser humano danificado. Foi assim que vi, esse desejo de unir a individualidade de cada um, mas sem deixar de olhar para ela como o que é digno de partilharmos com os outros.

Ou ainda a brilhante ideia de GMT de termos na cabeça, no topo dela, o caminho para a salvação e a ligação que ele faz com a imagem de um menino de 7 anos a acenar aos aviões como que pedindo ajuda para saber qual era o mapa, é simplesmente maravilhosa.

*

No conto de Dulce Maria Cardoso (DMC), a quem foi muito bom retornar ;) não me saiu da cabeça um certo regresso a um livro desigual, «O meu irmão» de Afonso Reis Cabral e a temática da família, deixando sempre a questão: "Até que ponto nos define a família? essas outras metades de nós?"

"Não dava sequer conta da repulsa que o irmão causava aos outros. Mas chega sempre o momento em que se repara no olhar deles, e depois nunca mais deixa de se reparar, chega sempre o momento em que o olhar dos outros fica a contaminar o nosso como um vírus maligno."

DMC explora um outro lado também bastante inquietante e muito presente, o dos medos:

"O medo e a curiosidade são vigiados e reprimidos como doenças, em vez de serem tratados como sobras da infância."

Há ainda a ideia de ver e ser visto, pensando nas personagens que desempenhamos aos olhos dos outros, como que construindo todo um enredo só através de um cruzamento de olhares.

"Afinal, talvez eu não conhecesse bem o meu amigo de há tantos anos. Era então tristemente verdade que não há maior nem mais intransponível distância do que a que existe entre duas pessoas, pensar que se conhece é um disparate."

*

Do conto «Jaca» de Joel Neto, para além da história em si, retiro uma passagem que acho extremamente actual e até preocupante:

"Quer dizer, está a chegar a idade, não? (...)«Há uma idade idade para cada doença. Aos seis são disléxicos e aos oito hiperactivos, aos doze têm Asperger e aos quinze sintomas de autismo. E, antes de finalmente serem apenas deprimidos, aos dezoito são bipolares e aos vinte e três esquizofrénicos, não é assim?»"

Julgo que a frase resume muito bem o que se passa com a sociedade actual e a forma como se encara tanta a adolescência e a entrada na vida adulta, como a banalidade da possível doença psíquica. Daí que talvez, mais tarde, seja tão difícil pedir ajuda.