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Roda Dos Livros

As Viúvas de Dom Rufia - Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 13.06.16

As Viúvas de Dom RufiaNão houve uma página deste livro que eu lesse sem um sorriso nos lábios. O início, lido ainda numa livraria, tal era a curiosidade com Dom Rufia, elevou a fasquia das expectativas e aguçou a vontade de o levar.

Senti este livro mais próximo de Os Demónios de Álvaro Cobra do que do anterior Mal Nascer, contudo As Viúvas de Dom Rufia é um livro diferente de qualquer um dos anteriores. Assenta num registo cómico muito bem conseguido, que não cansa, tendo também uma pitada bem jogada de malandrice. Dom Rufia, ou Firmino Pote, é uma personagem incrível que atravessa todo o livro com os holofotes na sua direcção. Um pantomineiro de bom coração, que pisca o olho ao leitor e lhe conquista a simpatia, apesar das mil e uma (ou mais) invenções para se tornar rico à custa das mulheres que vai enganado por várias localidades do Alentejo.

Dom Rufia, apesar de analfabeto, tanto se faz passar por médico como por advogado. Descontraído por natureza, sai em beleza das situações mais complicadas, encontrando sempre uma forma de deixar as mulheres (e as famílias, já agora) a seus pés. Nasceu para ser rico e tudo inventa para não ter de voltar ao trabalho duro dos campos. Procura ser visto em locais de prestígio, onde se relaciona com influentes homens de negócios que enrola nas suas patranhas. Firmino tem um enorme jogo de cintura, mantendo as suas mulheres felizes e apaixonadas, todas achando que são a única. O seu charme estende-se ao leitor que, sabendo de todas as suas falcatruas, se mantém ao seu lado, defendendo-o, mesmo sabendo que é inútil, pois a história começa no funeral de Firmino.

Mas mais do que a história encantou-me a escrita. Frases bonitas e criadoras de cenários imaginados, que reli até quase se desfazerem de sentido, tanto as fui desmanchando e repetindo. Senti que as personagens foram planeadas e criadas com esmero, evidenciando um romance pensado e estruturado. O interesse constante na história é mantido com deliciosas guloseimas para os sentidos, sempre com um sentido de humor inabalável.

Pessoalmente acho que é difícil ter graça, talvez por achar poucas coisas engraçadas e me fartar depressa da piada fácil. Valorizo muito quem consegue ser cómico sem cair no ridículo, e acho a comédia mais difícil do que o drama. Carlos Campaniço mostra a sua versatilidade, criando um romance diferente dos anteriores, mas mantendo o estilo que já conhecemos. Estão lá os regionalismos e as expressões de época (início século XX), conjugados com detalhes de vestuário, ambientes e tradições. As Viúvas de Dom Rufia oferece, não só horas de aprazível leitura, como uma verdadeira viagem no espaço e no tempo.

Recomendo sem qualquer reserva!

Sinopse

“Conhecido por Dom Rufia desde moço, Firmino António Pote, criado sem recursos numa vila alentejana, promete a si mesmo tornar-se rico. Negando-se à dureza do trabalho do campo, divide durante anos a sua sobrevivência entre o ócio e alguns negócios frugais. Mas, já nos trinta, munido de assombrosa imaginação, bonito como poucos e gozando de uma enorme capacidade de persuasão, sobretudo entre as mulheres, lobriga várias maneiras de alcançar o seu objectivo, fingindo continuamente ser quem não é. Para isso, porém, é obrigado a viver em vários lugares ao mesmo tempo, dando a Juan de los Fenómenos, um velho chileno em busca de proezas sobre-humanas, a ilusão da ubiquidade.Quando o corpo sem vida de Dom Rufia é encontrado no meio do campo, a recém-empossada Guarda Republicana não imagina as surpresas que o funeral reserva. O aparecimento de uma estranha carta assinada pelo tio do morto é só o princípio da desconfiança de que ali há mão criminosa.Depois do muito aplaudido Mal Nascer, finalista do Prémio LeYa em 2013, Carlos Campaniço regressa à ficção com um romance irresistível e cheio de humor, cuja acção decorre no início do século XX, num Alentejo onde pululam personagens fascinantes e inesquecíveis.”

Casa das Letras, 2016

Os demónios de Álvaro Cobra – Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 09.09.15

cobraDepois de várias opiniões favoráveis e da leitura de “Molinos”, “Os demónios de Álvaro Cobra” surgiu naturalmente, “atropelando” “A Ilha das Duas Primaveras” que deveria ter-se seguido e continua adormecido no cimo dos livros a ler. Continuo a gostar de ler os livros dos autores que sigo pela sequência em que que são escritos... abri, aqui, uma excepção...

“Os Demónios de Álvaro Cobra” leva-nos, uma vez mais, ao universo de Carlos Campaniço, ao seu Alentejo real e imaginário. Mergulhados entre o real e o imaginário seguimos/perseguimos Álvaro Cobra e os seus demónios... muitas vezes os nossos demónios...

Falar agora deste livro, depois de praticamente toda a Roda ter expressado a sua opinião não é fácil. Habitualmente não sou de consensos, nem de unanimidades e sinto até algum incómodo perante a adesão maravilhada a um autor ou um livro. De forma mais ou menos inata sinto-me melhor a contrariar... Neste caso, porém, não consigo. Rendo-me à escrita e aos enredos de Carlos Campaniço e alinho a minha opinião pelo extasiamento geral da Roda.

Imperdível, este Álvaro Cobra que nos leva por caminhos intemporais e que, mesmo com o distanciamento que quis imprimir à leitura, não me deixa ser indiferente. Na ficção Álvaro parte como chega, mas fica na minha memória como uma história que um dia relerei.

Voltamos ao Alentejo que me apaixonou em “Molinos” mas agora mais imerso em realismo mágico, nos prodígios de Álvaro, que engana a morte duas vezes, nas febres eternas de Branca Mariana, nos 133 anos de sua bisavó Lourença, na mãe, Maria Braz, com as suas mãos desiguais, na presença de Clarinha e sua alma de nómada e no amor eterno de Vicente. Mas, o encantamento da vida destas personagens entrecruza-se na rudeza da vida da aldeia e na aridez do Alentejo. E voltamos ao diz que diz das gentes, às desigualdades gritantes, aos pormenores que nos são tão familiares.

Personagens de enorme riqueza descritas com mão de mestre. Todas, sem excepção. Uma homenagem ímpar onde não poderia faltar o padre, o médico, o subversivo, a dona do bordel e a prostituta e, claro, as almas do outro mundo e os animais que "falam".

Um romance que merece saltar para o topo das leituras.

Excertos

“Antes de Clarinha aparecer, com seus olhos de gato-bravo assustado, a casa dos Cobra era um local de espíritos arrumados. A tolerância que Álvaro não conhecia na aldeia para com os seus prodígios era-lhe dada por uma família de gente rude no trato, mas de corações grandes, capazes de amparo suficiente parq que ele vivesse em paz com suas singularidades., quando o mundo todo o temia ou dele desconfiava..” (p. 53)

“Numa dada altura, Clarinha teve um espanto de clarividência quando entreviu o que tinha sido o mais óbvio desde a sua chegada – aquela era uma família insólita: o marido com suas singularidades inusitadas e suas coleiras de epítetos; a bisavó, quem sabe, a mulher mais velha do mundo; a cunhada, doente com febre toda uma vida; e a sogra com duas mãos desiguais. Chegou a parecer-lhe que aquela casa era um abrigo de gente saída dos contos populares nómadas. Não obstante, no resto da aldeia, as gentes eram iguais às demais encontradas nas vilas e aldeias e nos caminhos de terra batida daquele imenso Sul.” (p. 57)

“Na manhã seguinte, os campos esperavam o suor dos rurais. Era de sal e água que bebiam. O Sol nascera medonho, em brasa, queimando a luz incandescente que aturdia as gentes. Para os campos seguia, de manhã, gente sem pão e de forças extenuadas. Os filhos, sozinhos em casa, governavam-se com estímulos de sobrevivência, pois o pão estava por ganhar, por arrancar das entranhas da terra. Ao pé disto, o desamor de Vicente era um sofrimento que as gentes entendiam como exagero de órfão. Só um filho de lavrador que nunca passara mal poderia dar mais importância ao coração que à boca.” (p. 185)

Sinopse

«A aldeia de Medinas seria um lugar bem mais aprazível não fosse contar-se entre os seus habitantes Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo: não chorou ao nascer, com três meses já tinha os dentes todos, consegue ouvir a Terra girar sobre si própria, tem uma cadela que adivinha o tempo e, além disso, já morreu duas vezes – mas ressuscitou, e desde então um bando de grifosfaz ninho no seu telhado. A sua estranheza impediu-o, porém, de arranjar mulher, mas o encontro com a filha de um nómada que vende torrão doce na Feira de Setembro promete mudar esse estado de coisas, ainda que a união traga surpresas (nem sempre agradáveis) quer ao próprio lavrador, quer às mulheres da sua família: a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos mas guarda invejável lucidez; a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra; ou mesmo Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo. Do casamento atribulado, nascerá Vicente, o filho de quem se espera uma existência completamente distinta da do pai. Porém, tratando-se de um Cobra, nunca fiando…

Ao ficcionar uma aldeia alentejana em finais do século XIX – na qual judeus, árabes e cristãos andam às turras e os mitos ganham terreno à realidade -, Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.»

Teorema, 2013

"MAL NASCER" - o regresso de Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 24.11.14

Regressar à escrita de Carlos Campaniço foi um enorme gosto. Retornar igualmente ao (áspero) Alentejo foi igualmente muito bom e aliás, espero que o autor lá volte novamente, pois estou em crer que se sairá bem novamente.De "Mal Nascer" este romance têm apenas o nome e o berço de Santiago. O mau agoiro, o azar, a dureza da campo, as dificuldades, a violência... a tal aspereza alentejana só trazem de bem e de belo à escrita e à narrativa do autor. Já assim esperava, é certo. Depois do fantástico "Os demónios de Álvaro Cobra", só posso tecer bons comentário a este novo romance. Aliás, acho extraordinária a capacidade de transformação, tanto na abordagem ao Alentejo, como na mastigação deste enredo e mais ainda no toque especial que a linguagem deste romance contêm. É louvável que um autor consiga tal mudança camaleónica, já que nem todos conseguem. Ou seja, muitas vezes, um autor escreve, narra e compõe de uma forma e é só com essa que nos brinda, não é mau, antes pelo contrário, quem gosta, facilmente gostará sempre. No entanto, na escrita de Campaniço encontramos mudança, total transformação, ambos bons livros, ambos boas surpresas. O que nos deixa com ânsias por um terceiro livro, aguardando algo, novamente bom e "igualmente" diferente.

Na personagem de Álvaro Cobra, Carlos Campaniço deu asas à imaginação e teve rasgos de criatividade divinais, com Santiago Barcelos - nascido Bento -, o autor trouxe-nos uma história dura e plena de realismo. Retratando e enquadrando o nosso país e mais propriamente o Alentejo num período conturbado entre absolutistas e liberais. Num relato marcado pela linguagem mais "regionalista" do Alentejo de outrora, que tanto brilhantismo dá ao enredo, situando-nos definitivamente naquelas terras, naqueles campos, mas também na violência tida no calor do lar.

Este romance é uma denúncia, é um reclamar pelos direitos das mulheres, num período e numa localização tão marcada pela desigualdade e pela violência, não só tida para com as mulheres, como também na desvalorização e no conceito da infância, tão pouco reconhecida como tal.

"Mal Nascer" não verte só as dores de uma mãe ou as injustiças com um filho, abandonados um pouco à sorte do campo, criados a meias com os bichos e a jorna na terra. Este enredo relata também o poder, as ordens às mãos de um só homem, revelando o peso da riqueza e das terras. Mas há ainda espaço para o amor, trazendo uma certa inocência e sensualidade ao ambiente, mitigando as mágoas de Santiago, fazendo-o sonhar. Pelo menos até certa parte. Mesmo nessa parte, de amor fatal e incondicional, o autor é bem sucedido. É sensível, sem ser lamechas, é sensual sem ser banal.

Há em todo o livro uma luta pela dignidade, pela sobrevivência, pela liberdade e pelo amor, enaltecendo assim as personagens e envolvendo o leitor, que anseia por um desfecho que teima em fugir por entre os dedos. A leitura tornou-se a certa parte comovente, em especial para mim, a parte da infância. Certas partes foi como estar entre família e ouvi-los relatar a dura infância na aldeia, alguns períodos de fome ou escassez ou as alegrias de brincadeiras simples e até certas diabruras com os bichos.

Se por um lado o livro é pleno no relato amoroso, até meio inocente, é duro e negro no expor o embrutecimento das gentes largadas à mercê das necessidades do campo e das intempéries de um Alentejo de extremos. Digamos que o livro tem uma capacidade transformadora fenomenal, é como ir, de bestial a besta, acho que me entendem. É nisso que eu gosto ainda mais deste livro. É o seu realismo, a sua força.

Não posso deixar de dizer que existem personagens apaixonantes e a Amália é uma delas.Mais apaixonante é a capacidade do autor em criar um cenário com meia dúzia de palavras, como se numa pequena frase fosse tudo dito.

"Dá-se uma primavera numa sala de inverno." (pág.100)

E fica tudo dito!

As diferenças são inúmeras, porém há uma certa constante nos dois romances que li de Carlos Campaniço. É o retorno ao Alentejo, a paixão pelas gentes e tradições, e a vontade de espelhar, através de personagens densas, os traços marcantes de um país e de uma época. E os rasgos de criatividade continuam lá, desta vez mais pelo esmero na escolha da palavra.

"Começo a ter uma fome miudinha que me rói o estômago como os bichos-da-seda fazem às folhas. Já nem dois cocharros de água me afastam as lembranças da comida."

Uma edição Casa das Letras. Veja a sinopse, aqui, no booktrailer.

Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 23.11.14

cobra

Um livro carregado de gente, de histórias de gente, um labirinto delicioso, uma caminhada por entre demónios que não são demónios e anjos que não são anjos.Um livro com párocos e com campónios, com aves e demónios, com mulheres infinitamente velhas e outras novas também. E ainda homens de crenças várias e apagada esperança. E com putas também.A escrita do Carlos Campaniço leva-nos numa viagem ao ‘ falar e estar da época ‘, salpicada por constantes e inesperadas associações, desbravando enredo por imagens descritivas verdadeiramente deliciosas, dignas de brotarem na cabeçorra de um Álvaro que ele nos oferece, um Álvaro de jeitos e trejeitos psíquicos e no entanto o mais simples e verosímil dos homens.Começa bem e acaba melhor, este livro.Dá-nos, tira-nos, devolve-nos. O sossego, a concentração, a esperança e as certezas.Muito, mas muito pouco sensato deixar este livro passar ao lado!

Os Demónios de Álvaro Cobra, de Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 16.08.14

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Que personagem, o nosso Álvaro, homem rude e de rompantes tamanhos e que é, sem dúvida, inesquecível. Maria Braz, uma alentejana com duas mãos diferentes, Clarinha do torrão doce que tem vontade de ferro e alma de nómada. Lourença que viveu duas vidas. Vicente, que por amor é capaz de dar a vida, a alma, a voz.Álvaro Cobra e os seus prodígios arrancaram-me gargalhadas às primeiras páginas. Que surpresa tão boa foi ler o Alentejo, rude e pobre, nestas páginas cheias de vida e de imaginação. Que bom ler a tristeza contada com graça e alegria sincera. Que bom livrarmo-nos, ainda que apenas por um livro, do fado e nostalgia. Porque este livro tem nas suas páginas o ser Português contado de outra forma, tem um padre, vários judeus e até um indiano. Tem crenças e mezinhas. Tem a mistura que nos está no sangue e que tantas vezes recusamos. Cristãos, Judeus, Muçulmanos. Tudo bem misturado e criado sob o sol Alentejano dá nisto. Ah e tem grifos, pássaros que cantam à hora certa, febres eternas, gente que morre uma série de vezes e outras que teimam em não morrer, uma cadela que fala e tantas outras deliciosas loucuras que fazem deste um livro a não perder.Um livro absolutamente fabuloso, maravilhosamente escrito e que me convenceu às primeiras páginas e que não me desiludiu nas últimas.

Um livro que todos deviam ler. Um livro que me deixa orgulhosa porque é de um escritor Português. Por isso ide conhecer o Álvaro Cobra e depois venham cá dizer-me o que acharam.

Demónios de Álvaro Cobra e Mal Nascer – Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 09.08.14

Screen Shot 2014-08-09 at 23.44.27Gostei muito do “Demónios” e de todas as suas personagens. Álvaro Cobra que morreu duas vezes, nunca viu o mar e conversa com o pai, que morreu só uma vez mas completamente. O errante subversivo Benalma que diz mal do padre ocioso, dos santos e da Igreja em geral. Mais a prostituta Margot com o seu espectáculo de luz e cor. Maria Braz com as suas mãos diferentes, uma gorda outra magrinha. A avó que parece que já morreu e esqueceu-se de avisar. A Clarinha nómada que é obrigada a casar com o velho Álvaro e a lançar âncora numa única terra contra sua vontade. Tive pena que a Clarinha se sumisse a meio da história, fiquei com curiosidade de saber mais sobre ela.
Estranhamente, ou não lembrei-me muitas vezes dos livros que li da Isabel Allende, com as suas personagens fora do vulgar. Menos a parte dos grifos, esses fizeram-me lembrar os abutres do Lucky Luke.
Gostei também do bom humor existente aqui e ali:
“...Álvaro Cobra, mais bruto do que uma mula, nem ouviu as últimas ameaças do padre e deixou-o a pregar para as hortaliças sequiosas, ideia que nem o sábio Vieira havia alguma vez cogitado por ter na fé melhores ouvintes entre os povoadores marinhos.”
“... Benalma ... Inventou, na sua cabeça feita para as invenções, que o padre se chamava Jesuíno porque tinha herdadoJe do pai e suíno da mãe.”
“Quando os grifos o viram com tão pouca vontade julgaram-no doente. Discutiram às bicadas os melhores lugares no telhado... – São uns ingratos, estes cabrões! – desabafou Álvaro com a mãe, depois de uma noite de insónias com o rosnar dos necrófagos. – Fingem-se afeiçoados, mas no fundo estão à espera que eu morra para me comerem.”
Em resumo, boa história, bem contada vale muito a pena.
Mal Nascer
Quanto ao “Mal nascer” não fez grande mossa.
Fez-me lembrar os romances de Júlio Dinis que li quando era cachopa e romances não são a minha cena.
Se gostam, leiam este, vão gostar, e não se preocupem no final não são irmãos – é Júlio Dinis e não Eça de Queirós - só não digo se acaba bem ou não, têm de ler até ao último parágrafo.

Molinos – Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 28.07.14

MolinosDepois de várias opiniões favoráveis sobre “Os demónios de Álvaro Cobra” e “Mal Nascer” entre os amigos da Roda dos Livros e na sequência da conversa com o autor num dos encontros do grupo decidi, também eu, iniciar a minha leitura da sua obra.

Estruturo as minhas leituras, habitualmente, quando se trata de um autor que quero acompanhar, pela sua ordem cronológica. Gosto de acompanhar o crescimento da escrita, a sua evolução e apreciar a sua diversidade.

Não sem dificuldade consegui comprar o primeiro romance de Carlos Campaniço.

“Molinos” é um livro muito real, com passagens que nos transportam para as histórias da  oralidade rural. Mais do que escrito, imagino-o como uma tela, de fios entretecidos. No coração do Alentejo profundo dos anos 40 desfilam personagens reais e histórias diversas que nos retratam com verosimilhança a sociedade da época.

O relato crú, e por vezes revoltante, é, contudo, como que “adoçado” pelas palavras com que é transmitido, numa riqueza de escrita que por vezes se torna poética.

Com pinceladas de realismo mágico e um toque de neo-realismo, este não é um romance "cor-de-rosa", nem quando aborda os amores de Alfredo Mendonça de Oliveira. É um romance duro sobre a dura realidade da aldeia fronteiriça de Molinos, vizinha de ficção da real Safara, de onde o autor é natural. Um livro sem fim doce, mas real, muito real pois na vida há casos nunca resolvidos, injustiça e mal entendidos que permanencem.

História de contrastes entre rico e pobre, bem e mal, viajei no tempo durante a sua leitura. De tal forma me senti parte da história que nem me incomodou uma característica que habitualmente me desagrada. Carlos Campaniço teçe com mestria vidas, tempos e espaços num mesmo capítulo, com transições que se fazem de parágrafo para parágrafo sem aviso prévio e leva-nos a acompanhá-lo sem questionar.

Um primeiro romance de eleição, para mim, que faz juz aos rasgados elogios que têm recebido da parte dos amigos da Roda dos Livros as obras mais recentes deste autor, e minhas próximas leituras.

Um romance que merece, certamente, ser reeditado.

 

Excertos

“Demorou muito tempo até se deixar vencer pelos seus apelos rurais e tentou levar a vida pacífica dos seus primeiros anos de sacerdócio, mas os anos julgaram-no e cada dia passado flagelava-se-lhe a alma, vencia-o uma voz atormentadora que só ele escutava e o acusava de trocar a defesa dos miseráveis pelo seu comodismo estatutário. Quando entrou na casa dos sessenta anos era um clérigo gasto pelas emoções, calvo como nunca se imaginou e devastado pelo seu conflito interno. Durante anos tentou harmonizar gentes, amparar os frágeis de espírito e de boca, reuniu com uma dezena de bispos que governaram a Igreja durante todos aqueles anos , mas não reconheceu uma só melhoria ou progresso na qualidade de vida das gentes, desde os seus passos de menino até ao átrio da sua velhice. Assistiu à exploração dos homens, vendo-os receber por uma jorna diária o equivalente ao preço de um pão e um quarto de litro de azeite, à elevação dos latifundiários a caudilhos feudalistas que dispunham das autoridades locais para satisfazer as suas quimeras de justiça. Viu as crianças, que havia baptizado, usadas no cativeiro dos campos, quando ainda lhes tremia a mão para assinarem o nome. E tomou uma consciência dorida da sua inutilidade, porquanto nem as suas rezas haviam mudado o mundo nem as suas palavras retraídas, errantes de pacificação, acrescentaram harmonia social à aldeia.” (p. 16)

“(...)

Quando o velho Diogo Mendonça de Oliveira foi encontrado morto, sentado numa cadeira, junta à mesa de dominó, ainda lhe corriam as lágrimas pelo rosto. Foi um assombro sem precedentes, porque passadas vinte e quatro horas, após a sua morte, ainda as lágrimas lhe corriam pelo rosto abaixo e foi necessário que uma empregada estivesse junto dele para lhe limpar, amiúde, o rosto molhado. O padre Lourenço mandou um telegrama ao bispo, para lhe pedir indicações sobre os procedimentos a tomar neste caso, pois havia quem julgasse tratar-se de um milagre (...) Havia mais que atribuiam o fluxo das lágrimas a uma outra vertente divina, que estava relavionada com o alcance de Deus em pôr em evidência aqueles que não morrem em arrependimento pela crueldade dos seus actos em vida. Estava pagando pela ruindade com que tratara os empregados e os desfavorecidos. (...)” (p. 111)

 

Sinopse

«Estava calcinando ideias, quando se assomou ao quintal e viu um menino humilde, descalço e dourado dos beijos do sol. Era Florival, um menino fermentado à pressa, gerado num homem de atitude e compreensão bastas, mas que não disfarçava, nos seus olhos verdes e límpidos, a puerilidade de dez anos inacabados. Tinha uma tez de sírio, as mãos longas e os braços como dois ramos secos. As pernas, corredoras de gazela, treinadas na azáfama da mansidão do gado, davam-lhe um semblante de louva-a-deus, quando corria, e trinavam como cordas de guitarra. Ele que nunca fora menino, descobriu primeiro, com mestria de ancião, o nome da rural ciência, do que a grafia escolar».

 

Pé de Página, 2007

Mal Nascer, de Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 25.05.14

Mal Nascer

Santiago Barcelos, médico por sorte ou fado do destino, regressa à terra que o viu "mal nascer". Quais serão as motivações que o levam a regressar a esta terra, a esconder a verdadeira identidade e a fingir-se amigo dos que tanto mal lhe fizeram?

Este é um romance escrito a dois tempos e se por um lado acompanhamos um homem de sucesso por outro conhecemos a vida do menino que foi um dia. Com uma escrita cuidada mas fluída a vida de Santiago, os seus pensamentos, crenças e pesadelos são-nos expostos e o presente alterna com o passado de uma forma interessante.

No inicio do século XIX o Alentejo era quase um país diferente de Lisboa. Mas até por lá se sentia a disputa entre D.Pedro e D. Miguel pelas rédeas deste nosso país. Confesso que adoraria ter visto desenvolvida esta guerra que dividiu o país entre 1828 e 1834. Mas a história que Campaniço nos conta centra-se sobretudo nos sentimentos e nas relações entre as pessoas.

Confesso que foram os capítulos mais negros, da infância de um menino e da sua mãe que mais me interessaram. Não senti qualquer empatia (ou simpatia) com o homem em que Santiago se tornou. Mas sofri com o menino que foi.

Para quem gosta de romance, aqui está uma boa escolha para umas horas de leitura. Para os que, como eu, não são muito fãs de romance, aconselho a que arrisquem a leitura de um outro livro do escritor “Os demónios de Álvaro Cobra”, que será certamente uma das minhas próximas leituras.

Mal Nascer - Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 18.05.14

Mal NascerDepois de “Os Demónios de Álvaro Cobra” as expectativas eram muito altas com o novo romance de Carlos Campaniço. Por ter sido tão positivamente surpreendida pelo livro anterior, por me ter envolvido na narrativa de forma única, por o considerar um livro especial talvez mesmo genial, por tudo isto, não consegui ter a ligação com “Mal Nascer” que tanto desejava.

Gostei da história, gostei da forma como está contada, plena de realismo, com linguagem cuidada e adequada à época, mas senti falta dos rasgos delirantes de criatividade do autor. Campaniço é versátil, o que certamente lhe trará géneros diferentes de leitores, mas, quanto a mim, um livro marca por ser diferente, por me lembrar dele nas mais variadas horas do dia, por chegar a casa com vontade de regressar a esse local maravilhoso que me puxa pela imaginação, me provoca e me faz criar outros mundos.

Em “Mal Nascer” voltamos ao Alentejo com uma história triste e verdadeira, uma história de sofrimento e vingança, e com uma arrebatada história de amor. Bonito, muito bonito, mas com descrições duras sobre o trabalho infantil e as condições de vida da mulher, sempre sujeita à vontade dos homens, sem direito de falar, opinar ou ser. A violência doméstica como uma componente natural do casamento e da vida familiar. Vamos virando os séculos e a sensação que tenho é que as coisas não mudam tanto como deveriam.

Um livro por vezes duro, que poderá impressionar os mais sensíveis, mas que se socorre de uma lindíssima história de amor para acalmar (ou acicatar) os mais apaixonados.

Gostava de me ter envolvido de outra forma, se calhar histórias de amor arrebatado não são para mim.

Sinopse

“Santiago Barcelos - nascido Bento - regressa como médico à vila que deixou ainda menino. Não vem, porém, ao aconchego dos velhos rostos conhecidos. Na verdade, foge dos miguelistas que o perseguiam em Lisboa, escapa-se à teimosia da mulher do padrinho que o queria como amante e conta vingar-se de Albano Chagas, o homem que lhe arruinou a infância tomando-o como cúmplice na morte do seu primogénito. Os planos acabam, contudo, por gorar-se quando se apercebe de que não há vivalma que o reconheça e de que toda a vila subitamente o venera e se quer chegada ao seu convívio. Até a mulher de Albano Chagas acaba por pôr uma afilhada a ajudá-lo no consultório e a mão da própria filha à disposição.Decidindo então adiar a revelação da sua identidade, o jovem médico terá mais tempo para chorar os seus mortos, tratar dos doentes e ajustar contas com os vivos; mas nem por isso cessará de se enredar em complicadas teias, não escapando a uma paixão proibida e avassaladora.Alternando as memórias da infância com o presente agitado do protagonista, Mal Nascer é um romance magistral que combina uma história aliciante com um esmero de linguagem invulgar. Guardando surpresas até à última linha, a obra foi finalista do Prémio LeYa em 2013.”

Casa das Letras, 2014

Os Demónios de Álvaro Cobra - Carlos Campaniço

Roda Dos Livros, 14.05.14

osdemoniosdealvarocobraQuem me conhece sabe que, hesito e pondero antes de ler obras de autores portugueses, mesmo quando são muito recomendados. A minha preocupação é que a narrativa seja muito descritiva ou analítica e que me faça sentir apenas tédio. Não foi o que aconteceu e foi uma grata surpresa. Tão grande, que não cabia em mim o espanto.

Uma estória de realismo mágico contada em bom ritmo, que me recordou os contos de tradição oral que tanto me encantam. A vivacidade e espiritualidade de certas expressões que são intemporais e que definem a nossa identidade surgem com frequência nesta narrativa bem estruturada, que exorbita e caricatura circunstâncias ou personagens em tantas peripécias.

Sendo eu de um meio pequeno em que todos se conhecem e todos sabem de tudo e sobre todos, é muito divertido o impacto que a aldeia alentejana - Medinas, tem nesta estória. É como se de outra personagem se tratasse, e condicionasse a ação das outras personagens. Efeito punitivo ou moralizador e nestes moldes também entram cristãos e judeus e a relação entre eles nos finais do Sec.XIX. 

Empatia por personagens exacerbadas com os seus defeitos e qualidades, as suas alegrias e tristezas, em existências marcadas por dificuldades e dureza.

"(...) - Uma família insólita: o marido com suas singularidades inusitadas e suas coleiras de epítetos; a bisavó quem sabe, a mulher mais velha do mundo; a cunhada, doente com febre toda uma vida; e a sogra com duas mãos desiguais. Chegou a parecer-lhe que aquela casa era um abrigo de gente saída dos contos populares dos nómadas. Não obstante, no rosto da aldeia, as gentes eram iguais ás demais encontradas nas vilas e aldeias e nos caminhos de terra batida daquele imenso Sul." (pag. 57)

Indubitavelmente, um prazer de ler. 

Sinopse:

A aldeia de Medinas seria um lugar bem mais aprazível não fosse contar-se entre os seus habitantes Álvaro Cobra, um lavrador que atrai fenómenos sobrenaturais e tão depressa é tido por bruxo como por santo: não chorou ao nascer, com um mês já tinha dois dentes, consegue ouvir a Terra girar sobre si própria, tem uma cadela que adivinha o tempo e, além disso, já morreu duas vezes - mas ressuscitou, e desde então um bando de grifos faz ninho no seu telhado. A sua estranheza impediu-o, porém, de arranjar mulher, mas o encontro com a filha de um nómada que vende torrão doce na Feira de Setembro promete mudar esse estado de coisas, ainda que a união traga surpresas (nem sempre agradáveis) quer ao próprio lavrador, quer às mulheres da sua família: a bisavó Lourença, que conta cento e cinquenta anos mas guarda invejável lucidez; a mãe, que consegue trabalhar a terra com uma mão e cozinhar com a outra; ou mesmo Branca Mariana, a irmã excessivamente febril que vive prostrada numa cama onde os lençóis chegam a pegar fogo. Do casamento atribulado, nascerá Vicente, o filho de quem se espera uma existência completamente distinta da do pai. Porém, tratando-se de um Cobra, nunca fiando…
Ao ficcionar uma aldeia alentejana em finais do século XIX - na qual judeus, árabes e cristãos andam às turras e os mitos ganham terreno à realidade -, Carlos Campaniço oferece-nos uma galeria de personagens inesquecíveis, que vão de um anarquista à dona de um bordel ambulante, e recicla de forma original o realismo mágico para revisitar as virtudes e os defeitos das pequenas comunidades rurais do nosso Portugal.